domingo, 11 de setembro de 2022

Alma Welt A HERANÇA: O Sangue da Terra - Romance (A trilogia completa)

 

 

                        

 

            PREFÁCIO

Por Guilherme de Faria

 

Estamos diante do primeiro romance de Alma Welt, e ele me parece grandioso. Um romance autobiográfico. Uma saga de família. Passado nos pampas de sua terra natal, este livro merece o nome de romance como poucos. Um romance... romântico, na grande tradição da literatura romanesca.

Última grande lírica do século XX, como costumo chamá-la, a poetisa Alma Welt, aborda a sua narrativa com o lirismo que lhe é característico, freqüentemente rasgado como um canto, poesia em prosa em vários momentos, musical como uma rapsódia, noutros como uma sinfonia. Ouvimos a música que ela quer nos oferecer, fazer-nos ouvir. Como o rumor do vento minuano, como o ranger das portas e paredes que giram. Sentimos o mistério e a beleza de sua terra, de sua casa, de suas origens. Comovemo-nos com o seu amor à sua terra, ao Pampa que se estende como o mundo em torno da sua casa e por onde ela galopa acompanhada por sua Aline, como duas “centauresas”, nuas e graciosas. Poucas vezes vi momentos tão belos num romance como nesses parágrafos. Alma Welt não se peja de ser romântica, porque se sabe herdeira de uma grande tradição de seu sangue germânico. Ela nos conduz como Hoffmann pelos corredores de sua casa, pelos subterrâneos das adegas misteriosas. Como Goethe, faz-nos passear nos jardins em torno da casa, em idílio com aquela outra bela mulher, Aline, coroadas de flores. As crianças, como abelhas esvoaçam em torno de nós, buliçosas, e adoráveis. Mergulhamos nesse universo “weltiano” com um prazer raro, acompanhando os vôos, as divagações, os devaneios e as memórias reais da personagem-autora. Ou da autora-protagonista. Ela nos seduz com seu universo pela ótica da beleza com que enxerga o seu cotidiano que não nos é estranho porque verdadeiro, sutil, humano, sem rebuscamento, sem artificialismos. Alma Welt não quer ser fina. Ela o é pela altitude do seu pensamento claro, pela pureza evidente do seu coração romântico. Ela ama com paixão. E com erotismo explícito ao mesmo tempo elevado, pela estética superior com que o descreve naturalmente, sem segundas intenções. Ela esbarra no sexo como nós, na vida, e não se desvia. Ela o encara com volúpia. Ela ama o amor e o sexo e nos convida a participar de sua intimidade encantadora com uma liberdade cativante que nos alicia. Como uma heroína moderna da liberdade e do prazer do sexo fruído com dignidade e com a pitada de mistério que o sexo sempre esconde com aquelas pequenas perversões atraentes de que ela nos faz ver a beleza, nos permitindo, portanto, reconhecê-las em nós mesmos. Essa é a sua delicadeza: amar tanto o ser humano, que a sua aceitação por ele é plena, quase total. Somente a maldade ela recusa, ela denuncia como algo fora do humano que se intromete e choca nesta vida. Herdeira do idealismo alemão, comove-nos a sua visão humanista em alto grau, que dignifica o homem pela sua aposta incondicional em sua pureza original, em sua beleza herdada dos deuses, senão de Deus.

Além disso ela nos emociona ainda com uma qualidade rara, a candura de que ela não abre mão, mesmo em sua lucidez crítica. Como pôde, então, esta pequena Eva, manter a sua pureza tendo mordido a maçã da razão sem se ver compelida a cobrir sequer com a mão o seu sexo? É isso o que mais me impressiona em seu texto. O orgulho com que se expõe como uma ninfa, freqüentemente como uma menina travessa cheia de deliciosa malícia inocente. Alma ama certa ambigüidade, certos paradoxos, elegante que ela também é. Deve gostar portanto de Oscar Wilde, que ela não reflete tanto no estilo mas no espírito de certas atitudes. Mas não há dandismo nela. Ela é simples, nunca rebuscada. Nunca art-nouveau a não ser pela sua vertente simbolista menos formal. Lembra mais Emily Brönte, das charnecas do que o inglês dos salões e dos cassinos. Ama Turner em suas pradarias, mais que o impressionismo que é seu descendente. Ouvimos Schumann, mas sobretudo Schubert em suas orquestrações de palavras evocativas de belas paisagens. Alma Welt nos embevece. Finalmente resta apenas evocar o tributo que ela faz, consciente ou não, ao grande autor de “O Tempo e o Vento”, nosso Érico Veríssimo, que ela não pode negar como autora gaúcha. Preparem-se  pois para penetrar no coração dessa terra fabulosa, o Pampa, numa estância, um casarão um tanto assombrado, batido pelo minuano, carregado de memórias heróicas e trágicas de batalhas revolucionárias, e onde julgamos avistar a sombra de Anita Garibaldi projetada num relance nas brancas paredes fantasmagóricas.

 

São Paulo, 12/08/2004

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Prefácio por GUILHERME DE FARIA.............................................3

Primeira Parte

A Herança em perigo..........................................................................7

Segunda Parte

A Ara dos Pampas............................................................................31

Terceira Parte

O Sangue da Terra............................................................................64

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Epígrafe

 

"Espremo os tubos sobre a paleta

lanço estes versos no papel

e as tintas e as palavras me remetem

à nossa estância

que ainda está ali

como um fantasma

navegando

na amplidão do Pampa

 

Como uma nave

o casarão batido pelo minuano

recusa-se a afundar."

 

( Versos finais do poema Pampa, de Alma Welt )

 

 

 

Capítulo Primeiro

 

A Herança em perigo

Rôdo, meu irmão, quer vender a nossa estância. Não posso suportar sequer a idéia disso acontecer. Faço as malas apressadamente, sem esquecer, no entanto, de jogar por cima das roupas meus cadernos de poesia e de anotações.

Durante a viagem de ônibus percebi-me em estado de grande ansiedade e fiz, então, um esforço para sintonizar-me naquele presente, mesmo sendo ele de transição com a paisagem correndo veloz através das janelas. Depois de um dia inteiro e de duas baldeações chego afinal à estaçãozinha para pegar o trem antigo que corta as nossas terras em pleno pampa. Meu amado Pampa, eterno, imutável.

Quando afinal a charrete vem me buscar na pequena estação eu já estou retornada à minha infância e primeira juventude. Comovida e tensa cumprimento nosso caseiro, Galdério, cujas rugas emergem agora de um imenso bigode grisalho, e cujas bombachas me remetem ao meu universo verdadeiro. Estou em casa.

No caminho, embalada pelas coxilhas e pela voz cantadíssima do nosso caseiro percebo-me numa espécie de sonho em que, ao fundo, escuto os ruídos e a música do fandango e a canção da Nau Catarineta que ouvia na infância como um anti-acalanto, se posso dizer assim, que me tirava da cama e me fazia correr para a balaustrada para observar a festa dos adultos, acompanhar aquela estória maravilhosa da nau quase maldita, que encontra a sua redenção pela fé inabalável do seu capitão.

Agora, a nau que se encontra em perigo é o nosso próprio casarão, que parece navegar imóvel no plano astral do Pampa, batido pelo minuano na estação fria.

Mas estamos em pleno verão. E os dias estariam maravilhosos se essa ameaça não pairasse por dentro em minha alma. Nossa estância em perigo, nossa casa prestes a se perder. O que está acontecendo com Rôdo? Como pode o meu irmão trair-me assim? Não foi ele auto-designado como o fiel guardião do espólio do nosso pai? Da nossa herança sagrada, das nossas raízes mesmo?

Anseio encontrar-me imediatamente com ele e temo chegar gritando como uma fúria, o que definitivamente não faz o meu gênero.

Ao avistar Rôdo, entretanto, na varanda, de pé com as suas bombachas e os cabelos pretos revoltos, majestoso em sua beleza jovem, meu coração se abranda, se aquece, e eu me distendo. Corro a abraçá-lo. Ele me aperta contra o seu coração e eu me remeto novamente à nossa infância, quando nossos abraços eram mais freqüentes que o normal. Seu cheiro, seu perfume, a maciez dos cabelos pretos de Rôdo, meu primeiro amor na verdade...

Mas logo me desprendo, afasto-me à distância dos braços e olho-o nos olhos, fuzilando-o.

- Rôdo, que se passa? Como pode pensar nisso? Vender a nossa estância... Prefiro a morte, fica tu sabendo. Queres matar-me? Queres matar-nos a todos?

- Alma, não exagera! Tu és sempre extremada nos teus sentimentos. Vê: não temos saída, é isso ou uma hipoteca, que não pagaremos jamais. Estamos falidos. Essa é que é a verdade. Não consigo tirar mais um tostão da propriedade. Os tempos mudaram. Tu és artista, não sabes nada desse universo do mundo prático, das dívidas imensas que acumulamos desde antes mesmo da morte do Vati. Tu te iludes. Não temos mais saída.

- Mas, Rôdo - quase gritei - Tu prometeste, tu juraste defender a nossa herança, o legado do Vati, a nossa biblioteca, o piano, o jardim, o parreiral, o pomar, nossa macieira, mas acima de tudo esta casa. Ai, Rôdo, eu não posso suportar essa idéia, de perder tudo!...

Caí num imenso pranto. Sentia-me desfalecer. Rôdo amparou-me. Pegou-me então em seus braços, como fazia quando atravessávamos o brejo, e carregou-me como a uma criança para depositar-me no sofá da sala. Abandonei-me por um momento como se isso fosse abrandá-lo, demovê-lo do seu intento que eu sentia poderoso, já que a idéia da venda estava instalada dentro dele havia muito tempo, eu percebia.

Fiquei soluçando até adormecer exausta, num torpor de dor e cansaço acumulados da viagem e do medo que me acompanhava.

 

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Acordei com o rosto do meu irmão muito próximo do meu, com seus olhos pousados sobre os meus lábios. Teria ele beijado a minha boca em meu sono? Ai, Rôdo, é tarde...

Passei-lhe a mão nos belos cabelos negros sedosos, levemente ondulados como se o pampeiro os agitasse sempre. Meu irmão, meu irmãozinho... Preciso falar-lhe, convencê-lo. Deve haver uma saída. Não me considero uma pessoa apegada a bens materiais. Mas, a estância? É nossa herança espiritual... materializada. Não, não é possível, será minha morte, a nossa morte. Estarei condenada para sempre àqueles Jardins vazios, de São Paulo, onde no máximo posso ter o meu ateliê com conforto, cercada de galerias de arte, somente para prover a minha subsistência, para continuar criando a partir do manancial interno desta herança, deste solo, onde estão fincadas minhas raízes. Não, Rôdo, eu não permitirei. Lutarei contra tudo e até mesmo contra ti se me traíres, se nos traíres.

Levanto-me e peço a Galdério para selar uma égua. Saio galopando por esta amplidão da campina infinita. Galopo muito tempo acompanhada ao longe pelo olhar de meu irmão que me vigia como outrora quando esta galopada era feliz. Ai, que posso fazer, senão galopar? Como lutar? Quê sei eu da vida, dos papéis, das dívidas? Desse mundo sórdido e triste das realidades comezinhas do mundo prático, real? Sou uma artista, sou poeta, ai de mim! Sou então tão vulnerável? Eu não sabia que podia ser assim atingida no meu cerne, onde brotam as minhas forças criativas, no meu coração, na minha alma. Vão me matar! Vão me matar se isto tudo se perder... Esta casa, estes livros, o Steinway do Vati com sua música que ainda ressoa. Minhas memórias sobreviverão? Sem seu lastro ouro, não se desvalorizarão? Eu sei, esta pergunta contradiz a essência da memória, sua permanência em espiritualidade. Mas... a matéria, então, não é nada? Porque existe então? E é tão bela! Tanto quanto o espírito, não menos. Essa é a verdade. Como artista, eu amo a matéria tanto quanto a alma que nela se instala. Por isso a descrevo, a pinto,  a enraízo nas telas e nos versos. Descrevo a beleza amada, de tudo, a minha própria beleza. Quero fixá-la. Quero-a eterna. Quero crer na ressurreição da carne, com Deus ou entre os deuses do Olimpo, não sei mais! Entre os deuses do Pampa!

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Ao jantar na grande mesa, Rôdo numa cabeceira eu na outra, percebo que estamos nas posições de nosso pai e mãe em suas cadeiras, com a mesma imensa distância que os separava. Matilde nossa cozinheira manda sua sobrinha nos servir. Matilde está muito calada depois de chorarmos muito, abraçadas. Agora parece uma sombra e não tem coragem de aproximar-se dessa mesa vazia, com seus guris (como ela diz) sentados assim, separados pela própria mesa vazia, vazia, para sempre.

Onde estarão Lúcia e Solange, nossas irmãs, tão omissas? Já aceitaram prontamente a perda da nossa estância. Aliás, Solange pelo menos ansiava por isso, cheia de rancor e cobiçosa dos despojos do nosso patrimônio, como uma harpia. Logo chegarão, disse Rodolfo. Logo estará aqui, insuflando a venda, reivindicando, disputando. Ai! não vou suportar. Eu lutarei, não vou permitir que espoliem tudo. Não levarão um livro, um disco! Não ousem cobiçar o piano! Nada deve sair daqui, agora vejo.

Sim, eu mesma jamais me imaginaria defendendo com unhas e dentes estas coisas. Mas eu sei que o Vati me quer assim! Sei que ele era apegado aos seus livros, ao seu piano, aos seus quadros, mais que às nossas terras mesmo! São a sua herança espiritual. Os símbolos do seu amor pela cultura de todos os povos. Pela arte universal, pela música dos Mestres. Ai! Não posso deixar isso se dispersar. A essência de uma coleção é a personalidade, o espírito do colecionador que assim se plasma. Uma coleção dispersa é a traição de uma vida, um ato de canibalismo, de mutilação, de depredação. Uma alma estraçalhada, como um corpo!

Vati, Vati, eu te defenderei! Mas como? Como? Que posso fazer?

 

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Chegam Lúcia e Geraldo, com meus sobrinhos, os gêmeos, Christian e Hans. Depois Solange e Alberto. Patrícia, quase uma moça, corre a abraçar-me, depois Pedro, menino lindo, quieto, sensível. Como puderam estas crianças maravilhosas sair dos ventres desse casal, é o que pergunto, na verdade, pois os pais já chegam brigando, disputando a carniça. Solange abraça-me contudo, com aparente emoção. Talvez ela goste de mim um pouco à sua maneira. Talvez por dever de irmã. Ela é assim, e logo começa a queixar-se do beberrão do marido, que já está por ali procurando alguma coisa para beber. Nosso vinho, é claro, nossa adega ainda está ali, tínhamos nos esquecido dela, desde a morte do Vati. Mas Alberto não. Volta com uma garrafa meio empoeirada, olhando com satisfação o rótulo desenhado por mim. Distribuindo as taças faz um brinde rápido e cínico à nossa estância. Ao dinheiro em que esperava meter a mão, na verdade. Ai, como tudo isso é patético e doloroso... Afasto-me com Patrícia, de mãos dadas. Esta mocinha quer abrir o seu coraçãozinho comigo, estou vendo. Está amando (só podia ser) e a mãe, naturalmente, a vigia, proibindo-a de ser aproximar do guri. Tudo tão previsível! Mas, a verdade é que meu espírito já não está sereno, centrado, ali. Estou perturbada pela ameaça que paira sobre a minha casa. Será que os meus irmãos podem viver assim desraigados do nosso chão tão facilmente? E Rôdo? A estância parecia vital para ele tanto quanto para mim. E foi ele que lutou por ela por ocasião da partilha do espólio. Afinal, todos permanecemos juntos na posse, por minha influência. Se Rôdo a tivesse obtido, por acordo, na divisão dos bens, já não teríamos nada, agora vejo. Já estaria tudo perdido. Meu irmão revelou-se um estróina. Seu carro esporte, sua Ferrari, o revela.

 

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Sento-me sob a minha macieira e ponho-me a devanear. Começam a vir ao meu espírito imagens longínquas, de um outro tempo que não o meu, mas que está nas minhas raízes, talvez tão fundas quanto as desta árvore que contém meu coração não só gravado em sua casca, mas no seu cerne.

Transportam-me imagens rurais de uma Morávia alemã, sim, dos Sudetos, bem antes da segunda Grande Guerra. Meus avós, agricultores alemães, voltando para o seu chalé, em estilo bávaro, mas humilde. Trazem enxadas nas costas e percebo-lhes as grossas mãos calosas. O lenço cobrindo a cabeça de minha avó de aspecto rude, a cara rubicunda, donde emergem olhinhos azuis no meio da gordura avermelhada do rosto redondo. Meu avô, altíssimo, magro, de enormes mãos ossudas segurando um cachimbo que o acompanha até o trabalho no campo. Seus olhos azuis esverdeados parecem obtusos mas ao mesmo tempo obstinados. A mesma obstinação que o arrancará dessa terra onde se sente oprimido, como todos os agricultores que queriam-na sentir como alemã, em pleno seio da Boêmia e Morávia. Essa revolta o trará muito antes da guerra para o sul do Brasil, terra prometida de que ouvira falar, mas ainda não num Vale do Itajaí, palavra exótica que mal saberiam pronunciar. Aquele nefasto Hitler iria se aproveitar disso como pretexto para invadir a Polônia e Tchecoslováquia e destruí-las. Sua luta, sua campanha de ascendência ao poder já insistia nesse tema duvidoso.

Meus avós, eu os acompanho em meu retrospecto sonâmbulo ali sob aquela árvore ancestral cujos primeiros galhos correspondem a este casal de camponeses rudes, corajosos afinal, que iriam primeiramente parar na região de Blumenau, em Santa Catarina, numa colônia alemã, não tão distante de uma outra, açoriana, onde nasceria a jovem Ana Morgado, amada ardentemente desde a infância pelo meu pai, o jovem Werner Friedrich, sonhador, que queria estudar, sair dessa vida agrícola, ser músico ou médico e resgatar a linda açoriana, como ele dizia, daquele universo para ele restrito e carregá-la consigo para o mundo, tão mais vasto. Sonhava voltar à Europa, ele que havia nascido ali naquele vale ideal, de algum modo brasileiro, alemão, português, italiano. Namoro rural típico, não fora o espírito predestinado ao cosmopolitismo do jovem Werner, cuja rebeldia foi tolerada pelos rudes alemães porque revelava o herdeiro de uma tradição mais ampla que incluía a música de Bach, Mozart e Beethoven. E a sabedoria de Goethe e Nietzsche que ele descobrira praticamente sozinho na biblioteca do pastor da igreja Luterana daquele vale.

Agrada-me pensar que o embrião desta Alma aqui, já estava naquele vale... e naquele sonho do jovem casal de namorados meio clandestinos. Sim, porque não foi fácil esta união, e incorreu numa fuga pois as duas colônias não se bicavam, e as famílias, tão diferentes à parte as raízes rurais, que isso sim, era o único ponto comum. Ana, pequena católica, igrejeira, devota da virgem da qual carregava a imagem numa medalha ao pescoço, como pôde ela apaixonar-se pelo jovem teuto-brasileiro? Na verdade mais alemão que qualquer um, no seu universalismo cultural que prenunciava uma erudição que havia de se tornar espantosa. Como pode ele apaixonar-se pela “portuguesinha” ingênua mas ao mesmo tempo austera e dura, cuja religiosidade ainda continha tanto fetichismo, com tantas imagens veneradas... e tantas restrições morais, que na verdade eram o único ponto de encontro das duas culturas?

Mas meu pai, este era libertário, de larga visão... e aventureiro. Haveria de raptar a “rapariga”, filha dileta dos Açores, de pele muito branca e cabelos negros que reapareceriam apenas no meu irmão Rudolf, o mais belo de todos, a meu ver. Mas antes de mim viriam Solange e Lúcia, nomes caros aos brasileiros.

Quantas aventuras, na verdade, antecederam este estágio! O jovem Werner conseguira dos velhos ser mandado à Alemanha para estudar. Aquela Alemanha da ascensão do futuro Führer, que, graças a Deus, produziu imediata aversão no jovem esclarecido.

Mas este jovem obstinado concentrou-se nos estudos, apesar da conturbação social da ascensão irresistível daquele tirano cujos berros ecoariam até aquele vale ideal, lá no Brasil, e fariam meus avós colocarem braçadeiras para desfilar em honra do fanático que prometia libertar os Sudetos da Checoslováquia, tanto quanto anexar a Áustria. Meu pai não veria essa cena deprimente, do meu avô com aquela braçadeira da suástica e o braço direito estendido, gritando “Heil!” enquanto marchavam pelas ruas de Blumenau, tolerados até com certa condescendência pelo resto da população, num momento político sob a égide de Getúlio que até então não disfarçava sua simpatia pelo colega do III Reich. Foi preciso a guerra terminar e os segredos escabrosos do nazismo virem à tona, para meu avô reconsiderar suas posições e renegar aquela ideologia. Pelo menos o fez. E botou uma pedra sobre o assunto, como, ao que parece, todo o povo alemão.

Daqueles anos, eu soube muito mais tarde os passos do meu pai, pelas cartas à minha mãe que descobri nos seus guardados. Cartas e cartões postais apaixonados, românticos, com linguagem cada vez mais elaborada denunciando uma cultura crescente que sem saber o distanciaria da pobre rapariga açoriana mais afeita a um banco de jardim de praça, singelo, diante de uma igrejinha de aldeia como a que escolheu para se casarem, ao seu retorno.

O jovem alto de louros cabelos e olhar azul brilhante voltaria com uma bagagem insólita: uma biblioteca imensa, que ele parecia ter digerido perfeitamente tal a extensão do seu saber e as bases de uma erudição que ele iria fazer crescer cada vez mais ao longo de sua vida. E o piano? Um Steinway negro maravilhoso que trouxera de navio e que ele dedilhava com técnica apurada, aprendida sabe-se lá onde e como, com que tempo? Como pôde ele acumular tanto saber e ainda tocar daquela maneira romântica tendo se formado em Medicina e se tornado mesmo um cirurgião (atividade que, na verdade, ele quase não exerceu)?

O que mais me impressionaria em minha infância seria o seu ouvido musical absoluto e o seu conhecimento das obras do Romantismo, inclusive o mundo da ópera alemã, francesa e italiana. Sim, meu pai era um romântico e passaria essa tendência inata para mim, sua filha predileta. Mas antes, muita coisa aconteceria naquele seu retorno, às vésperas da conflagração que mudaria o mundo.

 

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Interrompem esse meu mergulho retrospectivo as vozes adoráveis dos meus sobrinhos que se aproximam correndo e brincando. Pré- adolescentes especialmente belos, mantêm uma agradável harmonia entre eles. É lindo observar a doçura das relações entre Patrícia e Pedrinho, sua cumplicidade fruto talvez da necessidade de se unirem num lar conturbado por um pai alcoólatra e uma mãe excessivamente controladora. Posso imaginar os conflitos e cenas, das quais já presenciei algumas, com que essas crianças são obrigadas a conviver. Quanto aos gêmeos, Christian e Hans, são dois doces enigmas. Só falta falarem em uníssono como aquelas gêmeas do filme de Bergman, “Morangos Silvestres”. Junto-me a eles, que me cercam oferecendo-me frutas e sorrisos lindos. Andamos juntos, entrando por aquele pomar, e eu me entrego ao imenso prazer daquele momento, até o instante em que me lembro da ameaça que paira sobre tudo isso. A perda iminente deste paraíso, desses momentos que eu queria eternizados por gerações. Saio correndo subitamente, chorando, em direção ao casarão, para espanto das crianças. Eu precisava ver Rôdo, insistir com ele, demovê-lo do seu intento de algum modo.

Encontro na sala o estrupício do Alberto com mais uma garrafa na mão procurando uma taça. Logo estará bebendo no gargalo, sujo ou não. Solange, que aparece logo com seu ar irritado como sempre, olha meu rosto molhado de lágrimas e abre ligeiramente os braços, para deixá-los cair sobre as largas ancas, num gesto de “paciência”.

—Aí estás novamente a debulhar-te em lágrimas. Viraste agora uma chorona, Alma? Não eras assim... Que queres? Não aceitas a realidade, não é? Nunca a aceitaste, não é mesmo? Tu e o Vati, dois sonhadores. Nunca souberam que as famílias precisam de dinheiro, dinheiro, estás ouvindo? Não se criam crianças só com livros e música, sabias? Não, não sabes. (e blá, blá, blá...)

Saio correndo daquela sala, e vou bater na porta do quarto de Rôdo. Não o encontro. Vou à biblioteca e ali está ele limpando uma arma, uma carabina de caça que meu pai nunca tocava e que mantinha apenas como recordação de meu avô. Causou-me imediata repulsa ver aquela arma naquele momento. Por quê não o encontrei com um livro aberto? Um dos muitos livros ilustrados do Vati, tão caros à nossa infância?

— Rôdo, preciso que me ouças. Larga essa arma e raciocina comigo: deve haver uma saída. Em quanto monta a dívida da estância? Por quê não vendes tua Ferrari? Para quê precisas de um carro assim tão caro? Não é a estância mais importante para ti, para nós dois, pelo menos? E as crianças, Rôdo? Não vês que elas não podem ser privadas destes jardins, deste pomar, disto tudo? O Pampa, Rôdo, o Pampa!

Caí em lágrimas, sacudindo-o pela gola da camisa. Abracei-o fortemente e ele me apertou fundo contra o seu peito antes de rechaçar-me, exasperado.

— Alma, pára com isso. Estás tornando tudo mais difícil. Não és tu que sempre falaste em desapego? E a tua filosofia? E o Tao? São só balelas? Palavras? Veja, Alma, isto também é destino. Chegou ao fim a nossa estância, esta casa, a nossa infância. Então não vês, Alma? Acabou!

—Não, não, Rôdo! Não tente me confundir. Eu sei, eu sei que não acabou. Sinto o Vati pairar sobre esta casa, e a música que emanava dos seus dedos ao piano acorda-me à noite. Ele está aqui e nos quer juntos, pelo menos a nós dois, sob este teto, nesta biblioteca, relendo estes livros... ou venerando-os simplesmente. Seu piano, Rôdo, o Steinway... não podemos, Rôdo, ele ainda está vivo!

Rôdo olhava-me desolado agora com lágrimas nos olhos, e abraçou-me novamente, soluçando os dois. Rôdo também desabara, sua força era fictícia. Eu sabia.

 

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Ao jantar, todos à mesa, nossa grande mesa, cujas cabeceiras eram agora ocupadas por Rôdo e Solange, já que esta jamais me deixaria ocupar esse lugar, Alberto, inoportunamente fez questão de fazer um brinde com mais uma garrafa da nossa adega. Tudo era pretexto para o beberrão não importando a falta de verdadeira alegria neste encontro de família em que as próprias crianças estavam mais caladas como que pressentindo algo, o fim iminente daquelas reuniões. Suas anteninhas já captavam o desastre, a dispersão, o fim do sonho. Eu sabia o quanto o casarão e a estância eram importantes para eles, eram uma espécie de porto seguro ancorado na terra ancestral. Viviam na cidade, mas sempre estavam aqui a cada ano nas férias escolares, e aqui cresciam, espichavam, a cada temporada maravilhosa. Seus olhinhos procuravam os meus buscando segurança instintivamente. Eu percebia que eu era para eles a referência de estabilidade desta estância, apesar de tudo, apesar de ser somente uma artista. Mas o meu amor e minha alegria eram o termômetro da continuidade daquela casa dos avós, de suas raízes. Solange, eu percebia, se irritava com isso, uma vez que lhe parecia que cabia a ela esse papel como a mais velha. Mas, como esta mulher árida, sem verdadeiro amor, segundo me parecia, poderia ocupar o lugar do Vati? Ele era puro amor e complacência aliados a uma força e sabedoria raras. Ele era o verdadeiro espírito desta estância que meus avós compraram na plena decadência de uma velha estirpe de estancieiros gaúchos autênticos, mas tão antigos neste Pampa que caíram de podres.

Quando meus avós, agricultores que prosperaram tanto por puro esforço e disciplina germânicos, compraram esta fazenda, talvez a situação fosse análoga à deste momento. Deve ter havido ali uma Alma pampiana e... um Rôdo. Também uma Solange dura e seca. E crianças que perderam tudo. Imagino a carga de dor e ressentimento na mudança de mãos desta propriedade cuja estabilidade dependia de enorme dedicação e amor. Talvez a propriedade, em si, tivesse um espírito que nos condicionava, que nos direcionava, e que não perdoava a nossa própria decadência... e nos expulsava por fim. Mas, não! Não me resignei ainda! Não estou pronta, eu pensava, naquela mesa, naquele jantar triste na verdade, em que o brinde de um beberrão soava estranhamente inoportuno, e no qual ninguém estava interessado. Entretanto, ao tocar a taça após o brinde, meus lábios sentiram primeiro o gosto da terra maravilhosa deste pampa, o cheiro frio do minuano, o aroma do charque, do mate na cuia, e das videiras sem fim. Então percebi a excelência daquele vinho no qual eu antes não reparava. E pareceu-me um sabor celestial que apontava de algum modo o caminho, numa linguagem ou código que eu não pude, então, decifrar.

 

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Passeio com Rôdo à noite após o jantar no nosso jardim coruscante de pirilampos. Patrícia e as crianças, encantadas, correm atrás das luzinhas tentando apanhá-las. Esta cena se gravaria em mim para sempre, eu sabia, mas não acreditava que seria a última imagem noturna daquele jardim maravilhoso de minha infância extensivamente alargada por aquelas crianças lindas. Rôdo e eu em nossa meninice tínhamos feito tanto isso! Ele colocava centenas de pirilampos num vidro de compota ou mesmo numa garrafa vazia de vinho para brilhar na noite, concentrados, enquanto eu protestava, até tomar-lhe a garrafa para libertar os bichinhos. Rôdo, na verdade, deixava que eu o fizesse, pois sua índole era amorosa, pelo menos comigo. Ele então me cobrava em troca apenas beijos nos lábios,  que eu ingenuamente regateava, excitada, meio temerosa. Uma vez ele me fez deitar atrás de uma sebe florida, ali no escuro, e cercados do piscar de mil estrelas no céu e na terra ele me beijou longamente os lábios, desajeitado mas com doçura, enquanto sua mãozinha percorria o meu corpo, apalpando-me. Ali senti pela primeira vez aquelas coisas, quando sua pequena mão cobriu minha concha por baixo da saia. Somente... ele quebrara o encanto levando a seguir os dedos ao nariz e fazendo uma careta. “Cheira a xixi”, ele disse, e eu, perplexa e envergonhada, saíra correndo para dentro da casa.

Agora, ali, com ele, esta cena assomou do fundo da memória e me fez sorrir no escuro, um sorriso que ele não viu. Talvez ele também pensasse naquilo e também sorrisse no escuro lembrando-se do meu cheiro e de como ele então ficara obcecado a partir daquele momento e buscara tantas vezes renovar aquela experiência até o dia amargo em que, denunciados, fomos flagrados por nossa mãe sob a nossa macieira.

Rôdo suspirou fundo, talvez daquele fundo da memória, e disse:

–Alma, não quero, tanto quanto tu, perder isto tudo. Aqui a nossa memória está viva, eu sei... Farei o que você quiser, mas tenha uma idéia, pelo amor de Deus. Venderei a Ferrari, se for necessário, mas advirto-a que a dívida é muito, muito maior do que o que posso obter com essa venda. Pelo menos o dobro. E meu carro já não é novo, tu sabes como eu corro nessas estradas. A quilometragem está altíssima. Tu te lembras como já destruí um Porsche... e quase morri. Poderei viver sem a velocidade? Talvez não... mas eu sei, estamos numa situação limite e há mais pessoas em jogo. As crianças... Mas lembra-te: Solange e os cunhados estão loucos para se desfazerem da casa, da estância, de tudo. Eles odeiam nossas raízes, com exceção de Lucia, com quem acho que podemos contar, os outros são pessoas áridas, sem raízes verdadeiras, a não ser pelos belos filhos que tiveram, surpreendentemente. Então, Alma, pense, pense! Mas tenha uma idéia melhor, porque eu... já não sei o que fazer.

—Rôdo— eu disse—Vou orar, terei uma inspiração, eu sei. Mas vou orar aos deuses do Olimpo e do Pampa, como o Vati me ensinou. Ele queria que a sua guria fosse pagã, e conseguiu. Procurarei nossa macieira, farei um ritual, amanhã à noite. Somente tu deves saber disso. Mantenha todos afastados. Disfarça. Para todos os efeitos estarei trancada no quarto. Tu me conheces, não brinco com certas coisas. Tu verás. Algo deverá acontecer que nos tirará desse impasse.

 

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Preparo-me para o ritual que encasquetei de fazer junto à minha macieira. Recolho disfarçadamente ervas, durante todo o dia. Não me esqueço de acrescentar à minha recolha a erva-mate sagrada dos pampas, e folhas do nosso parreiral. Passo o dia concentrada, tendo entregue a Rôdo a tarefa de despistar a bisbilhotice de Solange e Geraldo, o marido da Lucia. Quanto a Alberto, este está entretido demais com as garrafas, dizimando a nossa adega. Temo somente que ele passe logo a dar vexames chocando as crianças, e Patrícia, aquela flor preciosa que se mantém intocada como um lírio dos pampas ou como um serafim. Como puderam estes guris se preservarem assim, tão puros, com pais como esses? Bem, deixo isso para lá, nada posso fazer a não ser manter meus braços sempre abertos para acolher estas crianças maravilhosas.

Ao anoitecer, esgueiro-me com minhas ervas e outros acessórios para escondê-los no pomar e voltar a tempo para a ceia. Rôdo ficou entretendo as crianças para que não vissem minhas manobras. No jantar Patrícia manifestou a falta que sentiu de mim, ligeiramente magoada. Acarinhei-a muito sob o olhar de esguelha de sua mãe. Seu pai já estava tão bêbado que não se sentou à mesa. Então bebemos água da fonte durante esse jantar. Entretanto, ao tocar a taça com água pura voltei a sentir o sabor surpreendente e delicioso do vinho da noite anterior.

 

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Atravesso o jardim, cujas margaridas, sob o clarão da lua, ostentam um aspecto fosforescente e espectral. Árvores, arbustos e sebes projetam sombras que confundem minha visão e me fazem sentir como num sonho. No pomar de copas prateadas, as sombras no solo, mais compactas, fazem destacar uma área de solo claro em torno da minha macieira, ela toda aparentando um aspecto mágico de prata, coruscante.

Carrego comigo uma banqueta de três pernas, que será a minha trípode improvisada. Instalo-a próxima à macieira frente ao coração gravado nela com as nossas iniciais. Essa é para mim a face da minha árvore. Como o banco é um tanto baixo, trato de mantê-lo sobre pedras empilhadas que o erguem à altura do meu peito. Espero que a ligação da minha trípode com o solo esteja assegurada por estas pedras e não a isolem. E necessário que a ligação entre o céu e a terra esteja perfeita em seu fluir de energias. Assim diz o meu instinto. Sou a Pítia, ou a pitonisa deste templo: o meu pomar. Sou tomado por esse sentimento raro em mim, de intermediação de forças ocultas e esoterismo vago, como um terreno que, na verdade, não conheço. No entanto, um instinto desconhecido em mim, me orienta. Poderes ancestrais, muito antigos, confluem para mim, eu os sinto, vindos de uma antigüidade longínqua. Talvez uma druidisa atue ou uma pitonisa grega, ou mesmo uma fusão desses oráculos, desde as suas vertentes celtas, germânicas e gregas, juntadas em mim nesta noite solene.

O coro dos grilos, sapos e outros cantores noturnos como o bacurau, e mesmo cães ao longe uivando para a lua, preparam o momento de silêncio absoluto que se instalará, eu sei, no momento da invocação mágica.

Sou tomada de um fervor sagrado em relação a forças que pressinto, sem conhecê-las bem. Não são fruto da razão e acho-me já em estado semi-delirante que se instala em mim, misteriosamente, nesta noite propiciatória. Certamente não poderia ser outra noite. Somente esta data esperava por mim, sacerdotisa de um único momento, vestal de virgindade refeita por algumas horas que não se repetirão jamais.

Começo a queimar as ervas que recolhi durante o dia e que escondera ali perto. Principio pela erva-mate dos pampas, invocando enquanto o fumo se eleva os numes pampeiros, inclusive aquele terno e trágico negrinho do pastoreio emerso da memória da minha infância. Invoco o capitão santo da Nau Catarineta e o gaúcho da Salamanca do Jarau; invoco Martim Fierro, ou o seu modelo, um gaucho real, molde de todos os peões gaúchos valentes e telúricos. Prossigo, então, com a queima do fumo da nossa estância, fortíssimo e esquecido. Adiciono, afinal, folhas do nosso parreiral, invocando o eterno Dioniso, que aparece em meu espírito com o rosto de meu pai. Então, neste momento, o pomar parece saturado de presenças. Cada nume traz consigo o seu cortejo de agregados. Dioniso se apresenta com a barba loura de meu pai jovem, coroado de folhas de parreira trazendo na mão a taça de seus vinhos, e com ele o séquito que o acompanha sempre. Eu os vejo, a todos: sátiros, ninfas, e os pequenos faunos buliçosos. Logo este pomar estala numa imensa bacanal sagrada. Encontro-me num estado hiperestésico de confluência de todos os espíritos. Meu cabelo parece arrepiado e sinto a irradiação que exala de mim pelos meus poros, pelos meus dedos, que manipulam as ervas conclamatórias. Todos os deuses, algumas bruxas, feiticeiros e druidas para ali convergem. Vejo o Mago Merlim, do rei Arthur, e a fada Morgana, também Queen Mab em sua casca de noz, seguida de toda a féerie. Deirdre, filha da Irlanda ancestral, a segue, com Fingal e Ossian. Meu pomar saturado, se transforma numa grande “Noite de Walpurgis”, com a presença errante de Fausto acompanhado de seu Mefistófeles; e a de Eros e Psiqué, e Helena de Tróia, “aquela cujo rosto lançou ao mar mil navios”. Vejo Thor e Odim saídos do seu Walhalla, e as Valquírias em cavalgada. Numa espécie de momento Alef, vejo tudo e todos em torno à imensa barba de Leonardo da Vinci neste Sabat universal, antes de desabar, desfalecida, com a minha camisola estraçalhada pelas minhas próprias garras, semi-nua no chão alcatifado de folhas secas e pequenos seres ariscos, espaço prateado por uma lua imensa que me faz levitar na horizontal a um metro do solo.

Rôdo, gritando meu nome, vem correndo, e recolhe-me no ar, estupefato, segundo me contaria depois. Teve de pousar-me sobre as folhas secas forçando-me para baixo. Nunca mais, ele disse, me olharia com os mesmos olhos.

 

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Passei os dois dias seguintes de molho, na cama, exaurida, a ponto de suspeitar que aquilo tudo, deuses e numes, tinham saído de dentro de mim mesma e não da natureza em torno, do meu pomar, da terra e do ar, enfim.

Mas não importa, eu os conclamara... e eles apareceram. Eles se reuniram, vivos, de algum modo. Estavam todos ali, não faltaram ao encontro, o que me deixava a certeza de que não estava só e que não abandonariam esta terra. E eu estaria sempre no meio deles, pois minhas raízes eram sólidas, e de algum modo minha fé era tão poderosa que eu não seria derrotada pelas divindades menores do dinheiro... ou da falta dele.

Minhas irmãs e cunhados atribuíram meu estado a uma depressão compreensível diante da nossa situação financeira. As crianças cercaram-me de carinho, subindo ao leito e entrando à noite sob as minhas cobertas para me abraçar. Percebi o quanto era amada por estas crianças e tive certeza de que estava no caminho certo. Patrícia, a donzelinha, disse-me:

—Tia Alma, estou sabendo que mamãe e papai querem vender a estância. Estou vendo também que tu sofres mais que todos por isso e que estás lutando, de algum modo, para salvá-la. Conte comigo, tia. Farei o que quiseres. Não deixarei também que isso aconteça, sem lutar. Papai só quer saber de beber, eu vejo. Beberá o dinheiro todo que lhe cair nas mãos. Beberá a estância toda, se deixarmos (uma lágrima correu em sua face) — Mas, tia, tu deves dizer-me o que fazer. Eu te obedecerei quaisquer que sejam as tuas instruções. Diga-me, tia Alma, que posso fazer?

—Patrícia, meu amor, tu és a minha guria predileta. Eu sabia que podia contar contigo. Mas não sei como podes ajudar. No momento certo, quando eu descobrir, eu te avisarei, continua atenta e conta-me tudo o que ouvires de estranho. Não queria que fosses uma pequena espiã simplesmente. Mas o tempo é de guerra e temos de tomar nossas posições. Sou-lhe infinitamente grata pelas tuas palavras. És uma guria de ouro.

Ao terceiro dia, recuperadas as forças, abandonei o leito e participei do jantar, quando Alberto aproveitou para abrir mais uma garrafa para fazer-me um brinde. E mais uma vez, o vinho me pareceu delicioso demais. Alberto passou o jantar bebendo sem tocar a comida, muito animado, como se o tempo fosse de festa. E, de um jeito ou de outro nos distraiu de nossas preocupações.

Rôdo, naquela noite, após o jantar, combinou comigo aos cochichos, como criança, encontrar-me no escritório. Ali cheguei, na hora combinada e encontrei-o com a bota sobre a escrivaninha e com a faca gaúcha de prata lavrada, na mão, no seu jogo de cena preferido desde a infância. Fazia o gênero gauchão, com um sorriso na metade da boca. Mas logo compôs-se e disse:

–Alma, não sei o que fizeste, mas tu me assustaste. Como pudeste ficar assim, pairando acima do solo? O que aconteceu? O que aprontaste? És uma louca, quase tenho medo de ti. Que estás tramando?

—Rôdo—disse eu—os detalhes não são de tua conta, apesar de teres chegado numa boa hora para interromper o ritual que não sei realmente como poderia acabar. Só sei que o pacto foi feito, se posso chamar assim. Não estamos sós. Tu vistes as hostes de que estamos acompanhados?

—Alma, nada vi, a não ser o suficiente: tu deitada no ar, teus cabelos quase tocando a terra... e já foi demais. Não quero nunca mais ver isso, sua feiticeira. Tu me assustas. Desde criança que tens teus mistérios, dos quais não posso compartilhar. Não é justo. Mas o que fizeste? Qual o resultado prático, vamos, diz lá!

—Olha, irmão, não te posso contar tudo. Eu mesma custo a acreditar, agora, no que vi. Nada foi dito propriamente, mas as presenças que invoquei e que compareceram trazidas ou não pelas nossas ervas foram o suficiente para saber que não estamos sós e sim acompanhados de entes poderosos que velam por nós e por esta terra, esta casa. Isto me deu confiança, e o resultado por enquanto é só este: confiança. Sei que uma inspiração súbita me virá, deles. É só esperar.

—Bem, Alma, que venha logo essa inspiração. Não temos muito tempo. A pressão econômica, dos nossos credores não dá trégua, tu não fazes idéia... Até agora eu quis poupar-te dos detalhes, já que és uma artista e a quem isto tudo seria mais penoso ainda do que para mim e as irmãs. Nossos cunhados, tu sabes, são dois zeros à esquerda, principalmente Alberto, o rei das garrafas.

Estávamos conversados. Calada, passei a acariciar os seus cabelos que eu adorava desde a infância, e ele aninhou a bela cabeça nos meus seios.

 

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Passeio de manhã entre as flores do nosso jardim, colhendo margaridas, dentes-de-leão, violetas, e fazendo um buquê. Patrícia me acompanha, encantada, e enfeitamos nossos cabelos com as mais miúdas. Como trajamos vestidos brancos, vaporosos, devemos certamente estar lindas. Nossos cunhados nos observam e até Alberto, o entorpecido, se mostra sensível a essa cena. Tenho consciência de que coisas como essa estão no cerne de tudo, dão sentido a esta propriedade rural, cuja meta última é também a beleza. Nada teria significado sem isso, essa é a tradição desta terra gaúcha, no fim das contas: a tradição de beleza, deste pampa e de nossa gente. Tenho a convicção disso, e não me acusem de artista como se isso significasse uma visão parcial, subjetiva. Os gregos sabiam, como na “Ode a uma Urna Grega”, de John Keats: “a verdade é a beleza, a beleza é a verdade. Isto é tudo o que há para saber”.

De dentro da casa vem o som de um prelúdio de Chopin. Uma das “cinco peças fáceis” que Rôdo sabe tocar com delicadeza ímpar embora nunca pense em si mesmo como um artista. O pendor musical herdado do Vati se faz presente nele como em mim. Não sou capaz de tocar assim, somente de dançar, pintar e escrever sob o influxo desta música maravilhosa. Sinto-me, nos últimos dias, cronicamente comovida como se a minha vida estivesse no seu limite, o que pode bem ser verdade. Está na hora de montar o meu cavalo baio, e mesmo com este vestido e estas flores nos cabelos galopar por estas pradarias, pelo pampa infinito. Pois é o que farei, depois de pedir ao Galdério a montaria selada. Solange aparece na varanda tentando deter-me, escandalizada.

—Alma, sua louca! Quando vais parar de te comportares assim? Estavas muito bem colhendo flores com Patrícia. Terás de galopar mais uma vez como quando eras criança? Já cresceste, pára com isso! Podes machucar-te, não vês?

Já estou montada e ouço-lhes os gritos à distância. Disparo pelo prado como se fosse o próprio pampeiro zunindo nas coxilhas. Rôdo montará em seguida e me perseguirá, eu sei, como outrora, como outrora...

 

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Comunico a Rôdo que preciso de uma companhia feminina, de uma amiga, aqui, neste momento, e que penso em convidar Aline, que sempre quis conhecer a nossa estância. Agora é uma boa hora. Estamos separadas mas como amigas, e sei que ela não perderá esta oportunidade, além do fato de que quer estar comigo, eu sei, com um pretexto que aquele Pedro não poderá obstar. Rôdo concorda, claro, ele não precisa saber do timbre desta amizade que não lhe diz respeito. Quanto à Solange, nem penso em lhe dar qualquer satisfação.

Logo passo a telefonar para a casa de Aline até conseguir falar com ela. Digo-lhe que venha, que preciso dela... desesperadamente. Que se trata de um momento delicado, que preciso de seu apoio, de sua confidência, de seus conselhos mesmo. Na verdade, de seu amor. Ela, comovida ao telefone, diz que sim, que virá. Que eu a espere dentro de três dias no máximo.

Enquanto a esperava, pela minha ansiedade e exaltação, escrevi esta carta desvairada, como se já não nos tivéssemos falado ao telefone:

 

"Estás a caminho, Aline, eu já te vejo voltando. Recebeste minha carta e respondeste com um lacônico bilhete, mas tão sugestivo que foi o suficiente: meu coração se iluminou. Estarei sonhando? Interpretei tuas poucas palavras pela ótica da minha apaixonada esperança? Não creio. Eu sinto teus passos na estrada, na longa estrada que nos separou. E meu coração segue o compasso dessa tua caminhada em direção aos meus braços, à minha alegria recuperada.

Lembra, Aline, nossas noites infinitas, quando derramávamos lágrimas de embevecimento e de pura alegria do nosso encontro nesta vida? Como apertávamo-nos em nossos braços esmagando nossos seios, aréola contra aréola. Como nossos púbis se colavam,   nossos ventres, nossos lábios? Como trocávamos nossos fluidos, como irmãs-amantes? Como definir senão assim nossa intensa simbiose, nossa paixão indescritível? E, no entanto, partiste... quase me matando pelo tanto que eu me confundira, me perdera ou... me ganhara em ti. O êxtase, Aline, o êxtase, nós o conhecemos nesta vida. E isso é santidade, Aline, a verdadeira santidade! Nada faltou no nosso amor carnal: lançamos mão de tudo, sem reservas, e nos possuímos como mulher a mulher, homem a homem, homem à mulher e andrógino a andrógino, com ajuda de artefatos, imaginação e ardor, Aline. Paixão anímica e carnal!

Vem Aline, estou de braços abertos e assim ficarei como uma crucificada, em espera e esperança, na soleira de minha porta na varanda do casarão de minha estância, até chegares e te colocares entre meus braços endurecidos e adormecidos, que se dobrarão, afinal, sobre ti. Já querem me internar, Aline, mas não se atrevem. Algo em mim, no meu olhar talvez, faz crer que tenho razão, que estás a caminho. E os outros esperam a comprovação de um milagre anunciado, como aqueles que querem ver para crer. Ó seres de pouca fé! Então não ouvem teus passos? Pensam que estou louca...

Quando voltares, te levarei nos meus braços para que conheças meu florido jardim, meu pomar e minha macieira gravada a canivete AR, onde acrescentarei o teu A, transformando ar, em pedra sagrada. Ara dos Pampas, será o teu capítulo. Eu te levarei comigo com a maçã afinal colhida, ao meu rio, e ao meu bosque. E montarás na garupa do meu pampeiro numa disparada infinita pelas coxilhas, agarrada a mim por trás que sentirei o teu corpo para sempre, mesmo apeadas, nuas, tu colada a mim, na frente, atrás. Eu não te deixarei mais! Tu não me deixarás porque eu te farei tão feliz que não mais te arriscarás a perder-me! Eu te possuirei e me possuirás até o sangue, até formarmos o Hermafrodita sagrado com nossos corpos e nossas mentes incendiadas. A salamandra regerá as noites das nossas fogueiras em plena pradaria, preparando o mate que compartilharemos, o amargo que nos saberá doce e que nos esquentará sob um pala compartilhado na noite sagrada e fria do minuano. Não poderão mais apartar-nos; não ousarão mais, embora estarrecidos!

Ah! Tudo o que faremos, Aline, quando tu voltares!"

 

 

Ah! Que dias compridos, os que se seguiram, até o momento de buscá-la na estação. Galdério nos transportou na charrete, a mim e Patrícia, que está eufórica com a perspectiva do convívio de mais uma mulher jovem, que ela sabe bela e doce pela minha descrição.

Ao avistá-la na plataforma, com sua mochila, seus indefectíveis jeans e camiseta, seu tênis, tão moderna e ao mesmo tempo tão atemporal, Patrícia gostou dela à primeira vista e quis ajudá-la com a mochila. Mas Galdério se encarregou disso e aboletamo-nos na charrete, tendo Patrícia passado para a parte de trás com os ouvidos atentos à voz macia de Aline, que sussurrava como era de seu feitio, com aquela suavidade que me conquistara desde o primeiro encontro. Diante dela, meu coração se distendia, eu queria abraçá-la para nunca mais largá-la. Seu cheiro doce me invadia e as lágrimas me vinham aos olhos. Ela sabia. Continuava, generosamente, deixando-se amar por mim, e eu...  eu seria capaz de qualquer coisa por esta guria que completara a minha vida, a lacuna do meu coração insaciável de amor e de beleza.

O percurso do retorno não sairia nunca mais da minha memória. Deitei minha cabeça no ombro de Aline, despreocupada com qualquer possível julgamento do fiel Galdério, que se mantinha discretamente calado, e cantamos juntas acompanhadas pela vozinha aguda e juvenil de Patrícia um lindo acalanto que minha babá, Matilde, irmã do charreteiro, entoava para mim no berço, na hora de dormir, e que falava de coisas maravilhosas, como um cavalo azul, uma ave de ouro e uma donzela que cantava tudo aquilo numa meta-linguagem circular, sem fim.

Ao chegarmos diante da varanda do solar, eu estava semi adormecida, minha cabeça no colo de Aline, num aconchego antigo que eu queria que nunca terminasse. Acordada por ela, eu queria ser pequenina para que me carregasse no colo, me pusesse no sofá ou no leito mesmo, e continuasse a cantar para eu mergulhar num sono perfeito, profundo. Ah! Mas Aline ansiava por saber de tudo do que estava acontecendo e eu...  eu esquecera de todos os problemas, como fazia sempre que estava com ela, o meu amor...

— Querida — disse eu — quase esqueci os “grilos”, como se te tivesse chamado apenas para repousar no teu colo. Mas é isso mesmo. Preciso mais do teu carinho do que de qualquer conselho, pois sei que pouco poderás fazer, já que o problema é basicamente financeiro e entendes disso tanto quanto eu. Mas teremos tempo para tu te inteirares do que está acontecendo. Darei um jeito para que Rôdo te conte tudo. O importante é que estejas comigo, pois se meu coração estiver escorado haverá mais probabilidade de vir a inspiração dos deuses que invoquei para salvar a nossa estância que é tudo para a nossa família, ou pelo menos para mim mesma e para as crianças, que vivem metade do tempo na cidade. Aline, estou te envolvendo neste problema, em termos, mas se me apoiares com a tua companhia, cumplicidade e carinho, esta terra será tua também, eu te prometo. Aceitas?

—Alma, nada quero. Você sabe que eu a amo tanto quanto me ama, e se não deixei o Pedro é também por coerência, porque não o amo menos. Você sabe que se pode amar assim, duas ou mais pessoas igualmente. Eu sei o que você sente pelo seu irmão, e fez-me compreender e aceitar isso desde o princípio da nossa relação. Somos abertas, é um fato, e nossa cumplicidade é tácita. Pode confiar em mim, mas me conte o que você fez, cujo segredo vejo nos seus olhos? O que está acontecendo?

Contei a Aline tudo, a ameaça que pairava e a minha aventura, o pacto com os numes e deuses que desceram, ou apareceram em avalancha naquela noite assombrosa. Aline arregalava os grandes olhos azuis, assustada, balançando a cabeça. Temi que ela estivesse pensando que eu estava enlouquecendo. Mas ela não me decepcionou. Agarrou as minhas mãos dizendo:

—Pequena feiticeira! Você nunca me enganou. Eu sempre suspeitei de seus poderes, desde que me enredou na sua teia, naquele primeiro dia. Você me seduziu, e não há maior poder que esse: o da sedução. Você me prendeu para sempre em seu belo coração, de onde vem, na verdade, o seu poder. A sua pureza, Alma, é a sua força, não duvide disso, e não a perca nunca. Tal pureza pode tudo, e lhe assegurará a continuidade da posse desta terra, que você tanto ama.

Com as lágrimas escorrendo em meu rosto aproximei meus lábios de sua maravilhosa boca, saudosa de seus beijos e carinhos. Ela enlaçou-me e colou seus lábios aos meus aspirando a minha alma.

 

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Não muito longe daqui, estão as ruínas das missões, “Sete povos”, que meu pai me levou a conhecer quando eu era ainda criança. A grandiosidade daqueles destroços fortaleceu a minha convicção da grandeza desta terra, cujos índios, orientados pelos jesuítas, puderam construir tais paredes portentosas. Há quem diga que os índios não deveriam construir nada de pedra e cal, e que tudo isso não passa de violência e desvirtuamento de sua cultura, maravilhosa quando em seu primitivismo. Mas a verdade é que tudo foi destino e faz parte integrante desta terra cuja história não pode prescindir de nenhum dos seus dramáticos fragmentos: a colônia, o Império, a revolução Farroupilha, com Bento Gonçalves, Netto, e Garibaldi. E aquela maravilhosa Anita, de quem invejo a brasilidade integral, apaixonada por um herói italiano e morrendo em terra estrangeira. O sangue alemão, que corre em minhas veias, também está assimilado pela seiva dos Pampas, e nosso vinho tende a se tornar um dos melhores do mundo, perdendo somente para o francês. Quem sabe o desbancaremos num futuro remoto, quando aquele solo extenuado, da antiga Gália, ficar totalmente exaurido.

Assim meditando, dirijo-me ao nosso vinhedo, quase envergonhada de priorizar nosso pomar à minha chegada. Ali encontro Rôdo supervisionando os trabalhos, conscienciosamente, como se para ele também ainda houvesse esperança. Admirei-o de vê-lo assim, já que ele me confidenciara o seu desespero, a sua derrota. Talvez ele quisesse entregar uma terra produtiva, para alcançar melhor preço na venda que projetava.

Rôdo oferece-me um cacho de uvas que brilhava, perfeito, e colocou-me folhas de parreiras dos dois lados da cabeça, exclamando, cinicamente:

—Ave, Anima Mundi, morituri te salutant!

Aquilo me soou irônico, mas auspicioso ao mesmo tempo. Retirei as folhas e pondo na boca uma única uva, coloquei o cacho na cesta para ser levado com os outros. Era a minha afirmação da necessidade de prosseguir, de dar continuidade à produção do nosso vinho, e de que não íamos morrer jamais. Assim quer a vida: que vivamos com se fôssemos eternos, desdenhando a oferta enganosa dos deuses como se a imortalidade estivesse no instante presente, eternizada. Assim Odisseu rejeitara a oferta de Circe, e nisso consistira a sua honra humana imortal. Ele não renegara sua mortalidade porque a sabia relativa: o instante sublime, de coragem, aventura e curiosidade já configurava uma eternidade, e ele não se deixaria corromper pela tentação dos deuses que testavam as almas, como o Diabo faria mais tarde ao Cristo, e Mefistófeles, encarnação daquele, que iria tentar a Fausto, antepenúltimo herói moderno, já que os penúltimos foram Garibaldi e Anita. E o último, ainda não posso dizer...

O gosto do sangue da uva em minha boca me deu por bastante tempo a sensação do embrião indistinto de uma idéia que ainda não encontrara a sua configuração. Que seria? O que se insinuava, então, em meu espírito, assim de maneira ainda amorfa, sem rosto?

 

Aline veio encontrar-me no vinhedo e andamos por ali bastante tempo chupando uvas e acenando para as colhedeiras com seus lenços na cabeça, que nos olhavam curiosas. Duas moças tão altas... pernaltas, deviam pensar. Que estranho! Mas elas me conheciam. Talvez não imaginassem haver outra moça assim, como eu.

Aline, com seus jeans que não lhe tiravam nem por sombra a feminilidade, com seus seios cujos bicos despontam da camiseta branca, deve causar ligeiro escândalo na mente destas camponesas. Mas jamais saberei... Conversar com elas era quase impossível. Seus pensamentos pareciam ocultos, por reserva ou natural isolamento num mundo insondável de tradições e costumes restritivos. Nunca soube, na verdade, o que os peões e suas mulheres e filhas pensavam de mim, de nós, do casarão. Os teutos, os boches? Como se referiam a esta família? De Galdério e sua irmã eu sabia a lealdade a toda prova. Matilde, antiga babá agora cozinheira, me amava mais que tudo e eu a comparava àquela ama da Desdêmona, do Otelo, que seria capaz de morrer por sua patroa. Ah! A “canção do salgueiro”, de Shakespeare e Verdi, era para mim o melhor retrato da fidelidade e tristeza do mundo dessas camponesas, que jamais um poeta descreveria tão bem. Isso me fez lembrar do Vati, que mostrou-me pela primeira vez essa ária do Otelo, de Verdi, que me conquistou do jeito certo para o universo da ópera. Ah! Vati, devo tudo a ti, o mundo da Arte e este vinhedo, que prometo agora não deixar jamais secar.

Saí dali correndo, seguida de Aline espantada. Diante da varanda, minha amiga agarrou-me e puxou minha cabeça ao seu peito.

—Alma, Alma, sossegue. Você conseguirá, eu sei, você terá uma idéia. Conheço você. Mas não sofra assim. Não posso vê-la sofrer. Parte-me o coração. Quando a abandonei, aquela vez, seu choro, de criança não me deixou mais dormir. Minha amiga, você é uma menina, no fundo. E já carregas o peso de todo um vinhedo. Agora lhe conheço melhor, aqui, na sua terra. Venha, venha, vou lhe embalar, minha querida.

A imensa ternura de Aline compensava quase tudo, e eu então senti que sem ela eu não conseguiria suportar a ameaça, o medo, a perda iminente.

 

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No nosso quarto, Aline deitou-me no leito e começou os seus carinhos. Esquecêramos a porta aberta, e isso foi desastroso. Lúcia passava no corredor naquele momento, parou, e viu a cena. Não percebemos a sua presença de sombra sorrateira. Seria Lúcia uma espiã de Solange? Presenciou nossos beijos, a mão de Aline que passeava pelo meu corpo, levantava minha saia, percorria minhas coxas e mergulhava na confluência das minhas pernas. Lúcia, não podendo se conter correu naquele corredor, quando então percebemos sua presença fugidia e tivemos a certeza do escândalo. Solange saberia tudo... eu estava perdida. Perderia a pouca força moral que me restava nesta casa, diante dela e dos cunhados.

No almoço aproximamo-nos, Aline e eu, ressabiadas, da grande mesa. Mas, surpreendentemente nada ocorreu. Lúcia apenas mantinha os olhos baixos, enquanto Solange continuava o mesmo sargento de sempre.

A refeição transcorreu normalmente, com seus lances agradáveis outros nem tanto, mas com risadas às inconveniências de Alberto e o esnobismo de Geraldo. Ao reparar neste cunhado imaginei o horror que seria este almoço se ele já soubesse de tudo. E Solange, então? Esta me expulsaria da mesa gritando e me proibindo de jamais me aproximar de sua filha. Eu morreria de dor... e de vergonha. Não, ninguém ainda sabe. Lúcia guardou segredo. Por quê? O que quer ela? Um mistério, por enquanto.

Após o almoço chamei Lúcia, disfarçadamente, ao corredor. Questionei-a com os olhos. Ela, de olhos baixos, ergueu-os e agarrando-me os ombros, com firme delicadeza, para minha surpresa  puxou-me para si e disse:

—Alma, minha irmã, nada temas. Eu te admiro, eu te amo. Ninguém jamais saberá por minha boca, de nada. Solange pensa que sou sua espiã, mas não lhe serei leal jamais. Ela não nos merece. Alma,  guardarei o teu segredo... e Geraldo jamais te humilhará, aquele arrogante. Sossega, minha irmãzinha... e ama a tua amiga quanto quiseres.

Ajoelhei-me, então, subitamente, aos pés de Lúcia e beijei humilde e sinceramente as suas mãos. Eu estava salva.

 

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Capítulo Segundo

 

 

 

 

A ARA

 

Com meus pequenos sapatos de verniz eu corria pelos campos em torno do nosso casarão, freqüentemente perdendo-o de vista. Com um aventalzinho antiquado e inútil sobre a saia muito comprida, eu mais parecia uma menina do século anterior: longos cabelos, com uma fita, às vezes tranças. Eu corria ou simplesmente passeava a esmo colhendo flores, soprando ao vento as sementes do capim, devaneando, até ouvir o som do piano do Vati, que era a maneira de voltar à terra... para continuar a sonhar. Eu corria até a biblioteca para pôr-me embaixo do grande Steinway (que agora, no meu retorno, pareceu-me bem menor). Ficava ali, deitada de bruços sobre um tapetinho muito macio que o Vati colocava para mim. Com o queixo apoiado nas mãos eu observava seus pés nos pedais cuja utilidade me parecia um mistério, e deixava-me embalar pelo som maravilhoso de Chopin, Schumann, Schubert, Lizst, Debussy, Satie e Poulenc. Eu me erguia então, para, ao lado dele, observar as suas mãos, seus dedos ágeis, habilidosos de velho cirurgião-músico. Ao terminar eu às vezes colhia as suas mãos pousadas inertes sobre o teclado, e as observava cuidadosamente, examinando-lhes os mínimos detalhes, o que parecia diverti-lo. Um dia eu as beijei após o seu concerto para mim. Sim, porque eu considerava que era só para mim que ele tocava... e ele deixava que eu pensasse assim. Depois, ele me punha no colo para conversarmos sobre música, sobre os compositores. Contava-me estórias e anedotas de suas vidas, e eu me transportava para aquele mundo onde me via companheira deles, e precocemente, suas amadas. Sim, todas elas. Eu me identificava com suas musas que meu pai descrevia com reverência, denunciando o seu fascínio pela mulher... pela beleza da mulher-musa, que ele próprio não desfrutava, mais tarde eu percebi. Minha mãe era tudo, menos isso... Sua retidão inflexível, a gradativa amargura, sua visão prática da vida, regida por um excessivo sentimento de dever, devotada à família e ao homem que a escolhera... Sim, porque ela deixara-se escolher passivamente, e eu nunca pude sentir nela um grande amor pelo Vati, como eu projetava em minha imaginação incendiada pelo mundo romântico dos artistas: músicos, poetas e pintores daquele maravilhoso século XIX.

Depois, ele passava a colher nas estantes os grandes tomos para mostrar-me as ilustrações de Gustave Doré ou de Flaxman (no caso da Ilíada e Odisséia), e freqüentemente lia para mim alguns trechos escolhidos daquelas obras. E eu derramava lágrimas de encantamento, e mais, por aquilo estar sendo transmitido por ele com aquela carga afetiva, com aquele sentimento de identificação e de doação que ele tinha para comigo. Eu era a sua esperança, agora eu sei, o seu repositório de sonhos, e se possível, da cultura artística que ele não tinha mais a quem legar, já que as minhas irmãs não se emocionavam com aquele universo e viviam metidas na cozinha ou nos trabalhos práticos em torno da Mutti. Rôdo era um caso à parte. Mas elas eram excelentes bordadeiras sem alma, e seus trabalhos não me interessavam. Eu preferia imaginar a infindável teia de Penélope, no tear, reconstruindo as aventuras do seu amado Odisseu como ela as imaginava a partir das narrativas vagas dos soldados retornados, para segui-lo naquele seu acidentado percurso em direção à ela mesma. Eu me identificava com ela, essa rainha que eu sabia detentora da verdadeira fidelidade: a da imaginação cúmplice, e do verdadeiro devotamento, o da alma apaixonada, que eu não via em minha mãe.

Felizmente, ela, Ana Morgado, tinha o bom senso, pelo menos, de não interferir nessa relação de pai e filha, cujas afinidades eram quase absolutas, à exceção do mundo obscuro, para mim incompreensível, da Medicina, que eu rechaçava de minha imaginação, como coisa sanguinolenta, feia e crua. Nunca pude compreender, com os meus sentidos, o fascínio que ele tinha por isso que eu considerava a desmistificação da carne, já que eu a via e queria assim: perfeito invólucro da alma, cheio de beleza e personalidade, de brilho e sensualidade.

Minha mãe temia sobretudo isso: a sensualidade precoce que ela via em mim. E procurava reprimi-la, sem conseguir já que exalava de mim pelos meus poros, pelos meus movimentos, pequena estudante de euritmia e de balé, duas disciplinas opostas, que o Vati experimentava conjugar em mim. Mas, mesmo sem isso, essa sensualidade, antes de tudo, era inata nos meus movimentos, e vindas da beleza que me acompanhava sempre, como todos diziam, desde o meu nascimento. Muito branca como até hoje, com meus olhos verdes, rasgados, e o cabelo louro com reflexos arruivados, essa beleza era o que produzia uma certa complacência, até mesmo em minha mãe, que do contrário trataria de castrar-me completamente, ou de reprimir-me todos aqueles voos, que na verdade, pelo menos ela tolerou. À exceção daquele dia aziago...

Em Rôdo eu tinha um companheiro de aventuras e um confidente, pois para as experiências novas e os achados, havia em nós cumplicidade. E nas descobertas físicas, sim, de nossos próprios corpos que se atraíram tão cedo.

Rôdo, naqueles dias descobrira o beijo nos meus lábios... e isso disparara nele um desejo crescente que ressoaria no meu próprio desejo nascente pelo corpo do outro, do belo ser humano, puro, criança como eu. Seus beijos tornaram-se mais longos, até deixarem meus lábios dormentes e intumescidos. Minha mãe fixava os seus olhos nos meus lábios vermelhos, eu percebia. Ela desconfiava? Sim, pois ela nos surpreendeu afinal sob a nossa macieira. Solange nos delatara, e sob aquela árvore que eu considerava por instinto um símbolo da minha vida e em cujo tronco eu gravara um coração com as iniciais A e R, que produziam a palavra que resume a consistência e o segredo da alma: ar, atmosfera, sopro, inspiração, entusiasmo; ela nos surpreendera, nuzinhos, deitados lado a lado, com minha mão sobre o “pintinho” de Rôdo enquanto sua pequena mão cobria emocionadamente minha “conchinha”, como nós dizíamos.

Surpreendidos, fomos agarrados por Ana Morgado pelos cabelos e erguidos. Instintivamente demo-nos as mãos, que foram brutalmente separadas, e arrastados pelos pulsos, enquanto com palavras rascantes quase aos gritos ela nos ordenava que cobríssemos nossas “vergonhas” com a outra mão. Conduzidos impiedosamente sob as risadas de alguns peões no trajeto até em casa, expulsos do nosso pomar que nos seria proibido por muito tempo, talvez para sempre.

Em casa, presenciamos o drama e as lamentações da Mutti, seus protestos de vergonha e pecado, enquanto meu pai ria complacente, bonachão, sábio, tentando acalmá-la, apaziguá-la. Lembro-me mais de suas palavras, do que das catilinárias de minha mãe:

—Ana, que exagero, não sabes que as crianças são assim? Nunca leste Freud, sua ignorante... É normal a curiosidade infantil, é normal, não sabias? Deixa-as, não as traumatizes! Não as escandalizes. Fazes mal, sabias?

“Vem, minha flor”, ele me abraçou e me alçou ao colo, nuinha e em lágrimas, e passou a mão na cabeça de Rôdo. “Não os toques, eles estão nus!” minha mãe gritava. E meu pai: “Vão se vestir e voltar a brincar. Mas chega de experiências, hem? Chega, Ana! Pára com esse drama! Deixa as crianças em paz!

Sua imensa autoridade, pacificadora, serena, sua sabedoria, sua generosidade... me salvou. Imagino que também a Rôdo. Meu irmão se tornaria um terrível namorador, erótico como um sátiro, e eu... não menos. Minha alma de ninfa se salvaria, eu não me tornaria uma prostituta, como minha mãe no fundo antevia. Mas eu amaria e desejaria tudo: homens e mulheres com igual intensidade. Panteísta, pan-amorosa, eu me salvaria talvez pelo excesso, não sei. Mas, ao mesmo tempo, aquela dor me acompanharia para sempre como uma injustiça, uma imputação de pecado original que eu não reconheceria nunca e contra a qual eu me rebelaria sempre, não como bravata, mas do fundo da alma indomável com que o próprio Deus me dotara.

 

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Ando agora pela casa, apaziguada por um lado pela surpreendente cumplicidade de Lúcia, mas inquieta, com a mente agitada, à procura de uma solução para o nosso impasse. O ritual que eu presidira no pomar haveria de produzir frutos, eu esperava. Havia assim como que um embrião de uma idéia ainda informe, plantado em meu espírito ou no fundo da minha mente.

Às refeições congregávamo-nos sofrivelmente, sempre sob as picuinhas de Geraldo, as respostas sarcásticas de Rôdo, as ralhas e implicâncias de Solange, o silêncio de olhos baixos de Lúcia, e as sandices às vezes divertidas de Alberto esvaziando as garrafas que ele, a custo, compartilhava conosco. A delícia desses vinhos acabava por descontrair, minimizar as arestas desse desencontro familiar. Abençoado vinho! Eu compreendi nesses dias a função catalisadora desse néctar dos deuses doado aos homens por Dioniso para suavizar o nosso fado, embora freqüentemente, eu sei, o sobrecarregue, tal o seu fascínio.

Alberto, o nosso Baco de nariz avermelhado, era quem mais se destacava nesses nossos repastos. Sim, os bêbados, em geral canalizam para si de um modo ou de outro as atenções, caricaturas que se tornam de todos nós, seres humanos. Lembro-me, no entanto, o choque que me causou, na infância, a ida a um circo levada por meu pai. Os palhaços me causaram horror, e um rosto pintado que afundava num imenso colarinho como uma tartaruga, fez-me virar a cabeça com repulsa como diante de um pesadelo. Os tapas e bastonadas falsas, estrepitosas, ressoavam para mim como verdadeiras e brutais. Eu queria sair correndo mas abracei-me ao meu pai fechando os olhos e virando as costas àquele espetáculo grotesco que me deixou para sempre essa repugnância pelos pobres palhaços, caricaturas do bêbado, com seus narizes vermelhos, suas calças largas e cadentes, seus sapatos enormes, feitos para o tropeço.

Solange insistia em comandar o ritual das refeições mas não lhe dávamos atenção. Sabíamos que não a devíamos levar a sério ou ela nos tiranizaria. Na infância, eu e Rôdo conseguíramos escapar à sua opressão através dessa atitude tácita de humor e descontração que encontrávamos em nossos próprios temperamentos, apoiados pelo Vati que se divertia com isso enormemente. Posso imaginar o tamanho do ressentimento acumulado todos esses anos por Solange contra nós três.

A propósito de Solange, acabo de lembrar-me com saudade das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos aqueles em que me levantava cedo em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos na cozinha e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia as ajudavam enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos.

Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu quartinho do sótão, na antevéspera do Natal à meia-noite quando todos estivessem dormindo.

Ali estava eu como tantas vezes naquele aconchegante ambiente de quarto de menino que me fascinava com sua bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos, miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava, e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar ali entre as suas coisas amadas. Eu o abracei de uma maneira mais comovida que o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela noite em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs e nem tinha certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim instintivamente como uma pequena amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados, sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...

Acordamos sobressaltados pela voz aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós de mãos na cintura nos fuzilava com os olhos:

—Ah! Seus safados. Já agarrados de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!

Fiquei envergonhada por ela, não por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha vida conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim estava ali mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:

—Solange, irmãzinha ciumenta! Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!

Solange ficou rubra de confusão e cólera mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer:

—Alma, tu tens cada uma! És sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!

–Bem... ela não deixaria. Eu a abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?

Rimos mais uma vez juntos, e eu estava tão feliz ali com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho, que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu amava tanto, que não excluiria Solange que via sorrindo para mim, gordinha e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu estava tão plena e feliz que ouvia os seus sons de cristal e não precisava mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente as batidas do coração amado de meu irmão.

Mas voltando ao tempo presente, Lúcia, que eu pensava vítima indefesa da nossa irmã mais velha, agora me revelava uma outra face, embora igualmente ressentida. Ela se desforraria apoiando-me secretamente, e eu lhe seria grata por isso.

Exercitando a segurança que essa certeza me dava, aproveitava as refeições para acarinhar minha querida Patrícia, os gêmeos, e Pedrinho, como nunca. A tônica passou a ser então as crianças e seu mundo intocado. Eles seriam o foco de atenção, e nem mesmo Geraldo ousava mais exercitar seus venenos corrosivos. Uma vez, disse apenas:

—Alma, você continua infantil. Não crescerás jamais, não é? Nem mesmo diante da situação limite em que nos encontramos.

—Meu cunhado -respondi- deixemos as conversas de adultos para o escritório. Crianças são também coisa séria. O riso e a alegria... são coisa séria, não é mesmo, crianças?

Elas abanaram as cabeças em explosões de risos, e continuamos falando agradáveis absurdos, à exceção de Patrícia que devaneava com o olhar perdido. Tomada pelo seu primeiro amor, ela estava naquela idade atemporal dos apaixonados. Eu pensava em Julieta, de Romeo, e na sua maturidade e ingenuidade simultâneas. Maturidade sim, porque Julieta compreendia a tragédia verdadeira de sua situação. Será que podemos imaginar a violação a que ela estava destinada por seus pais, o estupro que a esperava nas mãos de um homem mais velho, odioso, naquelas circunstâncias? O ser apaixonado não pode sequer imaginar-se tocado, tomado, senão pelo objeto de sua paixão. Julieta estaria morta para sempre em seu coração, na sua carne e na sua alma, se conspurcada por aquele conde Páris.

Pensando assim, eu entregaria Patrícia ao seu amor de mão beijada, se ela fosse minha filha, e no máximo,como representante da nossa época, os presentearia com uma dúzia de camisinhas. Mas, eu ainda não tinha filhos, e talvez visse as coisas com excessivo desprendimento. O fato é que eu movimentava meu espírito ao meu bel prazer entre os séculos, posicionando-me neste final de milênio quando se tratava da questão sexual. Eu sempre fora libertária com o incentivo do Vati, e sendo artista não podia aceitar nenhuma opressão, em idade alguma. Eu mal conseguia compreender a sujeição que as pessoas tinham à autoridade e hierarquia. Eu jamais daria uma ordem, eu jamais ordenaria algo a alguém em toda a minha vida, mesmo a um empregado. Eu pediria “por favor”, como sempre fiz. O ser humano jamais deve exercer poder sobre outro ser humano, eu penso assim. E aquele que se submete à tirania acaba por legitimá-la ou se tornar seu cúmplice.

Alberto, bebendo o nosso vinho procurava ser infantil como nós, mas destoava, essa é que é a verdade. Estava fora do tom. Fugíamos então, logo após a sobremesa, deixando os adultos entretidos com o cafezinho, os charutos e licores. Corríamos para o jardim num pega-pega cheio de risos, ou passeávamos tranqüilamente de mãos dadas. Com essas lindas crianças eu me sinto verdadeiramente em família.

 

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Dias se passaram, e eu novamente segura me arriscava nas carícias com Aline, mas com um pouco mais de cuidado. Também não queríamos chocar as crianças, claro, e no máximo passeávamos de mãos dadas como duas boas amigas. Eu sabia que Solange nos observava o tempo todo. Isso me incomodava, claro, e eu queria poder afrontá-la. Não fosse pelas crianças e eu beijaria Aline nos lábios em toda parte e a faria sentar-se no meu colo nos bancos do jardim. Com essa censura meu amor e meu desejo aumentavam... e eu me sentia também uma Julieta. Bah! Por que as pessoas não se deixam em paz, umas às outras? Por que tanta intromissão e desrespeito às individualidades alheias? Eu sei que há quem pense que as atitudes alheias também nos desrespeitam mesmo quando não dirigidas a nós. Não penso assim. Eu sequer denunciaria um ladrão. E jamais faria parte de um júri, para condenar alguém. Não julgaria ninguém, nesse sentido. O ser humano, acredito, não deve nunca usurpar a prerrogativa do destino. Os maus serão punidos pelo tempo e por sua própria maldade. Os bons passarão incólumes pelas suas faltas, pois seu coração os preservará. E os inocentes já estão no paraíso. Assim penso eu desde pequena. Não acredito num Deus punitivo. Isso não combinaria com o imenso amor que é a razão do universo, do próprio Deus.

Para mim, a prova evidente do amor de Deus, a configuração mais próxima do seu imenso poder, é o sol. Bastaria um pequeno deslocamento de alguns poucos milhares de quilômetros para ele nos torrar ou congelar. Mas não, permanece cuidadoso, olhando-nos e aquecendo-nos da distância exata para produzir esta bela natureza, contemplando-nos com inúmeras dádivas, partículas e efeitos misteriosos, para criar vida... e beleza. É evidente o seu amor.

Pensando assim, puxo Aline pela mão a toda hora para todos os vãos que encontro, ou para atrás de árvores do nosso pomar para beijá-la na boca, sofregamente. Não agüento mais. Quero tudo do meu amor.

Levo-a então para o nosso antigo galpão depois de despistar as crianças. Ali, no meio do feno e das ferramentas, tonéis vazios e arreios, lanço-a sobre a palha e a dispo afinal. Ah! Que saudade desse lindo corpo! Dispo-me também, e nuas entregamo-nos às nossas ardentes carícias. Estamos ensopadas e bebemos nossos fluidos, sedentas, em êxtase. Seu perfume, seus licores, eu amo tudo que vem do meu amor e queria engoli-la inteira, se possível. Não consigo jamais saciar-me. Essa é a maldição: um gosto permanente de inacabado, de incompleto, de carência. O ser humano jamais pode se sentir completo, finalmente unificado! Eis aí uma evidência da injusta punição original, senão do incompreensível pecado.

E eis que fomos mais uma vez flagradas. Desta vez pelos gêmeos, que enrubesceram simultaneamente. Permaneceram estáticos diante da nossa nudez. Levantamo-nos então, ao mesmo tempo e pusemo-nos lentamente, cuidadosamente, numa bela pose de estátuas. Os meninos riram e saíram correndo felizes. Tenho certeza que compreenderam, ou foram tocados pela beleza da cena que forjamos. Foi uma inspiração.

Daí por diante, quando estávamos sós, repetiam às vezes, juntos, a nossa pose e sorriam lindamente para nós.

Sabíamos, então, que eles nada contariam do que viram, para os adultos.

 

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Rôdo vem me mostrar uma proposta de compra da estância por um fazendeiro magnata. Não quero ver. Solange e Geraldo estão encarniçados açulando a venda, pressionando Rôdo. Alberto está mais preocupado em beber. Aproximo-me dele para cooptá-lo para o meu lado, isto é, contra a venda. Digo a ele em linguagem cifrada, indireta, que as garrafas acabarão para ele naturalmente, se a estância for vendida. Mas que elas serão inesgotáveis se conservarmos nosso vinhedo e tudo o mais. Esse argumento soou lógico. Os bêbados parecem ter uma lógica muito simples: não há vida fora das garrafas. Isso acaba por tomá-los completamente, por mais inteligentes que sejam. É impressionante o poder do álcool sobre eles. É algo que renova o sentido da vida por frações de segundo, fugidias, mas que sob o uso constante lhes permite permanecer vivos com um certo sentido de pertinência fugaz num mundo caótico. Não os julgarei jamais. Mas naquele momento me permiti manipular aquele pobre exemplar que era o único aliado que me sobrara, já que à Aline e às crianças não cabia voto. O triste era não poder contar com Rôdo que simplesmente não acreditava mais ser possível manter a nossa propriedade. Eu tentava ganhar tempo. Sentia que algo iria acontecer que mudaria o rumo dos acontecimentos se protelássemos a venda por mais um mês. Diante desse prazo acordado com Rôdo, ele também se achou no direito de chamar uma amiga, uma namorada, para aplacar sua solidão ou a sede do seu corpo.

Em poucos dias chegava Laís, uma jovem morena, bela, misteriosa, que o fazia perder a cabeça. Rôdo transformou-se. Ao voltar da estação com a jovem seu semblante era outro. Aquela noite a casa reverberou com os gemidos e gritinhos da moça vindos do quarto, e uma espécie de urros do meu irmão. Foi realmente engraçado para mim e Aline, mas escandaloso para os outros. Solange amanheceu com a cara mais fechada do que nunca. Ah! Se ela soubesse que eu e Aline fomos pé ante pé observar pelo buraco da fechadura as manobras fantásticas do casal! Mal contínhamos o nosso riso e a excitação que aquilo nos produziu, claro. A moça era versada no Kama-Sutra, ou no mínimo no Yoga. Colocava-se de cabeça para baixo e esperava iguais malabarismos do pobre Rôdo. Seu sexo era exposto a 180 graus, e não deixamos de admirar a beleza de seus orifícios rosados, de pêlos cuidadosamente raspados. Aline e eu disputamos o buraco da fechadura, quase estourando para não gargalhar. Depois corremos para o nosso leito e tentamos reproduzir as proezas. Aquilo foi hilariante... e um pouco frustrante. Lembrei-me de Freud e da sua teoria da inveja do pênis, e por momentos achei que ele tinha razão. Mas, eu queria ser completa! Possuir e ser possuída simultaneamente por minha Aline. Sim, o Hermafrodita perfeito era o ser ideal, perdido para sempre em nós!

 

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Acordo com o bico do seio de Aline junto aos meus lábios e enterneço-me novamente. Olho esta bela mulher de pele quase tão branca quanto a minha. O que é que a torna morena? Uma sombra misteriosa talvez, que vela a sua beleza incomparável. Ela abre os olhos azuis e sorri. Quero beber o seu hálito logo pela manhã. Vou banhá-la com a minha língua para que ela possa despertar e levantar-se em plenitude. É o que me dedico a fazer na meia hora seguinte. Ela se espreguiça e rola na cama para expor-se em todos os ângulos. Deixo-a limpinha com a minha língua ávida, amorosa e até... maternal. Ela retorna a um sono langoroso com estremecimentos de prazer. Percebi os seus múltiplos orgasmos que inundam sua vagina. Quero essa beleza para sempre, esse perfume, esse elixir da longa vida, da vida eterna da paixão!

Depois dirijo-me ao banho. Um banho demorado onde ela afinal vai encontrar-me para continuarmos as nossas carícias agora com sabonete e água quente sob uma ducha voluptuosa. Quando afinal saímos do banheiro e do quarto, leves, cheirosas e belas, Solange nos espera à mesa do café da manhã com aquela cara de censura. Ela parece saber ou imaginar o que se passa no nosso quarto. Ela percebe a sensualidade ostensiva dos nossos corpos, dos nossos lábios túmidos, das nossas narinas um pouco abertas. Ela parece querer surrar-nos, essa é a verdade. Mas isso num nível ainda semiconsciente nela, que não lhe permite manifestar-se, claro. Faltam elementos conscientes para ela exercer a sua censura. Por isso ostenta uma amabilidade forçada para com a minha amiga, oferecendo-lhe pãezinhos e broas, passando-lhes manteiga, quase mimando-a com uma espécie de irritação derivada. Admiro-me da candura de Aline que tudo aceita com naturalidade e graça. Ela é mesmo adorável e cínica, como eu gosto. Às vezes tenho vontade de gritar ao mundo, às Solanges do mundo, o meu amor, o meu desejo, a minha felicidade. Então não vêem, ó hipócritas, que o amor não tem sexo, ou tem todos os sexos? É o outro, que nos apaixona. O nosso reflexo maravilhoso de Narciso no espelho do outro ser humano, lago sagrado que nos cerca. Queremos nosso reflexo, amamos e desejamos essa imagem complementar, invertida ou não, de nós mesmos. Queremos saber de nós, nos conhecermos em nossas recônditas profundezas, nos nossos meandros e cavidades. Nossos humores, nossas fontes misteriosas.

Rôdo e Laís vêm juntar-se a nós na mesa para completa desorientação dos sentidos de Solange. O cheiro de sexo, de paixão nesta mesa, é demais para as suas narinas pudicas e ela logo se levanta pretextando afazeres, providências. As crianças já estão há muito brincando no jardim, nos gramados. Seus gritinhos e risos são música para o nosso café da manhã. Estes são para nós, talvez, os últimos dias de uma Pompéia feliz sob a sombra fumegante do Vesúvio.

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A cavalo passeamos eu e Aline pela estância e afastamo-nos bastante do casarão. Aline abraça-me o ventre na garupa, deitando o seu rosto em minhas costas. Ela me aperta mais que o necessário para a sua segurança. Ela está me apertando contra si emocionadamente, eu o sinto. O amor de Aline me enche de alegria e ternura. Eu a queria sempre assim, grudada em mim. Sinto-me feliz e legitimada por esse amor pois ele me dá forças, somando as suas às minhas próprias, mas sobretudo pela plenitude que sinto quando estou junto dela. Todavia não me esqueço da minha natureza de artista, e procuro sempre estar criando, escrevendo, pintando. Não sei como conseguirei levar tudo isso junto, para adiante. Um amor assim é progressivo, não com uma doença, mas como algo que afinal me tomará inteira num êxtase final. Assim quero a minha morte. Não pedirei como Goethe mais luz, mas mais amor (o que afinal, eu sei, é a mesma coisa). Desço do cavalo em plena pradaria deserta, e seguro Aline pela cintura para fazê-la apear. Este gesto tipicamente masculino excede as minhas forças e ela cai-me por cima, em gargalhadas as duas. Ela pára de repente de rir e no silêncio súbito que pareceu tomar toda a natureza daquele pampa, ela aproximou lentamente os seus lábios dos meus. Eu quis morrer naquele momento perfeito, e o seu beijo tomou tão profundamente a minha alma que eu achei que não precisaria viver mais, não precisaria sequer assistir o destino final de nossa estância, de nosso mundo, do nosso vinhedo em perigo. Eu estava plena, completa naquele momento e ficaria assim para sempre, totalmente beijada em minha alma e meu corpo se comicamente não tivéssemos sentido as ferroadas das formigas sobre cujo formigueiro caíramos. Levantamos aos pulos, debatendo-nos aos gritos e gargalhadas. Depois, livres das formigas, empipocadas nos braços, olhamo-nos novamente, enlevadas, sabendo que jamais esqueceríamos daqueles momentos e que o elemento cômico, os risos, nos ajudariam num futuro remoto a recordar aquelas sensações maravilhosas. As lágrimas corriam em nossos rostos talvez com o mesmo pensamento, e abraçamo-nos como duas camaradas guerreiras durante uma trégua, antes de montar novamente e voltar para o campo de batalha. Essa guerra transcorria surda, sem explosões, mas ainda estava longe de acabar.

 

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Solange nos esperava no alpendre e com o seu tom frio e cortante foi logo dizendo, brandindo umas folhas de papel:

—Gurias, onde estavam? Alma, esperávamos a ti, para assinares estas propostas. Estamos todos de acordo. A proposta é ótima. Leia e assine, faz o favor.

—Não assinarei nada, minha irmã—respondi—nem sequer lerei esses papéis. Ainda não estou preparada para isso. Tudo é muito súbito para mim. Nada soube do que ocorria aqui enquanto estava lá em São Paulo trabalhando. Agora querem que eu concorde, assim, de repente, com esse absurdo. Não, jamais!

—Ah! Trabalhando, não é, dona Alma? Pintando, isso sim, e desvairando por lá! És uma louca, sempre foste, e agora empatas um negócio em que estamos todos interessados. Além disso, não vês que não temos escolha, sua alienada! Não vês que enquanto pintavas teus quadrinhos ou quadrões, vá lá, nós nos debatíamos com as dívidas deixadas pelo Vati, aquele outro sonhador, que iria nos enterrar a todos em suas loucuras, se não tivesse restado pelo menos o patrimônio ainda passível de cobrir as dívidas, e sobrar algum para nos mantermos, cada um por si, daqui por diante. Vais estragar tudo?

—Solange, minha irmã, não repetirei mais. Ainda não está tudo perdido. Eu sei, eu o sinto. Eu tenho fé... no destino. Não me pergunte como sei, mas estamos próximos de uma solução salvadora para a nossa estância. Tu deves isso ao Vati e aos nossos avós, que criaram não a estância propriamente, mas o vinhedo. O velho fez crescer a vinha e tornou o nosso vinho, a nossa marca, conhecida. Eu desenhei desde criança os rótulos que se tornaram famosos. Não aceito a derrota. Eu sei o que move vocês. Sim, tu e teu marido nunca amaram a terra. Mas o mesmo não acontece com Patrícia e Pedrinho, com Christian e Hans. Essas crianças lindas amam esta terra que lhes é vital, tu tens que saber. A terra, o Pampa é nossa herança sagrada, não podes dilapidá-la, destruí-la. Eu não permitirei! Eu não permitirei!

Saí correndo dali seguida por Aline. No quarto, nervosíssima, fui apaziguada mais uma vez pela minha guria maravilhosa. Peguei-lhe novamente a mão e atravessando o corredor saímos pela cozinha e pelos fundos para alcançar o nosso pomar. Levava comigo o canivete suíço antigo que pertencera a Rôdo em nossa infância e que eu usara para gravar a nossa macieira. Diante dela, solenemente, segurando a mão de Aline eu começaria a gravar a inicial do seu nome, o seu A, após o R de Rôdo. E ao terminar disse-lhe:

—Aline agora participas de nossa aliança. Se antes nossas iniciais expressavam o ar, inspiração, alento, alma enfim, agora fazem o altar, a ARA de nosso pacto sagrado. Jure-me, Aline, que não me abandonarás nesta luta e participarás comigo da batalha final. A terra será tua, também, já que és minha, como acredito. Não voltarás a São Paulo, ficarás aqui comigo para sempre. Contigo enfrentarei tudo, terei as forças necessárias, contigo. Promete-me, querida. Olha, o altar é a nossa árvore, a macieira de minha infância feliz, sim, apesar de algumas dores, apesar da minha pobre mãe equivocada, apesar dos meus avós inicialmente equivocados mas que acertaram ao plantar este pomar, esta macieira e a vinha, a vinha, agora eu vejo! Ainda não sei bem, mas algo virá do vinho, do sangue da terra que sacrificarei nesta ara. Aline, voltaremos aqui amanhã à noite. Sacrificaremos aos deuses, tu verás!

Aline me olhava um pouco assustada, eu percebi apesar de estar num estado de excitação quase delirante. Ela permaneceu muda e o seu corpo todo tremia. Ela quase desfalecia quando me dei conta de que ela tinha febre e suava na testa. Então abracei-a e amparando-a conduzi-a ao leito. Eu iria cuidar dela. Tudo aquilo fora excessivo para esta flor delicada da cidade. Eu me excedera, talvez. Eu precisava tomar cuidado com o meu amor.

 

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Aline permaneceu febril e delirou durante dois dias e noites. Eu fiquei o tempo todo ao seu lado com o coração opresso, a enxugar todo o seu corpo e a pôr compressas em sua testa. No seu delírio, ela se debatia e gritava o meu nome, mas num estranho contexto:

“Alma, Alma, você está entre nós, afinal, liberte-me, Alma! Leve-me consigo para o seu reino. Para o palácio, Alma, não quero mais viver aqui, é escuro... Alma, alma, liberte-me do escuro, quero enxergar, Alma, quero enxergar! Alma, leve-me! Eu me agarrarei a você, pode voar, não tocarei as suas asas, ficarei agarrada ao seu ventre. A luz, Alma, a luz! É o seu reino, estamos chegando!”

Eu estava em lágrimas que explodiam de hora em hora num pranto copioso. Minha amada me comovia mais que nunca e eu faria qualquer coisa por ela. Tinha medo de que ela morresse e senti que preferia morrer em seu lugar. A fragilidade de Aline, sua vulnerabilidade que eu não atinara até então, como as asas de uma borboleta, como um cristal finíssimo, como a lâmina de ouro de um mícron que podia se esfacelar à mais leve brisa. Esse ser portentoso, cuja beleza era a expressão da nobreza ideal, possível para todas as mulheres. Minha Psiqué preciosa, projetada de minha própria alma, de mim mesma. Éramos duas faces da mesma anima. Eu não saberia denominá-las: Sofia... Eva? Ou Helena...Taís? Eu queria fundir-me ao meu amor, mas precisava viver e retirá-la da prisão do seu delírio, daquela escuridão a que ela se referia e que eu pressentia. Nós iríamos juntas sacrificar no altar da nossa macieira. Nós salvaríamos a estância e a vinha, salvaríamos o pomar sagrado, a macieira imortal da nossa felicidade imorredoura. Aline, Rôdo e eu, nos transformaríamos no Hermafrodita imortal, perfeito, inatingível pela solidão, eternamente. No reino do ser, onde a posse material não mais existiria, onde todos os símbolos expressos pela matéria teriam sua revelação puramente espiritual, todos os códigos enfim revelados. Saberíamos por fim o que é a árvore, a casa, o vinhedo e o pampa na Eternidade imaterial, infinita. Eu saberia o que é a Arte pura desprovida de seus signos visíveis, de suas expressões rudimentares, materiais. Eu saberia o que são os deuses. Eu saberia, talvez, quem é Ele!

 

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Aline está bem agora. A febre cessou. Ela dorme tranqüila, apaziguada. Posso me afastar do seu leito para confrontar Rôdo, que me deve explicações. Ele não pode estar me traindo e ao nosso pacto. Encontro-o no escritório, ocupado com papéis, com Laís ao seu lado.

—Rôdo, o que está acontecendo, que papéis foram aqueles que Solange queria que eu assinasse? Tu não disseste que me daria tempo? Que pressão é essa? Rôdo, estás com eles ou comigo? Já disse a ti que nada assinarei. Prefiro a morte, já te disse. Desculpa-me Laís, ouvires tais coisas. Nada tens com isso, espero.

–Alma, sei de tudo, há muito tempo. Estou com Rôdo acima de tudo. Isso quer dizer que não me oponho a ti. Apreendi a respeitar-te através dele, Alma, e não seria tola de afrontar-te. Mas pareces não saber o que o teu irmão tem sofrido. O quanto ele já lutou para salvar esta estância. Agora está disposto a vender a Ferrari. Mas é tarde e de nada adiantará. A luta está perdida. No entanto, diz ele que aguardará o prazo que te concedeu. Isso tudo, para mim é um enigma, Alma. Como pretendes salvar a estância? Quanto a mim, só quero partir com o teu irmão, levá-lo comigo... e fazê-lo feliz, longe de todos esses sonhos perdidos.

— Rôdo — eu disse, voltando os olhos para ele—O prazo ainda não se esgotou. Amanhã farei um último sacrifício que trará à minha mente a revelação que espero, e sei que virá. Conto contigo. Se Laís quiser vir também, não me oporei. Espero que Aline já possa estar ali comigo, também. Nós quatro faremos uma corrente forte se Laís não estiver se opondo no fundo do seu coração. Mas isso eu saberei lá mesmo, diante da nossa ara. Verei vocês amanhã... no café, e depois somente à noite, na nossa hora.

Rôdo olhava-me enigmaticamente, intensamente. Mas nada disse. Retirei-me da biblioteca.

 

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A estância da minha infância parece distante, ou subjacente a esta do presente. Ainda ouço os ecos dos galpões no fandango, as festas da peonada a que Rôdo e eu assistíamos deslumbrados, às vezes escondidos, tarde da noite, fugidos das nossas camas. Aí eu ouvi pela primeira vez a Nau Catarineta, cantada, acompanhada pela sanfona e as palmas:

 

“Ouçam meus senhores todos,

uma estória de espantar!

Lá vem a Nau Catarineta

Que tem muito o que contar

Há mais de um ano e um dia

Que vagavam pelo mar:

Já não tinham o que comer

Já não tinham o que manjar!

Deitam sortes à ventura

Qual se havia de matar

Logo foi cair a sorte

No Capitão-General!

 

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As danças, onde o taconeo das botas acompanhados do tilintar das esporas me produziam um arrepio de prazer, e a graça das “chinocas” evolucionando em torno às bombachas de seus pares, me fizeram compreender profundamente a nossa essência feminina, cultivada neste sul como em poucos lugares deste nosso mundo atual. Talvez só as camponesas russas em suas danças folclóricas expressem assim a oposição macho-fêmea com tanta clareza e expressividade. A dança dos lenços me encantava sobremaneira... e eu queria ser uma “china”, com toda a carga de ambigüidade que essa palavra carregava. Outrora ela expressava uma categoria intermediária entre prostituta e namorada de peão. Ou ainda vivandeira, a mulher que acompanha os soldados na retaguarda dos exércitos em deslocamento. Ouvindo e vendo nossa gente, nossas danças, eu queria me integrar ao passado desta terra em todas as mulheres, naquela Anita maravilhosa, mulher gaúcha por excelência, e me via como chinoca de todos os peões, uma espécie de Hetaira sagrada dos Pampas. Sempre fui delirante...

Entretanto, é como se não fosse nascida aqui, neste sul, pois meu sangue germânico me confunde quando penso no gaúcho e no pampa, no chimarrão e na charqueada. Meus avós plantaram esta vinha numa tradição bem européia buscando um vinho alemão, e a biblioteca de meu pai lançou-me em todas as direções expandindo a minha mente e sobrecarregando o meu coração de uma universalidade conflitante com o espírito arraigado desta terra.

Mas minha infância feliz é a infância com Rôdo, a das nossas fugas e descobertas. A da nossa macieira e das galopadas; do minuano que nos arrepiava sob o pala e nos fazia tremer não só de frio, mas sobretudo de temor e respeito pelo poder misterioso desse vento, que varria a planura e entrava pelas frestas das portas e janelas uivando, e nos assombrava como o sopro do passado desta terra poderosa, cheia dos espíritos dos mortos de tantas batalhas.

 

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Encontro-me na sala deserta com Geraldo que eu queria evitar. Saúdo-o rapidamente para escapar ao confronto. Mas em vão. Ele me retém tocando-me o braço e olhando-me nos olhos com agressividade contida:

– Alma, está na hora de termos uma conversa. Sei que não gostas de mim, mas pouco me importa. Estás no meu caminho. Na verdade estás no caminho de todos nós. És a única a querer manter esta propriedade falida. Não vês que estás empatando as vidas de todos? Que queres, afinal? Tens algum trunfo? Algum capital escondido que salde as nossas dívidas? Sim, porque és uma espécie de feiticeira, dizem as tuas irmãs, e podes ter alguma varinha de condão, talvez.

- Meu cunhado – eu lhe respondi - infelizmente não tenho a varinha e nem sou jogadora como tu para ter um trunfo na manga. Mas algo me diz que a estância será salva, que ela mesma apontará o caminho. Ela nos pertence, ou melhor, pertencemos a ela. Pelo menos eu e Rôdo. As crianças, também...

– És mesmo uma sonhadora, não vês que Rôdo é o primeiro a querer a venda? Ele é que nos demonstrou a sua inviabilidade. Por quê vocês, artistas, não aceitam nunca a realidade? Vivem num mundo de sonho, de fantasia, que acaba por jogá-los na sarjeta. Ainda bem que não tens filhos...

Este comentário, puro lugar comum, acabou de irritar-me. Olhei Geraldo nos olhos e pude ver todo o seu ódio, o seu despeito. Ele e Solange se pareciam. Os pares estavam desencontrados. Pensei imediatamente nos gêmeos, aqueles anjos, e pensei neles como meus filhos. Eu não via naquelas crianças o menor resquício desse pai. Ah! Eu os queria para mim, e mais Patrícia e Pedrinho! O mundo era, afinal, injusto.

–Geraldo, daqui para diante evitemos falarmo-nos. Não adianta. Não há diálogo possível entre nós. És um homem prático, eu sei, e eu sou uma sonhadora, como meu pai. Fiquemos por aqui.

Afastei-me rapidamente sentindo o olhar despeitado do meu cunhado, sua cólera contida. Na varanda cruzo com o Alberto cambaleante. Quanto a esse, é um caso igualmente perdido. Agora já não disfarça, é bêbado de tempo integral. Sei que isso é uma doença, estou bem informada, mas não vejo facilmente salvação para ele pois está feliz na sua infelicidade. Beber ainda lhe dá prazer, que Deus o conserve assim. Ainda não viu a face do lobo. Mas, e os gêmeos? Estes dois querubins, pequenos Cosme e Damião, Christian e Hans. Este saiu primeiro e então Lúcia homenageou o grande Andersen, o que para mim é um sinal de sua sensibilidade poética a que eu deveria ter dado maior atenção, agora vejo.

Lúcia, minha irmã, eu sinto tanto ter-te subestimado por tanto tempo. Vem de ti, agora sei, a bondade, talvez a doçura destas crianças. Eras tão calada, em minha infância. Parecias tão dominada por Solange... e eu afinal estava enganada. Estás do meu lado, eu sei, como Rôdo que não me decepcionará, ou tudo estará perdido. Somos uma força de oito pessoas, contando com Aline e as crianças, que se opõem à venda. Do lado de lá estão somente Solange e Geraldo. Alberto, não sei, está em cima do muro como Humpty Dumpty, e quebrará como um ovo a qualquer momento. Poderei cooptá-lo? Lúcia, com tua atitude benevolente provaste amar-me e portanto estarás comigo no último momento.

Alberto também segurou-me o braço ao passar, mas de outro modo. Queria mostrar-me uma garrafa sem rótulo mas eu não lhe dei atenção e me desvencilhei. Precisava andar sozinha para pensar. Aquela noite eu queria reunir a nós quatro, contando com Laís, diante da minha macieira. Laís seria uma força desequilibrante, uma mente dissonante nesse encontro? Eu precisava conhecer melhor essa moça. Resolvi procurá-la e sondá-la antes do nosso ritual. Ela parecia ter demasiado personalidade para ser simplesmente uma “boa moça”. E queria demais levar Rôdo consigo para bem longe daqui. Meu irmão! Estarás em perigo? Trairás tua terra para ir com esse amor duvidoso? Não, não posso imaginar-te traindo-me.

Volto ao casarão quando já estava quase no limite do nosso jardim, na fronteira da nossa pradaria sem fim. Vou procurar Laís.

Encontro-a afinal, no quarto de Rôdo. Vendo-a pela porta entreaberta, bato os nós dos dedos na madeira, para não invadir o seu espaço. Ela olha a fresta de longe, percebe-me e convida-me a entrar. Está de lingerie, e que bela ela é. Usa um corpete provocante que valoriza os seus seios redondos e perfeitos. Ela parece satisfeita em deixar-me vê-la assim. É bem de mulher isso. Não dizem, afinal, que é para outras mulheres que nos vestimos, nós, mulheres? Talvez seja a mesma coisa com o despir. E a lingerie é o exato meio caminho nas duas direções. Olho-a inteira, que pernas magníficas! Meu irmão sempre foi exigente com as suas iguarias. O bon-vivant, o gourmet, o expert em mulheres, o estróina também. Amante da velocidade e dos prazeres óbvios mas com certo requinte, Rôdo escolheu esta potranca de luxo. Ou foi ela que o fez...

– Laís, em breve nos reuniremos para uma cerimônia que tenho certeza será decisiva. Mas não sei ao certo a tua posição. Não ficou clara para mim. Amas o Rôdo, não é mesmo? E queres seu bem, portanto, presumo...

–Alma, nada temas. Sim, amo o teu irmão e sei que ele me ama. Sei também o que a estância significa para ele. Contou-me toda a sua vida, a sua infância contigo nestes pampas. Não quero, portanto, forçar nada. Sei que se conseguirem conservar a propriedade, ele não ficará fisicamente preso a ela como já não o faz. Há maneiras de se fazer isso. Um bom administrador, por exemplo. Ou tu mesma te encarregarás disso? Sim, porque gostamos de viajar e temos muito planos de conhecer os quatro cantos do mundo. Somente... ainda não tenho certeza de que conseguirão pagar essas dívidas e salvar a propriedade. Como pensas fazê-lo? Teu irmão está persuadido de que és uma espécie de feiticeira, perdoe-me a expressão, e contou-me coisas espantosas a teu respeito. Não duvido de nada, mas confesso que tenho medo dessas coisas. O que pretendes desta vez? Precisas mesmo da minha presença? Tenho medo de assustar-me e perder o sono.

Sorri, mais tranqüilizada. Laís era, afinal, uma moça normal no bom sentido, e não poderia fazer mal ao meu irmão. Além disso, Rôdo era escolado na vida e jamais foi ingênuo. Tivera muita vivência pelo mundo afora. Era um homem do mundo e a última coisa que alguém deveria fazer era preocupar-se com ele. Sua independência era tanta que não se prendera nem à terra de nossa infância. Era talvez mais livre do que eu. Mas justamente essa era a minha preocupação: ele parecia poder viver sem a nossa estância, sem as nossas raízes. Eu o via pelo mundo, em alta velocidade na sua Ferrari, parando somente nos cassinos para jogadas rápidas, como nos inúmeros leitos por que passava, pobre Laís... Ou seria ela também uma aventureira, de inúmeros leitos? Não importava, esta bela mulher não tinha a marca de Lilith, o seu rictus nas sobrancelhas, e isso bastava para me tranqüilizar.

–Laís, estou tranqüila. Foste honesta comigo, e é o bastante para participares do ritual desta noite. Sei que alguma coisa acontecerá que me fornecerá uma arma ou uma idéia salvadora. Por quê sei isso? Não sei, sou assim... Sinto-me perto de uma solução que ainda não se configurou na minha mente mas que está próxima, eu pressinto.

Laís abraçou-me e beijou-me o rosto delicadamente, senti o seu cheiro, seu perfume francês e pensei: é uma pequena dama de luxo, mas honesta o quanto é possível uma bela mulher ser neste mundo. A beleza na nossa sociedade vale tanto por centímetro quadrado, que não é possível deixar-se de vendê-la ou comprá-la, de algum modo, desde quando o rosto de Helena “lançou ao mar mil navios”.

Afastei-me e fui procurar as crianças. Encontrei os gêmeos e Pedrinho brincando. Eles me rodearam e eu, disfarçando, fui conduzindo-os para o jardim, onde num canto, num pequeno caramanchão, pudemos conversar a sós sem perigo de sermos observados.

–Hans, Christian, Pedrinho, preciso de vocês. Vamos brincar de espiões, sim? Quero que vocês fiquem de olho daqui por diante em tudo que se passe nesta casa. Nas conversas dos adultos,  principalmente, e também nos seus passos, para onde vão, o que fazem. Está bem? Vai ser divertido.

—Tia Alma – disse Pedrinho – sei o que queres, e estou contigo. Vou seguir papai, está bem? Ele está muito misterioso, desaparece a toda hora e não é só para beber, eu sei. Ele nunca escondeu isso da gente, ele não consegue. Mas acho que deves pôr Patrícia também na brincadeira.

–Sei, Pedrinho – eu respondi– Patrícia será também uma agente especial como tu. A camarada Pati. Vamos, vamos, saiam brincando normalmente. Mas nada de saírem de suas camas de noite para brincarem disso, hem? Conheço vocês. Saiam agora, eu vou em seguida porque tia Solange e tio Geraldo podem estar observando nossos movimentos.

Os meninos saíram correndo. Eu tinha formado a minha rede de pequenos espiões. Hesitava apenas em colocar Patrícia nesse jogo. Ela me parecia muito vulnerável em sua pureza, ou demasiado apaixonada para brincar de espiã. Dirigi-me rapidamente de volta para o meu quarto para ver Aline. Eu já estava saudosa e ansiava por encontrá-la bem e refeita, curada. Encontrei-a de pé, de camisola, um pouco hesitante.

–Volta, volta, para a cama, sua louquinha. Ainda não devias levantar-te –disse eu- abraçando-a e conduzindo-a ao leito. Deitei-a com cuidado com se fosse de vidro, meu coração cheio de ternura. Não resisti e beijei-lhe os lábios que me pareceram muito quentes.

–Alma, que bom que você voltou. Senti tanto a sua falta... quanto tempo se passou? Você foi buscar-me lá, onde eu estava, no escuro, você me salvou do escuro. Depois deixou-me na luz, mas sozinha, não sei o que foi pior. Onde você foi?

Olhei o lindo rosto de Aline, sua boca maravilhosa, e me senti transbordante de amor. Eu queria embalá-la como uma criancinha. Percebi que ela era, afinal, uma mulher-criança na melhor acepção do termo. Tive muita sorte, apaixonei-me por uma mulher cuja feminilidade tem o cunho sagrado de uma Psiqué. E ela me ama. Ela me ama.

Fiquei longamente acarinhando-a, acariciando-a, beijando suas lindas mãos. Ela tinha os olhos nos meus, ternamente, e foi abandonando-se, semicerrando-os, até mergulhar num sono tranqüilo, sereno, afinal.

Levantei-me e saí, pé ante pé. Eu ia preparar tudo para quando Aline estiver pronta, curada, para participar da cerimônia da nossa macieira. Tenho pressa, mas esperarei que ela esteja restabelecida. As noites estão quentes, não podem fazer mal a ela. Depois... o que ela teve não parece ter sido gripe, resfriado ou coisa assim. Suspeito de uma espécie de esgotamento emocional. Minha guria é hipersensível e está tão envolvida comigo que isso ultrapassou as suas forças. Devo ter cuidado. Não chamarei os deuses e os numes como da outra vez. Quero somente homenagear o espírito da minha macieira e concentrar-me numa corrente junto com meus companheiros para receber uma inspiração. Serei fecundada por uma idéia, eu sei.

 

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Passaram-se dias, e o tempo me parecia suspenso. Minha rede de pequenos espiões trazia-me constantemente notícias, na maioria supérfluas. Mas certas informações, alinhavadas construíam um quadro de conspiração do qual Lúcia não mais participava. Solange e seu cunhado pareciam tramar algo contra mim para anular o meu voto. Eles também me espionavam. Queriam encontrar algo que lhes permitisse embargar-me como alienada ou coisa assim. Confabulavam com um advogado que trouxeram de Livramento e que parecia uma raposa. O perigo era iminente, mas como poderiam conseguir isso? Minha relação com Aline tinha transpirado? Não, não seria suficiente. Quais os argumentos dessa conspiração? Eu não poderia plantar uma criança espiã nessas suas reuniões a portas fechadas. Eu mesma tentava ouvir atrás das portas, mas em vão. A casa tem um madeiramento espesso, maciço. Reuniam-se freqüentemente na biblioteca, o que para mim soava como um sacrilégio. Quisera poder enxotá-los de lá. Ali era, para mim, um lugar sagrado. A sala do trono de meu pai. Eles a estavam conspurcando. Solange e Geraldo eram usurpadores, e o pobre Alberto, um bobo da corte, pequeno oportunista do momento. Por alguma razão, voltei a me lembrar de outro episódio referente à Solange, em nossa infância:

Eu possuía um diário quando guria, que me fora dado pela Mutti, e que tinha um cadeado de segredo que eu considerava seguro. Era um belo livrinho de capa dura de couro, e eu gravei meu monograma nele com pirógrafo. Em suas páginas eu comecei a exercitar o meu dom de registrar as impressões do meu dia, meus sentimentos e fantasias, que faziam parte da minha realidade a que eu já dava tanto valor. Eu adorava a idéia de que meus registros eram secretos, e por isso eu poderia ousar tudo e passar despercebida em minha ousadia, mental e espiritual, à vigilância da minha própria mãe e de Solange, a inimiga.

Minha irmã mais velha naturalmente odiou aquele objeto à primeira vista. O diário da Alma! Que coisas haveriam ali? Que ousadias, que transgressões, que pecados? Fiquei talvez mais vulnerável a ela, com a existência do meu diário. Minha mente afinal poderia ser invadida, violada. Meus segredos, meus tesouros... saqueados!

E foi o que realmente aconteceu. Solange descobriu o esconderijo do álbum e conseguiu arrombar o cadeado. Peguei-a em flagrante lendo-o e rindo. Fiquei furiosa. Avancei para ela que correu com o livro na mão até a piscina ameaçando jogá-lo na água. Estaria tudo perdido, o livro ficaria borrado e imprestável, e eu estaquei, estarrecida. Implorei a ela que me devolvesse meu diário. Ela então atirou-o para mim, dizendo:

–Toma aí, já conheço os teus pensamentos e eles valem alguma coisa principalmente para a Mutti, percebes? Agora estás nas minhas mãos. Vem beijar o meu pé ou irei contar a ela principalmente a terceira página. Vem, ajoelha-te e beije o meu pé, escrava!

E eu, tremendo de raiva e humilhação pelo medo que realmente senti, ajoelhei-me e beijei seu pesinho gordo que desgraçadamente lavei com minhas lágrimas. Eu demoraria ainda muito tempo para me sentir preparada para contar tudo... ao mundo.

Então, agora, às refeições participava esse novo personagem: o advogado de Solange e Geraldo. Esse cara de fuinha não era capaz de encarar-me. Ele percebia a sordidez da sua atuação e não ousaria olhar-me nos olhos. Ah! Mas eu precisava agir rápido. Como poderiam eles embargar-me? Que argumentos jurídicos forjariam? Não, não era possível! E Rôdo, por quê está assim inerte? Ele me defenderia, eu sei, mas com que argumentos? Eu estava insegura, sabia que o ataque deles aconteceria a qualquer momento... quando me chamassem solenemente à biblioteca. Se ousarem tocar no nome de Aline não sei do que serei capaz...

E se ele viram alguma coisa do que se passou no pomar? Poderiam internar-me como louca? Não, não, é pouco provável... eles teriam já se traído, feito alguma alusão àquilo. Eu passara à defensiva, o que é um sinal de fraqueza. Não estou indefesa. Tenho minha rede de espiões e tenho que ser combativa. Agressiva, se for possível.

À mesa, Solange, uma noite, lançou suas farpas:

–Alma, em breve estaremos assinando os papéis da venda, contigo ou não. É melhor que prepares a tua linda caligrafia. O doutor Lucena já preparou todos os papéis. Temos uma ótima oferta que já aceitamos. Ela cobre totalmente as dívidas e ainda sobra o bastante para todos nós começarmos uma nova vida longe dos fantasmas que só tu, por aqui, aprecias.

O advogado olhou-me nos olhos, mas diante do fogo do meu olhar  abaixou os seus, e ergueu o guardanapo aos lábios. Percebi que essa raposa guardava trunfos que tiraria da manga no último momento. Eu tinha de precaver-me. Se algum médico desconhecido, com ou sem enfermeiro surgisse por aqui, eu saberia do perigo de um golpe baixo. Eles bem seriam capazes disso. Em último caso restava-me a fuga com Aline, para não assinar nada e reunir forças longe daqui, como uma estratégia de guerra para a batalha final.

Ao pensar assim dei-me conta de que eu era, afinal, um tanto infantil em minha imaginação, e que eles se agarrariam a isso. Os adultos... Ah! O ser adulto é detestável, sempre pensei assim. Por isso sempre dialoguei em imaginação, ou mesmo na vida, com os artistas, os gênios, os poetas de todos os tempos. O homem chamado adulto é, para mim, uma degenerescência. Ele criou a feiúra do mundo, a burocracia, as leis, as prisões, e os hospícios. Não serei jamais uma adulta. Sou artista. Sou criança.

 

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Lembro-me do dia da morte de meu pai. Já andávamos pé ante pé pela casa, e eu já não era chamada ao leito há três dias. Isso me magoava. Eu não realizava que o Vati estava morrendo, embora esse pensamento me ocorresse às vezes, logo expulso. Então, ele me chamou. Solange, que administrava aquela porta, aquele quarto, transmitiu o desejo do velho, parece que a contragosto, não sei bem porquê. Ela pensava que ele não devia se desgastar, se cansar. E o velho estava morrendo...

Entrei, devagar, eu já era moça senão adulta. Fazem apenas seis anos. O velho, deitado no grande leito, apoiado em enormes travesseiros, com sua barba branca e os olhos azuis muito gastos, me pareceu bem mais velho do que eu comumente achava. Mas pareceu-me que o seu olhar se iluminou à minha entrada, e vi que a sua mão fez um ligeiro movimento que entendi como sinal para me aproximar e sentar-me à sua cabeceira.

Com dificuldade, a cabeça imobilizada, afundada no grande travesseiro, dirigiu somente o olhar para mim sentada na beira da cama segurando-lhe a mão.

– Alma,– disse ele num sussurro – filha do meu coração... Quero pedir-te que zeles pela estância, pelos quadros, pelos livros... e pela vinha. Não te desfaças do piano, que virei tocar para ti nas noites em que não sopre o pampeiro. Tu me ouvirás, eu sei. Só tu chorarás lembrando de mim. Talvez Rudi também o faça. Mas quero que chores somente pela alegria das boas recordações, que te ensinei que são o sal da vida. Não lamento nada, não lamentes também. Minha vida foi bela, principalmente ao teu lado, Alma, e sou profundamente grato a ti, minha guria. Agora vou partir... e quero fazê-lo olhando os teus olhos verdes e esse dourado do teu cabelo, que iluminou a minha vida.

Dito isso começou a estertorar. Assustada, pensei em correr para fora e chamar todos, chamar Rôdo, mas ele me apertava a mão retendo-me. Entendi que aquilo não era só um espasmo, mas que ele me queria ali, somente a mim. E fiquei vendo-o partir. Só eu vi-o deixar o nobre corpo cansado e percebi a sua alma saindo, quase avistei-a ou tive essa impressão que não me abandonaria mais. Eu iria chorar por ele, talvez não somente pelas boas recordações mas por sua perda que me parecia catastrófica, apesar de tudo o que me ensinou. Eu choraria diariamente por cinco anos. Até ir para São Paulo, para aqueles Jardins anódinos onde montaria o meu ateliê de pintora, na tentativa vã de me desraigar do Pampa, que se tornara uma ferida aberta.

Mas não custei muito a reconciliar-me com a estância, com as recordações, que quanto mais belas mais doídas me pareciam.

Agora eu estava aqui para zelar, como ele me pediu, pela nossa herança verdadeira: o sentido da beleza que só nós dois víamos em tudo isso.

 

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Dirijo-me ao quarto, ansiosa para ver Aline. Encontro-a restabelecida e radiosa novamente. Pareceu-me mais linda do que nunca, já vestida com o seu jeans como de costume. Ansiosa para sair do quarto, encontrou em mim todo o apoio e incentivo para isso. Não sou de cultivar doenças e resguardos. Agarrei a sua mão e saímos aos risos correndo para fora daquele quarto, para o jardim, que me pareceu mais florido do que nunca. Arranquei punhados de flores, braçadas, e cobri-a com elas. Trancei uma guirlanda de flores, uma coroa, e cingi a sua fronte, seus lindos cabelos negros. A vida me pareceu sorrir novamente e me enchi de esperanças. Se o meu amor levantou-se a vida teria certamente que levantar-se daquele limbo de incertezas, de perigos.

As crianças vieram juntar-se a nós, o que era previsível. Como pequenas abelhas no açúcar, em torno das flores da minha amada, revoluteavam em festa, em risos. Quem poderia contra isso, quem ousaria tirar-nos do nosso elemento: o riso e as flores? Mais tarde reunimo-nos no nosso quartel general, o caramanchão do jardim. Cercado de uma sebe espessa, florida, não podíamos ser observados. Eu recolhia ali as informações do dia, às vezes do dia anterior. Minha pequena equipe de espias se esmerava cada vez mais, trazendo-me informações preciosas, fragmentos sugestivos de conversas que eu ia recolhendo e alinhavando. Mas o que mais me impressionou foi a contribuição de Pedrinho. Resolvera concentrar-se em seguir seu próprio pai, Alberto, sem ser percebido. Contou-me que o seguiu até a adega, mas que ao entrar esgueirando-se pela escadinha e o corredor, ao chegar na cave não o encontrou. Aturdido com o fato, saiu correndo. Nos dias seguintes, tendo observado seu pai saindo da adega, repetiu a façanha de segui-lo, arriscando-se. Novamente, o mesmo mistério. Seu pai, Alberto, o bêbado, simplesmente sumia naquela adega, pequena, limitada, sem saída, como um beco subterrâneo. O menino estava assustado.

Aquilo me deixou perplexa e pensativa. Eu pensava conhecer aquela casa como a minha palma. Para onde ia o nosso bobo da corte? Eu precisava descobrir como o meu cunhado desaparecia dentro daquela cave, sem que meu interesse desse na vista, claro. Pedi ao Pedrinho que não comentasse aquilo com as outras crianças, dizendo-lhe ser um segredo só nosso. Dirigi-me num momento seguro à adega e fiquei ali, examinando cada centímetro daquelas sólidas paredes. O cheiro de umidade e o frio ali dentro eram constantes. Havia, claro, muitas estantes de garrafas, mas um perfume vinha de alguns tonéis de vinho que me remetiam a outros tempos, outras memórias. Até que percebi que um dos tonéis estava vazio e bem seco. Veio-me então a idéia de meter-me ali dentro. Mas para isso eu precisava prepará-lo para não passar muito desconforto. Saí e voltei com dois travesseiros, uma manta. Na parte superior do tonel havia aquele furo para o batoque... Por dentro do barril eu poderia observar, embora na obscuridade, toda aquela adega.

Coloquei-me lá dentro com uma lanterna de pilha, bem agasalhada e enrolada na manta, com meu relógio de pulso, e preparei-me para esperar o quanto fosse necessário. O silêncio e a escuridão me deixaram um pouco temerosa e com a sensação de estar naquele reino subterrâneo onde as almas são obrigadas a descer para atravessar o rio do esquecimento para escolher a nova vida. Comecei a ouvir alto o tic-tac do meu relógio de pulso, martelando, quase torturante. Não sei ao certo quanto tempo se passou. O tempo é uma sensação subjetiva e portanto elástico e passivo de ser comprimido. Lembrei-me do episódio da divina comédia, em que Dante vê, num dos bolges do Inferno, um demônio gigante, arqueiro, que flexionava o imenso arco armado com uma flecha, lenta e poderosamente, mirando um alvo qualquer. O gigante solta a corda, e Dante, então, espantado, vê a flecha sair lentamente. Perplexo, ele pergunta a Virgílio porque a flecha saiu assim tão devagar de tão potente arco. Virgílio, então lhe responde concisamente como era de seu feitio, nessa relação com o florentino: “Quanto maior a expectativa, mais devagar sai a flecha.”

Senti claramente essa verdade, comparando meu tempo interior de espera ansiosa com o andamento dos ponteiros do relógio no meu pulso, sob a lanterna, dentro daquele tonel, útero no ventre da terra cuja epiderme era o casarão.

Finalmente a porta se abriu e senti, mais do que vi, um vulto entrar na adega. Devia ser Alberto, o que confirmei quando ele acendeu uma vela com o seu isqueiro iluminando o seu rosto avermelhado, o nariz mais que o resto. Prendi praticamente a respiração e preparei-me para observar-lhe os mínimos movimentos. Lembrei-me de que quando bem criança perguntei ao meu pai o que era o umbigo. Ele, com seu costumeiro senso de humor respondeu-me que aquele furinho era o olho mágico dos bebês, uma espécie de periscópio na barriga de suas mamães, para observarem o mundo e saberem quando era hora de saírem. Apesar de muita pequena, percebi que aquilo era uma piada, uma brincadeira, e esse entendimento precoce de uma graça ingênua, despertou o meu senso de humor, que eu desenvolveria desde a infância, senso esse ensejado sabiamente por meu pai.

Agora, ali, no ventre do tonel, eu substituíra o espírito do vinho. Assim divaguei por um segundo, e logo concentrei a vista nas mãos do meu cunhado, que iluminadas tateavam a parede do fundo da adega.

Então subitamente a parede girou, abriu-se, sei lá, e vi-o penetrar numa zona ainda mais escura. A parede tornou a fechar-se. Tratei de sair depressa do meu posto de observação. Deixando dentro do tonel todo o meu equipamento esgueirei-me rapidamente para fora da cave antes que Alberto voltasse. Eu teria muito tempo para explorar a descoberta do bufão. Agora tinha de preparar-me para o cerimonial da minha macieira, que eu já sabia que seria só de agradecimento embora ainda não soubesse exatamente por quê.

 

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As lembranças que tenho de Ana Morgado, minha mãe, não são exatamente agradáveis. Faltava-nos afinidades, essa é que é a verdade. Eu sei que isso não costuma ser decisivo na questão do afeto entre mãe e filhos. Os filhos amam suas mães, mais ou menos incondicionalmente, e vice–versa. Mas no meu caso, pela minha natureza de artista, isso produziu um enorme distanciamento, uma vez que minha mãe não aceitava a artista em mim. Ela tinha, pobrezinha, uma mente tacanha, e desejava somente a “normalidade” para todos os filhos. Isso quer dizer uma mediocridade cinzenta, pois católica descendente de portugueses açorianos temia o destaque, a paixão, a notoriedade, enfim, o talento. O artista para ela era um ser estranho que se exibia, que não se comportava bem. Um ser que amava demais a vida e a beleza, o que para ela era uma espécie de pecado pois estava convencida da doutrina do “vale de lágrimas” que herdara de sua formação e de seus avós portugueses.

Lembro-me de discussões precoces que tive com ela e de como isso me magoava. Ela temia sobretudo a sensualidade que pressentia em mim, que não obstante, acredito, não comprometia a pureza do meu coração... e mesmo a da minha mente. Eu me tornaria, por essas características, uma poetisa lírica, sonetista, além de contista confessional que nada esconderia do público. Por outro lado eu era incentivada, felizmente, por meu pai cuja afinidade comigo era quase total. Isso produziu um apego e uma mútua admiração entre nós dois, a toda prova. Tive esse privilégio, afinal, de ser totalmente aceita, acreditada, incensada mesmo pelo velho cirurgião artista cujo talento para a música e a enorme erudição literária, filosófica e artística era uma fonte de deslumbramento e aprendizado para mim.

Minha mãe tentou algumas vezes reprimir as minhas explosões de alegria e até algumas lágrimas de sensibilidade à beleza, e isso produziu em mim pequenas chagas de frustração e mesmo um certo ressentimento que tive de lutar para superar.

Todavia, o episódio mais grave foi realmente aquele do flagrante que nos deu, a mim e a Rôdo, nus, sob a nossa macieira. Aquilo, concordo, pode ter-me marcado mais do que percebo. Uma vez moça, eu me entregaria a paixões com uma intensidade talvez desmedida; e um certo timbre, levemente masoquista, que devo reconhecer em minha sexualidade e que me causa tanto prazer, se deve certamente àquele incidente da minha infância.

Mas eu falava de minha mãe. A pobre morreu quando eu tinha treze anos, creio que por pura falta de élan vital, de amor à vida, ao amor. No entanto ela não era má. Eu poderia escrever um poema trágico sobre ela e sua vida, árida, sem cor. Ou pelo menos um poema patético. Cabe ao poeta, sempre, revelar a poeticidade dos seres e das coisas. E minha mãe, afinal, não escaparia de merecer um poema. Mas penso que ela se constrangeria, lá onde está, de ser posta por um momento na berlinda, quero dizer, no pensamento de alguns estranhos: os leitores. Além disso faltava-lhe (falta grave), o maravilhoso senso de humor que notabiliza a espécie humana. Lembro-me de um episódio em que, criança, à mesa, soltei uma tirada cômica verdadeiramente inspirada, pareceu-me, pela gargalhada súbita do Vati e dos meus irmãos. Minha mãe entretanto fechou a cara e deu-me uma pequena bofetada, dizendo: “Despudorada! Queres exibir-te sempre, não é?” Aquilo me magoou sobremaneira e apoiei a cabeça abaixada sobre meus braços na mesa, e solucei amargamente. Mas fui logo consolada por meu pai que ralhou com a Mutti e pegou-me em seus braços com um carinho enorme e carregou-me no colo embora eu já fosse grandinha. Aquilo compensou tudo. E eu como criança não pude deixar de mostrar a língua, disfarçadamente, à minha mãe.

 

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Passei o dia concentrada, parecendo um pouco alheada às crianças que trataram de brincar entre elas, afastando-se naturalmente. É incrível a sensibilidade e o respeito que estas crianças demonstram.

Chegando a noite preparei-me em pensamento para o cerimonial que planejei. Também corporalmente, pois vesti-me com uma espécie de túnica branca lembrando as antigas gregas, até os tornozelos. Coloquei sandálias finas, leves, prateadas. Fiz um penteado como eu via nas ilustrações das ânforas, nos livros. Delineei os olhos com um traço preto longo, ressaltando-os. E um leve batom nos lábios. Aline ajudou-me. Depois eu a vestiria de maneira semelhante, cuidadosamente, caprichando em sua maquiagem. Pude apreciar melhor, em sua figura, o efeito dos nossos preparativos. Ela estava belíssima, encantadora, como eu a projetava em minha imaginação naquelas Ilhas Bem Aventuradas, em cuja existência sempre acreditei num plano espiritual. Saímos de mãos dadas pelos fundos da casa diretamente para o pomar. Era importante que não fôssemos vistas pelos outros da casa.

Encontramos Rôdo e Laís próximos à nossa macieira. A noite estava esplendorosa, numa verdadeira festa de luzes e sons. A lua cheia, como eu aguardara, os sapos e grilos em alegre balbúrdia, mas os pirilampos mais discretos diante do seu fulgor.

Rôdo estava vestido como sempre com sua bombacha que usa quando está aqui, mas notei-lhe um certo apuro na camisa ligeiramente bordada no arremate degolado e nos punhos. Trazia uma faixa enrolada na cintura, com as pontas também bordadas. Nas botas, tivera também a sensibilidade de não trazer suas esporas de prata, que além de tilintarem denunciavam arrogância, inadequada à nossa cerimônia. A humildade seria a tônica de nossos ritos nessa noite. Laís, felizmente, não fugira a esse acordo tácito e estava linda e discreta num longo simples de tom perolado, com os cabelos lindamente trançados. Estava talvez um pouco mais ostensiva, com um colar de ouro e pérolas, e brincos iguais.

Diante da ara de nossa macieira, acendi a minha trípode com as ervas aromáticas, acrescentando uma grande folha de parreira, que estando verde produziu um intenso fumo que ascendeu à lua numa coluna quase reta, pois não tínhamos a mais leve brisa, o que eu considerei propiciatório.

Em torno da pira demo-nos as mãos olhando para o alto, para a lua, onde o fumo se desvanecia, e permanecemos estáticos, os braços abertos, ligados pelas nossas mãos. Olhamos o fulgor branco da grande lua, até a nossa vista se ofuscar e entrarmos num estado de suspensão de tempo e espaço em que nossa matéria pareceu perder o peso, sentindo-nos como que levitando. Ouvi então a minha própria voz, dizendo, solenemente:

–Lua, Lua fulgente, olho esplendoroso da Noite, olha-nos! Aceite a nossa oferenda, o fumo da videira e das ervas irmãs! Diante da macieira sagrada do Paraíso recuperado da nossa infância, de onde outrora fomos expulsos, nus e crianças, aceita ó Lua, diante da Ara dos Pampas, a nossa devoção e humildade. Dá-nos, ó Lua, tua sabedoria maternal, benevolente, de mulher, já que a astúcia maligna, Lílith, pertence ao teu lado escuro que não veremos jamais! Diz, ó Lua, o que queremos saber, a resposta ao perigo que nos aflige. Como salvar a estância, a casa, a vinha e o pomar? Como salvar tua Ara, ó senhora?

Permanecemos assim, suspensos no ar, e creio que a levitação se deu realmente por um tempo indefinido, talvez infinito do espírito, e quando pousamos eu já sabia o que fazer. A solução estava presente em minha mente... e no meu coração!

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Quando os Welt chegaram a Alegrete traziam um considerável capital. Haviam prosperado pelo trabalho árduo na terra, nas colônias alemãs da região do Vale do Itajaí em Santa Catarina, sem esquecer nunca a sua ambição de se tornarem senhores de uma grande fazenda. Ouviram falar do extremo sul do Rio Grande, região dos Pampas, o que passou a crescer como uma obsessão na mente do meu avô. Tornar-se um estancieiro. Daí para encontrar a terra que afinal lhe caberia, foi um passo. Mas esse passo não excluiria uma tragédia.

Na região da fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento, havia uma grande estância muito antiga que se tornara decadente após duzentos anos de trabalho, de batalhas e desperdício. Seus donos foram “maragatos” na guerra dos pica-paus contra o Império, e sofreram muito com isso. Depois da derrocada da monarquia, a decadência daquela família foi gradativa ao longo de mais duas ou três gerações. Até que ali chegou meu avô, duro velho alemão que fez uma oferta tentadora ao seu último dono, um gauchão alquebrado pelas dívidas e roído pelos ressentimentos. Meu avô foi muito mal recebido apesar de se apresentar como solução para aquela família que já avistava a necessidade. Os gaúchos o chamavam o “teuto” ou o “boche”, mas somente pelas costas pois meu avô não era homem de ser desrespeitado e seu porte imponente e sua extrema severidade germânica, impunha-se logo de saída. Com dois metros de altura e mãos enormes, uma força cavalar e uma catadura de nenhum amigo, o velho Joachim Dietrich Welt tinha aquela presença majestática dos antigos germânicos, ou dos vikings. E uma agressividade contida, cortante, que lhe saía dos lábios finos como uma fenda.

Conheci por pouco tempo o meu avô, e não gostei dele. A doçura e a sabedoria de meu pai contrastava demais com aquele guerreiro do Walhalla instalado ali nos Pampas. No entanto devo reconhecer o seu valor, a sua enorme força de trabalho, a sua obstinação.

Mas é preciso que se conte que o estancieiro gaúcho, pouco tempo depois de fazer a venda ao meu avô, totalmente ataviado a caráter, de bombachas bordadas nos lados, botas e esporas, faixa na cintura com punhal de prata atravessado, lenço vermelho no pescoço e chapéu de barbicacho dobrado para cima na testa, enforcou-se num sótão do casarão numa viga do telhado, pelo seu laço de couro trançado. Aos seus pés, a bomba e a cuia esparramadas, pois ele tomara o chimarrão até o último momento, deixando-o cair ao lançar-se da banqueta.

Sua família, a viúva e filhos, velou-o na sala principal entre quatro tocheiros, soluços e gritos. Não faltaram também imprecações contra o meu avô e até mesmo uma praga gaúcha, que ao que parece não pegou ou então pegou tardiamente a julgar pela nossa situação atual. Após o enterro na própria estância, aquela família retirou-se num carroção de arcos que deixou a casa afastando-se lentamente. Minha avó contou-me que avistou ainda à passagem da porteira, dentro do carroção, uma menina daquela família brandir o pequeno punho fechado contra eles, os meus avós. Imaginei-me naquela situação e pensei que talvez eu não deixasse aquela família ir-se, o que sei, no entanto, que seria inviável: o ódio daquelas mulheres e crianças corroeria estas paredes por dentro.

Em minha infância, todavia, não percebi sinais dessa maldição, e o trabalho árduo de meus avós e seus empregados, muitos dos quais, peões remanescentes do antigo dono, neutralizaram qualquer maldição que porventura pesasse sobre esta casa. Meu avô não tardaria a se tornar respeitado na região como homem sério e laborioso. Entretanto a estância não prosperava mais apenas com o resto de boiada, o charque e o mate, e foi aí que o velho teve a idéia, que na verdade era um antigo sonho, de plantar o vinhedo que o tornaria conhecido na região.

Quando Werner afinal reconciliado com meus avós trouxe-lhes a nora indesejada, começou o período de plantação da vinha, da construção das adegas, do lagar e dos grandes barris de madeira. Ana dedicou-se a gestar e parir mais um filho e a cuidar dos três crescidos, como boa esposa e mãe enquanto meu pai começava a sua carreira de médico cirurgião no meio rural e em cidades pequenas. Meu avô, ocupado com a vinha, reinava como um déspota enquanto minha avó cumpria seu papel de benevolente eminência parda. Foi nessa época que meu pai começou a formar a sua grande biblioteca cuja base ele trouxera da Europa, em idioma alemão e francês, e que viria a ser o centro do nosso mundo, meu e dele. Logo deu-se a entrada do grande piano Steinway, usado mas perfeito, que ele conseguira adquirir não sem algumas altercações com o velho Joachim cujo sangue germânico falou mais alto, afinal, quando seu filho, o jovem cirurgião, tocou para convencê-lo o “Cravo bem temperado”.

Essa foi, meu pai contou-me um dia, a única vez que pôde avistar um brilho diferente, úmido, nos olhos do velho agricultor.

 

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Agora eu estava preparada, embora sob grande expectativa, para a descoberta do mistério da adega. Após a cerimônia no pomar confabulamos, e eu então contei aos meus parceiros o que estava acontecendo com Alberto, o enigma do seu sumiço atrás da parede que se abria. Ficaram excitadíssimos e combinamos então, para aquela noite, bem tarde, quando as irmãs e cunhados estivessem em sono profundo, encontrarmo-nos os quatro na adega, para desvendar aquele segredo.

Assim fizemos. Aquela noite, um a um, pé ante pé, deixamos nossos leitos. A excitação não nos deixara mesmo adormecer, e ainda com nossas roupas de dormir encontramo-nos pelos corredores e descemos à adega com nossas lamparinas.

Uma vez lá em baixo, com os corações acelerados tateamos aquela parede do fundo sofregamente. Demoramos muito, mas afinal encontramos uma falsa rachadura no tijolo, cujo pedaço, pressionado funcionava como um botão. A parede começou a girar nalgum eixo em sua exata metade, deixando-nos ver uma profunda escuridão, aterrorizante. Como se estivéssemos numa tumba egípcia, numa pirâmide, nossa emoção atingiu um pináculo onde podíamos ouvir nossos quatro corações galopando. Entramos.

Erguendo nossas quatro lamparinas ao mesmo tempo avistamos a maior adega que se pode imaginar, imensa, como um salão cujas dimensões não pudemos calcular pois seus extremos perdiam-se na densa escuridão que recuava apenas num certo raio em torno das nossas quatro modestas fontes de luz. Avistava-se um verdadeiro mar de estantes com garrafas. Meu irmão, percorrendo a estantes calculou por alto que devia haver umas cinco mil garrafas. Agarrou uma, depois outra, sem rótulos, empoeiradas, antigas. Voltou para o começo do salão e tirou uma das primeiras garrafas da primeira estante. Havia um rótulo manual, provisório, com uma etiqueta amarelada manuscrita, que ele leu alto:

 

SAFRA DE 1962

Para meus netos, com minha benção

Joachim

 

Emocionados, vimos Rôdo “sabrar” o gargalo com um golpe seco de sua faca gaúcha, como um hussardo, aspirá-lo e depois derramar na boca bochechando antes de engolir. Não fora “pro vinagre”! Agarrei a garrafa, tirei-a de sua mão, repeti os seus gestos, e maravilhada reconheci o melhor vinho que jamais tinha provado em minha vida, aquele que aparecia na nossa mesa pelas mãos de Alberto. Só que agora eu percebia o alcance daquilo tudo. A mensagem contida desde o começo naquelas garrafas sem rótulo que chegavam ainda um pouco empoeiradas pela mão do nosso abençoado beberrão. Estávamos diante de toda uma safra excepcional de quarenta anos atrás, a verdadeira herança dos meus avós da qual eu tenho dúvidas sobre o conhecimento de meu pai que morrera endividado.

Como então havia um subterrâneo como esse, vastíssimo, que se estendia sob todas as dimensões do casarão sem que meu pai o tivesse mencionado uma vez sequer em sua vida, e muito menos em seu leito de morte ou no testamento? Com pudera meu avô construir aquilo sem o seu conhecimento e o da minha mãe? Talvez aquilo já existisse ali há muito tempo, certamente construído por escravos em épocas tenebrosas, com outros fins.

Agarramos uma garrafa cada um de nós e saímos. Eu já sabia o que fazer. A primeira providência seria chamar um especialista, um enólogo, para que julgasse o nosso vinho, desse o veredicto. Tudo dependia da qualidade dessa safra.

Excitadíssimos, fizemos o percurso de volta fechando a parede à nossa saída, e com as nossas lanternas cuja luz tremeluzia em nossas mãos trêmulas de emoção retornamos aos nossos quartos.

Aquela noite eu amei Aline com todas as forças do meu entusiasmo renovado, e dormimos abraçadas e saciadas. Eu já estava feliz por antecipação. Sempre tive a vocação da esperança, e algo me dizia que aquele vinho seria a nossa salvação, o verdadeiro sangue da nossa terra que corria novamente em nossas veias.

 

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De manhã cedo tivemos nosso quarto invadido pelas crianças, alegremente, como um bando de pássaros matinais. Rodearam nosso leito falando ao mesmo tempo, rindo, nada espantadas de nos verem juntas sob o mesmo lençol, as maravilhosas crianças! Beijavam-nos perguntando em alegre expectativa as novidades auspiciosas que pressentiam.

– Crianças, – eu disse – reunião geral no jardim às 9:00 horas! Todos lá, no nosso quartel general! Revelarei a vocês as novidades. Vamos, vamos! Saiam agora para nos banharmos e vestir-nos.

Após um alegre café da manhã com Lúcia, Geraldo e Patrícia, em que meu cunhado não parou de me olhar com desconfiança  estranhando a minha animação, puxei Patrícia para o nosso encontro no caramanchão.

Ali reunidos fiz um certo suspense com as crianças que pulavam de excitação em torno de mim e Aline, e anunciei:

– Crianças, descobrimos algo que pode salvar a nossa estância. Mas não posso ainda revelar a vocês. É melhor assim, creiam. Assim evitaremos possíveis decepções. Mas conto com a discrição de vocês. Lembram-se do juramento, meus pequenos espiões? Então, necessito da fidelidade a toda prova, de cada um de vocês. E disciplina, somos uma equipe, não somos? Continuem investigando. No final vocês terão uma bela notícia, espero. Salvaremos a estância. Mas por ora permaneçam como sempre espionando os adultos. Eu lhes prometo beijos e alegria no final, para sempre.

As crianças deram pulos e abraçaram-me uma a uma e à Aline. Emocionada, tive um ligeiro pensamento temeroso de que algo pudesse nos decepcionar. Mas afastei como de costume esse pensamento. Os deuses não poderiam nos faltar pois eu os amava como nunca.

Fui passear com Aline muito além do jardim, penetrando naquela fronteira onde o Pampa se fazia ver inteiro, com as flores silvestres saudando-nos na planura semeada de raras e esparsas árvores, algumas imponentes, ao longe. Olhei Aline nos olhos, seus lindos olhos azuis e disse:

–Meu amor, quero cavalgar contigo lado a lado. Se tiveres medo continuarás na minha garupa, bem agarradinha a mim. Quero correr como nunca estas coxilhas. O pampa é meu, ele é nosso, novamente. Eu não o perderei nunca, eu acredito. Venha, venha, selemos nossos cavalos.

Voltamos, procuramos Galdério que nos selou dois pampeiros e ajudou-nos a montar. Saímos do território do casarão e entramos na pradaria seguidas por pássaros e borboletas, segundo me pareceu, acreditem. Tudo me parecia auspicioso e o lindo dia sem nuvens, num azul puríssimo refletia-se nos olhos da minha Aline com um fulgor inesquecível. Galopamos como nunca e eu me admirei de ver a coragem de Aline galopando pois ela nunca o fizera antes sozinha. Sua alegria lhe dava essa harmonia com a montaria, e mais uma vez eu a queria comer de beijos, engoli-la, colocá-la dentro de mim, minha maravilhosa Aline, minha parceira, minha amada. Com ela eu repartiria minha herança, meu corpo e minha alma. Senti-me voando sobre a coxilha, chegando até as Missões, rodeando pelo ar as ruínas do nosso passado grandioso. E essas ruínas se tornaram, nesse ligeiro delírio, as bases do nosso casarão ressuscitado. Martim Fierro corria conosco, ao nosso lado; Rodrigo Cambará e sua Bibiana, Ana Terra e os índios com suas faixas vermelhas na testa, numa cavalgada imensa que nos escoltava em nossa alegria, nosso entusiasmo revivido.

 

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Escrevi uma cuidadosa carta para Hermann, enólogo e sommelier, em Porto Alegre. Citei meus avós, além do nome da nossa estância e dos nossos vinhos mais conhecidos, mas sobretudo o nome de meu pai, que ele disse conhecer. Pedi-lhe que viesse hospedar-se em nossa casa, que o receberíamos com todas as honras, para que ele nos brindasse com os seus conhecimento e desse o veredicto sobre a nossa safra recém descoberta. Agucei-lhe a curiosidade com as minhas palavras calculadas, acredito. Depois lacrei a carta à maneira antiga com lacre vermelho e as minhas inicias A W, e selei-a. Fui à cozinha, tomando cuidado para não ser observada por ninguém, e chamei Galdério. Pedi-lhe que levasse a carta à agencia de correio da nossa estação ferroviária. Pedi-lhe discrição, que pegasse a charrete e acaso fosse interceptado por Solange não mostrasse jamais a carta e fornecesse um motivo qualquer para a sua saída, uma compra de material de escrita para os meus poemas, por exemplo. Encontrei a seguir Patrícia que me puxou pela mão para o seu quarto, e abriu-se:

–Tia Alma, por favor, manda Galdério levar minha carta também, eu sei que tu deste a ele uma carta para levar. Perdoa-me espionar-te. Mas é a oportunidade que tenho, tia, por favor, leva a minha carta também. Assim mamãe nada perceberá.

Peguei a sua cartinha, levei-a aos seus lábios e abracei-a a minha sobrinha por uns segundos de infinita ternura. Saí rapidamente e encontrei Galdério encilhando a égua e preparando a charrete. Confiei-lhe também a carta da minha sobrinha, recomendando que a escondesse com sua vida caso Solange o interpelasse no momento de sua saída ou à sua volta, em qualquer tempo. Eu sabia que Galdério me seria sempre fiel. Por quê eu sabia disso? Porque ele acreditava que me devia a vida. Eis a estória:

Quando eu era ainda adolescente, Galdério, homem feito, tivera um período conturbado em que praticamente se viciara no jogo de truco a dinheiro, e endividara-se com outro peão. As dívidas de jogo são sempre sagradas, e ele não podendo saudar sua dívida estava jurado de morte por um peão truculento que tinha fama de já ter despachado mais de um desafeto para o reino da Salamanca. Esse homem brigava de faca como um demônio e atirava como um capanga de Satã. Galdério andava apavorado e estava prestes a enfrentar o outro gaúcho num duelo a faca do qual na certa não sairia vivo. Tendo sabido disso pelo desabafo desesperado de Matilde, sua irmã, não tive dúvidas e reuni todas as minhas economias e um pouco das de Rôdo e dei-as ao Galdério para que saudasse a sua dívida, recomendando a ele que não jogasse nunca mais. O gaúcho caiu-me aos pés e beijou a fímbria do meu vestido comovidamente, dizendo;

–Senhorita Alma, devo-te a vida. Serei fiel à minha patroinha por toda a vida. Conte comigo para sempre até a minha morte e além dela. Eu velarei pela senhorita como uma sombra e não permitirei que nada ameace a tua felicidade, no que estiver ao meu alcance.

Senti-me como uma princesa e pousei minha mão no seu ombro, abençoando-o. Agora eu sabia que ele se deixaria torturar sem jamais revelar meus segredos, e por extensão os dos meus protegidos. Podíamos confiar nele.

Fui em seguida procurar Rôdo. Encontrei-o charqueando, cortando com a sua faca de cabo de prata tiras de uma manta para o nosso almoço, enquanto a chaleira chiava para o mate. Parou e preparou o chimarrão para compartilhar comigo. Estava bem, apaziguado. Ele também tinha esperança no nosso vinho. Disse-me:

–Alma, se aquela safra de quarenta anos for como pensamos, excepcional, talvez possamos saldar a nossa dívida se soubermos negociá-la bem, com eficiência. Para isso teremos que evitar ao máximo os intermediários. Eu mesmo quero vendê-la para os grandes restaurantes. Mas precisamos também fazer algum tipo de propaganda, pelo menos entre os aficionados. Alma, tu terás de desenhar um belíssimo rótulo e projetar folhetos e textos que incitem a curiosidade e o apetite, a sede dos possíveis clientes. Minha irmã, dedica-te a isso assim que tivermos a prova e a nota do nosso especialista. Conto com a tua mais bela obra de arte. Tu já sabes como chamará o nosso vinho?

–Sim, Rôdo, eu já sei. Vamos batizá-lo de “Ara dos Pampas” e o desenho no rótulo será circular, disso já tenho certeza. O desenho ocorrerá na hora. Confio na inspiração do momento. Mas as letras devem ser góticas, em homenagem aos nossos avós. Foram eles mesmos que nos legaram a salvação de nossa casa, a nossa Herança.

 

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Capítulo Terceiro

 

O SANGUE DA TERRA

 

Dois vultos montados trotavam no Pampa envoltos nos palas sob o frio enregelante do minuano. Naquela madrugada do ano de 1974 chegariam à nossa estância os irmãos Matilde e Galdério, vindos do “Oriente”, onde trabalharam para hacienderos uruguaios que afinal os decepcionaram. Voltavam então para o nosso lado com o linguajar eivado de expressões castelhanas, mas dispostos a reconquistar seu lugar no pampa brasileiro de seus antepassados. Meu pai os receberia, pois uma carta elogiosa os antecedera recomendando-os. Eu já era nascida, Matilde foi a parteira de Rôdo e praticamente criou-o com um amor e dedicação toda prova. Galdério seria o meu pajem, meu servidor, até aquele momento em que salvo por mim de sua dívida, elevaria a sua dedicação a um nível de devoção que tantas vezes me comoveria.

Minha infância na estância foi de um modo geral, maravilhosa, graças ao carinho de meu pai e seus ensinamentos, à grande emulação que senti com seu pendor artístico, mas também pela dedicação daqueles dois irmãos. Também Rôdo, que seria sempre um amor da minha vida, meu irmãozinho mais novo e o mais cheio de personalidade, vitalidade e talvez de intensidade, de todos nós. Ele daria muito trabalho aos meus pais, muitas preocupações... mas para mim ele foi uma das fontes da alegria, tendo exercitado a minha alma no amor. Na verdade ele foi o primeiro, pois o amei mais que a um irmão e não me arrependo disso. Não me arrependo de nada, embora tenha sido magoada por isso pela minha mãe. Eu seria sempre a pequena rebelde, quase transviada, para ela, enquanto para mim mesma tive sempre a certeza das razões inquestionáveis do meu coração, de sua sabedoria que me conduziu sempre em meu caminho de artista predestinada. Não me deixei jamais, e disso me orgulho, contaminar pela culpa, pelos remorsos, por qualquer fantasma de “pecado” que me quisessem impingir.  Assim também Rôdo, talvez pelo meu exemplo, passou incólume por aquele episódio e continuou fiel e leal ao nosso pacto de amor, e a prova disso foi paradoxalmente, o grande número de paixões, namoros e amantes, de que iria desfrutar ao longo de sua juventude, sem nunca renegar a sua afeição incondicional à mim, sua irmã querida a quem ele beijava as palmas das mãos toda vez que reencontrava, em sua turbulenta existência de jovem aventureiro.

Por outro lado, Solange se constituiu na sombra ameaçadora de minha vida. Minha irmã mais velha não disfarçava seu ciúme, sua implicância, seu despeito diante do afeto do meu pai e do meu irmão por mim, que ela nem sequer sabia disputar. Ela não entendia que esse afeto era natural, fruto de nossas afinidades de artistas. Perseguia-me com sua vigilância, seu moralismo rancoroso, e freqüentemente intrigava-me com minha mãe. Mas tenho que contar aqui um episódio estranho da nossa convivência na infância, em que por um momento ela me comoveu:

Eu era adolescente de dezesseis anos, e minha sensualidade espontânea e um tanto acima da média daquela época fazia-me o alvo das críticas e implicâncias de minha irmã Solange, e da vigilância de minha mãe açoriana, que na verdade eu conseguia habilmente driblar.

Rôdo fora excursionar uma temporada com seus colegas da escola, deixando-me um tanto só e carente, num período de introspecção melancólica, quando recebi a notícia da chegada de uma prima alemã que vinha da Bavária, conhecer os parentes brasileiros do extremo sul do Brasil, em especial a prima Alma, de sua mesma idade, e de que lhe falaram tanto em cartas: a prima bela que escrevia poemas, dançava balé e pintava, que era eu.

Assim, eis que afinal chegou essa prima (vou chamá-la Helga), e me surpreendeu. Uma linda alemã, loura, de olhos azuis, tipicamente germânica, cujo elemento de surpresa portanto era outro, que não as suas características físicas, mas o timbre ativo, quase viril de sua sensualidade inesperada. Helga chegou, botou seus olhos sobre mim e se apaixonou imediatamente. Eu estava um tanto surpresa, embora estivesse acostumada à recorrência desse fato, já então, em minha vida desde a infância.

Mas Helga, sendo bela e prima da mesma idade, não levantaria jamais suspeita em minha mãe, embora o fizesse, sim, em Solange, minha irmã e espiã incansável. Consegui, no entanto ficar a sós com minha prima e confidenciei-lhe precipitadamente, como um acordo tácito ao primeiro olhar, a situação de vigiada em que vivia, sem necessitar explicar a causa, naturalmente. Pronto, estávamos entendidas, e estabelecida a cumplicidade. Dali por diante, pegávamos a mão uma da outra e fugíamos para cá e para lá, em busca dos recantos relativamente seguros que descobríamos para despistar Solange. E isso, por si só fazia nosso coração bater mais forte e nos aproximava mais e mais. Logo passamos a nos beijar nos lábios, para comemorar, assim que descobríamos novo esconderijo. O perigo daquele jogo de esconde-esconde, com a megerinha da minha irmã e a ameaça repressora de Ana Morgado, minha mãe, tornava aquela temporada aventurosa para duas meninas, e começamos, conseqüentemente, a nos sentir apaixonadas. Como dormíamos no mesmo quarto, com a Lúcia, minha outra irmã que permanecia neutra conquanto eu suspeitasse ser uma disfarçada agente de Solange, nossa noite só começava quando ela estava seguramente adormecida, e levantávamos de nossas camas, pé ante pé, fugíamos do quarto e atravessando a sala do casarão adormecido, alcançávamos a varanda e atingíamos o jardim florido, fantasmagórico, prateado sob a imensa lua de verão, e chegávamos de mãos dadas e já aos beijos à minha antiga casa de bonecas, que embora pequena nos oferecia uma relativa segurança, pois eu levava meu cadernos de poesias, como um álibi para pretextar confidências poéticas de moças, ou uma ajuda na versão dos meus versos para o alemão caso fôssemos surpreendidas. Para todos os efeitos eu estaria lendo meus novos poemas para Helga, já que tivéramos insônia.

Ali, caíamos nos braços uma da outra em beijos apaixonados, ofegantes, com o coração aos pulos, como eu ficava também com o Rôdo em análogas situações. Helga era ardente como eu, e nossas afinidades me deixavam em êxtase, eu não me sentia mais só, jurando amor eterno uma à outra. Logo estávamos deitadas num colchonete que eu camuflava na casinha de bonecas e que estendíamos no chão para passarmos a noite abraçadas e aos beijos até o alvorecer, quando os cantos dos pássaros, junto com os primeiros albores, nos recordavam a cotovia e o rouxinol de uma Julieta duplicada, que éramos nós, que contínhamos um Romeu, também, em nossas almas apaixonadas.

Nossas noites foram ficando mais e mais ardentes e excitantes, e logo estávamos instintivamente nos descobrindo em nossas reentrâncias mais recônditas, apalpando-nos, ofegantes, com o coração acelerado de medo e paixão. Ficávamos com nossas lindas e rosadas vulvas encharcadas por dentro como já constatávamos e provávamos. Já procurávamos instintivamente a maravilhosa e feliz posição de sessenta e nove, nuinhas, suadas e febris, nas noites do verão de nossa ardente juventude, encontrada em amor e desejo na minha casa de bonecas, no meu jardim, com aquela linda alemãzinha, hóspede do meu coração para sempre, eu pensava, e do meu Pampa, que eu queria estar apresentando a ela em sua essência e plenitude, mas que só podia oferecê-lo em meu corpo de donzela germânica, como o dela mesma.

Então, como sempre acontece nas verdadeiras estórias de amor, o destino interferiu, para apartar as amantes. Fomos flagradas: Solange, que seguiu-nos uma noite, ela também de camisola e saída do seu leito como um cão farejador do nosso rastro de amor, abriu violentamente a porta de minha casa de bonecas, e pegou-nos nuas e com as mãos em nossos sexos molhados, cujo perfume dominava o pequeno ambiente do nosso “ninho de amor”. Com olhar furibundo,  a pequena megera, gordinha, e invejosa, gritou: “Vocês, hem, sem vergonhas? Vocês vão ver, quando mamãe souber. Vai expulsar a Helga e botar a ti no internato, tu vais ver, depois de uma surra de vara de marmelo! ”

Meu coração parou, mais do que de medo, de vergonha e humilhação diante da minha pequena amante, que não entendeu as palavras ditas em português mas captou-lhes o perigo na entonação detestável e tirânica de Solange. E então comecei a implorar, por Helga, por nós, de joelhos diante da opressora... Segurando sua mão gordinha, eu ali, nua a seus pés, me humilhava na tentativa de poupar maior vexame ao meu amor, e sua perda irreparável, eu pequena melodramática, como uma princesa de insólita opereta, estava prestes a abraçar as gordas pernas da megerinha.

Então o improvável aconteceu. Helga, a alemãzinha, ergueu-se nua, como uma ninfa ou náiade do luar, branca e loura como uma aparição de beleza, e estendeu os lindos braços, suavemente, para Solange, e tomou-lhe a mão nas suas, olhando-a mesmericamente nos olhos, e sussurrando em alemão: “Komme, komme, meine Geliebte, und schlieb’ Dich uns an!... Venha, venha meu amor , junte-se a nós .

Eu, atônita, pega de surpresa por aquele gesto inesperado, que no entanto pela sua suavidade não soava como uma saída desesperada de minha prima, paralisada vi minha namorada, meu amor, abraçar Solange desarmada, que começou a tremer enquanto a ninfa loura a despia de sua camisola deixando-a cair a seus pés, e eu que olhava com ternura verdadeira, percebi, as formas redondas de minha irmãzinha mais velha, não destituídas de encanto, na verdade, como as de uma camponesa germânica de outrora, com o seu tufo ralo de pelos ruivos encimando-lhe o acolchoado e alvo monte de Vênus. E então, pasmem, vi Solange, a feitorinha implacável, tremendo emocionada dos pés às faces de gordas bochechas coradas como maçã, enrubescida de emoção, ajoelhar-se junto com Helga, sobre o colchonete, no abraço envolvente, apaziguador, daquela surpreendente alemãzinha, e juntas deitarem-se, olhos nos olhos, os de Solange cheios de lágrimas de insuspeitada gratidão.

Também a minha irmã queria o amor. Também a menina gorda, de beleza recôndita, num minuto revelada, necessitava, como eu... amar e ser amada!

Quanto à Lúcia, a segunda, esta era dominada por Solange e passou uma vida constrangida, praticamente apagada em seus anseios, que desconhecíamos. Casaram-se com homens medíocres. Talvez Alberto escape a essa classificação, uma vez que os alcoólatras, ao que parece, têm inteligência e sensibilidades superiores, mas infelizmente acompanhadas por um lado emocional defasado, imaturo, de criança mimada. Trata-se de um tripé manco, que desequilibra o conjunto. Tornam-se insuportáveis quando estão bêbados (e quase sempre estão bêbados) e somente podemos perceber aquela sensibilidade e inteligência nos poucos momentos de relativa sobriedade, principalmente nos primeiros estágios da doença, antes de se transformarem em verdadeiros monstros psicológicos nos estágios finais. Alberto estava, ao que parece, no começo do terceiro estágio, onde o macaco ainda se fazia ver e rir, antes que o leão tomasse o seu lugar. O último estágio, o do porco, eu esperava que não chegasse nunca. Não podia sequer pensar nisso. Meu cunhado, na verdade, parecia gostar de mim, à sua maneira, sempre abaixo das garrafas, já que a parte afetiva era constantemente minada pelo álcool, que acabaria por exterminá-la completamente. Eu me condoía por isso, pela minha sobrinha Patrícia e seu irmãozinho, crianças lindas que naturalmente sofriam muito com um pai assim, fazendo-as amadurecer precocemente. Quanto a Solange, isso só exacerbaria seus defeitos, como típica co-dependente que era.

Patrícia, desde a mais tenra infância revelou-se uma criança iluminada, de uma pureza e candura a toda prova. Sua doçura era a de um anjo, e agora, apaixonada pela primeira vez, comovia-me como nunca, pequena Julieta que começava a ser perseguida em sua paixão. Solange não permitiria jamais o namoro de sua filha com um colega, romeuzinho de escola, sem fortuna, e com um brinquinho na orelha.

Eu estava disposta a ser uma espécie de ama, quase uma alcoviteira, uma vez que confiava no coração de minha sobrinha, e vira numa fotografia recente a pureza absoluta nos olhos de seu Romeu, belo adolescente que segundo ela, a adorava, o que era fácil de acreditar. Sempre estive convencida de que o amor, em qualquer idade, é o único que importa nesta vida. Nada do que me disserem pode tirar-me essa convicção,  romântica incorrigível que sou. O que pode ser mais importante para a vida que os afetos, que o supremo afeto? Tudo o mais é balela, conversa de gente grande, com dizíamos em nossa infância, com certa desconfiança, pois o que meu pai mostrava em seus livros maravilhosos eu podia sempre entender e me identificar imediatamente: o mundo grandioso da arte e dos artistas, seus sonhos verdadeiros. "A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro”. Esta frase de Novalis daria a diretriz à minha vida.

 

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Galdério pusera as cartas no correio, e só nos restava, a mim e Patrícia, aguardar. É claro que a expectativa colocava as respostas como decisivas para os nossos destinos, e a ansiedade nos fazia andar pela casa, pelo jardim e pelo pomar, entreolhando-nos, cúmplices, torcendo as mãos disfarçadamente, como duas meninas prestes a fugir da escola.

Afinal após uma semana de agonia, recebemos nossas respostas. As cartas que Galdério foi buscar na agência, nos dariam novo alento.

O enólogo a quem eu escrevera estava a caminho e o Romeu de Patrícia respondera-lhe com uma singela carta de amor que a deslumbrara. Seus olhos brilhavam, enquanto beijava o papel mil vezes. Abraçava-se a mim em risos e lágrimas, e meu coração queria abarcá-la toda, esse anjo de pureza, de amor. Como é belo o ser humano (eu pensava), quando é belo! Imagem e semelhança de um anjo, senão do próprio Deus (eu ainda via o Deus cristão com uma grande barba grisalha, sósia do meu pai, esta é que era a verdade ).

À mesa, durante os nossos almoços, eu saboreava o vinho de Alberto com renovado prazer e sorria-lhe, o que o deixava satisfeito, ao que parece. Ele então enchia-me várias vezes o copo, querendo embebedar-me como sinal de afeto ou cumplicidade de bêbados. Solange, naturalmente, vigiava-nos e parecia intrigada, desconfiada. O que tramávamos nós, os do outro lado? Olhava Rôdo com seus olhos inquisidores, mas meu irmão era o melhor dissimulador de nós todos. Seu cinismo era maravilhoso, e eu podia então compreender por que ele tinha tanto sucesso com as mulheres quanto nas mesas de jogo, onde nunca perdia mais do que ganhava, exercitando o seu talento para o blefe como um esporte, não como um vício, ao contrário de Geraldo.

Laís olhava para o meu irmão com admiração visível, senão com adoração. Essa moça talvez fosse a companheira ideal, pois o acompanharia pelos cassinos do mundo, ajudando-o a blefar, talvez a roubar no jogo. Um adorável casal de aventureiros. Num certo sentido eu os invejava, pois pareciam, a mim, habitantes do mundo real, incerto e aventuroso, mas nunca comezinho, e pouco cotidiano, enquanto eu me sentia a eterna moradora do mundo dos sonhos, do pensamento e da imaginação quase sem limites, sem dúvida, mas impalpável: o mundo que eu conseguia apenas projetar como um reflexo no papel e nas telas. O mundo da Arte, miragem do real, mais nítida talvez que a realidade, mas que se esvaecia ao tocar.

 

Levantei-me da mesa, ligeiramente “zoró”, com as repetidas taças de vinho a que eu me dera o direito de brindar interiormente, saboreando o delicioso néctar que me parecia realmente superior. Minha esperança me dava um brilho, que malgrado a embriaguez foi notado pelos meus irmãos e cunhados, e que divertiu as crianças. Cambaleei um pouco ao caminhar, e Rôdo correu a amparar-me, aproveitando para cochichar em meu ouvido:

–Alma,  vá curar o pilequinho, e depois encontra-me a meia noite na biblioteca. Preciso falar-te.

Dei uma pequena gargalhada abraçando-me a ele e passando a mão no seu rosto. Eu via a mim mesma nessas atitudes, divertindo-me em fazer um gênero libertino só para escandalizar minha irmã e cunhado. Aline correu a substituir Rôdo, e encarregou-se de me levar ao quarto. Sentada no leito afinal, puxei Aline sobre mim como para cobrir-me, com seus lábios sobre os meus. Aline deixou-me fazê-lo, mas logo levantou-se e cobriu-me com a manta, fazendo schchchch... Adormeci.

 

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Fui acordada à meia noite por Aline, com um chimarrão, e pondo-me de pé, à força, disse:

–Alma, acorde, você tem um compromisso com Rôdo. Vamos à biblioteca, eu vou com você, Rôdo permitiu.

A ligeira embriaguez sumiu, eu estava acordada. Lavei o rosto com água fria e saí com Aline, mamando o chimarrão. A casa estava às escuras, silenciosa, e uma vez no escritório dei com Rôdo com uma carta aberta na mão:

- Alma, o “sommelier” chega amanhã. Vamos buscá-lo na estação. Ele aceitou vir, pelo nome do nosso pai, que ele já conhecia. Tudo está correndo de acordo com nossa expectativa. Mas, na verdade, chamei-te aqui por outra coisa. Encontrei nos arquivos do Vati, uma carta, em alemão, que eu jamais imaginara existir. Veja isto, vou traduzi-la para que Aline também a entenda:

 

“Meu caro filho

Aí, onde estás, na terra dos nossos antepassados, imerso em estudos, como espero, não sabes dos imensos trabalhos a que eu e tua mãe nos dedicamos neste pedaço do Pampa que nos coube. Plantei o vinhedo que eu devia aos meus pais, que prometi a eles, ainda lá nos Sudetos. A terra desta pradaria aceitou a vinha, surpreendentemente, esta é que é a verdade, pois os vizinhos riam de mim por esse sonho, e abanavam a cabeça. Mandei construir  paraventos de pedra para ludibriar o minuano, em torno do parreiral. A vinha cresce, dela virá o nosso vinho, para o qual ainda não tenho nome. Não tenho sequer as uvas, na verdade. Mas tudo leva a crer que conseguiremos, com trabalho e inteligência. Já  me pus a construir o lagar, os tonéis de madeira e a adega, pondo o carro na frente dos bois, com se diz aqui, tal a minha confiança.

Quero, pois, que uma vez formado, voltes logo, preciso de ti aqui.

A terra precisa de todos. Aproveite, pois, para estudar a química dos vinhos como estudas a química do sangue. Lembra-te que o vinho é o sangue da terra, como disse Odisseu ao gigante Polifemo, naquele livro que me leste. Como vês, teu pai, ignorante lavrador, apreendeu um pouco das tuas metáforas de poeta, não é?

Vem, filho, assim que puderes, que a vinha precisa de ti.

Teu pai

Joachim Friedrich”

 

Emocionei-me com a carta, que senti extremamente auspiciosa. Tive imediatamente a idéia de transcrevê-la, no original alemão, no rótulo traseiro e nas caixas do nosso vinho, os quais eu mentalmente já projetava com um desenho circular que simbolizaria o “eterno retorno” nietzscheano, em que a alma, ou melhor dizendo, a Anima se inscreveria, de costas como ela costuma aparecer, com o cabelo cor de vinho, e carregada de figuras, que nos cabelos se transformam em folhas de parreira. Suas formas seriam as do meu torso, das minhas espáduas, da minha nuca e do meu cabelo, eu decidi.

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Abracei Rôdo, e Aline juntou-se a nós nesse abraço. Nossa esperança nos enchia de euforia, e como crianças beijamo-nos nos lábios, tendo Rôdo beijado Aline também, o que me causou um estranho sentimento. De ciúme? Não, de completude.

Laís entrou na biblioteca nesse momento, atrasada. Não teve tempo de participar dos abraços e beijos. Resolvi então, que provaria os lábios daquela bela mulher, já que Rôdo o fizera com Aline. Não como vingança, mas para que o congraçamento, a união se fizesse completa. Foi o que fiz, para surpresa dos três. Aproximei-me de Laís e beijei-a nos lábios, docemente. Ela ficou imóvel, pestanejando, surpresa. Retirei-me com Aline, que enfiava a unha na minha cintura.

 

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No quarto, Aline atirou-se sobre mim e praticamente me devorou de beijos, mordidas e lambidas, numa sofreguidão quase furiosa. Apertava meus seios até doerem. Desceu lá em baixo para agarrar meu clitóris com os dentes, e por um momento temi que ela o decepasse. Introduzia seus dedos nos meus orifícios, abrindo-os, que chegaram a doer. Eu gemia, e não tardei a soluçar. Caí num choro copioso, que afinal me dava grande alívio. Eu precisava disso:

–“Aline, Aline, meu amor, bata-me, bata-me no rosto, bata-me na bunda. Sou tua guria travessa. Preciso ser castigada. Ponha-me de castigo. Pegue a vara de marmelo da minha mãe. Açoita-me. Quero sangrar. Estou sangrando de amor, de esperança, e de sede de viver. Quero morrer de tanto apanhar, de tanto gozar de amor, contigo. Quero que bebas aquele vinho na taça dos meus lábios. Também nos de baixo. Quero tudo, quero tudo, meu amor!”

Aquela noite rolaríamos na cama, nuas, como duas loucas bacantes, numa celebração condigna, do vinho e do sangue. Dioniso presidiria também os nossos sonhos, cheios de imagens auspiciosas, alegres e confusas, enquanto provavelmente sorríamos no nosso sono, abraçadas, saciadas.

 

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Afinal chegou o dia de recebermos o “sommelier”, o enólogo, chamado Hermann, que tanto esperávamos. Eu estava tensa aquela manhã quando fui buscá-lo na estação, com Galdério na charrete.

Era um cavalheiro de meia idade, de cabelos grisalhos, elegante, num terno muito bem cortado e com uma pasta de couro, belíssima, na mão. Subiu na charrete ao meu lado, um pouco apertado, claro. Como um lord inglês, depois de me ter saudado com certa cerimônia, mas com um sorriso agradável.

Fui descrevendo, melhor, interpretando alguns acidentes da nossa paisagem, de uma maneira inspirada, que o fez soltar pequenas gargalhadas. Esse homem era simpático, como o são em geral os bons conhecedores de vinho, mas eu senti que estava querendo conquistar a sua simpatia, como se isso fosse influenciar o seu julgamento, favorável, ao nosso vinho. Uma espécie sutil de suborno, inútil. Os enólogos costumam ser os mais incorruptíveis profissionais que existem.

Chegando ao casarão, fomos quase que diretamente para a mesa de almoço. Não serviríamos, claro, nenhum vinho, mas sim a água puríssima da nossa fonte. Seu paladar deveria estar limpo para a apreciação solene, naquela tarde tarde, do vinho da nossa esperança. O vinho supremo dos meus avós.

O almoço transcorreu alegre, apesar da curiosidade e estranheza manifestada por Solange e meus cunhados, que nada sabiam do motivo desta visita. Hermann submeteu-se a algumas perguntas de Solange, Geraldo e Alberto, que lhe causaram surpresa. Pensava que todos ali sabiam de sua missão. Disfarçamos bem, Rôdo e eu, como se ele fosse apenas um amigo nosso, mas Solange, naturalmente, permanecia desconfiada:

–Com que então o senhor conheceu Rôdo na França, hem? Como nunca ouvimos falar disso, Rôdo? Bem, nada sabemos da tua vida, não é, meu irmão? És tão misterioso. Não sabemos por onde andas a maior parte do tempo. Mas é simpático o teu amigo. Percebe-se que é muito viajado. O senhor reside onde, seu Hermann?

Nosso hospede mostrou-se um tanto constrangido com a atitude de Solange, e olhava para mim e Rôdo, como pedindo orientação para lidar com aquela harpia.

Enrolamos Solange o quanto pudemos. Queríamos fazer uma surpresa a todos. E Hermann colaborou conosco, ocultando instintivamente a sua especialidade.

Recolhemo-nos após o almoço, aos nossos quartos para uma sesta, e o nosso hóspede teve as honras da melhor suíte da casa. Quanto a mim, saí com Aline e fomos andar abraçadas no jardim florido.

Pusemo-nos logo a fazer o nosso balé sutil, eurítmico, colocando flores nos cabelos uma da outra, assim que percebemos que o nosso hóspede nos observava da janela do seu quarto. Esmerávamo-nos nos gestos, nos toques de mão, nos movimentos de braços, lentos. Um semi-sorriso de Giocondas nos lábios, para dar mais leveza ainda à nossa dança... e mistério. Sentimos, dali, a uma certa distância, o nosso hóspede fascinado, até que este cerrou a cortina, sonolento. Abraçamo-nos numa gargalhada cristalina, meio abafada, travessas, sedutoras.

Às quatro horas da tarde, estávamos no salão para a prova do vinho, Solange, Lúcia, Alberto e Geraldo, todos. E até as crianças, curiosas. Os adultos, atarantados, sem saber o que esperar.

O enólogo entrou na sala, com sua maleta. Abriu-a meticulosamente e retirou uma taça e um lenço imaculado, de dentro de um estojo. Limpou a taça por fora, com o lenço, olhando-a à contra-luz, e pousou-a na mesa. Retirou uma outra taça, diferente da primeira, e repetiu o gesto. Em seguida tirou da pasta uma garrafa de água mineral Perrier, abriu-a, e enchendo a segunda taça levou-a boca, sorveu na medida certa, e bochechou. Ia cuspir, mas resolveu engolir. Repetiu a operação. Nós acompanhávamos, divertidos, senão fascinados. Hermann estendeu então a mão para mim e apanhou a garrafa sem rótulo que lhe estendi, bastante limpa de sua poeira, quase polida por mim.

Olhou a garrafa à contra luz por dois segundos, e a seguir tirou da maleta, de um estojo, um abridor fantástico em forma de gárgula, antigo. Esse homem queria, certamente, nos impressionar. Retirou a rolha com enorme perícia, sem perder um único fragmento, eu percebi. Ergueu a taça, olhou para nós todos, rapidamente, e concentrou-se no exame visual do vinho que brilhava na taça erguida à altura dos olhos. Julguei avistar uma centelha, cor de sangue, no maravilhoso brilho transparente daquele vinho. Em seguida ele desceu a taça até próxima de suas narinas e aspirou o buquê, com um pequeno gesto circular sob o nariz. Ele segurava a taça somente pela sua base. A seguir levou-a aos lábios, sempre com um olhar absorto, para dentro, de grande concentração. Encheu moderadamente a boca, e bochechou discretamente, ou melhor, fê-lo circular em sua boca, e a seguir engoliu, olhando um pouco para cima e... nada disse. Nem sequer sorriu. Nossa tensão atingiu o auge. Já não agüentávamos mais. Quase explodíamos. Creio que soltei um gemido.

Ele, sem olhar-nos, disse: “Safra de 1962, com toda certeza. Um Cabernet, mas com inclusão... de uma cepa alemã, do Reno. Suave, mas encorpado. Um buquê seco, raro, mas de timbre germânico, não francês. A cor, de rubi, transparente mas outonal, ouro e sangue, peculiar. Retro gosto longo. Recuo de memória no contra-pé da papila. Persistência nostálgica, quase perturbadora, mas de assimilação breve. Falsa ameaça de travo, produzindo alívio prévio, de charme nórdico, não mediterrâneo. Sabor... estupendo. O melhor vinho antigo que provei nos últimos 10 anos, dependendo da confirmação de uma segunda garrafa, pelo menos. Onde o conseguiram?”

Explodimos, Rôdo, Laís, Aline e eu. As crianças também, começaram a pular, percebendo que se tratava de uma vitória importantíssima.

Enquanto Hermann, repetia a operação, agora com uma nova garrafa, nós nos abraçávamos comemorando, aos beijos e risos, numa alegria que jamais esqueceríamos.

Abracei Hermann, surpreso, beijei-o na face e perguntei- lhe:

–Diga-nos, diga quanto vale um vinho destes. Quanto custaria uma garrafa destas num restaurante de luxo, aqui ... e no estrangeiro?

Ele hesitou um momento e, quase pedantemente respondeu:

– Aqui, R$ ............. o litro. Talvez um pouco mais, se souberem anunciá-lo com discrição, somente nos meios, e tiver um rótulo condigno.

Explodimos novamente. Fazíamos rapidamente as contas multiplicando essa cifra pelas cinco mil garrafas da nossa safra. Estávamos salvos. A estância estava salva. Solange, que me encarou, espantadíssima, perguntou:

–Que significa tudo isso, posso saber? O que é que vocês tramaram? O que está acontecendo aqui?

–Solange, Lúcia, minhas irmãs, e vocês meus cunhados, ouçam. Não precisaremos vender a nossa estância, temos um vinho deixado por nossos avós, que descobrimos numa imensa adega sob esta casa. Duas mil garrafas do melhor vinho do mundo, perdoem-nos os franceses. A herança verdadeira dos nossos avós. Na verdade Alberto é que a descobriu primeiro - não é, meu cunhado?- (passei a mão carinhosamente pelo seu rosto rubicundo, sorridente.) Vamos tratar de negociar nosso tesouro. Vamos distribuí-lo pelos melhores restaurantes de Novo Hamburgo a Porto Alegre, de Gramado e Canela a Florianópolis e Curitiba, de São Paulo ao Rio de Janeiro, Salvador, Recife, e depois pelo exterior. Sinto que o mundo precisa conhecer este vinho para o qual colaboraram os deuses do Olimpo com os do Walhalla... e com os numes do Rio Grande. Ele se Chamará “Ara dos Pampas”, e eu desenharei o rótulo, que já concebi. No verso da garrafa reproduzirei a carta do meu avô. A prosperidade voltará a este lar, eu prometo a todos vocês.

Solange e Geraldo deixaram cair os braços, incrédulos ou desapontados. Lúcia sorria para mim, e pela primeira vez, julguei avistar um brilho no seu olhar. Meu coração estava pleno, e beijei Aline nos lábios, na frente de todos.

 

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No dia seguinte, Rôdo e o enólogo, de manhã bem cedo, estavam prontos para partir. Na noite anterior descêramos com o especialista à grande adega, que o deixou assombrado. Confirmou que tínhamos um tesouro ali, e então presenteamos o nosso amigo com duas garrafas, prometendo que lhe enviaríamos o rótulo assim que estivesse pronto.

Conduzimo-los, Aline e eu, de automóvel até a estação. Rôdo com Laís, e Hermann iriam para lugares diferentes, mas combinaram encontrar-se para colaborarem na apresentação do vinho aos restaurateurs e sommeliers. Com o aval de Hermann, que receberia uma comissão, nosso vinho se imporia no mercado.

Retornamos, Aline dirigindo, mas paramos no caminho, na estrada que cortava a imensa pradaria, e ficamos olhando, de mãos dadas, o horizonte infinito na direção da fronteira, ao sul. Sentia o meu coração aquecido no peito, confortável, sob aquele sol radiante e agradeci aos deuses a sua acolhida às minhas preces. Lembrei-me do Vati e olhei para Aline, como que para apresentá-la a ele no meu pensamento, embora ele certamente já viesse observando-a, de lá, onde estava. Sempre achei, desde que descobri Aline e me apaixonei, que o Vati a aprovaria, aberto e esclarecido como era, e sobretudo amando-me tanto, com tanta aceitação, já que a minha felicidade era mesmo o que lhe interessava em sua vida tão sábia.

Meu coração mais uma vez encheu-se de ternura, e meus olhos de lágrimas contemplando esta guria que eu elegi com adoração como a minha musa, além de minha companheira. Sua beleza enchia o meu olhar e eu não me cansava de olhá-la, como a uma obra de arte, que ela realmente era. Sempre estive convencida disso: as mulheres, quando belas, como os homens, belos, são obras de arte, de Deus. Assim como uma peça para violino virtuose, uma canção perfeita, ou quadro de grande mestre. Talvez mais, pois é uma escultura viva, que fala e canta, a Galatéia de um Pigmalião mais poderoso, e como tal, também passível de escapar-nos. Esse detalhe do meu pensamento apertou-me ligeiramente o peito, lembrando-me de que eu já perdera Aline uma vez, ou assim pensara, lançando-me num Hades que encontrei aqui mesmo nesta pradaria, onde só faltava correr o rio Letes.

Abracei Aline diante do carro, e apertando-a contra mim, solucei copiosamente, dizendo:

–“Aline, minha Aline, amor da minha vida, fica comigo para sempre, ou mata-me antes de partires, e eu morrerei feliz nas tuas mãos”.

Aline assustou-se. Afastou-me um pouco, olhando-me, severa, em meus olhos:

–Alma, deixe disso. Por que falas assim? Não vou deixar-te... e se o fizer será por pouco tempo. Tenho que voltar a São Paulo para acertar tudo, entregar o apartamento... e romper com o Pedro. Sossegue, eu não a trairei nunca mais, és igualmente o meu amor. Minha bobinha, não fales em morte, que dói-me, assusta-me.

Eu soluçava de cabeça baixa, e ela ergueu-me o queixo e beijou-me ardentemente os lábios. Eu sufocava de amor e dor antecipada. Separar-me dela, mesmo que por uns poucos dias, era uma idéia insuportável. Além disso eu sabia que iria enfrentar a cólera de Solange e Geraldo, que afiavam as garras contra mim. Sentia-me frágil, eu que até aqui fora uma lutadora. Queria aninhar-me no colo de Aline, talvez no seu útero, numa ambigüidade de sentimentos que me confundia.

Voltamos à estância, o resto do percurso num silêncio estranho.

Ao descermos do carro já avistei Solange na varanda, matronal, de mãos na cintura, o olhar severíssimo, fuzilando:

–Vocês duas, não têm vergonha, suas safadas? Já sei de tudo. Vocês não poderiam me enganar muito tempo. Vocês são aberrações, vergonha das mulheres! Então, amigas, não é? Venho observando vocês. Esses abraços, esses beijos. Pura safadeza! Desavergonhadas! Vocês têm que ir embora, não admitirei isso diante dos meus filhos, dos meus sobrinhos! Fora daqui, monstros!

Ficamos lívidas, cambaleei por um segundo, a vista escureceu-me, meu coração parou. Eu estava frente à Harpia. Mas além do medo, senti uma vergonha imensa, não por mim, mas por Aline, por expô-la a esse vexame, e pela minha própria irmã que conspurcava assim, como uma porca, a pérola da minha alma: o meu amor.

Reuni forças, não sei como, nem de onde. E revidei, fuzilando-a com os olhos:

–Quieta, megera! Não ouses tocar em Aline. Tu não sabes nada, não sabes do amor, criatura seca. Se me dirigires a palavra, lançar-te-ei a praga dos Pampas. Eu tenho esse poder, os numes me confirmaram no meu pomar, frente à minha Ara. Arreda, que vamos passar!

Solange, estupefata, diminuiu de tamanho imediatamente, covarde que era, ao ouvir a menção da tal praga. Mas ainda balbuciou, temerosa:

–És uma feiticeira, sempre soube, és uma bela bruxa, sim! És uma bruxa, arderás no inferno. Não ouses...

Passamos,  eu puxando Aline apavorada, pela mão, e fomos direto para o nosso quarto. Eu sabia que neutralizara por uns tempos a fúria de Solange, pelo medo supersticioso que eu sempre soubera que ela tinha. Na verdade eu usara esse seu medo, desde a minha infância para imobilizá-la na sua maldade. Isso sempre foi fácil, uma vez que estou mesmo convencida de ter acesso ao mundo dos numes e dos deuses, desde pequena, que os cultivei em minha alma, com a cumplicidade do Vati, o grande sacerdote panteísta que me criara.

No quarto, Aline tremia toda da cabeça aos pés. Estava em estado de choque. Eu a fiz sentar-se na cama, e ajoelhei-me a seus pés, beijando-lhe as mãos. –Aline, meu amor. Não fica assim. Passou, vê. Eu não tenho mais medo. Agora tudo explodiu, acabou a tensão... Vamos, não fica assim. Não há mais perigo. O perigo é o antes... agora já é o depois. O escândalo que temíamos já aconteceu, e não pode destruir-nos. Nosso amor é mais forte. É muito maior. Venceremos todos. Depois... são só Solange e Geraldo. Os outros todos já sabem, e estão do nosso lado. Mesmo as crianças, que me adoram tanto que tudo compreendem. Elas conhecem o nosso coração puro, como os seus. Olha, não tenho mais medo, sou mais forte que Solange, por isso sou digna de ti, meu amor. Confia em mim.

Aline soluçava agora em meu ombro, num pranto dolorido, que vinha de muito longe e apertava-me contra si, com as unhas quase enterradas nos meus ombros. Minha guria, minha guriazinha... Queria protegê-la da maldade do mundo, eu que não pudera poupá-la de cena tão vexatória, tão chocante para ela, tão revoltante diante de sua candura extrema, de sua pureza adorável. Eu tinha que protegê-la, ao meu amor. A essa guria, essa mulher do meu coração.

 

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Os dias seguintes transcorreram cheios de tensão no ar. Mas Solange permanecia quieta na mesa, de olhos baixos. As crianças estranhavam esse clima, e falavam baixo, também, sem saberem porquê. Apenas Patrícia permanecia com aquele olhar feliz, sonhador, no seu mundo perfeito de Julieta após o baile. Eu procurava manter a naturalidade, e dava a mão à Aline toda a vez que me deslocava com um propósito para o jardim, ou mesmo à toa. Ela, no começo mantinha a mão ligeiramente dura. Ainda tinha temor e vergonha, e também os olhos baixos. Eu não conseguira mais tocá-la intimamente, em nosso quarto. Ela estava traumatizada. Como após um estupro, essa era a verdade. Eu odiava Solange por isso, essa mulher maldosa, destruidora, que por acaso era minha irmã. Que irmã! Não, não acredito numa fraternidade de sangue, imposta pelos gens, não pelo coração. Rôdo, és meu irmão, como alma gêmea, és meu “animus”, rapaz forte, guerreiro, meu Aquiles, belo como uma menina, se te ataviasses como aquele fez antes da guerra, com a túnica de sua mãe. Mas, bah! que fúria, quando mexem contigo: desviarás um rio, arrasarás uma montanha, afrontarás os próprios deuses se ousarem tocar no calcanhar do teu orgulho. Rôdo, já tenho saudades de ti. Se estivesses aqui nos protegerias, e eu me aninharia em ti, com Aline. Não, não pode ser assim! As circunstâncias exigem a minha força, ou seremos destruídas. A Harpia ainda pode levantar-se. Para que isso não aconteça, vou levar Aline comigo esta noite ao pomar, e consagrá-la na Ara. Banhá-la-ei com as nossas ervas, coroá-la-ei com as folhas de nossas parreiras, e ela estará tão forte como eu, que assim farei, comigo mesma, também. Esta noite!  Esta noite!

Dirigi-me ao pomar, depois ao vinhedo, catando ervas, folhas e raízes. O mate, como sempre, e as folhas de parreira. Aline permanecia no quarto, deitada, de olhos parados imóvel. Em estado de choque ou depressão. Fora profundamente atingida. E eu não perdoaria Solange, jamais, por isso. Ah! O poder corrosivo, envenenador, das palavras! Perto delas, as balas e as punhaladas eram pouco. As guerras começam com as palavras, e só podem terminar também, com elas. Lembrei-me de Chaplin, no “O Grande Ditador”, e seu discurso final, que ao assistir pela primeira vez me pareceu supérfluo. Agora eu o compreendia. As palavras de paz. Lembrando-me delas, consolidei em mim o propósito da pacificação. Para isso serviria o meu novo ritual. Não se trataria de uma preparação para a guerra, mas para a paz. Do contrário estaria tudo perdido, nós nos enlamearíamos no chiqueiro onde lançáramos nossas pérolas. Era preciso continuarmos sóbrias. Com a sobriedade da paz. Nada da embriaguez da guerra. Éramos princesas, eu colocaria cem colchões sobre o caroço de azeitona de Solange no nosso leito, mas haveríamos de acordar repousadas. A resposta estava na paz, e para isso eu sabia agora que tinha que apreender a perdoar nossa ofensora. Eu resgataria Aline de sua descida ao Hades, como Eurídice, ou como minha Psiqué. Eu a carregaria comigo, para cima, pelo meu amor imortal!

 

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Próximo da meia noite, retirei Aline da cama e vesti-a como a uma boneca com uma túnica branca como a minha. Ela se mantinha inerte, como paralisada, e tive que praticamente carregá-la com seu braço em meu ombro, e o meu em sua cintura. Com dificuldade, pois seus passos se arrastavam, atravessamos a casa às escuras. Julguei ouvir um ranger de porta, mas não podia deter-me por nada. Era preciso chegar ao pomar diante da Ara. Foi um longo caminho, na noite clara, mas escura da alma, atravessando o jardim, arrastando Aline até o pomar. Caímos duas vezes, meu vestido rasgou-se, esfolei o joelho. Aline gemia como se ferida. Chegamos afinal, na nossa macieira, onde eu já tinha tudo preparado. Despi Aline e a mim, e com uma cuia de prata, com água de fonte, de uma talha escondida numa touceira, banhei-a lentamente, enquanto ela tiritava, apesar do intenso calor da noite de verão. A lua apareceu por entre as nuvens e banhou seu corpo de luz. A beleza de minha Aline se mostrou, comovedora, apesar de sua depressão. Banhávamo-nos uma à outra enquanto as ervas que acendi durante uma pausa, fumegavam, subindo para a lua. Aline despertava lentamente, banhando-me também. Passávamos nossas mãos pelo corpo uma da outra, em todas as direções, em todas as reentrâncias, como fazemos aos bebês ou às crianças numa banheira. Eu ouvia uma música celestial, que vinha de entre as nuvens, ou dentre as árvores, não sei. Eu a ouvia, suave. E a água era deliciosa sobre a pele. Sorríamos uma para outra. Minha Aline sorria afinal, molhada, brilhante sob a luz da lua, como uma ninfa, como uma náiade de um rio de luz. E eu senti que poderia ficar assim, banhando-a para sempre, com a água purificadora da pacificação, com as lágrimas do meu amor, e que ela também ficaria assim banhando-me para sempre. Pirilampos cercaram-nos, cintilando suas pequeninas lanternas, em tal quantidade que pareciam querer transformar-nos na Constelação de Aquário, e eu podia ver-nos como de fora, nesta cena de uma beleza deslumbrante, a nossa beleza de mulheres divinamente dotadas. Depois lentamente eu a enxuguei, enxugamo-nos uma à outra, e vestimo-nos, primeiro eu a ela, depois ela a mim. Beijamo-nos então, com as palmas das mãos coladas, diante da Ara, cuja coluna de fumo subia reta para a lua. Eu via que Aline subira, eu a tirara do seu Hades interior, e ela resplandecia diante de mim novamente, cercada de vagalumes. Quando uma pequena aragem produziu-nos um ligeiro calafrio, senti que a cerimônia podia encerrar-se. Olhei em volta, quando uma súbita suspeita me invadiu. Essa aragem fria seria o olhar do inimigo? Da inimiga? Não, eu não deveria pensar assim. Nós acabávamos de nos preparar para a paz. E estávamos inatacáveis. Eu acreditava nisso. Podíamos voltar para o nosso leito.

 

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Quando, há cinco anos atrás, iniciou-se a doença de meu pai, eu senti que estes céus que nos cobriam, escureceram-se, perderam o brilho. Recolhido ao seu leito, com as janelas sempre cerradas pelas cortinas numa semi penumbra, a tristeza que o devorava parecia vir de fora para dentro, e por sua própria vontade. Ele deixara de querer viver. O que o corroía? Tenho uma vaga suspeita. Um amor que ele não realizara, e que não era o de minha mãe. Meu pai, herdeiro do romantismo alemão, tardio embora, acabara sendo vítima de um amor perdido, irrealizável? Eu me pergunto ainda hoje. Quem tocava como ele Chopin e Schumann, com tal delicadeza... e tristeza, deveria certamente saber do que estava tocando. Eu sempre suspeitara disso em minha infância, e minha ternura por ele fazia-me, às vezes imaginar-me como uma amante, adulta, acariciando-o apaixonadamente, beijando seus lábios. Hoje sei que esse devaneio é comum nas meninas, embora profundamente recalcado. Não era à toa que minha mãe se irritava quando me via sentada em seu colo. Ela temia, ela suspeitava da natureza profunda, carnal e anímica da nossa relação. E, no entanto, essa mulher não conseguia ser para ele a ninfa, a musa, a deusa que ele merecia, sendo somente a mãe de seus filhos. Um caso, afinal, comum. Mas ele não. Ele não era comum. Seus dotes eram excepcionais, e um homem assim merecia a numinosa figura de mulher que nunca pudemos descobrir, e que habitou os seus sonhos até o fim. Ainda hoje imagino que a descubro, encontro o seu paradeiro e peregrino até ela, linda mulher madura, que me recebe quase maternalmente. Sim, maternalmente, me abraçando e dizendo:

“-–Alma, leva o meu abraço ao Werner, que se lembrará dele. Leva o meu beijo em teus lábios, e pousa-o sobre os dele. Eu ficarei afinal com ele, através de ti.”

Ai! Quero morrer quando lembro disso, tenho até vergonha, eu que não tenho mais vergonha de nada. Tenho pudor de tanto amor que nutri pelo Vati sem nada poder, sem nada saber, tudo imaginando, tudo projetando... e absorvendo o seu maravilhoso mundo mental e anímico. Sou sua herdeira, incuravelmente romântica, e me orgulho disso. Mas as feridas abertas por tanto amor na finíssima pele da alma, e que esbarram nas arestas do cotidiano, não se fecham, não cicatrizam mais... e eu sangro. Eu sangro.

Vati, eu fugi daqui, desta estância, do nosso salão com teu caixão entre quatro tocheiros, como de um cavaleiro morto, como um grão-mestre de uma ordem teutônica, cuja solenidade na morte me acachapou. Senti, então, que não podia arcar com o peso da tua herança, e fugi daqui, correndo, a esmo, e fui parar naqueles Jardins anódinos para mim, daquela cidade imensa de São Paulo, a “Paulicéia desvairada”, que pouco ou nada tem a haver comigo. Mas ali, afinal, encontrei o meu amor, atraí-o para o belo ateliê que montei, apesar de tudo, de toda a dor. Ali, Aline veio ao meu encontro, e hoje eu a trago para ti, para apresentá-la a ti, que a desfrutarás através do meu amor. Ela não pode saber disso. Ou já sabe? Ela não se ofenderia... Ela sabe que cultuo os meus deuses, e que és o maior deles, logo abaixo de Deus. Ela é dócil nas minhas mãos, e eu mais a amo por isso, adorável pequena ninfa, que sabe, apesar de tudo, da pureza do meu coração. Nada disso faz de mim uma manipuladora. Tenho direito aos meus amores, e os junto a todos em minha alma: Rôdo e Aline, e a ti, Vati. Acrescentarei Patrícia, minha criança sublime. E até mesmo Vânia, que me amou tanto, quase virilmente. Mas também os gêmeos Hans e Christian, e Pedrinho, meus sobrinhos. Matilde e Galdério, todos os que me amam ou amaram, são dignos de mim. Alex e Irma, o Duo trágico; Josué, no sertão, levando-me para encontrar o Pavão Misterioso; Jean Baptiste em Paris e Corinne, que me exorcizaram Adèle D’Affry, a Pítia em mim. Todavia quando penso nesta última, vejo que a pitonisa ainda está dentro de mim, e é ela, talvez, que me faz acender piras diante da minha ara.

Vati, deposito Aline aos teus pés. Abençoa-a, Vati, de onde estiveres. Quero ser feliz, como talvez não foste nunca. Serei feliz por ti, com o meu amor. Por nós, por nós.

 

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Aline revive após o nosso ritual. Ela já sorri. Ela renasce para os meus abraços, para os meus beijos. Saímos do quarto abraçadas, andamos de mãos dadas, agora em toda a parte. Não quero mais saber de nada. Das conveniências da família burguesa... Terão de nos engolir. As crianças nos olham com naturalidade, para elas o amor é sempre natural. Não estão contaminadas, estas crianças adoráveis. Elas amam Aline naturalmente, porque é bela, porque é doce, e porque ela as ama. Ou ainda porque ela é o meu amor. Por quê os adultos não podem se conservar assim, como as crianças, pelo menos nesse campo? Ah! Na verdade só faltam Solange e Geraldo, para aceitar-nos. Todos os demais estão felizes por mim. Até mesmo Alberto e Lúcia, que infelizmente não são um casal. Talvez se fossem, Alberto não beberia. Não sei. É tolice pensar nisso. Lúcia, minha irmã, agora já ousa me fazer alguma carícia, com a mão, apressada embora. Eu conquistei a todos, com Aline. A todos que ainda são sensíveis à beleza. Somente a megera ainda me olha com rancor, e aquele jogador inveterado, com despeito. Bem, não se pode agradar a todos, não há unanimidade neste mundo.

 

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Chegou o dia de levar Aline à estação. Ó dia amargo, ó dia tenebroso. Eu chorava desde o amanhecer desse dia, chorava pelo caminho, sem pudor, sem levar em conta o constrangimento de Galdério, que nos conduzia na charrete. Aline também chorava, mas por mim, porque ela (eu soube depois), sabia que voltaria, mas eu... não. Eu temia que ela estivesse me abandonando mais uma vez. Ó mulher de pouca fé, choravas em vão! Mas como saber, como confiar? E aquele Pedro, não teria as suas artimanhas, para retê-la, seu poder de sedução? Ah! Eu não confiava, então, no amor de Aline, e por isso estava fadada aos tormentos da dúvida, da espera desesperada, da dor, da angústia. Novamente.

Quando ela subiu no trem agarrei-me a ela de tal maneira que causei um escândalo na estação. As pessoas sorriam, ou abanavam as cabeças, carrancudas. Galdério teve que me arrancar dos seus braços, quando o trem já começava a se deslocar. Caí num pranto copioso, como uma criança, enquanto as mulheres me olhavam com estranheza.

Voltei entre lágrimas, prostrada, com a cabeça no ombro de Galdério, na charrete.

Quando chegamos, começou um período estranho. Eu me sentia sozinha, apesar do carinho das crianças. Rôdo não estava ali, Aline fora-se. Eu estava desoladamente só. Andava como uma sonâmbula pela casa, pelo jardim. Não dormia direito à noite, e saía para a varanda e o jardim, andando a esmo, até o limite onde começava a coxilha. A vida me parecia desesperadamente triste, apesar da esperança da recuperação da estância, que era quase certa. Os telegramas de Rôdo eram auspiciosos, e eu já tinha o protótipo do rótulo das garrafas. Era só uma questão de esperar começarem as vendas, das quais Rôdo se encarregaria.

Solange continuava me vigiando, com aquele olhar rancoroso. Foi então, que aconteceu.

Minha irmã encontrou-me na sala vazia, uma tarde e disse-me:

– Alma, quero que me leves a conhecer a tal adega que descobriste. Quero ver como é ela. Afinal dependemos dela, não é mesmo? Nela repousa a salvação da nossa estância. Então vamos, mostra-me.

Assenti, claro, ao seu pedido, e munimo-nos de lanternas, descendo os degraus da primeira adega. Ali pousei a lanterna e tateei a parede até encontrar o ponto, o pedaço que funcionava como um botão disparador e a parede abriu-se. Entrei seguida de Solange, que se mostrava aparentemente surpresa, com aquele mar de estantes e garrafas. Deu um assobio e abanou a mão, num gesto comum de assombro. Então, enquanto eu pousava a mão sobre uma garrafa dando-lhe as costas, ouvi a sua voz vinda de trás:

–“Fica aí para sempre, beba o sangue das uvas. Não morrerás de sede, tens cinco mil garrafas. Faça bom proveito, sua feiticeira!”

Voltei-me rapidamente, mas tarde demais! Vi o seu vulto que saía pela abertura enquanto a parede girava. E ainda pareceu-me ouvir uma gargalhada antes que a parede se fechasse com rumor, e o silencio e a escuridão se instalassem em torno de mim. Minha lanterna ficara do lado de fora. Eu confiara na lanterna de Solange e agora estava na escuridão total do meu túmulo. A angústia foi tão violenta, que desmaiei.

Após muitas horas acordei no meio da escuridão e a angústia voltou. Gritei, gritei desesperadamente, tateando a parede, esmurrando-a até minhas mãos sangrarem. Chorei como nunca. Chamei o Vati, chamei Rôdo, gritei por Aline. Afinal, prostrei-me em estado de choque. Por quanto tempo? Jamais saberei. Então, de repente, a parede se abriu e um vulto com uma lamparina entrou ali. Confusa, reconheci o nariz vermelho de Alberto, meu querido beberrão. Sua sede, graças a Deus, não dera tréguas... e me salvara. Sempre terei carinho pelos bêbados daqui por diante, se for possível. Ele levantou-me do chão, e também confuso, balbuciando palavras de preocupação, carregou-me amparando-me pela cintura para fora daquele túmulo. Eu renascia a cada passo, e ao atingir a escadinha da primeira adega, já eu o amparava, ao bêbado que cambaleava tropeçando nos degraus. Quando me lembro disso, hoje, sinto vontade de rir, apesar de tudo. Meu querido borracho, meu cunhado preferido! Jamais eu te censurarei. Teu vício me salvou, tudo é relativo neste mundo.

Cheguei ao meu quarto e ele caiu desmaiado na minha cama. Deixei-o ali e fui acertar contas com a megera. Ela quisera matar-me! Criminosa hedionda! Que devia eu fazer? A coisa chegara a um ponto gravíssimo. Jamais eu imaginara que minha própria irmã me odiasse a esse ponto. Por quê? Por quê? Eu tinha que fazer alguma coisa.

Percorri a casa procurando por Solange. Chamei-a, gritei o seu nome. Nada. Ninguém. As crianças também não estavam em parte alguma. Fui procurar Galdério e soube por Matilde que ele não voltara ainda da estação, onde fora levar Solange, Geraldo, e as crianças. Matilde contou que Lúcia e os gêmeos voltariam logo. Só tinham ido acompanhar a tia. Esperei-os, tentando me acalmar. Quando final apontaram na estrada, eu já estava em paz.

Eles chegaram, desceram da charrete, as crianças da parte de trás, e correram para mim falando ao mesmo tempo:

–Tia alma, tia Alma! Tia Solange foi embora com a Pati e o Pedrinho. Tio Alberto não foi Onde está ele? E tu, tia, onde estavas? Patrícia chorou muito, queria despedir de ti. O Pedrinho também.

Abracei-os apertado, depois à Lúcia, que me olhou com olhos marejados, um tanto surpresa.

–Onde estavas, minha irmã? Procuramos tanto por ti, mas Solange estava apressada, queria que a acompanhássemos à estação, não tivemos como procurar-te mais. Estávamos preocupados. Tu sumiste por muitas horas. Onde estavas? E Alberto, onde está? Por quê não foi com Solange?

–Depois conversamos, Lúcia. Agora quero apenas relaxar. Aproveitar que Solange não está mais aqui, e beijar muito estes guris.

Abraçava os gêmeos, e pensando em Patrícia e Pedrinho minhas lágrimas corriam. Minhas queridas crianças, filhas de uma assassina!

 

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Dias se passaram, e eu derramava o meu carinho sobre os remanescentes da casa. Solange partira com Geraldo, seu cunhado, e eu imaginava um enredo escabroso. Então, aqueles dois! Eles, sim, se mereciam. Lúcia não perdera nada, embora não acreditasse que haveria uma troca completa entre os casais. Alberto agora merecia todas as garrafas que quisesse, e eu só esperava que Rôdo voltasse logo e salvasse o suficiente para pagarmos as dívidas, antes que fosse tarde, pois a sede de um bêbado merecedor de suas garrafas, é do tipo arrasa-adega.

Após uma semana, afinal, Aline mandou notícias. Estava de volta. Chegaria no dia seguinte. Eu gritei pela casa e abracei-me à Lúcia, à Matilde, aos gêmeos, ao Alberto. Queria abraçar o mundo. Eu já não odiava mais ninguém. Não odiava Solange. Minha irmã seria punida pela sua própria consciência, já que me assassinara em sua mente e em seu coração. Não teria mais paz em sua vida, se é que ela a teve algum dia. A lição que obtive com meu ritual de amor com Aline, produzira frutos. Eu não me vingaria. Afinal, eu estava viva e graças ao seu marido, que ela libertara, abandonando-o. Eu daria ao meu querido beberrão todas as garrafas que ele quisesse beber, mas somente uma a uma. Até que elas fossem embora para o mundo, salvando nossa estância.Ah! Mas deixaria umas mil só para ele, meu salvador...

Esperei pacientemente até o dia seguinte quando então, bem cedo, pedi ao Galdério que preparasse a charrete. Íamos buscar o meu amor, que voltava para mim.

 

Quando ela desceu do trem, linda, com um chapeuzinho gracioso sobre seus cabelos negros cacheados, meu coração transbordou de ternura e minhas lágrimas corriam. Ela veio ao meu encontro e abraçamo-nos girando na plataforma, aos gritinhos e suspiros, com tal sofreguidão que as pessoas paravam, abanando as cabeças. Eu já estava ficando mal afamada, talvez, nesta estação? Ríamos entre lágrimas, e ela logo informou:

–Deixei o Pedro, como lhe prometi. Ele chorou muito, mas não me arrependo. Eu a amo, Alma, mais que tudo na vida, e quero ser sua completamente. Leve-me consigo para a sua estância, e beije-me até eu morrer em seus braços.

Abracei-a mais ainda, enquanto Galdério, preocupado, olhando para os lados, começou a puxar-me pela manga.

Aline trouxera uma razoável bagagem, todos os seus pertences, que afinal não eram muitos. Roupas e pequenos objetos. Mas isso significava que ela viera mesmo para ficar. Moraria comigo na estância, para sempre. Eu fecharia também meu ateliê nos Jardins. Estava decidida. Traria todas as minhas telas. Eu transformaria o casarão num imenso ateliê. Apostei que Rôdo adoraria. Solange e Geraldo que se atrevessem a aparecer por aqui! Eu lhes poria cachorrada em cima. Estou convencida que meu cunhado jogador era seu cúmplice, sempre fora. Eles devem ser amantes. Foram feitos um para o outro. Pobres Patrícia e Pedrinho! Bem... eles seriam preservados pela sua própria pureza, sempre, eu esperava. Há criaturas iluminadas que já nascem salvas. E o mundo não pode corrompê-las. Acredito nisso.

Voltamos a galopar pelos campos, Aline e eu, ora em dois cavalos, ora em um só, com ela agarrada a mim na garupa, que é como prefiro, sentindo seu corpo, seu calor, e fazendo parte do cavalo comigo, como um maravilhoso duplo centauro feminino. Chegamos às vezes a cavalgar nuas, assim, agarradas, sem importar-nos de ser vistas pelos boiadeiros, por ninguém... É verdade que prefiro as porções desertas do pampa e as trilhas escondidas do nosso bosque. Mas sei que não tardará a que os boatos cheguem aos ouvidos de Solange, onde quer que ela esteja, sobre a nossa nudez que ela dirá escandalosa. Sou provocativa, eu sei. Sou imatura, talvez. Sou uma criança, a guria rebelde que o Vati mimava. Mas agora é tarde. Minha sensualidade me conduz. Sempre me conduziu, e duvido que me destruirá. Ela emana do meu corpo e alma, puros, cheios de desejos legítimos, de prazer, de puro prazer carnal e anímico. Sou uma pagã. Assim meu pai me criou. Agora é tarde. Solange, solapado anjo mau que perdeste as asas, saia do caminho do meu cavalo a galope, cuidado com as centauresas! Olha, os meus seios nus, eles apontam como arcos certeiros, duros e empinados. Olha os de Aline, menores, tão belos ou mais que os meus. Quatro faróis na noite do Pampa, quatro setas no dia da planície. Vento haragano, quente, que traz a chuva. Veja-nos, Solange, apear do centauro, agachar-nos sensualmente olhando uma à outra, e urinarmos na relva, como uma ducha dourada sobre nossas mãos, uma à outra. Veja-nos levar as mãos às narinas aspirando o perfume do nosso champanhe preferido. O nosso vinho espumante. Não sabes nada, Solange, da vida da carne, mais profunda, mais crua do que imaginas. E muito mais bela. Nada sabes do “amor que reparte coroas de alegria”, como disse Garcia Lorca. Eu lamento por ti, minha irmã burguesa, convencional e assassina. Não soubeste viver, não soubeste amar, como já não o soubera nossa mãe, de cuja amargura és a herdeira.

Eu, aqui desta varanda, ou de pé sobre a planície infinita, que se estende diante de mim, me encontro com o meu amor de mãos dadas para sempre olhando a terra que reconquistei, que salvei. O vinhedo sem fim dos meus avós, drenando o sangue da terra que nutrirá a minha carne em êxtase, e a minha alma iluminada que nada mais poderá machucar.

O Pampa será meu para sempre, que cantarei de alegria, brindando o meu amor com o sangue desta terra do Sul!

 

 

 

 

Segunda Parte

A ARA DOS PAMPAS

Estrelas do Centauro, agora eleitas

Para reger a paz desta estância:

Guerreiras solertes, que refeitas,

O preço é nossa eterna vigilância!

No oceano imóvel das coxilhas,

Num espaço ou tempo congelado,

A nave construída com cavilhas

É o casarão não naufragado

Que logrou vencer seu furacão,

Atravessando a borrasca por um ano

Batido por interno minuano...

 

Além, o quente e súbito haragano

Traz rara chuva às colheitas de verão,

Preservando a nossa vinha... e o coração!

(Alma Welt)

 

Capítulo Primeiro

 

O Estupro

 

Em torno do casarão avarandado, eu colhia pequenas flores, distanciando-me, talvez numa espiral lenta, centrífuga, que me aproximava dos limites do jardim onde começava a pradaria, o Pampa verdadeiro, que eu via como um outro território, contíguo embora, do qual nosso jardim era apenas uma amena transição.

Para além do jardim as florzinhas eram mais duras, mais secas talvez, como as sempre-vivas, as flores-do-campo, agrestes, que me desafiavam, a mim, pequena aventureira em meu próprio território, onde reinava como uma princesa, mas percebendo os olhares vigilantes de minha mãe e irmãs bem mais velhas.

Rodo, querido irmãozinho, como me protegias... e eu a ti! Protegíamo-nos mutuamente da intrusão desses olhares invasivos que nos incomodavam, pois nossa relação com o cenário, com o casarão, com o jardim e sobretudo com o pomar, era íntima, secreta, e de uma profunda sensualidade infantil, suspeitada na verdade pelos adultos.

Solange, a mais velha, temia o meu menor gesto ao colher uma flor. Assim eu percebia. Ver-me correr com Rôdo pela casa, pelo jardim, pelo pomar sobretudo, a enchia de suspeita, e gostaria de apartar-nos. Mas o Vati nos protegia com sua benevolência, com o seu amor sábio, e neutralizava as mesquinharias de Solange, e mesmo as da minha mãe, Ana Morgado, de estirpe portuguesa, açoriana de bela pronúncia, lindo sotaque, que era, ao meu ver talvez injusto, o seu único talento.

Estávamos sempre, Rôdo e eu, cochichando, combinando encontros para dali a pouco, pela volúpia de reencontrar-nos mil vezes por dia para continuar a brincar, a descobrir e a conspirar a favor da vida e da alegria... em nós mesmos, e em torno, nos pequenos animais, nas flores, nas árvores do nosso pomar. Mas sobretudo na nossa macieira querida, da qual fizemos um altar do nosso amor infantil e eterno, da nossa cumplicidade inocente que juramos nunca renegar.

Agora, nesta viagem de retorno a São Paulo, no ônibus, acompanhada por Aline, eu me ponho a recordar tudo isso, segurando a mão delicada do meu amor, que ressona na poltrona, e penso em como a minha vida é rica, em sua simplicidade interior feita só de amor e de memórias escolhidas, das belezas cotidianas que eu soube desfrutar, descartando os detalhes desagradáveis, ou incorporando-os transfigurados pelo meu dom de beleza em pequenos dramas e tragédias que balanceiam a minha memória como uma obra de arte, a minha maior obra, pintora e poeta que me sei romântica, com orgulho.

Contemplando o lindo rosto do meu amor, esta bela mulher, da qual não temo a beleza, com a qual não disputo por me saber e sentir igualmente bela, dou-me o direito de toda a ternura, de toda a adoração, na verdade. Ah! O prazer de adorá-la, de mimá-la, de servi-la, de pôr-me a seus pés! É indizível, inenarrável, e eu sei que os meus leitores podem até mesmo estranhar a intensidade, o excesso mesmo destes meus sentimentos. Mas, o que posso fazer? Tenho um nada secreto orgulho desta paixão quase subserviente. Eu, princesa de meu pai, gostaria de ser escrava desta pequena beldade, e até mesmo de ser... açoitada de vez em quando por ela para verter e oferecer o meu sangue aos seus olhos. Ah! Que fantasia escabrosa, eu sei, que denuncia o meu recôndito masoquismo, que já reconheci perante vocês, meus condescendentes leitores!

Quando ela acordar, vou beijá-la logo, aqui no ônibus, cercadas dessa pequena burguesia comedora de doces e salgadinhos, mas que não levarei em conta, como já não o faço há anos para não contaminar o meu espaço interior de cotidiana poesia.

Numa parada para almoço o ônibus encosta, bufando, numa grande rodoviária, Aline acorda, logo sorrindo para mim como sempre faz, enchendo meu coração. O prazer de ver-me ao abrir os olhos, assim, denunciado por esse sorriso, é o melhor da vida, o mais lisonjeiro, e eu beijo os seus lábios ali, no ônibus, não quero saber dos olhares em torno. Descemos para almoçar, primeiramente buscando o toilette para um longo xixi, alternando-nos no mesmo vaso, juntas as duas na mesma cabine, para desfrutarmos da intimidade dos nossos barulhinhos sibilantes, que nos enternecem. Ao sair da cabine para lavarmos as mãos, somos olhadas com estranheza por isso, por outras mulheres “Essas duas não se desgrudam nem para isso? Safadas!” devem pensar... Mas não importa, afrontar a sociedade pequeno-burguesa pode também ser um ligeiro prazer.

À mesa comemos sobriamente, pois não temos carências, insatisfações no nosso relacionamento, e prezamos nossas esbeltas silhuetas que as burguesas invejam.

Assim, viajamos prazerosamente, curtindo a calma, a paisagem e o belo sol deste nosso país sem igual, privilégio de que somos conscientes, como de tudo o mais em nossas vidas.

Chegamos afinal a São Paulo para fazermos nossa mudança definitiva para a estância, para fecharmos meu ateliê, esvaziá-lo das minhas copiosas telas, dos meus desenhos, gravuras e materiais abundantes. Quero tudo isso no casarão, que ancorado no Pampa, no grande porto do mar das coxilhas, nos espera para outro secreto navegar. Haveremos de zarpar, juntas, rumo ao futuro ignorado, mas num mar, num oceano que acredito conhecer bem mais que a selva desta cidade imensa, da qual não posso, no entanto, me queixar: a Paulicéia não me foi hostil, os Jardins toleraram a minha natureza talvez mimada, e me fizeram até mesmo pequenas homenagens. Aqui lancei o meu livro “Contos da Alma”, com certo sucesso, prestigiada pelos meus novos amigos e os do meu prefaciador e ilustrador, o Guilherme de Faria, que na verdade me descobriu, no meu ateliê, quando estava tão isolada, nos primeiros tempos. Mas devo lembrar que não estive presente no lançamento do meu livro, pela quase tragédia que aconteceu com Rôdo. Meu irmão, na sua febre de velocidade, destruiu o seu segundo carro esporte, a sua Ferrari, numa estrada do nosso Pampa, quase morrendo novamente. Peguei um avião, voei para o sul, largando tudo na véspera do meu lançamento, para, com o coração na mão encontrar meu Rodo no hospital, felizmente bem melhor do que seria de se esperar, apenas com uma faixa na cabeça, sorrindo candidamente ao me ver entrar desvairada.

Quis bater-lhe, pus-me mesmo a esmurrar levemente o seu peito, protestando:

–Seu louco, irresponsável! Não sabes que eu não poderia viver sem ti? Não tens o direito, ouviste? Não tens o direito de te arriscares assim! Se morreres perderei também a minha vida, ou a minha felicidade. Eu te proíbo! Eu te proíbo!

Rôdo gargalhou um pouco com dificuldade, pois lhe doía o peito, e abraçou-me. Ficamos assim, abraçados muito tempo. E eu chorei, chorei tudo o que podia e que estava represado: meu amor por este “guri”, este eterno “piá” do meu coração, tão louco, tão intenso e extremado, que na verdade era o equivalente anímico, o “animus” desta Alma igualmente intensa ou exagerada, que não podia, por isso, censurá-lo.

Chegando a São Paulo, fomos direto para o nosso apartamento, meu estúdio, como prefiro designá-lo, na rua Oscar Freire, para banharmo-nos, descansarmos, fazermos amor e dormirmos até o dia seguinte, antes de enfrentarmos os trabalhos de empacotamento, encaixotamento, etc, para a nossa mudança definitiva. Rescisão de contrato, pagamento de multa, entrega das chaves, etc, quantas providências! Não me deterei sobre elas, mas devo relatar aqui, algo que não tive coragem de contar à própria Aline...

O estúdio já estava bastante desmontado, os caixotes empilhados no meio da grande sala do ateliê. Aline saíra para buscar mais caixas de papelão para os livros e tralhas. O interfone tocou, era, surpreendentemente, o Pedro. Como soubera ele que estávamos de volta? Talvez tivesse telefonado para a estância... O fato é que ali estávamos, ele e eu, confrontando-nos pela segunda vez em nossas vidas. Eu estava tensa, se não amedrontada. Ele bateu os nós dos dedos na porta aberta e entrou com sua presença forte, imponente, e à primeira vista atraente. Enquanto ele fechava a porta atrás de si, recuei um pouco, talvez tenha sido esse o meu erro. O macho farejou o medo, a fraqueza, e resolveu impor-se.

–Alma, vejo que está só. Aline não está, não é mesmo? É melhor assim, preciso falar-lhe, você me deve explicações. Quero Aline de volta, você a tomou de mim, não sei com que poderes, com que armas. Mas não posso aceitar isso, como uma derrota. Sei que Aline me ama. Você não sabe o que há entre nós, você é uma arrivista nesta história, não sabe o que já passamos juntos, tudo o que vivemos um com o outro. Não posso aceitar isso. Você a seduziu, você a enfeitiçou com a sua beleza irreal, só pode ser isso!

Ele avançou para mim, enquanto eu recuava esbarrando numa pilha de caixotes de madeira. Suas grandes mãos me agarraram pelos braços e ele prensou-me, curvando-me sobre as caixas. Senti o volume enorme do seu pênis encostar-se ao meu púbis e encaixar-se entre as minhas pernas sobre o vestido, tão fino, tão ralo, o meu vestido... (tão vulneráveis que somos, nós mulheres). Sentindo as minhas formas, ele mais excitou-se e percebi seu mastro empinar-se. Eu estava em apuros! Tentei gritar, mas a sua mão enorme cobriu-me a boca, enquanto, habilmente, com a outra ele abria sua braguilha e erguia com seu próprio membro, imenso, a minha saia, e invadia a minha calcinha pela borda da virilha, encontrando a minha fenda sem que eu pudesse colocar qualquer obstáculo, já que o seu próprio corpo estava inteiro abrindo-me as pernas, já praticamente deitada à força nos caixotes. Senti o seu grande pênis adentrar-me como um ferro em brasa e gritei, gritei, chamei Aline, debati-me impotente, pois ele segurava meu pescoço com sua munheca poderosa, e eu perdia o ar, quase desfalecendo.

Ele ficou muito tempo entrando e saindo de mim, até eu nada mais sentir, de tanta dor e medo. Ele ia matar-me em seguida? Era a minha preocupação... Mas ele afastou seu peito do meu e virou-me com único golpe de mão sob minha anca, e pôs-me de bruços sobre os caixotes. Dei um imenso grito, logo abafado por sua mão, enquanto ele me invadia por trás, lubrificado apenas com o meu próprio molho, ou mesmo meu sangue. Sodomizou-me longamente, com a respiração sibilante, entrecortada, estertorante, que me horrorizava em meio à dor. Depois... saiu inteiro, para observar-me e logo voltar a invadir-me excitado novamente com a visão que teve, que lhe pareceu mais convidativa. Eu estava perdida, pois só lhe restava matar-me, e esperei passivamente o seu golpe de misericórdia, entre lágrimas e soluços. Então... ele saiu de mim, largou-me, tremendo também, eu percebi, apesar de tudo. E afastou-se fechando a braguilha manchada, andando um pouco de fasto, até virar-se e sair, não antes de dizer, com voz emocionada e sinistra: “Adeus, Alma, agora você sabe mesmo o que é o homem, e do que Aline gosta. Agora podem se amar, porque estarei sempre no meio de vocês!”

Com imenso esforço, em meio a terríveis dores, desvirei-me, pus os pés no chão e caí de joelhos, arrastei-me gemendo e chorando até a pequena escadinha de armar que servia para desmontar as estantes, e derrubei-a para simular um acidente. A seguir desfaleci.

 

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Voltei a mim com o rosto de Aline, aflito, sobre o meu, soprando-me e beijando-me, entre tapinhas nas minhas faces:

– Alma, alma, o quê houve? De onde vem esse sangue no seu vestido? Você caiu? O quê aconteceu. Você está ferida!

– Sim, sim, Aline, eu caí da escada, devo ter me arranhado, nada sério, acho que desmaiei de susto, mais do que da pancada. Vou ficar bem, não se preocupe, Aline -  (dei um soluço profundo, que tentei em seguida disfarçar). Aline não estava convencida e ergueu-me subitamente a saia e soltou um grito, horrorizada. Queria examinar, correu ao banheiro para buscar uma toalha de rosto, que molhou na torneira da pia, e veio limpar-me. Ela perceberia tudo! Eu não podia deixar que isso acontecesse. Isso acabaria com a sua felicidade, isso a revoltaria de uma forma ou de outra. Eu a perderia! Eu a perderia!

Arrastei-me com dificuldade, pus-me de pé, trêmula, dizendo:

– Aline, bati meu púbis de encontro a quina de um caixote, quando a escada tombou. Estou ferida, sim, mas não fica assim, que tu me assustas. Chama apenas um médico, o doutor Glauco, só isso. Só ajuda-me a deitar, minha linda, e a repousar. Preciso dormir.

Aline, em lágrimas, atarantada, ajudou-me a pôr-me no leito, cobriu-me e imediatamente ligou para o médico. Não ouvi mais nada.

 

Acordei com o doutor Glauco, tomando-me o pulso. A bondade do seu rosto de velho sábio foi consoladora: um rosto benevolente de homem... era isso que eu precisava ver agora para não odiar todos eles, os machos sanguinários, nossos predadores ancestrais. Não, não, Alma, não pensa assim! Tu nunca pensaste exatamente assim e, no entanto, não foi a primeira vez que foste atacada. Meus pensamentos estavam confusos, e minhas lágrimas voltaram a correr enquanto o doutor Glauco descobria-me, erguia a minha saia, tirava a minha calcinha manchada, examinava-me, com um sibilado horrorizado entre dentes. Pediu então para Aline sair do quarto e disse:

–Alma, você foi estuprada, não adianta negar. A sua amiga transmitiu-me a sua versão para esse sangue todo, e não me convenceu nenhum pouco. Queda! Pois sim! Você caiu sobre a quina de um caixote? Podia até ser! Mas esse esperma todo, de onde veio? E o seu ânus, foi também atingido pela quina do caixote? Com esse esperma, igualmente? Não, Alma, não negue. Quem foi o responsável por esse crime? Não queira defender nenhum bandido. Um homem assim merece cadeia. Alma, você tem que dar queixa. Trarei um delegado meu amigo, aqui, porque você tem de permanecer acamada. Vamos, conte-me tudo.

–Doutor, pelo amor de Deus, não contes nada à Aline. Não posso, doutor, não posso dar queixa do agressor. Acredita-me, tenho motivos muito fortes para isso. Aline perderia a sua felicidade, e eu então a perderia, a ela, Aline. Entenda-me, doutor. Já compreendeste, não é? Sempre pude confiar no senhor, nunca me faltou antes. Não posso perdê-la, doutor, eu morreria. Por misericórdia! (caí num imenso pranto, enquanto o doutor abanava a cabeça e me ajeitava o travesseiro, cobrindo-me paternalmente. Lembrei-me do Vati, quando me punha para dormir, guria ainda, ou até mais tarde, e as lágrimas mais corriam).

Ele disse:

– Está bem, Alma, já que quer assim, mas vou lhe receitar uns anti-inflamatórios e analgésicos, e ainda um teste de HIV, que você deve fazer dentro de poucos meses, não se esqueça (ele escreveu a receita do teste num papel à parte).

Eu, na verdade não temia esse aspecto da coisa, pois Aline comentara comigo o fato de Pedro ter o seu certificado de HIV negativo, como um compromisso entre eles. No entanto, esse comentário do médico me fez explodir em mais lágrimas, talvez pela vergonha que senti da minha situação.

O bondoso médico tranqüilizou-me com um sorriso triste, pôs os dedos nos meus lábios, fazendo schhhhh... schhhh... Eu sabia que ele não diria nada. Esse homem me amava como a uma filha e saberia preservar a minha teimosa felicidade. Antes de sair, abriu novamente a sua pasta e colocou-me na mão um envelope da “pílula do dia seguinte”, apontou significativamente o envelope com um gesto enfático, e retirou-se.

Eu sabia o que deveria fazer.

 

Quando criança, eu descobrira em meu irmãozinho Rôdo, as “diferenças”, mas da maneira mais doce. Já contei algumas vezes pequenos episódios desse relacionamento, nos meus contos e poemas. Eles são a raiz da minha poesia, assim como a doçura, sabedoria e força de meu pai. Assim como as flores maravilhosas do jardim de minha mãe (só por isso eu deveria amá-la mais do que consigo) e o pomar plantado pelos meus avós, bem como a vinha, sustento e base da nossa estância, da nossa prosperidade recuperada.

O fato do meu irmão conhecer-me tão intimamente, digo, ao meu corpo, desde pequena, liga-me a ele com especial força e por isso freqüentemente despimo-nos, um frente ao outro, à menor oportunidade. Nunca me incomodou o seu desejo, pois ele é mútuo, recíproco. Apenas nos controlamos porquê um instinto de conservação nos protege de um incesto total, desde as experiências da nossa infância. Tenho dificuldade de entender o sentido de tragédia que os gregos, por exemplo, atribuíam a esse fato. Tanta repressão, tanto sentimento de culpa, tanto preconceito moral e social, introjetado! Não me identifico com isso. Creio que os homens sofrem por ignorância, preconceito, superstição e repressão incorporada, embora eu possa me comover com o seu sofrimento, mesmo por essas razões. Eu não deixo de chorar numa tragédia grega. É pela dor do mundo, dor do homem, em sua ignorância e fraqueza, que derramo lágrimas. Mas não considero que eu sofra pelas mesmas razões da maioria. Serei diferente? Serei estranha? Não! Sou artista, e considero-me livre e libertária. Aceito tudo, até mesmo a libertinagem, pois amo o erotismo, fonte de inspiração vinda mesmo, talvez, daquele deus alado com seu belo corpo de andrógino. Só não posso aceitar a maldade... e a vulgaridade nos homens. Tudo o mais posso aceitar, mesmo os rompantes de cólera, principalmente da legítima ira dos amantes, a ira sagrada dos puros e apaixonados, ofendidos em sua ingenuidade. Sim, posso mesmo compreender as razões da guerra, embora seus efeitos me causem horror. O sofrimento dos inocentes... eu posso compreender, e chorar. O terrível sofrimento gerado no epicentro da discórdia: o inferno do preconceito.

 

Passei três dias na cama. Meu corpo todo doía, e também uma parcela da alma. Mas disfarcei o quanto pude para não assustar Aline, que se desvelou à minha cabeceira e dormia ao meu lado, com cuidado para não tocar-me. Minha guria maravilhosa cuidava de mim, me mimava e o seu zelo mais me enternecia. Mas eu percebia um laivo de suspeita em seus olhos. Ela apenas retardava o confronto, a hora da verdade. Ela esperava a minha recuperação para interrogar-me a sério, encostar-me na parede. A prova disso era a sua insistência em querer olhar as minhas partes íntimas para poder cuidar delas. E brincava: “preciso zelar pelo meu patrimônio” ela dizia, arrancando-me pequenas gargalhadas. Minha adorável Aline! Eu disfarçava o quanto podia, causando mais suspeitas, pois nunca tivéramos esses pudores uma com a outra. Mas ela descobriria tudo se pudesse me olhar nestes primeiros dias.

Perguntei-lhe se ela se encontrara com Pedro em algum momento desde que chegáramos, nas suas saídas para compras e providências na rua. Ela garantiu-me que por nada nesse mundo o procuraria de novo, pois já fizera sua escolha definitiva. Mas, a verdade é que eu temia era por ela, que também podia ser igualmente atacada.

No quarto dia levantei-me, hesitante, e recomecei gradativamente os trabalhos de encaixotamento, tomando cuidado agora para não esquecer a porta aberta. Na verdade eu agora tinha medo, sim, medo de um novo ataque, improvável embora, mas que me assombrava até mesmo o sono. Eu tinha sido atingida mais gravemente do que eu pensava.

Afinal, a duras penas, terminamos nossos preparativos e chamamos o caminhão de mudanças. Quando tudo foi colocado no veículo, e este partiu, sentimo-nos subitamente mais leves e livres. Abraçamo-nos, festejando com alegres gargalhadas, e fomos tomar chá numa transversal da Augusta. No dia seguinte entregaríamos a chave do apê na imobiliária, saldaríamos as dívidas e partiríamos para o sul. Esta noite dormiríamos em colchonetes de barraca, de excursão. Acamparíamos na grande sala do apartamento vazio, o que nos parecia uma leve e bizarra aventura. Só não haveria “fogo de bivaque”. Essa expressão me veio do fundo da memória, dos livros de aventuras, da minha infância.

Montamos a barraca sobre o assoalho, enfiando as estacas na terra de quatro vasos pesados que retiramos do corredor. Nós nos divertíamos apagando a luz e usando apenas uma lanterna de pilha, e uma vela acesa. Imaginávamos estar no mato, acampando, e teríamos uma noite de amor em nossa barraca, enfiando-nos no saco de dormir, nuas, trêmulas de excitação. Mas antes tomaríamos chimarrão, com os acessórios e ingredientes que eu tomara o cuidado de deixar na cozinha: a chaleira, a cuia e a bomba, além do pacote de mate especial, o “amargo”.

Durante o serão, contei para Aline a longa estória de Eros e Psiqué, segundo a versão clássica maravilhosa de Lucius Apuleius, do seu “Metamorfoses ou o Asno de Ouro”. Sob a luz da lanterna eu podia observar os olhos puros, infantis, de Aline acompanhando a estória dos belos amantes, e sua ingenuidade me fazia transbordar de amor. Eu queria engolir a minha guria, de tanto encantamento... por seu encantamento. Eu podia perceber a viagem em seus olhos, da criança que ela era em sua alma. Talvez ela se reconhecesse naquela Psiqué, que era ela mesma, verdadeiramente. Nisso consiste, afinal, a finalidade e o sentido dessa estória maravilhosa: fazer as almas puras e belas se reconhecerem, divinas, como a mãe natureza as quis.

Depois, cama, antes que ficássemos muito sonolentas. Nuinhas e emocionadas, metemo-nos as duas no único saco de dormir. Aline acabaria de curar-me. Seus delicados toques me devolveriam o prazer do amor, e logo dormiríamos enlaçadas e felizes.

 

Quando eu era criança, o Vati me punha para dormir, contando estórias da História. Devo a ele meu amor pela arte narrativa, na qual ele era, a meu ver, mestre insuperável. Ele, com seu dom de contar, fazia-me viajar pelo tempo e pelo espaço através da história de tantos povos. Eu me sentia viver naquelas épocas, e não somente ouvir e tomar um conhecimento tardio. Não, eu vivi todas as grandes fases da história, fui testemunha e até protagonista. Mas, eu me identificava sobretudo com os grande artistas. Suas biografias, de algum modo falavam de mim. As vidas de Miguelangelo e Leonardo da Vinci eram a minha vida. Não posso explicar totalmente esse fenômeno de identificação plena, mas certamente é de cunho espiritual, e talvez mesmo reencarnacionista. Posso, mais modestamente, ter sido mulheres ou homens ligados a esses artistas: amantes, que de algum modo incorporaram seus sonhos. Tenho alguns indícios de quem foram essas mulheres. Não! Fui na maior parte do tempo os protagonistas da grande cena das artes. Não tenho como comprovar isso, mas tenho sérios indícios. Falarei disso ao longo dos meus escritos, como já o tenho feito, em termos. Deve ser essa a razão do porquê não esqueço uma só linha de tudo o que leio ou do que ouvi dos lábios do meu pai: eu vivi, de algum modo tudo o que li ou tomei conhecimento. Não se trata, pois, de memória, mas de vivência. Identificação. Mas, por outro, não são assim todos os artistas?

Uma alma de artista contém em si todas as almas, estou persuadida disso.

 

Estamos prontas para voltar ao Sul. Ainda sinto algumas dores, mas esconderei de Aline o acontecido, até quando for possível. Tenho a impressão, às vezes, de que ela me olha com desconfiança e certa preocupação. Mas não estou certa disso. Como reagiria ela, se soubesse a verdade do que aconteceu? Ela me culparia, de algum modo, pelo acontecido?

Tenho medo disso, na verdade. Mas, se pelo contrário, ela acreditar que fui vítima inocente, isso também não mudaria seus sentimentos a meu respeito? Sua revolta não a faria perder a paz? A inocência do seu amor por mim, feita de um suave sonho que faço questão de acalentar nela, nesse nosso belo cotidiano juntas...

Com nossas mochilas, tomamos um táxi para Congonhas, para voltarmos de avião. Estamos cansadas dos trabalhos de mudança, e não agüentaríamos uma nova viagem de ônibus. Logo estaremos no Sul. E no nosso Pampa. Quero ver-nos logo naquele trenzinho, depois na estação pampiana, e depois... na charrete de Galdério, meu querido Galdério de grandes bigodes e fala tão cantada. Abraçar Matilde, esperar por Rôdo, que deverá voltar de algum lugar do mundo, meu irmãozinho aventureiro...

A estância espera por nós. O vinhedo dos meus avós continuam sumarentos, e a produção do nosso vinho persiste. Mas a safra herdada, a maravilhosa e antiga safra já começa a saldar nossas dívidas, e poderemos viver, depois, de safras mais modestas. Também continuarei a vender meus quadros e meus livros. Os que produzo, bem entendido, não os da herança de meu pai, intocáveis. Meu primeiro romance está no prelo (e é tudo verdade, o que ali está escrito). É irônico e maravilhoso vender as narrativas da minha própria vida, apenas porque sei perceber a beleza oculta no mais simples acontecimento, num ranger de porta, num olhar de esguelha, num suspiro ou num gemido carregados de significados. No amor que carrego em mim, derramando-o pelo caminho, esbanjando-o sem qualquer usura. Ao derramar-me na vida e no papel, serei um rio, uma catarata, e nunca uma poça estagnada. Nem mesmo um triste lago. Eis aí porquê pago pesadas taxas pela minha generosidade: a invasão, as agressões mesmo, o estupro do meu corpo, senão o da minha alma!

 

Aline volta a colher flores comigo. Voltamos a cavalgar juntas, às vezes nuas. Montei meu ateliê no casarão, ocupando muitos cômodos, somente respeitando a biblioteca do Vati, e os aposentos de Lúcia e o dos meus sobrinhos Hans e Christian. Também os de Patrícia e Pedrinho, para quando eles voltarem. Mas desmontei o quarto de Solange. Não deixarei a assassina voltar a esta casa, nem aquele seu cúmplice, Geraldo. Oh! Mas como conciliar esta atitude severa com a saudade e a necessidade que tenho de rever e abraçar meus queridos Patrícia e Pedrinho? Não sei, na verdade, o que fazer. Sem sua mãe, meus queridos sobrinhos só aparecerão por aqui depois de moços. Ela os reterá, a vilã. É a sua vingança! Ai! Não posso pensar nisso ou sofrerei demais. Aline conhece o meu coração, e observa o meu olhar que ela sabe sondar em profundidade. Saberá ela, no seu inconsciente, do estupro? É bem possível. Às vezes, ela parece que vai me interrogar, mas o faz somente por uma fração de segundo, com os olhos. Seus grandes olhos azuis, que banham com sua doçura a minha vida...

Também temo meus sonhos, que podem me trair subitamente transformando-se nos pesadelos da memória daqueles momentos, e fazendo-me gritar em meu sono conturbado. Isso já aconteceu. Quase não resisti ao interrogatório preocupado de Aline. Quase revelei tudo. Até quando resistirei? Como guardar um peso assim, sem compartilhá-lo? Ah! Não, não posso cair na tentação da partilha dessa confidência escabrosa. Aline vai sofrer se eu o fizer, ou me desprezará se suspeitar de alguma culpa recôndita do meu ser. Oh! Cabeça! Pára de atormentar-te! Não és tu, Alma, forte na tua alegria? Na tua “joye de vivre” escolhida? Então, resiste e canta, coração da Alma!

 

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Capítulo Segundo

 

A caverna

 

Está tudo pronto, o ateliê funciona, e estou recomeçando a pintar. Sinto que entrarei numa nova fase em minha pintura. A minha fase pampiana abstrata que há de dar o que falar. O primeiro quadro, uma enorme tela, tem o ritmo das coxilhas e o vago rumor do minuano, acreditem. Aline ficou emocionada como eu com o resultado, depois de tanto tempo que fiquei parada com a pintura. Infelizmente tenho que interromper o trabalho antes de começar uma segunda tela. Preciso ir até Alegrete para comprar tintas, ou até mesmo Novo Hamburgo, senão encontrar o material que preciso. Aline me acompanhará, naturalmente, e estaremos de volta em dois dias. Galdério nos levará à estação.

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Estamos de volta. O trenzinho pára e avisto já o Galdério. Ele me parece um pouco sombrio. O que será? Meu coração se aperta um pouco. Conheço este homem, transparente para mim, com esses olhinhos amendoados de remota ascendência guarani.

Ao descer do trem, Galdério mal me olha nos olhos, pegando nossas mochilas para pôr na charrete. Pouso a mão no seu braço e o interrogo com os olhos.

– Senhorita Alma, tenho talvez más notícias. Tua irmã Solange esteve aqui, com teu cunhado Geraldo. Pareceu adivinhar que estavas fora. Chegou com um caminhão e cinco ajudantes. Dois ficaram, armados com carabinas, tomando conta. Proibiu-me de me aproximar do casarão. Nada pude fazer. Durante um dia inteiro foi um entra e sai de caixotes e mais caixotes. Não sei de quê. Quando partiram, corri a verificar os objetos da casa, inclusive a biblioteca de teu pai. Eu temia por aqueles livros, que sei que a senhorita adora. Mas estava tudo lá. Aparentemente nada foi tocado. Não entendo. Se tivessem sumido aqueles livros, eu garanto que tentaria, a cavalo, no galope, alcançar e interceptar o caminhão, com a minha vida, se fosse preciso. Mas, dona Alma, não entendo...

Tive um sobressalto, meu coração apertou-se quase desmaiei. A adega! A adega! gritei. Corri para o casarão acompanhada por Galdério e Aline, assustados. Com uma lanterna de pilha, descemos à primeira cave, apalpei a parede que se abriu e lancei o foco de luz sobre a desolação que nos esperava: as estantes estavam vazias! Nenhuma só garrafa, além de duas ou três espatifadas no chão, em meio a poças de vinho, certamente por acidente. Tive uma vertigem. Fui amparada por Galdério e Aline, que me arrastaram para fora enquanto eu estendia os braços no vazio. Fiquei em estado de choque. Eu fora roubada. Solange e Geraldo, aqueles canalhas me roubaram. A estância estava perdida! Não, não podia ser. Eu os perseguiria. Eu os denunciaria. Eu poria a polícia atrás deles. Uma safra inteira era um caso de polícia, até de Interpol. Isso! Eu deveria virar o meu olhar para o sul, para o Uruguai. Solange não seria tola de ir para o norte, que seria mais fácil para mim rastreá-la. Para o sul, para a fronteira!

–Aline, Galdério, Vamos para a fronteira, conheço Solange, ela conhece bem Montevidéu. Galdério, tu vais dirigir o carro, nada de charrete. Vou tentar encontrar Rodo pelo seu celular. Ele precisa me ajudar. Vamos, vamos!

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O gaúcho é um homem de briga, todo mundo sabe disso. Sua natureza bonachona foi talvez contaminada pela proximidade dos “castelhanos” que são ferozes, explosivos. Mas o gaúcho é mais perigoso, insondável como um índio, e não podemos facilmente perceber o que vai atrás daqueles olhos quando se tornam fixos. Aliás devemos puxar logo uma faca quando aqueles olhos ficam assim. Dizem mesmo alguns intelectuais gaúchos, que é preciso mesmo fazer uso imediato da faca (que tem de ter cabo de prata) antes que o outro o faça. Mas não hesite, quando notar esse olhar, porque você não terá uma segunda chance!

Em nossa estância, entre os peões corria a estória de um, chamado Roderigo, que matara um parceiro com o qual apartara tantos bois, que pareciam irmãos. Interrogado pelo antigo patrão, declarou que o companheiro o olhara fixo, pela primeira vez, “e como eu estava noivo, era ele ou eu!”

Entre os peões, machos, há muitos códigos de comportamento, antigos, que se perdem na noite dos tempos. Nunca me aproximei muito deles, fazendo sempre de Galdério “meu fiel cavaleiro”, meu intermediário. Nele eu podia confiar pelas razões que já contei no primeiro volume, mas também porque quando um homem assim simples te ama com respeito, tu podes dormir aninhada em seus braços, se tiver que fazê-lo em pleno pampa, para abrigar-se sob o seu pala no meio do minuano.

 

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Chegamos à fronteira uruguaia, a poucas horas de desabalada e inútil corrida. Não iríamos interceptar o caminhão, isso seria impossível, pois já havia partido há mais de um dia. Nós teríamos que seguir o seu “rastro”, encontrar pistas, informações. Ao começar, no entanto, esse processo, tive desde o princípio a sensação de defrontar-me com uma conspiração. Os uruguaios faziam-se de sonsos. Teriam Solange e Geraldo corrompido a todos, subornado, desde os agentes de fronteira, até os frentistas e donos de postos de gasolina onde parávamos? Era possível. Mas eu não desanimaria. Eu notara indícios que estava certa em dirigir-me para o sul. Eu tinha que chegar a Montevidéu e procurar logo os melhores restaurantes da capital. Ou a melhor distribuidora. Mas... então dei-me conta de que eu estava desarmada, não tinha provas da minha propriedade daquelas garrafas. Como poderia reivindicá-la? Talvez com a minha simples identidade de irmã de Solange, portanto, de co-herdeira! Mas para isso eu precisava chamar o meu advogado. Era preciso que ele viesse até aqui. Mas, e se Solange tivesse ido para Punta de Leste, ou mesmo Mar del Plata, na Argentina? Era provável, já que ali há grandes hotéis para turistas do mundo todo. Comecei a me sentir desnorteada, ou melhor, “dessulinada”. Resolvi parar em Montevidéu e esperar o advogado.

Contatado, o doutor Loredano chegou depois de um dia. Eu estava com Aline e Galdério no hotel Paradiso, um três estrelas razoável na rua Tamayo. O advogado chegou com a sua maleta, com os documentos de propriedade da estância, o formal de partilha, etc. Tudo o que precisávamos para reivindicar a propriedade do nosso vinho. Até mesmo o original da carta do meu avô, que estava reproduzida no contra-rótulo das garrafas, e ainda os esboços do meu desenho circular dos rótulos. Qualquer juiz consideraria inválida as vendas já feitas e confiscaria a safra até o final do processo. Eu sabia que isso era perigoso. Poderia paralisar as vendas por anos, disse o advogado, até a liberação do “corpo de delito”, ou seja, as garrafas mesmo.

Comecei afinal a chorar, coisa de que não tivera tempo de fazer até aquele momento. Chorei e chorei, cheia de auto-piedade, até ser chamada à ordem pela minha Aline, que precisou quase esbofetear-me. Brava guria! Enxuguei as lágrimas e apontei meus lábios para que ela os beijasse para dar-me alento. Ela sorriu e o fez com ardor. Deu-me a seguir, com um outro sorriso maroto, um tapa na bunda que me fez sentir mais feminina que nunca, o que foi engraçado partindo de uma moça tão delicada como ela. Eu agora estava pronta para recomeçar a luta.

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Meus leitores, meus amigos, que acompanham desde o início as minhas aventuras, chorem comigo: descobrimos indícios de que Solange trocara todos os rótulos, de toda a safra. Tentara despistar o seu crime facilmente, já que ninguém ainda conhecia bem o “Ara dos Pampas”, e ela venderia o meu vinho com o título solene de “Haragano Rubro”, o que me pareceu inspirado, surpreendentemente. Eu estava perdida. Minha irmã estava me matando. Eu iria ficar pobre, rapidamente. Fiquei um tempo rastreando as garrafas na capital, e depois fui a Punta de Leste e Mar del Plata. Solange tinha vendido já oitocentas garrafas, pelas minhas contas. Comecei a dar tudo por perdido. Num hotel desta última cidade balneário, cruzei com um sheik árabe e sua comitiva. Ele parou imediatamente e retirou o seu indefectível óculos escuros, e com o seu cavanhaque e albornós característico, exclamou primeiro duas palavras em árabe, que identifiquei como “Alah-uakbár!” (Deus é grande!) Em seguida dirigiu-se a mim em espanhol, num sotaque estranho puxado para o francês:

—Senhorita, permita-me que me apresente: sheik Ali-al-Mouthassin-al-Akbarame, seu criado. Dar-me-há a honra de sua companhia no meu café da manhã?

Fiquei um instante desconcertada, pensando numa manada de camelos dirigindo-se à minha estância, enquanto eu era incorporada, vestida de odalisca, a um harém das mil e uma noites. Por incrível que pareça, Aline percebeu essa miragem no meu olhar e enfiou as unhas na minha cintura, do seu jeito característico, quando enciumada. Estremeci e sorri baixando os olhos sem nada responder, fazendo um gesto de mão bem ocidental, querendo dizer: “pega leve, meu sheik, sou comprometida”, e afastamo-nos.

A verdade é que, como uma guria, acalentei essa fantasia por uns dias, principalmente na hora de dormir, quando sempre me permito o devaneio e entrego-me às miragens maravilhosas da minha imaginação. Eu me vi, por exemplo, atravessando um deserto num baldaquino sobre um ondeante camelo, totalmente velada, dirigindo-me a um maravilhoso palácio no meio de um oásis. Encerrada no serralho, eu esperaria o meu sheik, o dia inteiro reclinada em coxins sobre belos tapetes persas, ou banhando-me em tepidários, ou “banhos turcos”, ouvindo alaúdes e pondo-me hiper erotizada pela minha própria pele tão branca, que o sol do deserto jamais tocaria. Eu jamais veria um grão de areia de perto, novamente, a não ser da ampulheta, e minha carne se corromperia tão lentamente como o cair dos grãos. Eu teria somente de contar estórias e mais estórias para o meu sheik (agora um sultão) e minha vida dependeria somente desse meu dom de narrar... e dar-me inteira, como um delicioso manjar branco, ao sultão infatigável que me fazia a sua favorita para sempre.

De volta à estância, fiquei alguns dias como uma zumbi, vagando pelo casarão sem conseguir pintar. Aline sondava o meu rosto esperando novo alento, e buscava levantar-me, sem saber bem como. Às vezes tirava toda a sua roupa e dançava nua para mim, no meio do ateliê, linda e graciosa como uma jovem ateniense ou espartana. Como Frinéia, melhor dizendo. Eu sorria tristemente e a abraçava, mas a tristeza não passava. A preocupação pela idéia da ruína, que se aproximava, estava interferindo no “princípio do prazer” que eu tinha como o fio condutor da minha vida.

Afinal, chegou Rodo como um tigre, furioso. Entrou exaltado, dizendo:

–Alma, vou matar Solange, eu a mato. Não há mais nada a fazer senão isto. Se está tudo perdido, só resta a vingança. Vou matá-la com o punhal do nosso pai. Depois não me importa mais nada.

Agarrei a sua cabeça e a coloquei apertada entre os meus seios, que ele aspirou longamente. Aline nos olhava, hipnotizada. Eu disse:

–Rodo, não o faça. Eu sei que és, mesmo, capaz disso. E estaríamos todos desgraçados para sempre. A tragédia grega parece rondar esta casa, e Aline já estava a dançar como uma hetaira, prenunciando isso. Não quero nada disso. Prefiro ir mais longe, ao Oriente, quero dizer, lembrar-me do Tao. Deixar fluir a vida, o destino. Somos impotentes perante os desígnios de Deus, e se reconhecermos isso ele se apiedará de nós. Do contrário ele continuará nos castigando com os pesadelos insones que estamos vivendo. Venham, meus queridos, vamos deitar-nos os três, lado a lado, no mesmo leito e entregarmo-nos juntos a um sono prazenteiro, largado, entregues na mão do nosso Deus que soprará o seu conselho, suavemente, na nossa alma adormecida.

Assim fizemos, e um silêncio solene e calmo caiu sobre a nossa estância, afinal.

 

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Resolvi procurar saber do paradeiro de Patrícia e Pedrinho, meus sobrinhos adorados. Como estariam eles no meio dessa confusão? Como encaravam essa relação de sua mãe com aquele tio desnaturado? Seu sofrimento, que eu imaginava, apertava-me o coração, quando pensava nisso. Depois de alguns telefonemas, consegui afinal falar com Patrícia no seu celular. Ela continuava, graças a Deus, a viver num sonho de apaixonada, enquanto Pedrinho parecia bem mais preocupado. Meu querido guri tomou o aparelho e disse:

–Tia Alma, eu vou fugir daqui, eu vou para aí, junto de ti. Não fico mais aqui. Eles querem nos pôr num internato, não vou suportar. Patrícia só suspira e sonha com o seu namorado, mas eu não quero nada disso. Eu quero ficar junto de ti, para sempre, tia Alma. Venha me buscar, eu te peço, tia. Se não, me porei sozinho na estrada, a pé, e chegarei de qualquer jeito aí.

– Não, não Pedrinho, espera. Eu vou buscá-los. Eu vou com Aline e Galdério. Nós vamos ficar juntos, tu verás. Fiquem aí. Chegaremos logo. Dentro de dois dias, no máximo. Até breve, meu querido. Um beijo na tua boquinha.

Consultei o doutor Loredano por telefone, e ele me alertou que se eu fizesse isso, Solange poderia me acusar até de seqüestro. Bati o telefone, não quero saber. Se não posso contar com ele, ou vai ou racha, tenho que seguir meu coração. Vou buscar essas crianças.

Além disso, algo me dizia que eu precisava primeiro reunir esses guris em torno de mim, antes de poder ter uma nova idéia, ou solução para o problema da estância. O perigo da dívida imensa, não saldada em sua maior parte, ainda persistia e exigia novos esforços sobre-humanos para alguém como eu. Eu tinha quedas no desespero, fragilizava-me em meio às tormentas, tinha vertigens de dissipação dentro da minha alma, contra as quais eu precisava lutar. A “fantasia” da pobreza, tinha, dentro de mim, um atrativo hipnótico. Talvez a minha alma de poeta encontrasse ecos fecundos, antigos, dessa pobreza propiciatória, em seu sofrimento, dessa mesma poesia de todos os tempos. Não! Eu tinha de reagir a mim mesma. Lutar, ser prática. Eu deporia a pena, isto é, a esferográfica, por uns tempos. Deporia o pincel e a paleta. Deixaria as telas pelo meio em seu andamento, inacabadas. Sempre poderia retomá-las mais adiante, tintas sobre tintas, o que fica por baixo funciona como base, elementos sob transparências, texturas, vivências plásticas que enriquecem o resultado final, o quadro, a obra. Essa é a glória da pintura, como da vida: nada se perde, tudo se soma para levarmos conosco, carregados de riquezas, para a morte. Quem disse que da vida nada se leva?

Um instinto me dizia que eu devia voltar ao local do crime da outra. Pelo menos como investigadora é preciso sempre se voltar ao local do crime, para descobrir novos indícios, novas pistas. Mas deixei isso, também por instinto, para a volta. Eu faria isso junto com as crianças. Elas têm um olhar diferente que enxergaria coisas que eu não pudesse distinguir no meu enfoque pessoal.

Assim, pedi a Galdério que tirasse o carro da garagem e fôssemos para Novo Hamburgo, em busca dos meus queridos Patrícia e Pedrinho. Aline me acompanhou.

Senti a viagem como uma corrida, como o galope da cavalaria salvadora, sem saber bem porquê. Solange estaria também de volta, numa mesma corrida? Eu precisava chegar antes, retirar os meus sobrinhos de sua casa. Depois, veríamos. Eu acusaria Solange pelos seus crimes, para justificar perante a Justiça o meu ato de...  resgate, abrigo, “proteção moral” destas crianças. Isso pegaria? Era preciso tentar.

Chegamos afinal àquela cidade, onde eu mesma passara uma parte importante da minha infância. Toquei a campainha, Patrícia abriu e me abraçou, e Pedrinho se juntou a nós nesse abraço demorado. Beijei-lhes a boquinha e disse:

—Crianças venham comigo, façam uma malinha cada um, e só o que for mais precioso para vocês, como objetos. Devemos partir logo. Sua mãe pode estar vindo, e chegar a qualquer momento. Vamos, vamos!

Alícia, a empregada de Solange, olhava inerte tudo aquilo, e disse apenas, emocionada:

—Dona Alma, não sei o que direi para a Dona Solange, mas sinto que a senhora está fazendo a coisa certa. A casa está pior que nunca, com aquele homem aqui. Uma pouca vergonha, dona Alma! Aquele homem é mau, não presta. Só falam de dinheiro... e isso não é bom para as crianças, pobrezinhas. Ainda bem que a senhora veio. Vou torcer para que fiquem com a senhora (enxugou uma lágrima).

— Alícia, eu buscarei a ti também, um dia, para continuares com as crianças, se quiseres. Não sei se conseguirei ficar com elas, se a lei deixará. Vai ser uma longa luta... (abracei apertado essa boa mulher, e partimos).

As crianças, no carro, com suas pequenas bagagens no porta-malas, saudaram Galdério e Aline, carinhosamente. Voltávamos, afinal, para estância.

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Ao chegarmos da longa viagem, as crianças acordaram, desceram do carro e andaram pelo jardim florido, deslumbradas, logo pondo-se a correr, inspecionando o territórios que lhes eram tão caros. Depois, levei-os para tomar banho. Banhei Pedrinho na banheira e quis fazer o mesmo com Patrícia, mas essa já era uma mocinha, preferiu sua privacidade. Então, banhados e vestidos, disse-lhes:

—Vamos cear logo, Matilde fez algo leve para nós. Vamos dormir cedo, amanhã de manhã, bem cedo, precisarei de vocês a postos, meus espiõezinhos. Vamos descobrir alguma coisa importante para salvar a estância, está bem? (As crianças me abraçaram mais uma vez, e eu tremia de emoção... e apreensão).

Na cozinha, enquanto Matilde preparava a ceia, eu confidenciei- me com ela, que também estava preocupada. Ela dizia:

—Mas, Alma, guria, como poderás ficar com os piás? E a Solange, o que fará? Vai tomá-los de ti. Não poderás retê-los, eles têm mãe!

— Eu sei, Matilde, eu sei. Mas tenho de tentar. Elas não podem continuar como estavam. A mãe delas cometeu crimes, e vem fazendo um ambiente insalubre, moralmente falando, para as crianças. Tu sabes de tudo. Estás do meu lado?

—Naturalmente, guria, até à morte. Tu sabes que podes contar comigo... somente, não sei...

—Veremos depois, Matilde, vamos cuidar destas crianças. Tenho planos, deixa comigo.

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O sol da pradaria levantou-se e eu com ele, bem cedo. Os pássaros voltavam a cantar, me pareceu, depois de longo tempo... eu é que não tivera mais ouvidos para eles, por uns tempos. Como é belo tudo aqui! Como amo esta casa, estes jardins, o pomar, o vinhedo... a coxilha, o Pampa inteiro. Amo tudo e todos, mas preciso neutralizar a maldade de minha irmã, que até mesmo a ela eu amo. Quisera poder separá-la, a ela, de sua própria maldade. O mal, são as próprias pessoas más? Não é algo que está grudado nelas? Não é uma infecção? Uma contaminação? Nesse momento dos meus pensamentos lembrei-me da confidência de um amigo alcoólatra, que, deslumbrado com a descoberta de sua doença, que dava, afinal, sentido às dolorosas bebedeiras de toda uma vida passada entre dissipações e perplexidade, depois do seu depoimento numa sessão de AA ouvira de um companheiro veterano, no intervalo, o seguinte: “Companheiro, tu falas da tua doença como se ela fosse uma coisa, e tu, outra. A tua doença e tu são uma mesma coisa. Se compreenderes isto, te salvarás, não pela cura, mas pela detenção do mal em ti, que é tudo o que podes fazer.”

Deixei os pensamentos de lado, quando as crianças invadiram meu quarto saudando-nos, e meteram-se sob nossos lençóis, rindo e fazendo-me cócegas. Ah! Sentir os seus corpos, quentinhos, junto a mim, me faz sentir como prolongamentos da minha própria carne... e de meu sangue, tépido, amoroso, ancestral. Quero-os junto de mim para sempre. Se nos apartarem, sangrarei.

Depois fomos banhar-nos, os três, juntos, desta vez sob o chuveiro. Brincamos muito sob a ducha, com o sabão pulando das nossas mãos, em alegre algazarra. O fato de Patrícia ser já uma mocinha e eu uma mulher, não assustou ao Pedrinho, que se sentia em plenitude, como afinal, todos nós. E no entanto eu imaginava que faziam isso, talvez, pela primeira vez. Solange jamais permitiria o banho dos dois juntos, e muito menos com ela, aquela matrona gorda! (dei uma risada). Depois de banhados, penteados, e até perfumados, fomos tomar o café da manhã, que nos esperava preparado por Matilde. Rôdo já estava à mesa, tinha voltado de Livramento, onde estivera em busca de pistas do nosso vinho, e para dar queixa na delegacia, como preparatório do processo que moveríamos contra Solange. As crianças correram a beijar o jovem tio que elas amavam com admiração.

Depois do agradável desjejum, eu comandei:

—Crianças, venham comigo e tio Rôdo, peguem suas lanternas de pilha, vamos descer à adega para ver se descobrimos alguma coisa. Tive um sonho que preciso conferir...

As crianças, excitadas, foram buscar as lanternas, e logo estávamos descendo os degraus da primeira cave, e tateando aquela parede falsa, que se abriu. Nossas quatro lanternas dirigiram-se ao fundo desolado da imensa adega, um verdadeiro salão subterrâneo cujas argolas de ferro nas paredes, só agora apercebidas, denunciavam sua natureza de sinistra senzala, palco dos horrores de uma era passada. Dirigimo-nos ao fundo, até encontrarmos uma barreira de pedras soltas no meio da extensa parede de rocha viva. Estava construída descuidadamente, as pedras empilhadas apressadamente. Por ali se sentia uma corrente de ar. Derrubamos essas pedras e entramos num extenso corredor, assustador, onde vi ratos correrem, aranhas e até morcegos. Andamos por muitos minutos numa espécie de labirinto, pois viam-se nichos soturnos e aberturas laterais que eu não me atreveria a sondar. Seguíamos pela galeria principal, até encontrarmos um rio subterrâneo, que entendi ser a origem da nossa fonte no pomar, de água puríssima. Imaginei escravos presos, morrendo de sede tão perto dessa corrente de água límpida, e estremeci. Continuamos a sondar o túnel com as nossas lanternas. Rôdo ia na frente, as crianças no meio, e eu atrás, garantindo a retaguarda, até que encontramos degraus naturais, perigosos, escorregadios, que descemos encontrando um imenso salão abobadado, cheio de estalactites. Uma caverna. Encontráramos a “Salamanca do Jarau”? Rôdo olhou-me nos olhos com mesmo pensamento, vindo simultaneamente em nós, do fundo de nossa infância. Nossos olhos brilhavam sob os focos cruzados das nossas lanternas. Em seguida pusemo-nos a inspecionar o grande salão com seus luxuosos lustres de calcário e suas estalagmites, verdadeiras esculturas dos numes do nosso pampa. Julguei distinguir o Negrinho do Pastoreio, Martim Fierro a cavalo, com sua boleadeira pendendo, e Rodrigo Cambará com a sua viola na mão. Afinal encontramos nova galeria e recomeçamos a caminhar, agora com mais receio ainda. Algo nos impelia para frente. Não devíamos voltar, como Dante e Virgílio atravessaríamos o último “bolge”, a “Judeca”, onde são mastigados os traidores. Temia somente encontrar o próprio Lúcifer, de três faces, uma mastigando o Judas, e nas duas outras bocas, Solange e Geraldo. Eu estava toda arrepiada... mas disse: “Vamos, crianças! E avistei luz, afinal. Chegáramos onde o funil se invertia e encontramo-nos sob o sol dos pampas, a estrela máxima, brilhando sobre as nossas cabeças.

Rôdo, intrigado, questionou-me:

—Alma, o que buscavas, qual o sentido dessa nossa “viagem” por uma caverna vazia? Não entendi. Esperavas encontrar as garrafas, escondidas, uma parte da safra? Ou um tesouro? Vamos, esclareça-nos.

Olhei Aline e os meus sobrinhos nos olhos, e eles estavam igualmente no ar. Esperavam também a resposta.

—Eu buscava a mim mesma, meus queridos. A mim mesma... e encontrei-me.

—Como? Como? —(exclamaram os quatro)—Que queres dizer?

—Meus amigos, agora posso novamente enfrentar a adversidade, continuar perseguindo o nosso tesouro, a nossa herança. É isso que quero dizer.

 

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Capítulo Terceiro

 

O julgamento de Solange

 

Quando o velho Joachim Welt plantou o seu vinhedo, os vizinhos, outros estancieiros, vinham zombar. Ele era motivo de risos e galhofas. A eles aquilo parecia até mesmo uma plantação pouco viril numa terra de gado, de charque, que bebia o sangue da manada, nutria-se desse sangue, e não do delicado sangue das uvas. O mate, ‘amargo”, complementava essa virilidade, e tudo o que era essencial se denominava no masculino. Quanto às uvas e a vinha, a palavra vinhedo era a tentativa de masculinizar aquela atividade. O preconceito era grande por aqui, e o machismo era uma característica cantada em prosa e verso, como um timbre glorioso das qualidades gaúchas. Em compensação suas mulheres eram o apanágio da feminilidade, e aquela fabulosa Anita não foi facilmente compreendida em sua época, mas sim bastante detratada, essa é que é a verdade. Mas a História, felizmente lhe fez justiça. Como agora já se faz àquela mais fabulosa ainda, Cleópatra, da Antigüidade, de quem já se descobriram até mesmo as virtudes intelectuais e mesmo científicas. A mais inteligente e sábia mulher de sua época, única talvez em muitos séculos, com tal grandeza. Nós mulheres sofremos de uma contradição interna, herdeiras que somos de uma grave parcela do machismo dos homens, que introjetamos e reproduzimos. Haja visto como as mães deste nosso país criam seus filhos para perpetuar os papéis estagnados e estereotipados do macho da guerra e da fêmea reprodutora e dona de casa. Isto é tão mais contraditório quanto mais queremos, agora, nossas filhas competentes, concorrendo num mercado “unisex” de trabalho. Como poderão as mulheres corresponder ao duplo papel que agora lhes cabe, se esses papéis permanecem dissociados em sua essência? Como fundi-los harmoniosamente? Como conciliar, como querem os discípulos de Jung, Anima e Animus, na mesma alma? Digo discípulos, porque, ao que parece, o doutor Jung achava que só o homem tinha Anima, no seu inconsciente profundo, enquanto a mulher tinha uma multidão de animus. Uma legião, como ele dizia. Estranha contradição, já que Freud, como os antigos gregos, acreditava que a mulher, em si, já era a Anima, viva, em carne e sangue. A teoria, afinal, é dinâmica, e eu, Alma Welt, me reconheço como mulher total, enquanto mulher-artista. Sou uma Anima-possuída, orgulhosa de minha feminilidade universal, que me faz amar Aline, tanto quanto amo Rôdo, o Vati e os outros homens e mulheres que passaram pela minha vida. Sei, no entanto, que preciso de Animus, em mim, dentro de mim, preciso levantar o Animus guerreiro, ou sucumbirei, me entregarei à minha vertigem de entrega amorosa, à minha necessidade de dar-me, até mesmo ser possuída às raias do aniquilamento prazeroso. Essa tendência em mim já vitimou-me mais de uma vez: fui invadida, ferida, humilhada. E o grande perigo que corro é sempre a minha própria anuência, minha cumplicidade inconsciente com esses crimes, que me faz apenas chorar e chorar, voluptuosamente.

 

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Tento viver a felicidade de estar aqui com Aline, Rôdo, Patrícia, Pedrinho, Matilde e Galdério, meu pequeno universo afetivo, em meio às preocupações que me assaltam, com as pressões renovadas dos credores. Já recomeçam as cobranças judiciais, as visitas dos oficiais de justiça, as intimações. Rodo se exalta, quer expulsá-los. Às vezes o faz, efetivamente, com uma fúria que pode incorrer em retaliações da parte de homens mais perigosos que o meu irmãozinho. Preciso ter uma nova inspiração. Ponho-me a orar. A Deus. Mas penso em voltar a conjurar os numes, e os deuses menores, que parecem um pouco mais cúmplices das paixões humanas do que o grande Pai, que paira mais alto, mais distante...

 

A preocupação maior que ainda me perseguia era Solange vir buscar as crianças, o que podia acontecer a qualquer momento. Eu temia o confronto que eu sabia que seria penoso, talvez violento. Ah! Como eu estava certa! Chegou afinal esse dia... e foi o Dia da Ira, embora nada divina.

Tive um sonho com esse confronto, fruto talvez das minhas preocupações. E isso me fez, felizmente, acordar em pé de guerra. Pedi a Rôdo que abrisse a sala esquecida, há tanto tempo trancada, do arsenal de nossa estância. Cheia de estantes de espingardas, carabinas de grosso calibre, poucas de caça. Rôdo distribuiu as armas pelos peões da estância, pondo-os de sobreaviso, instruindo-os com um plano de defesa.

Como eu previa, chegou o dia. Carros sinistros se aproximaram da estância e adentraram a porteira, sem resistência, estacionando frente a casa e descarregando uma dezena de homens armados. Solange desceu do primeiro carro, e arrogante, com as mãos na cintura, com seu tailleur e botas de salto alto, sempre um tanto gorda, o cabelo em coque, gritou para mim que me encontrava na varanda em frente à grande porta do nosso solar. Trocamos insultos:

—Alma, sua ladra, entregue-me meus filhos, sua seqüestradora! Entregue-os já, sua criminosa!

—Criminosa és tu, assassina, ladra, destruidora da herança sagrada de nossos avós. Tu e teu cúmplice não são dignos destas crianças. Não as levarás, senão por cima do meu cadáver!

Matilde mantinha Patrícia e Pedrinho abraçados a ela no meu quarto. As crianças tremiam, depois eu soube, pondo as mãos nos ouvidos, temendo as explosões que anteviam. Patrícia chorava, e Pedrinho estava pálido e paralisado. Nossos peões nos cercavam empunhando as carabinas apontadas para Solange e seus homens, que por sua vez apontavam-nos as suas. Rôdo ao meu lado empunhava seu clavinote que mais parecia um canhão. Eu já via a “viola em cacos”, por assim dizer. Bastaria uma faísca para tudo explodir e eu temia por todos, por mim, por Aline, por Rôdo, por meus homens, e até por Solange. Estávamos num impasse perigosíssimo. Quando as armas se apontam mutuamente, a razão está por um fio, que quer romper-se, pelo chamado ancestral da força. Do primitivo em nós.

Então... Deus interveio. Entraram pela nossa porteira, cinco viaturas cheias de policiais armados com o delegado à frente, acompanhado do doutor Loredano.

Matilde, depois eu soube, temerosa por todos nós telefonara para o nosso advogado buscando sua intercessão junto à polícia, mesmo prevendo o que ocorreria afinal quanto ao destino das crianças.

O delegado fez-nos depor as armas, tomou-as mesmo, de todos no último momento, pois se demorasse um minuto a mais para chegar, tudo estaria perdido e estaríamos todos mortos. Mas o que eu mais temia, aconteceu:

—Delegado,—gritou Solange—Alma seqüestrou meus filhos. Exijo que os entregue e prenda-a e aos seus cúmplices. Isto é crime hediondo. Prenda a criminosa!

O delegado perturbou-se, mas o doutor Loredano cochichou-lhe ao ouvido, e ele ordenou:

—Senhorita Alma, entregue as crianças à sua mãe. Vamos, onde estão elas?

Eu quis morrer. Levei a mão à boca para não gritar de dor. Mas respondi, impotente:

—Delegado, a criminosa é ela, que roubou-nos quase cinco mil garrafas da herança dos nossos avós, e fugiu com o seu cunhado, seu cúmplice. Onde está ele, aquele covarde, agora não está aqui, não é? Para não comprometê-la com a sua presença? Estou preservando seus filhos dessa aliança espúria, criminosa, dessa quadrilha. Delegado, não os leve, eu imploro ao senhor!

E caí de joelhos com a mão no rosto, soluçando.

O delegado hesitou um momento, mas passou por mim com o doutor Loredano que me pôs a mão no ombro, significativamente, como querendo dizer: “Calma, Alma, tem de ser assim... Aguarde...”

As crianças foram trazidas pelas mãos de Matilde e do delegado. Então, subitamente, desprenderam-se e agarraram-se a mim, desesperadamente. E eu a elas. As crianças e eu chorávamos e gritávamos enquanto o delegado e dois policiais tentavam nos separar. Nós lutávamos para nos manter agarrados e... foi uma cena dramática, ai de nós, vocês podem imaginar. Tive que ter os braços segurados por trás, para ser detida, eu gritava como uma louca, e pensei que a dor me mataria. Eu sentia como que se me arrancassem as crianças do meu útero, como se me amputassem. Não sei como posso ser assim, eu me desconhecia, toda a minha filosofia se esvaziara e... eu sangrava como uma mãe recém parida a quem roubassem seus filhos. Quando lembro disso, ainda me perturbo, e custo a acreditar que eu pude ser capaz de tudo aquilo. De quase matar, talvez, e de morrer pelos filhos que não tive e que por algum mistério, eram meus, eram meus!

As crianças foram entregues a Solange que as pôs no carro, atrás, com um capanga no meio delas, segurando-as. Elas choravam e gritavam meu nome: Tia Alma, tia Alma!

E eles partiram, todos, os homens agora desarmados, e eu fiquei ali, jogada no chão, com o meu rosto no solo da varanda, soluçando, arrasada. “Patrícia... Pedrinho...”

Matilde ajoelhada ao meu lado me afagava as costas e a cabeça, maternalmente, e chorava também. Rôdo de pé ao meu lado, tinha os olhos cheios de lágrimas. Aline segurava-me a outra mão e soluçava. O sol se punha no horizonte, e com ele a minha alma.

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Fiquei muitos dias em depressão profunda, enquanto Aline cuidava de mim, condoída, minha pobre Aline, tão jovem e inexperiente, arrastada no turbilhão em que se transformara a minha vida, mas do qual ela não se queixava. Sua dedicação, o seu amor, estavam sendo testados e se revelavam sublimes. Eu tinha que me levantar, ser digna dela, e poupá-la desses sofrimentos por minha causa.

Rodo continuava tentando recuperar nossa herança, a safra perdida, mas eu não me interessava mais, como se a minha missão já tivesse sido cumprida quanto a isso. Eu só pensava num jeito de tirar os meus sobrinhos de sua mãe e ficar com eles para sempre, embora soubesse que isso era praticamente impossível. A menos que eu ganhasse o processo que movia contra a ela pelo roubo da herança e... tentativa de assassinato. Para esta última acusação eu precisava do testemunho de Alberto, meu cunhado bêbado, mas com o qual eu contava, pois eu conseguira sua lealdade, afinal. Nós nos encontraríamos todos no tribunal. O doutor Loredano começou a me instruir quanto aos detalhes do processo, e o que eu devia ou não dizer no tribunal. Ele se preocupava com o fato inegável do seqüestro que eu praticara, embora houvesse razões atenuantes para a minha ação. Mas ele sabia que Solange contra-atacaria e envolveria Aline e Rôdo no seu contra-ataque. Além disso eu sabia, conhecendo-a, que ela nos caluniaria, levantando e expondo de maneira escandalosa a natureza da minha relação com Aline... e até mesmo com Rôdo. Ia ser o escândalo do século na esfera privada, no Rio Grande do Sul.

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Os dias se passaram, as semanas e alguns meses. Eu perdera minha felicidade. O destino me punia, assim eu via. Deus me punia, pela minha busca teimosa da felicidade, pelo meu apego às pessoas, ao amor das pessoas, e talvez, das coisas. Aline estava desolada, tentava, com parcos recursos (somente os da sua ternura imensa) levantar-me, fazer o meu amor voltar para ela como era antes: cheio de alegria e exaltação prazerosa. Uma chuva fina caía sobre a minha alma e eu sonhava com uma pátria escura, cheia de uma nostalgia mais dolorosa que a saudade.

Mas Aline, não pensava em me deixar. Mesmo nessa travessia soturna pelo lento rio escuro, subterrâneo, da minha alma, ela me acompanharia, amada Psiqué, na glória de sua candura, de sua pureza d’alma inatingível. Ela só temia a minha complexidade, que a desolava, que ela não podia compreender totalmente. Mas ela esperava.

Uma manhã levantei-me, novamente mais leve. Eu tinha subido. Eu mesma não sei como nem quando, durante o sono, na alta madrugada. Minha alma atingira o fundo? Batera o pé, subira no mesmo impulso de sua descida? Tudo são ciclos. Louvado seja o Deus de nossas almas! Não desamparadas, não sozinhas, afinal.

Estava pronta para o tribunal. Para o confronto legal e moral. Para abrir meu coração em público, mais do que o faço aqui, meus leitores sem rosto. Eu escancararia o coração e a alma. O juíz se comoveria, os jurados se comoveriam. As crianças me seriam devolvidas. Eu cria nisso.

Alegrete estava em polvorosa. Os protagonistas de um drama que beirava a tragédia, jogariam com as armas de suas verdades. Eu, pelo menos. Solange mais provavelmente com as das suas mentiras. E assim foi.

Ao soar do martelo de madeira abriu-se a sessão. A sala estava lotada. Meu advogado, que tanto me instruíra, parecia preocupado conhecendo a minha impulsividade passional, e tentava me orientar até o último minuto. Eu, olhando para trás, via Matilde e Galdério, Lúcia, Rôdo e Alberto olhando-me atentamente. Eles temiam por mim. Que eu me descontrolasse, como viram um dia. Eles seriam chamados como testemunhas. Alberto estava quase sóbrio, se pode-se dizer assim. Daria conta do recado? Eu tinha que confiar, seu testemunho era essencial. Mas eu não era a ré, e sim Solange, acusada primeiro por mim de roubo de herança, formação de quadrilha e tentativa de assassinato. A expectativa se estampava nos rostos de toda a platéia, e os jornalistas empunhavam seus blocos, as máquinas fotográficas tinham sido proibidas. Em compensação havia um desenhista que nos observava os rostos e a postura. Fui desenhada de uma maneira intrusa, e me lembrei do Guilherme de Faria, meu único retratista autorizado. Ele me faria justiça. Ah! Vaidade, como persistes!

Depois da advertência do juiz, de que não toleraria manifestações, Solange foi chamada ao banco dos réus. Gorda, amarga, com seu rosto duro de kapo nazista, Deus me perdoe!

O promotor a acusou formalmente, e começou a interrogá-la.

— O seu nome, senhora, por obséquio.

   Solange Mothersohnn-Welt— disse ela.

    Não será Welt Mothersohnn, senhora?

    Não senhor. Nós, alemãs, colocamos o nome do marido antes do de nossa família de origem.

 — Ah!... E és irmã de tua acusadora, Alma Welt, aqui presente? Sim ou não?

— Sim, ela é minha irmã, para vergonha de nossa família.

— Protesto, meritíssimo— interrompeu o promotor.

— Protesto aceito. A ré limite-se a responder as perguntas do promotor.

— A senhora sabe que é acusada de tentativa de assassinato de sua irmã Alma, e de furto qualificado de quatro mil, das cinco mil garrafas de vinho que correspondem à parte do espólio de seu pai, a ser dividido por quatro herdeiros diretos, a senhora mesma e seus três irmãos, bem como dois cônjuges co-herdeiros: seu marido e um cunhado?

— Não, não reconheço isso!—respondeu Solange— Alma e Rudolf me esconderam esse item do espólio e planejaram vendê-lo sem meu consentimento e o do meu marido, para recomprar a estância toda dos nossos credores que já praticamente a possuíam, despojando-me assim da minha parte da herança. Eu apenas me defendi, ou ficaria sem nada. E tenho filhos para criar, ao contrário deles, à exceção de Lúcia.

— Mas não é verdade que tentou assassinar sua irmã, encerrando-a naquela adega escura, o que quase a matou, naquela manhã do dia 14 de Fevereiro de 199... A senhora está consciente da crueldade inominável do seu ato?

—Não, não reconheço isso. É calúnia. Não há provas de tal ação. Eu não faria isso, e a prova é a presença dela aqui. Eu não a matei, estão vendo?

— Meritíssimo, permita-me dispensar a ré, por ora, e chamar uma testemunha, o sr. Alberto Mothersohnn, marido da acusada?

O juíz franziu o cenho e disse:

— Não, senhor promotor. O senhor não sabe que um marido não pode testemunhar contra sua mulher, nem mesmo a favor? Que absurdo! Prossiga sem esse testemunho.

Ouviu-se um oh! desolado, vindo da platéia, e também da minha boca. Cobri o rosto com as mãos. O desenhista esboçou rapidamente esse meu gesto, que apareceria na primeira página do Diário de Alegrete, e até nos jornais de Porto Alegre, como se fosse eu a ré, envergonhada e trágica.

A partir daí o julgamento começou a inverter-se e comecei a ser acusada indiretamente. Fez-se alusão ao meu seqüestro das crianças, a que Solange deu furiosa ênfase, claro, prenunciando sua desforra.

Eu via já tudo perdido. Percebi, bem antes de terminar o julgamento, que Solange seria absolvida como mãe que defendia os direitos de seus filhos e o seu direito de mãe, de sua posse. Eu seria vista como a vilã da história. Temia mais o que afinal deu-se, num certo momento: ela acusou-me de “lesbianismo”, “ociosidade”, incesto e seqüestro de seus filhos. Foi um escândalo. A platéia se agitava, houve empurrões, gritos, assovios, pateada. Formaram-se dois partidos que se digladiavam, e aquilo se estendeu para a rua congestionada por uma multidão acalorada. O juiz pediu recesso, saiu e voltou imediatamente, absolvendo a ré e dando por encerrado o julgamento. Fomos assediadas pelos jornalistas, Solange e eu, e saímos aos empurrões, no meio da multidão. Mulheres tentavam tocar-me, algumas talvez por curiosidade ou ternura, outras com ódio. Uma mulher puxou o meu decote, que rasgou, e meu seio pulou para fora. A multidão gritava. Quase desmaiei e fui colocada num carro que partiu forçando a passagem entre os populares que batiam nos vidros. E eu ainda pude ouvir Solange gritando com um punho no ar e a outra mão apontando-me:

— Espera por mim, sua ladra, seqüestradora! Tu verás! Agora é a tua vez!

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Capítulo quarto

 

A prisão

 

Quando crianças, Rôdo e eu, tínhamos o nosso pacto de fruição sagrada do nosso território, que era tudo o que a vista podia abarcar que o nosso olhar não repudiava por instinto de curiosidade e de beleza. Nesse aspecto essencial éramos iguais, e isso legitimava o nosso amor muito mais que fraternal.

Mas nossa irmã Solange, era um desses elementos que nossa vista e instinto repudiavam. Ela não era bela, nem por fora, nem por dentro. Gorda, sardenta e implicante. Uma desmancha-prazeres sistemática, cuja atuação detestável aprendemos logo a neutralizar com um intuitivo cinismo que surgiu em nós, e que Rôdo elevaria à categoria de arte. Isso serviu, afinal, para ao menos desenvolver uma espécie de humor que me serviria para o resto da vida, e que me defenderia do meu próprio dramatismo, também instintivo.

Assim, nos momentos exasperantes ou dolorosos demais que escapassem a esse termômetro do humor, eu nunca reagi de maneira meridional. Nunca como, por exemplo, reagem os italianos ou espanhóis, com fúria e cólera. Mas, eu ficava meio tonta, simplesmente, como embriagada por uma dor súbita... e desmaiava, o que causava imensa preocupação em minha mãe e em Matilde.

Solange, maldosamente, buscava encontrar esse diapasão que me faria desligar atingida como por um raio. Isso não era fácil, pois só o que atingia o âmago da minha sensibilidade era capaz disso. E ela nunca encontrara a chave, que consistia em tocar o cerne do meu senso de beleza... e de pureza. É como se eu desmaiasse de vergonha... por outro ser humano. Como se esse ser humano blasfemasse contra um deus ou uma deusa da qual eu era uma pequena vestal. E isso, justamente, se referia ao meu culto da beleza que norteava tudo em minha vida.

Pode parecer exagerado, mas eu era assim. E, o mais marcante dessa atitude interior, era que o parâmetro de beleza, para mim, nascia de mim mesma, do meu próprio corpo, de uma beleza que tocava e comovia as pessoas. Branca como uma pequena estátua de alabastro ou mesmo mármore de Carrara, os olhos verdes sonhadores e meus lábios e cabelos rubros e dourados ao mesmo tempo, eu era vista como uma criança sagrada, por todos... menos pela minha irmã.

Quanto à minha mãe, esta tinha uma atitude contraditória. Era como se lutasse contra a sua própria reverência, como se curvar-se a esse aspecto dominante em sua filha fosse incorrer em heresia de sua parte, em relação à doutrina católica que professava em seu lado mais sombrio: o que eu viria a chamar, no futuro, de “a doutrina do vale de lágrimas”.

Era como se minha mãe, olhando para mim, dissesse: “De que adianta tanta beleza, minha filha, vais sofrer como todos nós.” Ou “vais envelhecer e morrer, nada somos, tudo é vão. Rezemos apenas, para não irmos para o Inferno.”

Ai, Muti, tu não foste inócua, apesar de tudo, e conseguiste contaminar-me pelo menos um pouco, com a consciência do sofrimento humano... e do meu próprio sofrimento. E isso me tornou poeta. Será que devo, afinal, isso a ti?

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De volta à estância, com Aline, eu procurei assimilar esta primeira derrota judicial, e preparei-me para encontrar uma estratégia de defesa, para o contra-ataque de Solange, que eu sabia que viria em seguida.

Aline parecia um pouco assustada com a perspectiva de me ver como ré de um processo de seqüestro, e talvez de roubo, pelo menos. Quanto às outras ameaças, eu não acreditava que elas estivessem no código penal, embora incorressem num perturbador escândalo social.

Eu procurava não me preocupar demais, mas me reunia metodicamente com o doutor Loredano para discutir os aspectos do processo, e os perigos que eu corria.

Afinal chegou a citação. Fui intimada a comparecer a uma delegacia de Novo Hamburgo, e indiciada por seqüestro, incesto e lesbianismo. Protestei imediatamente, assistida do doutor Loredano, e por Aline, que estava muito assustada. Eu não estava disposta a assumir aquela palavra, pelo tom pejorativo que emprestam a ela, mas o delegado adiantou que isso fazia parte da acusação, nominalmente, embora não coubesse pena eventual para esses “crimes”. Isso me pareceu arbitrário e exigi que retirassem esses dois últimos itens do laudo de indiciamento, pois não eram crimes previstos na lei. Mas o delegado recusou, revelando-se nada condoído da minha situação. E logo percebi que era, de alguma forma, interesse dele reter-me em sua delegacia, pois resolveu (pasmem!) encarcerar-me imediatamente até o dia seguinte, enquanto o doutor Loredano, abalado, saiu afobadamente para providenciar o habeas-corpus, para que eu pudesse enfrentar o processo em liberdade. Pelo visto, Solange conseguira testemunhos do meu crime, e eu não acreditava que isso partisse da pobre Alícia... ou, talvez, esta tivesse sido pressionada demais, ou mesmo chantageada, já que tinha um filho pequeno.

Eu fiquei aterrorizada ao ser levada (enquanto Aline gritava, separada à força de mim) para uma cela coletiva cheia de mulheres, já que eu não tinha o superior completo.

O delegado e o carcereiro botaram-me numa cela onde havia umas doze mulheres, de aspectos diversos, a maioria prostitutas e ladras, que se alvoroçaram com a minha entrada, e me devoraram com os olhos. Uma delas, masculinizada, muito forte, exclamou: “Carne nova no pedaço!” Temi pela minha integridade física. Virei-me imediatamente e agarrei as grades, o rosto colado a elas, para olhar para fora, tremendo, e balbuciei baixinho uma súplica, que os carcereiros não levaram em conta, sadicamente.

Então, uma força divina subitamente desceu sobre mim. Virei-me e olhei compassivamente as mulheres todas, uma a uma, que se aproximavam. Elas estacaram e recuaram, enquanto eu me dirigi para o centro da roda que formaram, e sentei-me no chão, em posição de lótus. Elas, então, uma a uma se acocoraram ou sentaram, em torno, no início de um cerimonial que se impôs pelo olhar, ou pela aura que apareceu em mim, depois eu soube. Nós iríamos celebrar, juntas afinal, alguma coisa importante para todas nós mulheres, algo de que estávamos terrivelmente necessitadas, e que nos congraçava.

De manhã, lá pelas oito horas, o doutor Loredano, com Aline, chegou com o habeas-corpus que apresentou ao delegado e a seguir entraram na carceragem. A cena que encontraram iria espantá-los e comovê-los:

Eu, Alma Welt, estava ali, no meio das ovelhas desgarradas cujos olhos apresentavam uma nova pureza e deslumbramento, atentas à estória que eu contava naquele momento, depois de tantas pela madrugada, e umas poucas horas de sono sem desfazer aquela roda. Se tivéssemos mil e uma noites, nós as usaríamos para aquele desfiar de estórias que nos fascinavam, que nos redimiam, que nos uniam num mesmo encantamento, a narradora e as ouvintes atentas e maravilhadas. Eu não me lembraria de um momento, assim, mais apoteótico, em minha vida de narradora. Minha vida estava justificada... e mais: estava celebrada!

 

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Na estância entreguei-me aos carinhos de Aline e à maternalidade de Matilde, que me era também tão necessária. Esta dizia:

— Minha guria, que encrenqueira que tu és, desde pequena! Como podes, sendo tão meiga, arranjares tantas lutas, tantas batalhas em tua vida? Se teu pai estivesse aqui isto não ocorreria. Ele formava uma barreira aqui, nesta estância, contra tudo o que vinha de mal, lá de fora. Ah! Como sinto falta do doutor Werner... e do seu piano! Aquela música afastava todo o mal. Nunca mais a ouvi.

— Matilde, eu a ouço ainda!—eu protestei— Como podes não ouvi-la? Ao cair da tarde, no crepúsculo, eu a ouço em meus ouvidos, ou no meu coração, não sei... Mas a ouço distintamente, nota por nota das sonatas e prelúdios de Chopin... e os lieder de Schubert, que às vezes ele cantava, com sua linda voz de barítono. Ele continua aqui, Matilde, e continuará sempre, até para os seus netos, que voltarão a esta casa e aqui crescerão, tu vais ver. Eu sei! Eu sei!

Matilde, os olhos cheios de lágrimas, me abraçou e ficamos em silêncio muito tempo. E me pareceu, então, ouvir muito ao fundo, longinquamente, aquela música, vinda do piano, lá na biblioteca que era o reino verdadeiro de meu pai.

 

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O velho Werner Fiedrich amava a pintura, além da música e a literatura. Mas ele não tinha quadros modernos pela casa, embora parecesse conhecer muito bem as escolas até depois do impressionismo, os pós-impressionistas, simbolistas, nabis, fauves, expressionistas,  cubistas, etc... até os primeiros abstracionistas. Mas nossa casa, o casarão imenso, tinha as paredes forradas de quadros que apontavam uma preferência pela pintura de gênero européia, do século XIX, embora houvesse nesse setor, também alguns pintores gaúchos do século XX, como Weingartner e Sheffel.

O gênero a que me refiro eram os interiores com cenas domésticas ou curiosas, algumas francamente enigmáticas, se posso dizer assim. A jóia de sua coleção era, no entanto, do nosso século, um Balthus, maravilhoso, comprado ainda antes da guerra, quando o pintor ainda não havia se tornado o mais caro do mundo, nessa categoria. Mas havia verdadeiros ciclos de pinturas de um mesmo autor, que narravam cenas, estórias que a gente podia acompanhar, como um filme. Eu digo havia, porque estes ciclos, desgraçadamente agora estão desfalcados, tendo várias telas sido levadas por Solange e Lúcia, para as suas casas em Alegrete e Novo Hamburgo. E uma, valiosíssima, foi vendida por Rodo para comprar a sua Ferrari.

Entre estes conjuntos, havia um que descrevia a saga de uma pequena órfã, pobre, deslumbrada com a sua própria estória que ela via em quadros nas paredes da casa que a acolhera. Entre eles havia um em que se via a órfãzinha subindo vestida, e de aventalzinho, a um grande leito de dossel, vazio, sob o olhar complacente de uma empregada, ama, ou coisa parecida, (não parecia ser a dona da casa). Essa cena me comovia, e algo nela me identificava (mesmo antes da morte de minha mãe) com aquela pequena órfã a quem fora permitido subir, por um momento, num grande leito matronal, vazio. Nunca saberei o que realmente o pintor descrevia com aquela cena, mas a mim parecia um retorno, uma volta ao lar, na procura de um grande útero que acolheria o pequeno ser atirado à aventura do mundo, afinal em casa novamente, encontrando porém vazia a própria cama materna. E eu queria chorar quando pensava nisso.

O grande leito de dossel, havia sim, no quarto dos meus pais. Mas agora sem o dossel... e sem meus pais. E eu não poria meus joelhos sobre esse leito, porque estava ainda em plena viagem pelo mundo, e não pudera voltar ao lar, sequer como aquela pequena órfã acolhida. Assim eu o sentia em minha alma naqueles dias de luta em que minha vida estava em perigo e os órfãzinhos de pais vivos estavam ainda tão longe do verdadeiro leito materno.

Eu sonhava com a cena final daquele ciclo, onde se veria uma porção de crianças pulando sobre o leito, brincando, eu entre elas, observadas por um grande rosto sorridente de mulher, magnânimo e acolhedor. Ah! Quanto eu deveria lutar ainda para que isso se tornasse real!

O doutor Loredano sentava-se comigo na biblioteca, para instruir-me quanto ao que eu deveria ou não dizer no tribunal. Ele temia minha impulsividade, e alertava-me com aquele axioma dos juristas: “Aquele que defende a si mesmo, tem um tolo por cliente.” Ele dizia: “Alma, fica de boca fechada, o mais que puderes, só responda estrita e objetivamente o que lhe for perguntado, deixa que eu conduza a tua defesa, porque estás mais encrencada do que pensas. Tua irmã contratou um promotor que é o meu maior rival, e só não me detesta porque isso não existe, na verdade, entre nós advogados. Mas ele quererá destruir-me, através de ti, e para isso lançará mão até mesmo de golpes baixos. Estás preparada para baixezas?

Ai! O peito me apertava ao imaginar isso, o que, na verdade, eu não conseguia. O que poderiam dizer de ruim sobre mim, se minha vida sempre fora pautada pela verdade e pelo amor? Mas o doutor Loredano parecia realmente preocupado por mim e pela minha atuação naquele processo. Ele dizia:

— Alma, não conheces realmente a maldade. Serás detratada, eu te advirto, tua irmã dará carta branca para o doutor Maia fazer como quiser. Ele levantará coisas verdadeiras, mas emprestando-lhes um sentido que nem sequer podes imaginar. Por isso não te metas a defender-te, que ele te crucificará. Não imaginas a habilidade desse homem.

Eu confesso que estava assustada. Temia por mim, por Aline... e pelas crianças. Eu estava vivendo os dias mais assustadores da minha vida. E o futuro me parecia sombrio.

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Estávamos a 24 horas do dia do meu julgamento. Eu fazia uma mala para a viagem a Novo Hamburgo, onde ficaria num hotel, esperando o momento de me dirigir ao tribunal. Eu ouvira notícias da formação do corpo de jurados, todos naturalmente desconhecidos para mim. Gente da classe média, e mesmo um ou dois proletários. Ninguém da chamada classe dominante, muito menos estancieiros. De qualquer forma, eu estava nas mãos de Deus, mas ainda assim não conseguia deixar de temer pelo meu destino. “Senhor, afasta de mim este cálice”, eu pensava, esperando que não fosse uma blasfêmia.

Matilde procurou-me em meu quarto, abraçou-me, olhou-me profundamente nos olhos segurando algo em suas mãos que juntou nas minhas. Seus olhos negros, de cigana ou de moura, estavam tristes e compassivos. Esta mulher me amava como sua filha, e beijando minhas mãos colocou-me na palma um crucifixo de prata. Ela disse:

—Alma, minha guria, guarde isso, ponha-o junto ao teu seio, ele te protegerá, como me protegeu desde que o recebi da minha mãe. Estive mais de uma vez em perigo aqui no Rio Grande e no Uruguai, e ele me salvou.  Algum dia te contarei. Vamos, fica com ele, põe no pescoço.

Com o crucifixo cerrado em meu punho, eu me abracei mais uma vez à minha doce Matilde, e chorei. Chorei e chorei como nunca, enquanto minha vida e minha felicidade passavam ante meus olhos como uma despedida.

 

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Capítulo quinto

 

O Julgamento

 

No saguão do hotel, em Novo Hamburgo, ao balcão, fizemos o check-in, eu e Aline. Pegamos uma suíte de casal. Teríamos conforto, e eu, talvez a última refeição decente, de condenada. Estes pensamentos me vinham, dramática que sou. Era inevitável.

Naquela noite nós iríamos nos amar como nunca, rolando na cama, aos gritinhos e risos, aos suspiros e gemidos, mas com uma nota de desespero. Eu queria devorar a minha guria, e ela a mim. Eu bebia a sua saliva, todos os seus sumos, como o elixir que me daria forças, a mim, fraca mulher que sou, desprotegida que me sentia, diante das forças esmagadoras que me ameaçavam. Mas eu não podia assustar Aline com a minha fraqueza. Esta menina precisava de mim, da minha força, na qual ela acreditava ainda. Eu não podia decepcioná-la. Até que tarde da noite adormecemos, nuas e suadas, na quente noite de verão, abraçadas talvez pela última vez, eu assim pensava antes de apagar, num sono profundo como o que antecede a morte.

 

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A rua, em frente ao tribunal estava lotada. Nosso carro, dirigido por Galdério, com Matilde ao lado e nós duas atrás, foi interceptado pela multidão e pelos fotógrafos. Minhas fotos já apareciam há dias nos jornais que faziam o maior alarde, sensacionalistas, prevendo minha condenação. Com grandes óculos escuros, como se espera, aos empurrões, adentramos o tribunal que regurgitava, lotado por uma ansiosa platéia. Mas devo contar que, antes de pôr o pé na soleira, me virei, tirei os óculos escuros e encarei a multidão, para que vissem a firmeza do meu olhar. Como era de manhã, não haveria flashes para ofuscar-me, nem para tornar vermelhos os meus olhos verdes. Essa foto apareceu nos jornais no dia seguinte, e ela me orgulhou.

Tendo tomado o meu lugar ao lado do doutor Loredano, em meio ao burburinho, onde todos os olhares convergiam para mim, de repente um silêncio fez-se, pouco antes da entrada do juiz. Era Solange, a soturna, que comandou aquele silêncio seguido de cochichos. A seguir o juiz com sua toga entrou solenemente e sentando-se bateu o martelo e abriu a sessão:

—SILÊNCIO NO TRIBUNAL!

A seguir declarou solenemente:

— Vamos proceder ao julgamento da citada ré, por crime de seqüestro. Promotor, comece com a identificação da acusada.

Houve um ligeiro burburinho, não sei bem porquê, já que o público sabia do que eu era acusada e se dividia quanto à legitimidade dessa acusação. Creio que uma parte do público, ignorante, esperava aquelas outras acusações somadas à de seqüestro.

O promotor aproximou-se de mim, que, conduzida ao banco dos réus, já o esperava muito tensa.

— O teu nome é Alma Morgado Welt, sim ou não?

— Sim, senhor, Alma Welt.

— Solteira ou casada?

—Viúva, senhor—eu disse, hesitando um pouco.

— Ah! Viúva... e por quanto tempo permaneceste casada?

— Um mês, senhor, eu era muito jovem, e...

— Ah! Parece que estamos diante de uma viúva negra!

Houve uma gargalhada do público, e burburinho, enquanto meu advogado exclamava:

— Protesto, Meritíssimo!

O juiz, severo, batia o martelo e disse:

— Protesto aceito. Promotor, evite brincadeiras e prossiga.

—Então, senhora Welt, ou posso chamá-la senhorita? Tens filhos?

— Não, senhor—eu respondi.— Tive um, que perdi...

— Ah! Sinto muito... esse filho era do teu marido, que morreu?

— Não, senhor, era do violinista Gino Bertellazzi, com quem vivi um ano.

— Ah! Um ano! Pelo visto a senhorita não permanece muito tempo casada.

— Protesto, Meritíssimo!—exclamou mais uma vez o doutor Loredano.

— Protesto aceito, prossiga, promotor.

— Senhorita, já que de alguma forma sabes o que é ser mãe e ter um filho afastado de si, podes imaginar o sofrimento que infligiste à tua irmã, retirando os seus filhos de casa, levando-os e cercando-os de homens armados, para retê-los contra a própria mãe deles? Sim ou não?

— S...sim, senhor, mas...

— Estou satisfeito, meritíssimo, entrego a ré ao seu advogado, por ora — interrompeu-me o promotor.

Houve um burburinho na sala. Eu permaneci, perturbada, esperando as perguntas do doutor Loredano, dirigindo-lhe um olhar de súplica.

Meu advogado olhou-me profundamente, com um olhar compassivo, bondoso, que me relaxou um pouco.

— Senhorita Alma, és uma pessoa profundamente maternal, não és?

— Sim, sou, acho que sou — respondi.

— Alguém mais a considera assim, quem, por exemplo?

— Não sei, meus sobrinhos, acho, que são tudo para mim. E Matilde, que me conhece bem...

— Senhorita, essas crianças te amam? Como se relacionam contigo?

— Maravilhosamente — disse eu, respondendo primeiro a segunda parte da pergunta.

— E elas te amam? Insisto.

— Sim, claro, e muito, tenho certeza.

— E por quê a senhorita teve que retirar as crianças de sua casa e levá-las consigo? Diga primeiro o nome dessas crianças.

— Patrícia e Pedro... Pedrinho. Sim, tive que retirá-los de sua casa, era preciso. Eles estavam sofrendo, presenciavam brigas violentas entre Solange e seu cunhado Geraldo, com quem ela está vivendo.

Outro burburinho na sala.

— Então, foi no interesse das crianças que agiste, para protegê-las?

— Sim, claro, doutor, eu as defenderei com a minha própria vida se for preciso.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas, por ora. Queria chamar uma testemunha.

— Sim, prossiga, disse o juiz.

— A senhora Alícia Montez, por favor.

Alícia saiu da platéia, onde estava praticamente invisível, e sentou-se no banco de testemunhas. Olhou-me com um olhar assustado e encarou em seguida o meu advogado.

— Senhora Alícia Montez, é o teu nome, não?

— Sim, doutor.

— És casada, senhora?

— Sim, senhor, mas separada, meu marido vive com outra.

— Ah! Sinto muito, senhora. E tens filhos, senhora?

— Sim, mas meu filho mora com a minha sogra, a mãe do meu marido, sua avó.

— Ah! Mas teu filho está bem, não é verdade? E defenderias o teu filho de quem quer que ameaçasse sua felicidade, não é?

— Certamente, senhor. Consegui esse acordo, justamente porque a nova mulher do meu marido não gosta de crianças.

— Ah! Muito bem, e não podias ficar com teu filho, mantê-lo contigo, por quê? Diga-nos a todos, dona Alícia.

— Porque dona Solange não o queria na casa. Dizia que deixava a casa muito cheia e que interferia no meu serviço.

— Protesto, meritíssimo! — interrompeu o promotor.

— Protesto negado, disse o juiz. Prossiga.

— Dona Alícia, continuou o doutor Loredano — Amas muito os filhos da tua patroa, és muito dedicada a eles, pois não?

— Sim , doutor, amo-os como se eles fossem meus.

— E os protegeria de todo o mal, no que estivesse ao teu alcance, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo. O advogado está induzindo a testemunha.

— Protesto negado. Prossiga.

—Sim, doutor, sempre os protegi. Elas são crianças maravilhosas.

— Então não tiveste nenhuma hesitação, nenhum escrúpulo em entregá-los à tia deles, naquelas circunstâncias, naquele dia conturbado, pois não?

— Não, doutor, não hesitei um segundo. Era para o bem das crianças. Elas estavam sofrendo. Pedrinho chegou mesmo a telefonar para dona Alma, pedindo que os viesse buscar. Ameaçou mesmo fugir de casa para ir ao encontro dela, na estância, o que seria impossível, pois é muito longe, centenas de quilômetros. Eu já não sabia o que fazer. Não podia tapar os olhos e os ouvidos das crianças, como queria, para protegê-las dos horrores daquelas brigas, do que falavam já na frente das crianças.

— Protesto, Meritíssimo— exclamou novamente o promotor. Não há provas dessas discussões!

— Protesto negado, prossiga.

— Meritíssimo juiz, não tenho mais perguntas por ora.

O promotor, por sua vez, não quis interrogar Alicia. Eu estava mais aliviada, com o depoimento desta boa mulher, que ao deixar o banco me olhou com doçura... e gratidão.

Então, o promotor adiantou-se e chamou a sua testemunha, que me surpreendeu: um antigo peão de nossa estância, com quem nunca simpatizei, apenas pelo seu olhar.

— Seu nome, senhor.

— Alípio Galdiano, senhor.

— És boiadeiro, na estância Santa Gertrudes, da ré? Sim ou não?

— Sim, doutor, sou. Há mais de 50 anos, embora já não haja muitos bois por lá, desde os antigos donos, antes mesmo do velho Joachim Welt.

— E o senhor tem testemunhado muitas coisas, não é, nesse tempo todo? Tens os olhos bem abertos?

— Certamente, doutor, é o que tenho. Os olhos bem abertos, embora nada possa fazer.

— O que queres dizer com isso, senhor Galdiano?

— Que tenho visto muita pouca-vergonha, esse tempo todo, senhor.

Burburinho na sala.

— Que queres dizer com isso, senhor Galdiano? Explica melhor, exemplifica.

— Ah! Senhor. Desde que a senhorita Alma e seu irmão eram crianças, já acontecia aquilo. Foram pegos pela mãe dos dois, a senhora Ana Morgado, pelados, no pomar, fazendo safadezas. Foram arrastados pelos cabelos e pelos pulsos, no meio da peonada, que riu bastante. A dona Ana estava indignada. A senhorita Alma e seu irmão Rodolfo só lhe causavam desgostos, ao contrário de dona Solange e dona Lúcia, as filhas mais velhas.

— E que mais viste esse tempo todo? Diga, seu Galdiano.

— Bem, durante a adolescência deles, eu observei também os abraços e beijos a toda hora. A coisa prosseguia entre eles, não cessou. E, ao que parece, até hoje.

— Senhor Galdiano, que mais viste na estância, a esse respeito?

— Ah! Doutor, agora a coisa é pior. Depois que Alma voltou de São Paulo com aquela moça paulista, a sem-vergonhice é maior.

— Como? Que queres dizer?

— Doutor! É uma coisa estranha. Elas se beijam na boca, doutor. E cavalgam nuas, como se ninguém as pudesse ver, no crepúsculo, apenas porque a dona Alma é muito branca e não quer queimar-se. Banham-se nuas, ao luar, no açude, e acariciam-se, beijam-se. E o pior, doutor, é o que aconteceu no bosque, não sei se posso contar...

— Conta tudo, senhor Galdiano, esta é a hora da verdade.

— Protesto, Meritíssimo— interrompeu o doutor Loredano— o promotor julga o mérito do depoimento, de antemão.

— Protesto aceito, continue.

— Minha mulher, com outras do vinhedo, encontrou-as nuas no bosque, adormecidas, abraçadas. As mulheres se reuniram em volta delas. Havia também algumas meninas. Mas elas acordaram e não se abalaram, levantaram-se lentamente e saíram de cabeça erguida, no meio das alas que se abriram, das trabalhadoras, e nem sequer puseram a mão na frente ou atrás. Andavam altivamente, como se estivessem vestidas e como se ninguém estivesse ali. Isso, parece que fez as mulheres permanecerem caladas, de tão espantadas. Elas são feiticeiras, senhor, tenho certeza!

Um burburinho imenso, gritos, risos, protestos.

—Silêncio, silêncio— gritava o juiz, martelando — Prossigam!

— Não tenho mais perguntas, por ora, Meritíssimo—concluiu o promotor.

— Quero interrogar a testemunha, Meritíssimo, disse o doutor Loredano.

— Prossiga — disse o juiz.

— Senhor Galdiano, eras empregado, peão, do antigo dono da estância, pois não? Antes de Joachim Welt, o avô de Alma?

— Sim, doutor, era, desde pequeno. Cresci naquela estância.

— E eras muito leal àquele estancieiro. Como era o seu nome?

— Valentim Ferro, senhor. Um homem sem igual.

— E o senhor Valentim suicidou-se, não é mesmo? Como foi isso?

— Ah! Senhor. Foi algo terrível. Ele enforcou-se no sótão do casarão, no dia seguinte à venda da estância. Estava arruinado, tinha perdido tudo. O comprador já estava se instalando na casa, e ele ainda nem tinha saído com a família. Era muita humilhação. Mas morreu como homem, macho, pois tomou o chimarrão até o último momento, que foi encontrado esparramado no chão, ainda fumegante. Não esquecerei nunca aquela visão, pois entrei naquele local logo em seguida ao velho Welt.

— E juraste, nesse momento, vingá-lo, ao seu patrão, não é mesmo?

— Protesto, Meritíssimo— interveio o promotor.

— Protesto negado. Prossiga.

— Então juraste vingança por teu patrão, sim ou não?

— Sim, doutor, jurei. Mas não atino como sabes disso.

— Isso não vem ao caso. E o que fizeste para essa vingança?

— Ah! doutor, quem sou eu para poder vingar alguém? Sou um pobre peão, tenho de ganhar a minha vida. E ela é dura, senhor.

— Mas agora estás te aposentando, não é mesmo? Não precisas mais trabalhar, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo, isso não é pertinente.

— Protesto negado. É pertinente, prossiga.

— Senhor Galdiano, tens um filho, não é mesmo? Como se chama ele?

— Martim, senhor, mas não está mais comigo.

— Onde está ele, senhor Galdiano?

— Ele deixou a estância, anos atrás e nunca mais voltou.

— Por quê? senhor Galdiano, sabes a razão disso?

— Sim, doutor. Porque Martim se apaixonou por Alma, e ela nem o enxergava. No entanto, o provocava.

— Como assim, senhor Galdiano? Se ela não o enxergava...

— Porque a beleza dela é destrutiva, senhor. Sempre fez mal às pessoas. Mais de um peão brigou por ela, houve duelos, mortes e... até suicídios. E ela nem tomava conhecimento.

— E teu filho então partiu, porque sofria, senhor?

— Sim, e partiu-nos, a todos, o coração.

— E juraste vingança contra Alma, sim ou não? Diga, seu Galdiano.

A platéia estava atônita. Minha vida na estância passava ante meus olhos, com detalhes que eu não costumava evocar na minha memória. Comecei a tremer.

—Não, doutor, quer dizer, sim, de certa forma, mas só da boca pra fora.

— Da boca pra fora, não é? Diga-me senhor Galdiano, como vês a senhorita Alma pessoalmente?

— Senhor,  não posso encará-la. Ela é bela demais, e isso é coisa do demônio. Outras pessoas também vêem assim. Veja a sua pele, é branca demais. Ninguém é assim. E não tem uma mancha, uma pinta sequer, que se saiba. Com aquele sol todo do Pampa! Isso é impossível! Ela é da noite! Digo, das trevas. É uma vampira!

A mim, naquele momento, me pareceu que o doutor Loredano cometera um erro deixando-o falar assim, até instigando aquele homem. As pessoas, o júri, ficariam influenciadas por aquelas imagens terríveis, noturnas, de maldição. Fiquei mais preocupada. Mas o doutor Loredano parecia acreditar que a ignorância daquele homem, ou o seu primitivismo, ficaria patente.

A platéia se agitava.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas.

— “Façamos recesso”, disse o juiz, o que me pareceu péssimo, porque aquelas últimas imagens ficariam ressoando. E eu como poeta, tinha que reconhecer que elas eram fortes, até mesmo belas, mas me prejudicavam, me punham em perigo perante a opinião pública, que é sempre também um tanto primitiva. Fui retirada da sala para uma outra contígua. Questionei o doutor Loredano, que me disse:

— Calma, Alma, fique tranqüila, sei o que estou fazendo. O público é na sua maioria simpático a ti, por essa mesma beleza, que parece ser incompreendida por alguns. Isso era de se esperar. Afinal, é isso que se está julgando aqui: a tua beleza, Alma. E por isso este é o julgamento do século, ao meu ver. Vou jogar com isso até o fim! A beleza é positiva, ela vencerá!

— Espero que o senhor saiba mesmo o que está fazendo... (suspirei).

 

______________________________

 

Começo a me lembrar do filho de Galdiano, aquele que, segundo ele, apaixonou-se por mim. Realmente, eu percebi isso naquela época, como sempre que isso acontece em minha vida. A vítima da paixão (se posso dizer assim) não consegue esconder, mesmo que tente ou que não consiga expressar diretamente essa paixão devido a barreiras internas ou sociais. Mas, evidentemente, eu me faço de desentendida, de distraída, claro. Não posso deter-me sobre essas paixões, atendê-las de alguma forma, ou minha vida viraria um caos! Que posso fazer? Tento manter-me o mais distante, o mais inacessível possível. E no entanto, algumas pessoas romperam essas barreiras... e me vitimaram com sua paixão. Como aconteceu quando eu era guria, de treze anos, naquela fazenda em Minas, durante umas férias. E agora, tão recentemente, aquele Pedro, que ainda me doía, e cujo segredo eu guardava da minha Aline, para não chocá-la.

Aline, por sua vez, ao ouvir o depoimento de Galdiano no tribunal, pareceu fechar um pensamento dentro de sua mente ou de seu coração. Ela me olhava, de longe, ali naquela sala onde se decidia o nosso destino, com uma nova interrogação no olhar, e eu sabia a que se referia. Era como se dissesse: “Foi Pedro, não foi, quem te feriu? Ele também não resistiu... Por quê não me contas? Não me és leal?”

A campainha soou, voltamos ao recinto do julgamento. Entrei procurando com os olhos Aline na platéia, mas não a encontrei. O juiz reabriu com uma martelada a sessão. Mas antes fez um pequeno prólogo. Chamou o advogado e o promotor diante de sua bancada e disse:

— Advirto-os, senhores advogados, que o que está sendo julgado aqui, é tão somente um crime de seqüestro, por si só suficientemente grave, de que a ré está sendo acusada. Parece-me que está havendo desvios. O caso está enveredando por meandros não pertinentes ao crime em questão. Agora continuem.

O doutor Loredano disse:

— Vou chamar uma nova testemunha, meritíssimo. A senhorita De Marco, por favor!

Aline entrou, vinda de uma sala ao lado, e não da platéia. Fiquei bastante surpresa, pois o doutor Loredano não me avisara disso. Eu não podia imaginar a minha Aline falando qualquer coisa sobre mim, ou sobre nós, em público. Ela era tão recatada, tão tímida mesmo...

— Senhorita Aline, é o teu nome, pois não?

— Sim, Aline De Marco, senhor.

— E conheces bem a acusada, a senhorita Alma, não é mesmo? O que és dela, podemos saber?

Aline fez uma pausa, hesitante, depois encarou o público e disse:

— Eu... sou o seu amor!

Foi um rebuliço. Eu olhava Aline, que estava desafiante, e meus olhos procuraram também os do doutor Loredano. O que esse homem estava fazendo?

— Silêncio, silêncio!— martelou o juiz— quero silêncio ou mando esvaziar a sala! Não tolerarei comentários, e muito menos, tumultos. Vamos, prossiga.

— Senhorita Aline, o que queres dizer com isso? Vocês são amigas, não é mesmo?

— Sim doutor... somos.

— Então me diga, como é a acusada? Como é Alma Welt?

— Maravilhosa, doutor. Ela é a melhor, a mais meiga e mais bela pessoa por dentro, que possa existir neste mundo. E é incapaz de fazer mal a uma mosca.

— Sim, claro, senhorita Aline, acreditamos nisso, sem dúvida. Por quê então, tu achas que ela está sendo julgada?

— Por seu amor, doutor, por sua coragem de interferir... pelo amor que devota aos seus sobrinhos, que só é comparável ao amor de uma mãe devotada. Ela quis defendê-los.

— Não tenho mais perguntas, meritíssimo senhor juiz.—disse o meu advogado— Quero dispensar a testemunha.

— Um momento—interrompeu o promotor— quero interrogar a testemunha!

— Prossiga—disse o juiz.

— Senhorita De Marco, onde e como conheceste a acusada, a senhorita Alma?

Aline hesitou um pouco, seus olhos ficaram úmidos, e ela respondeu:

— Em São Paulo, no seu ateliê de pintura. Eu sou modelo, e ela me contratou para posar para os seus quadros.

— Como são esses quadros, srta Aline? Tu posavas nua, não é verdade? Era nu artístico?

— S...sim, senhor era.

Neste momento o promotor Maia, estalou os dedos, teatralmente, e mandou entrar o que espantou a platéia: dois homens de terno entraram carregando uma grande tela de minha autoria: Aline nua. Um dos muitos quadros que pintei da minha Aline (como o conseguiram? perguntei-me).

O quadro foi exibido por uns minutos, enquanto o burburinho se instalava. O juiz martelou, mas as pessoas se levantavam, muitas queriam ver mais de perto. O sucesso parecia absoluto. A beleza da pintura, e do modelo, eram evidentes. O tiro saíra pela culatra para o promotor. Mas, esse disse, enquanto o juiz pedia para o quadro ser virado para ele, para que o pudesse admirar:

— Meritíssimo, eis a natureza lúbrica da relação dessas duas. Está evidenciada, está plasmada nesta tela... erótica. Vejam os pêlos púbicos, senhores, ralos, para mais exporem as partes íntimas da retratada. Vejam o brilho... ali, como se... Senhores, isto é intolerável, que museu ousaria expor uma tela assim? Não vemos nada disso em nenhum museu. Comparem até mesmo com as Vênus de Ticiano, que parecem recatadas perto disso. Senhores, essa mulher (e apontou para mim) é uma lúbrica, uma erótica. Nada sabe de maternalidade. É péssimo exemplo para as crianças, como bem podem ver. Já perceberam todos: é uma lésbica, uma ociosa, uma leviana, uma Messalina até mesmo. Tenho provas de inúmeras ligações dessa mulher, com homens e mulheres. É uma Casanova de saias, mais destrutiva que uma Taís, da Antigüidade, ou que Nefertiti. Cleópatra perto dela seria uma santa. Esta mulher é até mesmo uma incestuosa, temos fartos indícios disso. Uma mulher assim pode ser mãe? Pode reivindicar os filhos de outra? De sua irmã, mulher respeitável, que só quis defender a sua família e sempre quis defender-se do mal que esta mulher representa dentro de sua própria família? Senhores, jurados, já chega dessa farsa, peço-lhes a condenação dessa hetaira, dessa prostituta que se faz de sagrada, e que decididamente está do lado do mal, no seio de uma família de bem!

A platéia gritava, assoviava, batia o pé. Eu não sabia o que esse barulho significava. Estavam ao meu favor, ou contra mim? O que significava essa reação?

O promotor, então, como um tiro de misericórdia, chamou Solange, minha acusadora, ao banco de testemunhas:

— Senhora Solange, do que acusas a ré. Fale abertamente, fale tudo, este é o momento da verdade.

— Do seqüestro dos meus filhinhos, que me foram arrancados de casa, quando saí por momentos. Quando fui buscá-los, ela apontou as armas de seus capangas, para mim. Quase fomos todos mortos, não fosse a intervenção da polícia, no último momento quando ela estava preste a atirar. Meus filhos estavam presos num quarto, guardados por uma mulher, Matilde, nossa cozinheira traidora, que é sua cúmplice, e que nunca gostou de mim.

— E a relação de sua irmã Alma com o seu irmão Rudolf, que ela chama sugestivamente de Rôdo, como aquele lança-perfume, um narcótico. Como é ele?

— Sim, doutor, é puro incesto. Ela desesperou-nos desde a sua infância, com aquilo. Era uma sem-vergonhice. Eles eram amantes. Talvez o sejam até hoje. Sim, sei que são. É visível. Os abraços, os beijos na boca... até hoje! É intolerável! Essa mulher precisa ser detida. Não tem o menor senso moral!

Eu estava perdida. A platéia urrava, e eu não sabia o que queriam dizer com aqueles gritos. Estaria protestando a meu favor, ou querendo a minha queima? O meu apedrejamento? Eu estava quase desmaiando. Onde estava Rôdo, por quê não fora chamado? Mas se o fôsse, seria melhor? Ele era tão exaltado, o escândalo cresceria às raias do insuportável!

E então, ele foi chamado. O doutor Loredano não percebera que perdera as rédeas de tudo, que estava impotente. Nada mais conseguia acertar. Ia ser um desastre:

— Jovem, como te chamas?

— Rudolf, senhor, Rôdo... Welt.

— És o único irmão de Alma, não é mesmo? O único filho homem. Não é?

— Sim.

— Então, meu jovem, o que dizes de tua irmã, a acusada. Como é a tua relação com ela? Fala abertamente.

Rôdo, meu irmão, belo como um príncipe de cabelos negros, olhou a platéia, encarou a todos e disse firmemente:

— Ela também é o meu amor!

Ai! Eu vi tudo perdido. Fiquei zonza no meio do rumor que parecia uma imensa onda, como um maremoto, cuja tsunami se abateu sobre mim... e desfaleci.

 

______________________________

 

Acordei minutos depois deitada num banco duro, com uma porção de pessoas à minha volta, enquanto Aline me batia no rosto, o doutor Loredano segurava a minha mão e um médico tomava meu pulso na outra.

Puseram-me afinal sentada, eu via tudo meio nublado e girando. Mas logo fui me recompondo enquanto o doutor perguntava:

— Alma, se quiseres peço para interromper o julgamento por motivo de saúde. Aliás me parece aconselhável, porque precisamos atenuar os efeitos dos últimos depoimentos. A platéia está alvoroçada e não sei...

— Não, não, doutor, estou bem. Vamos, quero acabar logo com isso. Vamos lá. Só ajuda a levantar-me.

— Mas Alma, não pareces muito bem, afinal desmaiaste. Isso é muito forte. Como vais agüentar mais uma rodada?

— Vamos, doutor Loredano. Estou bem, eu afirmo. Já passou. Foi apenas uma emoção muito forte... e bonita, pelo meu Rôdo. Ele não me decepcionou, mas eu não esperava...

Voltamos para a sala. O doutor Loredano confabulou com o juiz. Ia chamar uma nova testemunha, ou iam encerrar o julgamento com a fala do promotor, a seguir encerrando com a sua, quando levantei-me e pedi a palavra. O doutor Loredano ficou branco, estremeceu. Era o que ele temia.

De pé diante do juiz eu disse:

— Meritíssimo, tenho o direito à minha fala. Quero falar, quero dizer tudo. Tenho esse direito, não tenho?

— Sim, senhorita—disse o juiz— tens o direito de falar, mas sabes a máxima: “Aquele que defende a si mesmo...” Mas se assim o queres, fala!

— Obrigada, senhor juiz. Senhores, senhoras, jurados, Meritíssimo, eu estou aqui, mais nua do que jamais estive. Parece ser a minha sina.

A platéia riu.

— “Eis a minha vida, senhores, senhoras. Eu nunca me poupei, eu dei meu coração e meu corpo aos meus amores, aos que me amaram. Mas sempre por amor, jamais poderão ver em mim outro interesse, em minha vida. O amor e a poesia. A Arte, senhores, é minha religião, e o amor é meu Deus. Sempre fui assim, e por isso me vitimaram algumas vezes, sem conseguirem me destruir. Meu corpo foi atingido, minha alma foi ferida, mas o meu coração permanece intacto, fiel aos meus amores para sempre, como eles a mim, agora vejo. Minha vida é gloriosa! Eu sei. Podem me encarcerar, Deus me deu a Arte e a beleza, primeiramente em mim mesma, depois, no meu olhar sobre o mundo! Como poderão os maus atingir-me se estou no bem e na beleza? Estes não são mais fortes? Tenho a consciência tranqüila e tenho orgulho da minha fidelidade ao amor universal que sinto em mim. Senhores, poderão encarcerar-me. Mas não poderão tirar-me o amor daquelas crianças, que está em mim e dentro delas ao mesmo tempo. Eu sei que tentei defendê-las. Não consegui, ai de mim, elas permanecem naquela casa, e isso dói, pois sei que sofrem com aquele ambiente... de desamor. Ai! Eu vejo seus braços estendidos chamando por mim, e sofro, sofro por eles. Tenho as mãos amarradas, já estou no cárcere. Mas a minha alma voa, meu coração voa até elas, e elas o sentem, elas serão amparadas por mim, mesmo à distância.

Aline, amor da minha vida, és sublime, não me renegaste. Rôdo, meu irmão, meu amor, igualmente me reafirmaste em teu coração perante todos. Eu estou no chão e nas nuvens ao mesmo tempo. Atirada ao solo, eu flutuo. Nas nuvens, ando com os pés firmes. Ninguém mais pode me atingir a mal. O amor está comigo!”

Calei-me, os olhos cheios de lágrimas que me desciam pelas faces.

A platéia veio a baixo. As pessoas queriam me tocar, levantavam-se de seus assentos, queriam me agarrar, que sei eu?

Fui levada para fora da sala, enquanto o juiz com o seu martelo de madeira martelava em meio ao tumulto. Afinal conseguiu por ordem no ambiente dizendo: “O julgamento está encerrado, o júri agora vai recolher-se para votar. Nos reuniremos dentro de uma hora.”

Durante esse momentos, deixaram Aline ficar ao meu lado, segurando a minha mão enquanto as lágrimas corriam em nós, em silêncio, sorrindo uma para a outra, esperando, nada mais esperando. Plenas, senão felizes. Até que me chamaram e fui levada para a sala, escoltada, novamente.

O juiz perguntou ao líder dos jurados, que voltava:

— Já fizeram seu julgamento, já chegaram ao veredicto?

—Sim, Meritíssimo, disse o jurado, entregando a um oficial um bilhete que foi levado ao juiz. Este abriu-o, olhou-o rapidamente, mas fez um ligeiro suspense antes de declarar:

Levanta-te, Alma Welt. Tu acabas de ser declarada... inocente. Estás livre, vai em paz!

Os presentes avançaram sobre mim e me carregaram sobre os ombros, fui levada para fora assim, e colocada em novos ombros. A multidão gritava por mim, saudando-me e carregando-me para o meio da rua, por um quarteirão, até os guardas intervirem e me retirarem dos ombros dos populares, no meio de faixas e cartazes. Pude ver que alguns desses cartazes diziam: “Alma Welt é nossa heroína.” Outro dizia: “Alma Welt é puro amor. Libertem Alma Welt!”

Eu chorava de felicidade e alívio. Procurei Aline, ela vinha também carregada no meio da multidão. Estendemos nossas mãos com esforço, para agarrarmo-nos, e afinal estávamos, ali no meio da multidão, abraçadas num longo beijo, que era saudado, afinal. Vencêramos. O povo consagrava o nosso amor. E a voz do povo...

Podíamos voltar ao hotel, e depois... à estância!

 

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Capítulo Sexto

 

O Leito Matronal

 

Deitadas, nuas, na cama do hotel, repousávamos naquela manhã quente, de verão, após tantas emoções. Estávamos felizes, Aline e eu, apesar da persistente frustração de ver perdidas as crianças para mim. Eu não pudera retê-las. Eu não pudera ficar com elas. Era impossível para mim... tirá-las daquela mãe.

Foi então que, tocou o telefone na cabeceira, e atendi, prontamente:

— “Alô, sim. Alícia? Como estão as crianças? Como dizes? Solange e Geraldo estão brigando? Sim, estou ouvindo... que gritaria! O quê está acontecendo, onde estão Patrícia e Pedrinho? Chorando? Ai, meu Deus! Apavorados! Meu Deus, que gritos, estou ouvindo... Alícia, o quê está ocorrendo? Não! Não! Um revolver? Ai! (Fiquei imóvel, calada por uns segundos, estarrecida. A seguir, continuei: “Alícia, Alícia, que barulho foi esse? Um tiro... Solange está caída, ensangüentada... Ele atirou nela! Onde está ele? Alícia, e as crianças, as crianças, Alícia?

Deixei cair o fone. Gritei: “Aline, vistamo-nos depressa, aconteceu uma desgraça. Vamos, corramos! Vamos! Vamos!

Passamos voando pela portaria, atirando a chave no balcão, e logo estávamos dentro de um táxi, correndo para a casa de Solange. Em minutos chegamos. A porta estava aberta, as crianças correram para mim, mas eu não tive tempo de abraçá-las. Corri para dentro, seguida de Aline e dei com Solange caída na sala no meio de uma poça de sangue. Ela estava viva, agonizante. Ajoelhei-me ao seu lado, com os joelhos em seu sangue. Abracei-a e amparei sua cabeça enquanto ela balbuciava, baixinho: “Alma, Alma, ouve...”

Aproximei meu ouvido dos seus lábios e ouvi-a dizer:

—“Alma, minha irmã, minha irmãzinha... me perdoa. Quero que me perdoes, Alma. Estou arrependida. O dinheiro da safra vendida... está no meu quarto... salve a estância. Tu tinhas razão. O amor estava contigo. Eu sempre soube, na verdade... mas eu tinha medo e ciúme. Tu és tão bonita, como nunca fui. E amada pelo Vati, como eu não era, e até pela Mutti. Eu nunca pude... Alma, estou morrendo. Fica com as crianças... são tuas, Sempre foram tuas, porque te amam, muito mais que a mim. Eu não soube... Ai, Alma está escurecendo, está ficando frio, fecha a sala, acenda a lareira, Alma, o Vati trouxe a lenha. Conta uma estória tua... para as crianças dormirem...”

Seu rosto tombou ligeiramente, embora seus olhos permanecessem abertos, e ela se imobilizou. Alícia chorava, Aline chorava, as crianças choravam. E eu soluçava pela minha irmã, que eu amara sempre, sem saber...

 

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Epílogo

 

Estamos de volta à estância, Rôdo, Aline, Matilde, Galdério, as crianças e eu. Lúcia virá em breve com os gêmeos, Hans e Christian, meus queridos gemeozinhos, que quero unir num só abraço.

Então, reunidos todos na sala, eu disse:

— Vamos todos prestar homenagem à nossa macieira, e agradecer por termos salvo a estância graças à Solange, que Deus a guarde junto de si. Devemos agradecer também a Ele estarmos juntos novamente. Levemos as ervas para a nossa Ara, vamos! Quero todos colhendo ervas e também algumas folhas do mate e da vinha. Vamos acender a pira e render graças à Deus, aos deuses e aos numes do Pampa, que estão esperando as nossas homenagens, a prova da nossa gratidão.

As crianças, surpreendentemente alegres apesar dos acontecimentos trágicos tão recentes, saíram correndo para todos os lados. Rôdo e Aline, também, como crianças, enquanto eu sorria, feliz.

Chamei Galdério de lado, e na nossa biblioteca dei a ele instruções precisas:

— Quero que faças uma coisa, Galdério, pegues as tuas ferramentas, e com caibros fortes, de madeira de lei, serrote e martelo, parafusos, furadeira, tudo, reforces a cama dos meus pais, por baixo. Pegue o dossel, que está desmontado, no depósito, e arme-o novamente encompridando as colunas, se possível, porquê as quero mais altas. Tens a tarde toda para fazer isso. Vamos, eu te peço. É a tua missão, por agora.

Logo estávamos diante da nossa macieira, queimando as ervas que fizeram intenso fumo, numa coluna levemente inclinada pela brisa de verão.

Eu proferi as palavras:

— Ó Ara dos Pampas, minha macieira, cujas raízes estão no meu coração! Aceita a oferenda da nossa gratidão! Estamos juntos, o amor venceu, estamos mais uma vez reunidos diante de ti, e assim faremos sempre, ao longo das nossas vidas, que fizeste tão belas. Conduz também, no fumo sagrado, a alma de minha irmã e mãe destas crianças, direto para o céu, se for possível. Ela já sofreu, e se arrependeu. Deus a receberá, eu sei.

Patrícia tinha lágrimas nos olhos, Pedrinho soluçava. Estávamos todos comovidos. Era preciso parar de chorar. Eu me virei para todos e disse: “Agora, meus queridos, vamos voltar para o solar, para termos uma grande ceia, que Matilde preparou. Quero alegria, hein? Alegria!..

Ao cair da noite chegaram Lúcia, os gêmeos, e Alberto, meu querido beberrão. Abraçamo-nos todos, beijei muito os gêmeos, e Lúcia segurando-me as mãos, disse:

— Minha irmãzinha, tu nos uniste novamente, em torno de ti, nesta casa. Só tu poderias fazer isso. Até Alberto voltou, o pobre bêbado. Vais acolhê-lo, não vais?

— É claro, minha irmã. Esse borracho é precioso. Algum dia lhe contarei por quê. Agora vamos só aproveitar a alegria e nada de lembrarmos dos momentos difíceis. Vou buscar uma garrafa para ele, na adega. Bem, ele mesmo o fará (rimo-nos juntas, nos abraçando).

Após a maravilhosa ceia, a mais alegre das nossas vidas, eu reuni as crianças e disse:

— Agora vão todos vestir os seus pijamas, pois vou contar uma estória para todos aqui na sala. Depois vocês me acompanharão, para uma surpresa antes de dormir.

As crianças, curiosas e excitadas, correram para os seus quartos para vestir os seus pijaminhas. Patrícia apareceu, linda, com uma camisola branca, bordada, que eu lhe dera.

Todos em torno de mim, inclusive Matilde, Lúcia, Aline e Rôdo, eu narrei a estória de Anita e Giuseppe Garibaldi, mas na forma de uma fábula resumida e poética, como aliás fora mesmo a sua vida. As crianças sonharam acordadas, com o amor e o heroísmo dos dois, e seus olhos brilhavam úmidos... e voavam naquela saga da nossa terra, cujas raízes estavam numa estância como esta, em famílias como esta, que se reuniam numa grande sala para ouvir e contar as estórias de suas batalhas reais... e de sonho. E eu me sentia gaúcha como nunca, meu coração estava pleno de amor pelo Pampa, por esta casa, pelo pomar, o jardim e a vinha. Naquela noite eu sentia a barba branca de meu pai pairar como um cometa sobre nós, sobre o casarão.

A seguir, apaguei todas as luzes elétricas, e munidos de castiçais e candeeiros caminhamos pelos corredores até o quarto dos meus pais, eu na frente, guiando-os, curiosos. Ali chegando, abri a porta e acendi a luz que iluminou claramente todo o grande aposento dominado pela imensa cama de meus pais, cujo dossel pairava mais alto ainda para o que eu preparara. Pedi que todos apagassem suas velas e candeeiros.  Então subi naquele grande leito, pus-me de pé, descalça, e estendi a mão para todos. Eu também estava de camisola, e estendia a mão para todos subirem, como eu. Assim fizeram, inclusive Rôdo e Aline, de pijamas, descalços todos. Então me pus a pular, bem alto, confiante no trabalho de reforço de Galdério. Todos aos risos e gargalhadas me acompanharam, pulando, pulando, e logo começou a luta de travesseiros, com as plumas escapando e voando numa apoteose branca, que como uma neve, lenta, festiva, caía sobre nós, que pulávamos e pulávamos, em risos, gritinhos e gargalhadas.

A alegria voltara para nós, e eu imaginava que para sempre...

O grande leito matronal nos acolhia a todos, órfãos que voltávamos ao lar depois de tanto tempo.

 

 

 

                                      FIM

                     A ARA DOS PAMPAS

                     Romance de Alma Welt

 

Prefácio ao romance A Ara dos Pampas

 de Alma Welt

(por Guilherme de Faria) 

 

 

 Primeiramente devo dizer que saúdo, entusiasmado, este terceiro volume do romance-trilogia "A Herança" da poetisa gaúcha Alma Welt. “A Ara dos Pampas, com este título sugestivo, romântico, que ecoa intencionalmente as velhas sagas rurais, a autora lírica que ao escrever prosa, consegue ser tão direta e quase coloquial como em sua poesia de fundo simbolista e carregada da poderosa carga de libido que lhe é peculiar, isto é, cheia de um encantador erotismo sem malícia. Por quê “sem malícia”? Porque Alma Welt considera com razão que a malícia é filha da hipocrisia e da repressão sexual, atributos espúrios que ela não contém em sua alma clara, límpida, malgrado uma pequena e inquietante zona de mistério, que lhe confere um sabor "exquis". Alma se expõe de uma maneira notável, corajosa em uma mulher. Ela “confessa” tudo. Com explicitude ao mesmo tempo estética, isto é, ela consegue nada esconder, e ainda assim permanecer encantadora, hipnótica. Talvez a beleza despojada de sua linguagem musical seja a responsável por esse fenômeno. Ela nunca vulgariza o sexo, e quando surge uma linguagem mais chula notamos que está praticamente entre aspas, ou seja, na boca de seus inimigos e opressores. Sim, porque esta bela criatura é vitimada ao longo de sua narrativa por adversários invejosos ou cobiçosos de sua beleza tentadora.François de La Rochefoulcauld: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. No caso de Alma, seus inimigos, hipócritas a princípio, tiram suas máscaras, exasperados pela provocação inconsciente que a beleza e sensualidade desta mulher pura e "cândida", embora inteligente, exerce sobre as pessoas que convivem com ela. Nunca li antes páginas eróticas mais legítimas, belas e originais do que as deste livro. A cena da “fecundação de Aline”, que adquire um caráter ritual, é um dos exemplos mais notáveis dessa capacidade da autora. Alma Welt ainda consegue ser original sem artifícios de linguagem na descrição de cenas de sexo explícito. É preciso que se diga que se estou dando ênfase a essa conotação no livro de Alma bem como em quase todas as suas obras, é porque compartilho de sua “profissão de fé”, exposta na sua “declaração definitiva” aos leitores: “Declaro solenemente que não acredito na dicotomia de corpo e espírito...” E mais adiante: “Sexo é espírito...” Finalmente, cabe ressaltar aqui, a construção primorosa, redonda, de seus romances, dos quais este é a continuação linear do primeiro, “A Herança”. Naturalmente, seria preferível o leitor ter lido o primeiro romance, já que este segundo corresponde a uma terceira parte de uma saga em forma de trilogia, em volumes assim intitulados:  A Herança: O Sangue da Terra,  A Ara dos Pampas, A Vinha de Dioniso. Estaria ao final deste último volume encerrada a saga dos Welt, no seu casarão de estância gaúcha em meio a um jardim florido e ao vinhedo dos avós? Esperemos que não. Alma Welt continuará para sempre cavalgando pelas pradarias ou passeando no meio das flores de seu jardim materno ou no seu pomar sacrificando aos deuses e aos “numes dos pampas” diante de sua macieira querida: “ a ara dos pampas”, ou nadando no riacho, nua, entre suas amigas e amantes Laís e Aline, e com Rôdo, seu irmão maravilhosamente incestuoso. Sem culpa, vital e alegre para sempre, esta Anima viva, que apareceu em nossa literatura para povoar nossa imaginação com signos renovados de beleza simples e lírica. Alma, leve-me com você no seu próximo romance!

 GUILHERME DE FARIA São Paulo, 13 de Julho de 2005

 

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 Alma Welt

 A ARA DOS PAMPAS

 Romance (Segundo Tomo da Trilogia A HERANÇA)

 

 Capítulo primeiro

 

 

 

Tenho me esforçado por dirigir os trabalhos da vinha, para que a produção do nosso vinho não cesse, mas confesso que tanto eu quanto Rôdo não somos bons estancieiros, nem administradores. O próprio Vati não o era, e deu no que deu. Precisamos conseguir um bom administrador que entenda da plantação e da produção de vinho. Mas, onde encontrá-lo, e como confiar num estranho? Tenho conversado sobre isso com Rôdo, que também está perdido, quanto a esse assunto. Ele diz que encontrará um, se se puser a andar por Alegrete ou Santana do Livramento, ou mesmo indo até Porto Alegre e passando um tempo por lá. Mas tenho receio dessas temporadas de Rôdo, pela sua atração pelo jogo, embora no seu caso não seja vício, e ele não seja o tipo que fica endividado, nem nunca tenha incomodado a família com isso. Na verdade, meu irmão dentro de um cassino parece estar no seu elemento, e numa mesa de pôquer, parece um jovem gangster de cinema, e não posso deixar de admirá-lo, eu que já o vi em ação. Mas a verdade é que embora Rôdo seja corajoso, e blefador nato, essa atividade e esse ambiente são sempre um tanto perigosos, e temo no mínimo pela inveja que a sorte e o aplomb do meu irmão causa em outros homens, bem como a atração em um certo tipo de mulheres perigosas, que são como aquelas rêmoras que grudam na barriga dos tubarões incansáveis, peregrinos de sua própria predação. A verdade é que nenhum de nós quatro herdou a vocação para agricultura, de nosso avô, e estamos de pé, ainda, apenas pelas “possibilidades extensivas” , como dizia Spengler, na sua “Decadência do Ocidente”. Será, então que a nossa própria decadência, e da nossa estância, é fatal, e já começou? Ai, não! Sempre haverá a solução de transformar tudo isto num atraente hotel- fazenda, embora o problema de um a boa administração continue de pé. Chego a pensar que a minha natureza de artista, e a de Rôdo, de jogador (embora ele tenha muito de artista também ) já são sintomas dessa decadência, pois nós artistas temos mesmo a vertigem da dissipação, até pela consciência maior que temos da transitoriedade da vida, e sua tragédia intrínseca, que nos faz confiar no sonho e na criação de mundos puramente espirituais ou imaginários, que materializamos na tela e no papel, aos olhos do mundo. ________________________________________ 

 

 Espero a minha Aline esforçando-me por não transformar a minha saudade e carência em uma nova paixão substitutiva. Ai! Aline, volta, volta logo, ou não sei o que será de mim, nem de Laís e Rôdo. Mas será que tu, aí em São Paulo não me estás traindo com teu ex, aquele bruto? Ah! Se soubesses que foi ele que me deixou no estado que tu testemunhaste... Esse homem pode também ferir-te! Ai! Não posso pensar nisso, que o coração se me aperta de angústia! Corro ao telefone e ligo para Aline em São Paulo. Tive sorte de encontrá-la na casa de sua mãe, no telefone que me deixou. Mas essa senhora, uma italiana meio bronca, que atendeu primeiro, foi um tanto ríspida e grossa comigo: 

 — Alô, sim, aqui é a mãe de Aline, sei quem é você, e olhe, francamente acho melhor que a senhora fique longe da minha filha. Ela deveria viver aqui, comigo. Porque a senhora “arrastou ela” para tão longe de mim, sua mãe? Além disso, porquê ela brigou com o namorado? A senhora é responsável por isso? Ela precisa é casar, ter filhos, dar-me netos, não acho uma boa essa relação de vocês, vocês não se desgrudam! Espere, não, Aline deixe-me falar com ela, ela precisa...

 

 —Alô Alma, Sou eu, não, não, esqueça o que minha mãe disse. Desculpe-me fazer você passar por isso. Eu não queria que ela atendesse. Alma, eu te amo! É isso mesmo, mãe, eu amo a Alma, e estou casada com ela! Larga, larga, mãe... Alma, desculpe-me minha mãe está louca, e.... ai !

 Ouvia-se uma enorme confusão, gritos e discussão do lado de lá, e eu permaneci estarrecida, com o fone no ouvido até cair a linha. Então caí num imenso pranto, logo consolada por Laís, que abrindo a porta do meu quarto ao ouvir o meu choro, entrou e veio me abraçar. Agarrei-me a ela, soluçando, enquanto ela, também com lágrimas nos olhos, me fazia deitar na cama onde eu estava sentada, ao telefone, e cobriu-me com seu corpo em toda extensão e começaram os beijinhos, primeiro nos olhos e nas faces molhadas, e logo na boca apaixonados, quentes, enquanto ela dizia baixinho: —Alminha, minha querida, o que é isso, não chora, não chora... Eu vou consolar-te, enquanto Aline não vem. Vem meu amor dá-me teus lábios, mulher linda, eu posso te amar, assim, assim... A imensa ternura, surpreendente, de Laís, que eu descobrira, realmente me consolou, naquele momento, e deixei-a beijar-me inteira e despir-me por ela, que me possuiu com um ardor crescente, com os lábios e com os dedos, denunciando o crescimento de uma paixão, que eu deveria temer, como um elemento complicador, quando Aline voltasse. Se ela voltasse.

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 Peço ao Galdério que sele dois cavalos, meus preferidos, pois convidei Laís a cavalgar comigo pela pradaria. O interessante é que essa iniciativa produziu em mim uma espécie de sentimento de traição, de infidelidade, em relação à minha Aline, que a relação sexual apaixonada de ontem não despertara. Porque será que essas cavalgadas devem ser exclusivas da minha amada, enquanto distribuo meu corpo com relativa facilidade? A resposta para essa questão talvez remonte às raízes da minha sexualidade, ao flagrante de minha mãe, no meu pomar, que fez-me desde então afrontar o mundo da repressão e mesmo da simples exclusividade, como um anjo rebelde, caído. Quero dar-me a todos os que me amarem do jeito certo, isto é, com reverência pela minha pureza intrínseca, indestrutível, imortal. Será isso o orgulho? Mas um orgulho assim, é, segundo a definição clássica, o próprio Lúcifer, enquanto eu, olhem para mim, poderia ser satânica? Sou do bem! Sou inocente, sou um cordeiro da natureza, e por isso Deus me fez tão bela. Se ele quisesse me punir teria retirado a beleza que me deu de nascença, e que me faz tão desejada nesta vida por tantas pessoas, homens e mulheres.

 

 Também tive meu período de religiosidade cristã, católica, na adolescência. Como o Vati me criara praticamente como uma pequena pagã, por influência dos deuses e mitos que me dava a conhecer desde pequena (embora eu tivesse sido batizada por absoluta exigência de minha mãe), eu tinha, na verdade, a opção, e portanto me sentia livre para escolher. E essa escolha era sazonal, essa é que era a verdade. Sendo assim, eu exercitava o lado místico da minha alma, com um ardor ingênuo, afinal, imaginando-me freira, no futuro, noiva de Cristo, o que, na verdade, eu pensava em termos quase eróticos. Pus-me a confessar-me, quase todos os dias, para comungar, com volúpia, imaginando-me engolir um deus, o que meu pai me explicaria como sentido etimológico da palavra “entusiasmo”. Eu inventava “pecadilhos”. Pois a minha imaginação não concebia grandes faltas, pecados, muito menos “crimes”. Mas, em compensação, eu era bastante convincente, com minha imaginação literária, de poeta.. E, como sabem, a poesia é o que há de mais verossímil, quando verdadeira, vinda do “imo”. Assim, eu inventava ou vivia em imaginação e coração, pequenos enredos interessantes, curiosos, e até misteriosos, para o pequeno padre, jovem, da nossa paróquia, a quem me confessava, deixando-o perplexo, confuso, eu percebia. Uma manhã, estando aparentemente compungida e fervorosa, ajoelhei-me diante daquele confessionário, fechado, escuro, cuja treliça muito fechada não permitia ver o rosto do meu confessor, o que de certa forma tornava o ato mais interessante, mais instigante para mim, com aquele silêncio sem rosto que se manifestava mais eloqüentemente que as falas do jovem padre. –Padre, eu pequei. Amo meu irmão, e dei-me a ele desde os sete anos. Agora não posso mais amar outro homem, e anseio por ele, que voltou a tomar-me todas as noites, em meu quarto, em meu leito. Ele é adolescente, como eu. Dei-lhe minha virgindade há muito tempo, mas temo engravidar, pois... ele me possui como um homem, agora, muitas vezes. Padre, tenho mêdo.

 

 –Minha filha–(disse o padre com os cabelos em pé, eu imaginei, atrás da treliça)–o que é isso? Como podes falar assim? Então só temes isso? A gravidez? É isso que temes? E a Deus, não temes? Ambos estão em pecado mortal, gravíssimo. O pecado do incesto, outrora punido pela lei secular, com a morte. Não vês, criatura, que se não parares e te arrependeres, queimarás no inferno? Eu te dou como penitência, duas mil Ave Marias e mil e quinhentos Pai Nosso. E ainda assim , não sei se mereces perdão... 

Comecei a chorar, voluptuosamente, imaginando-me arrastada em praça pública, sob ameaça de apedrejamento, a lapidação dos hebreus antigos... e um calor tomou-me o corpo todo.

 –Padre, farei o que me mandares. Mas meu corpo tem um estranho calor, ali, embaixo, e não consigo dominá-lo. A felicidade que me toma o coração quando estou nos braços do meu irmão, me deixa mole, e eu não consigo reagir, rechaçá-lo. Hoje à noite, mesmo, ele me procurará, e sei que não resistirei quando ele puser suas mãos em mim. A felicidade, padre, a felicidade, então, é sinal do pecado? 

 

—Alma, cala-te, tentadora. Cala-te e reza. Não vês que é o demônio que te sopra essa felicidade? Ela é falsa, ela é filha da luxúria. Essa felicidade como chamas, é a máscara do Demônio, seu supremo ardil. Cala-te e reza, pecadora! –Padre (eu solucei), eu tentarei, eu tentarei, mas não podes me absolver, por hoje, e dar-me a comunhão? –Não, não, mil vezes não. Estás em pecado, e não me convenceste de teu arrependimento. Pensas enganar teu confessor? Pensas enganar a Igreja? Pensas enganar a Deus? Sua pequena Messalina. Terás de sofrer, isso sim, para te arrependeres. Não vejo remorso em ti. Estás bela demais, esfuziante. Eu te vejo daqui, através destes furos. Tua pele alva brilha, teus olhos verdes brilham, não vejo sofrimento em ti. Estás iluminada pelo fogo de Satã, e não confio na tua confissão. Pensas que a Igreja é tola,. que podes manipulá-la. Fóra, pequena Jezebel!

 

 Saí dali, fazendo o sinal da cruz, envergonhada e confusa. Eu fora longe demais, eu superestimara minhas forças, meu poder de sedução, e brincara com coisas sérias, agora eu via. Eu, uma simples adolescente, conseguira escandalizar um padre. Poderia confiar no seu voto de sigilo? Tive um ligeiro estremecimento de medo. Passei uma semana sem voltar àquele confessionário. Mas também não rezei aquela penitência milionária. Eu me desconhecia, um sentimento estranho, de rebeldia, tinha sido cutucado em mim, e levantava-se como uma tendência ao desafio. Eu considerava-me imune ao pecado, acreditava na inocência primordial do ser humano, na minha própria inocência. Eu nunca poderia ser cristã, na verdade. Não acreditava no pecado, e tinha, sempre tive, um secreto orgulho do meu amor por Rôdo, que considero sublime. Eu não voltaria a ajoelhar-me. Mas eis que veio a notícia, que abalou toda a paróquia da vila: o jovem padre suicidou-se, uma noite. Foi encontrado pendurado na corda do sino com o badalo amarrado, estrangulado, quero dizer... Foi encontrado um bilhete a seus pés, que o pequeno sacristão escondeu, e me mostrou: “ Sou pecador, danado para a eternidade. Meu coração me traiu, meu coração me traiu, meu corpo e alma me traíram. A alma, a alma envenenou meu coração, com um amor pecaminoso. Deus se compadeça de mim, que estou no Inferno!” Dei um grito e cobri meu rosto. Eu era culpada, afinal...

 

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 Laís aparece em traje de montaria, com culotes e botas lindíssimas. Como é bela e elegante esta guria. Ao contrário de Aline que não tira os seus jeans e camisetas, e raramente usa uma saia indiana, fina que lhe dei e na qual fica irresistível, a namorada de Rôdo é uma pequena lady, uma mulher de luxo, cosmopolita e sensual de uma maneira clássica, diferente da sensualidade moleca de Aline. Mas isso não quer dizer que estou balançada, não me interpretem mal. O que existe entre mim e Aline é consolidado, o meu amor por ela é total, e ela me parece insuperável em suas qualidades e encanto. Apenas... não posso deixar de olhar uma beleza assim, como a de Laís, que não me pertence, essa é que a verdade! Sinto como se ela mesma e meu irmão, por pura generosidade, a estão emprestando a mim, por incrível que pareça, para consolar-me pela ausência temporária de Aline. Laís comporta-se comigo como se dissesse:

 “Alma, não chores por Aline. Ela voltará, é certo. Mas enquanto ela estiver longe, vou cobrir-te de carinho, como teu irmão me pediu, o que corrobora o meu próprio desejo. Vou encher-te de beijos e dar-me toda, já que tanto amas a beleza feminina, embora poucas cheguem aos teus pés.” Sei que tudo isso parece pretensioso e até delirante, mas tento ser objetiva, e vocês meus leitores, que já me conhecem, sabem da minha tendência inata a viver numa permanente dimensão poética, o que nem mesmo a violência e o estupro conseguem tirar de mim, de minha vida de poeta predestinada. Não fosse assim eu não seria artista, não seria a poeta que sou, herdeira do “idealismo alemão” dos meus ancestrais. O Vati me criou assim, para isso, e uma vez, ainda mal saída da adolescência me disse algo que nunca antes revelei a ninguém, nem sequer à Aline: “Alma, filha querida, quero que tu vivas a tua vida em plenitude de carne e espírito. Estás, como se diz, “instrumentalizada” para isso, pelo que te dei, pelo que te ensinei. Quero que fruas a beleza do teu corpo, como do teu espírito; que te dês em plenitude de desejo e prazer aos eleitos do teu coração e que eles sejam muitos! Pois a verdadeira vida é a vida plena da carne saciada, para que o espírito seja livre, sem as peias da carne carente, da repressão dos tolos e dos fracos. Seja tu uma bacante de ti mesma, e faça do teu próprio espírito o Dioniso interno, selvagem em sua liberdade extrema. Ama e sê amada por muitos, por todos se possível, e cobiçada como um tesouro até pelos teus inimigos. Vai, Alma, pela vida como quem dança e canta, como o vento, como o pampeiro!” Montadas, Laís e eu, disparamos em direção à porteira, onde já nos aguarda Lazinho, nosso “negrinho do pastoreio”, para abrir-nos a passagem, sem nos determos, num galope contínuo em direção ao horizonte da pradaria infinita. Como amo estas cavalgadas! Estar assim com os cabelos ao vento, no balanço harmônica que descobri ainda criança, sobre a sela e até em pelo, no lombo de um pampeiro de longa crina, acompanhada como agora, por uma bela criatura que me segue destemidamente, é uma dádiva do meu Pampa, e serve sempre como um intermezzo na grande opereta que sinto ser o meu destino. Uma Ópera Gaúcha, se isso houvesse, pois a consciência da beleza destes momentos, e de toda a minha vida, me faz chorar de comoção e mesmo de gratidão, por meus pais, o de cima e o Werner, o cirurgião artista que me criou, assim, panteísta, povoada pelos numes do Pampa, pelos deuses do Olimpo, e pelos do Walhalla, ao mesmo tempo. Como não ter gratidão pela dádiva de tanta força, de tanto amor... de tantos amores? Existem hipócritas, eu sei, que compartimentam e separam, amor de paixão, carne de espírito, amor de amores. Mas eu, levo tudo dentro de mim, sem dicotomias, ou melhor, em unidade atemporal. Meus inúmeros amores são o meu Amor! Meu desejo carnal é manifestação do meu espírito reconciliado com a carne, a bela carne que me foi dada, êxtase e delícia para os olhos dos humanos e até dos animais que parecem me amar e ser atraídos por mim, sempre senti assim. Nunca um cavalo me derrubou, nunca um cão me mordeu: eles vêm lamber as minhas mãos e meu rosto... e eu os amo. Como poeta expando meu mundo aos animais e às plantas, às ervas e às grandes árvores do meu pomar e as da pradaria, imponentes, que compõem o meu cenário ideal, que quero dividir com os que amo, vocês meus leitores e agora esta ninfa morena e cosmopolita, que me acompanham nesta exata galopada. Só pararemos quando ela, exausta pedir, gritando: “Pára , Alma, e retira-me daqui, para os teus braços, faz comigo como fazes com tua Aline! Eu te cairei por cima, quero beijar-te, toma-me, amazona loira, ou me atirarei desta sela e terás de carregar-me nos teus braços!” Paramos afinal, e poucas destas palavras imaginárias não se encontravam nos olhos negros de Laís. Eu fiz o que me pediam, apeei primeiro, segurei sua cintura sobre a sela, e fi-la inclinar-se sobre mim, como fazia com Aline, sem jamais poder agüentar o peso de outra mulher, e fazê-la cair sobre mim, que amorteci também a sua queda, em risos e gargalhadas. Sou incorrigível, mas não me levo tão a sério como pareço. Sou frágil, e sou engraçada. Tenho consciência das minhas fraquezas... e me adoro! Por isso posso amar, tanto e tão intensamente o outro ser humano, mormente quando sua beleza, interior, exterior, ou ambas, me deslumbram. Vem Laís! Agora é o teu tempo. Aline está longe!

 

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 Rôdo foi a Porto Alegre, para fechar negócio com um colecionador, sobre um lote de peças valiosas do tesouro que encontramos na caverna, sob a estância*; uns relicários de ouro, que incorrem num certo perigo de confisco, pois parecem estar associadas a uma igreja de Alegrete, que pode reivindicar, com um atraso de cem anos, a sua posse. A transação tem que ser secreta, e só estou revelando isto aqui, pois as peças, a igreja e a cidade não correspondem à realidade e estão, obviamente camufladas neste texto. Enquanto isso Laís permanece aqui, a sós comigo, saudosa dele, mas empolgada com o nosso belo affaire. Mas estamos esperando Lúcia e as crianças que deverão chegar hoje à tarde. Estou ansiosa e não consigo controlar minha euforia com a perspectiva próxima da chegada das minhas queridas crianças.

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 Chegam afinal, Lúcia, Patrícia, os meninos e a querida Alícia, que tão generosamente testemunhou ao meu favor, no tribunal com risco de seu emprego. Com a morte de Solange, ela aceitou o meu convite para trabalhar aqui para ficar perto das suas crianças. Quantos abraços, e beijos! Como é bom estarmos todos juntos novamente! Patrícia agarrou-se a mim, segurando-me as mãos, que não largou por muito tempo, dizendo: — Tia Alma, não quero nunca mais ficar separada de ti. Tia Lúcia foi ótima, mas ninguém me entende como tu, tia. Eu não pude falar com meu namorado, por que a tia Lúcia controlava o telefone, dizendo ser caro o interurbano. Você deixa, tia, eu ligar para ele? Olhei bem para minha sobrinha, linda adolescente, e lembrei de sua infância, aqui comigo, durante tantas temporadas de férias. Uma criança adorável. Agora era uma mocinha e tinha os típicos problemas de sua idade, e eu podia compreender Lúcia que deve ter tido que controlar os gastos com os telefonemas interurbanos, já que os adolescentes não têm senso de medida, nem o de responsabilidade, desenvolvidos. E quando têm, são jovens infelizes, sobrecarregados de superego, como aqueles adolescentes japoneses que se suicidam quando não passam nos exames. Como é difícil crescer! Pensando nisso, lembro-me de quanto sou atípica, como artista e filha de meu pai, um homem sábio, de uma liberalidade inaudita. Um livre pensador, às raias do anarquismo e da experimentação pedagógica, que estimulou até mesmo a minha sensualidade inata. Por isso vivi sempre de uma maneira intensa, extrema, total. Mas eu não era psicologicamente tão dependente dos adultos como minha sobrinha, que é, no fundo como um bichinho ingênuo, cândido, e que será sempre dependente de um homem, como de uma mãe, já que lhe falta um pai verdadeiro. Por falar nele, onde anda o meu querido beberrão, o “borracho” que salvou a minha vida num momento da mais profunda angústia? Pergunto por ele à Lúcia, que me conta que Alberto está internado, para desintoxicação, numa clínica em Alegrete, onde assiste a reuniões de AA. Senti um grande alívio em saber disso e projetei visitá-lo lá, dentro de duas semanas quando espero que esteja melhor, passada já a pavorosa síndrome de abstinência, que Lúcia me informou ter ele vivenciado. Na verdade foi mais que isso. Alberto passou pelos inenarráveis tormentos do delírium tremens, que são a prova cabal da existência do inferno, com todas as suas criaturas do mundo das trevas. Pobre Alberto! Terá ele merecido isso? Lembro-me de uma conversa que tive com um amigo alcoólatra, veterano de AA, que me disse, mais ou menos isto:

 

 —Alma, querida amiga, és ingênua, e não sabes verdadeiramente do mal dentro dos homens. Fica sabendo que um alcoólatra, por definição, nunca é uma boa pessoa. Ninguém bebe por suas qualidades, nem sequer sofre por elas, As virtudes não produzem sofrimento dentro das pessoas, são os defeitos de caráter que produzem dor, e levam à bebida descontrolada. É nisso que consiste o drama do alcoolismo. É a doença dos defeitos de caráter, ou dos sete pecados capitais, que são a sua enumeração clássica. Os doentes alcoólicos, não se curam, claro, mas aqueles que conseguem deter a sua doença, o fazem pelo desenvolvimento e o exercício das virtudes imediatamente opostas aos defeitos que estão na base da compulsão daquele doente em particular. Cada alcoólatra tem o seu pecado de escolha, de eleição, onde o álcool se agarra, enraizando-se nele, por assim dizer, lançando ramificações, radículas, pelos defeitos menores, ou filhotes dos sete grandes pecados capitais. Mas, atenção, todos os defeitos ou “pecados”, estão sob a égide do maior deles, o supremo “pecado”, o pai de todos: o Orgulho... que é Satã, Lúcifer, o anjo rebelde”.

 Apesar do tom ligeiramente messiânico do discurso do meu amigo, ele me parecia fazer muito sentido, dentro de uma lógica não científica, mas filosófica, ou pelo menos poética, o que é melhor. Entretanto, eu tinha dificuldade de enxergar Alberto com esse rigor de julgamento, sobretudo depois que ele me salvara a vida, embora um tanto por acaso. Eu via, desde então, o meu cunhado beberrão como um elemento providencial em minha vida, pois além de tudo fora ele que descobrira a safra oculta dos nossos avós, que precipitara os acontecimentos que, de um jeito ou de outro, salvaram a nossa estância. Quanto aos gêmeos, meus queridos Hans e Christian, estavam mais lindos e unidos do que nunca, e cantavam lindamente em uníssono, com vozes de sopraninos, como dois anjos. E eu pensava que deveriam ficar sempre assim, que a infância não deveria ser transitória para ninguém já que podia ser um belíssimo presente, completo, pleno em si mesmo, como parecia ser o caso dos dois, mais o do Pedrinho, também adorável. Este menino, por ter um pai bêbado, parecia ser mais amadurecido que o normal de sua idade, sem no entanto ter perdido a candura, que fazia dele um menino tão doce e perfeito, que a gente queria abraçá-lo e não largá-lo nunca mais. Aliás eu ficaria com eles, Patrícia e Pedrinho, e pensava na adoção legal. Mas, Lúcia, dizia-me: –Alma, não podes ficar com eles. Cometerás um grande erro se o fizeres. És uma artista e deves permanecer livre. As crianças precisam de uma rotina e disciplina que não saberás proporcionar, já que elas não existem em tua vida. Tu deves partir com Aline, pelo mundo, fazendo exposições e lançando teus livros. Apesar de toda a tua boa intenção, serás prejudicial a estas crianças, se ficares com elas. É melhor que fiquem comigo, que cresçam junto de seus primos, todos juntos na minha casa, no sítio, que já tenho prática de cuidar de crianças, e de cobrar seus deveres de escola, prover sua alimentação regrada e tudo mais. Vai, Alma, pára com essas veleidades, que não são para ti, poeta! Não pude deixar de perceber que ela tinha razão, mas eu tinha, primeiro, que conversar com Patrícia e Pedrinho, que ficariam talvez revoltados, pois queriam ficar junto de mim, naquela eterna festa de existir que eles achavam que era o meu modo de viver. Sempre poderia haver a solução de uma preceptora dando aulas às crianças aqui na estância, como minha mãe providenciara para mim quando era adolescente, com o resultado que revelei no meu conto A Preceptora, dos Contos Secretos. Eu começava a ver que a proposta de Lúcia era a mais sensata, e além disso as crianças estariam sempre perto de mim, que os visitaria em Alegrete, além de ficarem comigo durante as férias todas. As crianças precisavam estudar, e além disso Patrícia precisava namorar o seu coleguinha de escola, e por isso, aceitaria bem a proposta de sua tia Lúcia. Bem, “Não me preocupar! Eis a providência que preside o meu Destino”, dizia o mestre Nietzsche. Assim, recomeçamos uma deliciosa nova temporada, mais despreocupada, não fosse por uma ligeira ansiedade pelo retorno de Aline, que eu achava que corria algum perigo, em relação ao Pedro, seu “ex”, que poderia eventualmente atacá-la, por despeito, ou vingança, como fizera comigo. Comecei a ficar tão ansiosa com essa possibilidade dolorosa, que resolvi precipitar a confissão que eu devia a Aline, para alertá-la, talvez, a tempo, para que não aceitasse nenhuma tentativa de reaproximação do Pedro, que seria um risco imenso. Ele tentaria seduzi-la novamente, eu imaginava, e para isso, me caluniando certamente. Havia ainda o risco de, não conseguindo, então violentar Aline, como, ai !não posso pensar nisso. Liguei imediatamente para Aline, em São Paulo:

 

 —Aline, meu amor, sou eu Alma, claro! Estou bem, mas saudosa, e tu? Olha, não procuraste o Pedro, não é? Não o farás, não é mesmo? Olha o que me prometeste. Não, não... olha, tenho que revelar-te algo muito importante. Não, não, não é paranóia! O quê? Conversaremos quando tu voltares? Mas quando, quando? Olha, não recebas o Pedro, se ele te procurar, prometes? Não lhe abras a porta. Depois te explico. Ele não sabe que estás aí, não mesmo? Não deixa ninguém contar a ele que estás aí. Farás isso? Se puder? As pessoas... Sim, sim, eu sei. Mas, Aline, ele é perigoso, quando voltares, te direi como sei disso. O que? Não, não! Não é isso! Conversaremos aqui, tá? Um beijo, meu amor...eu te amo tanto. Me amas? Ai, vou morrer de alegria, volta, volta, minha amada! Até... até breve. Um brande beijo nessa tua boca carnuda. Vou pegar-te de jeito, quando voltares. Ai! Beijos, beijos mil...

 

 Percebi ao desligar que Laís estava diante da porta do meu quarto, pronta para entrar, e provavelmente ouvira minha conversa ao telefone. Mas Laís não era uma dissimulada, e quando, batendo os nós dos dedos na porta entreaberta, foi recebida com prazer, ela já entrou dizendo: 

 

— Alma, querida, me perdoa. Ouvi sem querer, o que falavas com Aline, mas permita-me dizer que eu espero Aline com tanta ansiedade como tu. Quero saber se me rejeitarás, quando ela voltar. Porque te amo, Alma, tanto quanto a Rôdo, que está me fazendo tanta falta. Sabe, como tu eu também gostaria de juntar todas as pessoas amadas, fisicamente, não só no meu coração. Ah!” Alma, quero-te cada vez mais! Quando estaremos novamente juntas neste teu leito? Ou em qualquer outro lugar, a sós? Alma, Alma, eu sei a querida Patrícia, e as crianças andam por aí o tempo todo, e precisamos ter cuidado. Mas, tu não poderias encontrar-me hoje, logo que as crianças, forem dormir, no galpão de feno? Já examinei o local, e sei que ali te encontravas com Aline, quando vocês ainda se escondiam de Solange. Não me permitirás experimentar aquela palha, nos teus braços, esta noite, no mesmo local, no mesmo leito? Lembra-te que eu não quero roubar-te de Aline, somente... Beijei Laís nos lábios, e em seguida respondi:

 

 –Laís, querida, sou privilegiada de ser assim amada por criaturas como Aline e tu mesma; e pelo próprio Rôdo, meu amado irmão, que me ensinou o amor carnal, ainda na infância. Estarei lá, no galpão. Espere-me lá, esta noite, às onze horas, quando todas as crianças já estiverem no sétimo sono.

 

 Laís saiu, feliz, soprando-me um beijo no ar. _____________________________________________ 

 

 Quando criança eu amava o Vati, acima de tudo e de todos, e... Rôdo meu irmãozinho, que, a partir dos dez anos, se tornou obcecado, após experimentar meu beijo nos lábios, e o cheiro de xixi da minha “pombinha”, como já contei no romance A Herança. Nossas aventuras e descobertas, a partir daí, adquiriram um substrato sensual e mesmo erótico que permeava a nossa convivência, tornando a nossa vida excitante, excepcional, como uma aventura permanente. Nossa libido, profundamente aflorada, se posso dizer assim, transmitia uma conotação sensual, a tudo o que víamos e tocávamos, ao nosso redor. Quando pela primeira vez assisti com Rôdo a cobertura de uma égua pelo nosso maravilhoso garanhão Minuano, cujo imenso falo, pendurado, me impressionou sobremaneira, e que despejou uma grande parte de sua carga no solo, após a ejaculação na larga vagina de sua parceira, uma das nossas belas éguas, eu me senti profudamente feminina e ansiei por aquele banho branco, que me pareceu com certa razão, o pináculo da experiência carnal. Eu quis, desde aquele momento, que Rôdo fizesse aquilo comigo, mas o pobrezinho tinha um pintinho tão pequeno ainda, e mal podia ejacular, embora vivesse já sempre em riste, com sua cabecinha vermelha inflamada por roçar na sua cuequinha e nas suas calças de brim, ásperas. Ele logo passou a me instar a beijar aquela cabecinha, e a pôr seu pintinho inteiro dentro de minha boca, às vezes junto com o saquinho inteiro. Foi quando ele ejaculou pela primeira vez dentro da minha boca, no fundo da minha garganta, fazendo-me tossir muito, de olhos vermelhos. Mas apesar do engasgo eu adorei aquilo, e iríamos repeti-lo muitas vezes, como, aliás, fazíamos com cada nova descoberta. Daí para a introdução na minha pequena vagina foi um passo, e descobri muito mais tarde, com surpresa, que eu tinha um hímen complacente, e por essa razão não sangrara. Só podia! Pois eu tinha uma natureza complacente com quase tudo na vida, exceto com a maldade, e a crueldade. Mas, meu irmão era puro como eu, e nossa natureza sensual, e mesmo erótica, suspeitada com alarme pela minha mãe (e por Solange), nunca nos decepcionou, e pela nossa aceitação plena, até à exaltação, nos tornou artistas, disso tenho certeza, embora Rôdo ainda não se dedique a uma arte, a não ser a do jogo de pôquer, que, da maneira incrivelmente hábil com que joga, talvez seja mesmo uma arte. Uma vez, no mesmo galpão onde combinei agora meu encontro noturno com Laís, naquele tempo da minha infância tive meu primeiro “banho branco”, que me deslumbrou. Rôdo, superexcitado, inundou-me por dentro, mas eu, graças a Deus, ainda não menstruava, e não corri o risco, impensável, de engravidar de meu irmão. Aliás devo dizer, que fui poupada destas surpresas desagradáveis, ao longo da vida, por pura sorte. Não aconselho ninguém, portanto a me imitar. Como dizem os americanos, jocosamente: “Não tente fazer isso, você mesmo, em casa! ” Mas, naquele tempo, vivíamos soltos, pelo casarão cheio de quartos, alcovas e mansardas, e ainda pelo jardim, o pomar, o açude e a pradaria ao redor. Todos esses lugares foram palco e cenário dos nossos encontros íntimos, que eu não sabia, até recentemente, o quanto eram acompanhados de longe ou de perto secretamente por algumas pessoas, como aquele velho Alípio Galdiano que um dia deporia contra mim no tribunal, e que eu tive de despedir por justa causa, pois se revelara um inimigo. Ou por Solange. E finalmente por Ana Morgado, minha mãe que nos pegou em flagrante, pondo fim àquele ciclo maravilhoso de nossas vidas

 

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 Após uma alegre ceia, na nossa grande sala, onde as crianças reinaram, com a as suas brincadeiras e narrativas das experiências do dia, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas de reconhecimento pela beleza e privilégios do presente, de minha vida tão plena de dádivas, que me comoviam, fui jogar um jogo de tabuleiro com Pedrinho e os gêmeos diante da lareira apagada, já que a noite estava quente. Esses momentos, tão aprazíveis, gravam-se na minha memória para sempre, e são o sal da vida. Após uma partida, jogada em comum por duas duplas, os gêmeos contra mim e Pedrinho, fui levá-los para a cama para contar-lhes uma história, que naquela noite foram episódios da Odisséia de Homero, que adoro, e que narrei resumidamente, de cor. As maravilhosas peripécias de Odisseu, no seu retorno de Tróia, tentando chegar à sua amada Ítaca e à sua Penélope. Os olhinhos das crianças brilhavam antes de ficarem afinal sonolentos e receberem um beijo cada um nas boquinhas perfumadas de pasta de dente. A vida é bela. E eu estava ensinando aos meus sobrinhos, que os heróis somos nós mesmos, e que as belas aventuras estão ao nosso alcance nas nossas vidas, dependendo de nossa ousadia e disponibilidade, mas, sobretudo, da nossa capacidade de sonhar. Afinal, somos como os aborígenes da Autrália que se auto-designam “o Povo do Sonho”, sim, mas também nós, a humanidade inteira, a quem foi oferecida a dádiva do onírico. Para que o mundo seja maior dentro de todos e a vida não se restrinja a um pequeno cenário doméstico, para a alma aventureira do homem! Então quando os vi adormecidos, saí pé-ante-pé, e fui para o meu quarto para preparar-me para o encontro com Laís, no galpão. Eu iria me banhar e vestir-me como uma hetaera, perfumada somente pelo sabonete, para que transparecesse meu perfume natural. Eu estaria com um vestido levíssimo, muito fino sobre a pele, e resolvi não vestir a calcinha. Eu estava praticamente nua, e sabia que Laís estaria outro tanto, preservando também seu perfume natural, já que era uma moça de bom gosto. Eis aí algo que nunca entendi nos franceses, que se banham pouco, ficam fedidos e tentam camuflar isso com seus perfumes. O que só produz uma mistura rançosa de cheiros, insuportável. Além disso suas lindas mulheres não raspam as axilas, peludíssimas, e muito menos o púbis e as virilhas, o que só agrava o mal cheiro. Bem, talvez também o mal-cheiro tenha um elemento afrodisíaco. Não contam, por exemplo que Rasputin, o monge lúbrico da corte dos Romanov, e que era um verdadeiro sátiro, nunca tomava banho, fedia como um bode, era irresistível às mulheres? Afinal, o ser humano é muito estranho... Assim, sentindo-me leve e diáfana, saí para varanda, com uma lanterna de pilha, passando pela janela de Lúcia que estava com a luz acesa, que transparecia pelas venezianas cerradas, fazendo crer que ela estava ainda acordada, talvez lendo, ou mesmo atenta às manobras, minhas e de Laís, mas sobre as quais ela seria discreta, e nunca interferiria. Pois esta minha irmã provou me amar e me aceitar mais incondicionalmente do que eu jamais esperaria. Atravessei o jardim, e depois de uma caminhada de cem passos eu entrei no galpão cujo cadeado do grande portão estava previamente aberto por mim. Deixei a porta encostada e dirigindo o facho de luz para a escadinha da parte superior do galpão, onde era o meu ninho de amor com Rôdo, e depois com Aline, subi e deitei-me sobre a palha para esperar Laís. Esta logo chegou, e cruzamos nossos focos das lanternas, nos reconhecendo, emocionadas, em expectativa ansiosa, e logo estávamos abraçadas, nos devorando de beijos. Laís estava tão sôfrega quanto eu, e tirou nossos vestidos, quase rasgando-os. Ela também estava sem calcinha! E começamos a nos acariciar e manipular, ofegantes beijando-nos e sugando nossos mamilos tesos, durinhos empinados. Estávamos ensopadas por dentro e começamos a provar o caldo uma da outra, sedentas, deslumbradas de prazer, num maravilhoso sessenta e nove. Então, nesse momento, ouvimos um rumor e a porta lá embaixo abriu-se. Paramos imediatamente, assustadíssimas, e esperamos imóveis, o coração aos pulos, ainda com nossos sexos diante das nossas faces molhadas. Quem seria? Então no topo da escadinha apareceu um foco de lanterna diante de nós que nos ofuscou, e paralisou naquela situação vulnerabilíssima e tão intima em que estávamos as duas, nuas, viradas cada uma para um lado. Era insuportável, impensável, tal situação. Nós corríamos imenso perigo, pensamos imediatamente. Então ouvimos a voz detestável do meu cunhado Geraldo, o assassino de minha irmã, enquanto nossa vista ofuscada divisava uma arma iluminada, em parte, pelo foco de sua lanterna:

 

 —Aí, hem, safadas! Vocês nunca me enganaram! Esperem aí, ah! essa não é Aline, é a Laís do Rôdo, essa putinha, que gritava como uma gata no cio, nos braços daquele corno, que todos ouvíamos na temporada passada. Rôdo sabe disso? Vai saber, ah! se vai... dependendo de ti, Alma, sua serpente.Vim reclamar minha herança e só saio daqui com muito, muito dinheiro, que vocês me devem.Pensavam que a coisa ficaria assim, deixando-me de mãos abanando? Apavorada, eu retorqui:

 

—Geraldo, seu assassino, não cometa mais desatinos que a tua situação se complicará mais ainda, tu estás sendo caçado, sabias? Eu pensava que tu fosses mais esperto e que já estivesses fora do país, aí pelo Uruguai ou Argentina. Se ficares por aqui logo te prenderão e vais mofar na cadeia.

 

 —Nada disso, sua espertinha! Ninguém me persegue, e vocês estão nas minhas mãos, mais do que vocês imaginam. Meus filhos estão aí, não estão? Pois eles saberão de tudo, sobre vocês, suas safadas, se não fizerem exatamente o que vou mandar. Vou prender uma de vocês aqui. Tu Laís, venha cá de mãos para cima, sua bela pelada! Vou amarrá-la com esta corda, assim, com as mãos para traz vamos, assim, assim. Fique quieta aí, Alma, se não mato as duas. Não me custa, quando já se matou antes. Vocês sabem, é só começar... e toma-se gosto.

 

 Para cúmulo da humilhação depois de amarrá-la, nua como estava com as mãos para trás, aquele homem odioso, ainda deu um grande tapa na nádega de Laís, que deu um grito dolorido. Ele era um sádico, iria nos torturar? Nós estávamos numa grande encrenca, minha cabeça estava a mil, procurando uma saída para aquela situação perigosa e patética. Nós duas ali, nuas, frente ao meu detestado cunhado, que ainda por cima era um cafajeste. Eu jamais poderia imaginar isso. Se Aline estivesse aqui, eu estaria com mais vergonha ainda de expô-la a uma situação dessa, que eu achava agora que era uma decorrência da minha vida, dos riscos inerentes à minha maneira imprudente de viver, e do meu destino, que eu sempre quisera poupar à Aline, preservando-a para deslumbrá-la com meu universo que eu pensava todo ele de beleza, para enfeitiçá-la, com medo de que deixasse logo de me amar. Eu agora estava expondo esta outra flor ao perigo, por minha culpa! Por minha culpa! Eu tremia de medo e indignação, com as mãos pela primeira vez cobrindo meu sexo e meus seios da visão espúria desse homem que olhava lubricamente, a nós duas. Eu nem mesmo na infância, naquele flagrante de minha mãe, me vira compelida a obedecê-la na sua ordem para que me cobrisse com as mãos enquanto era arrastada pelos cabelos, diante da peonada. Geraldo depois de comer-me com os olhos, cobiçosa e perigosamente, ordenou-me que me vestisse, que fosse até o casarão, e trouxesse dinheiro, jóias e dólares, tudo o que tivesse de valor, alertando ainda que isso era só o começo, que ele queria a venda de uma parte das terras da estância, a que tinha direito, pois fora casado com comunhão de bens com Solange. Aquele louco esquecia que a tinha assassinado, e que por isso perdera qualquer direito sobre a herança, eu queria crer. Antes de descer a escadinha eu o preveni a não ousar fazer mal à Laís, porque Rôdo o perseguiria até o fim do mundo e o mataria. Eu conhecia o meu irmão. O cafajeste respondeu com uma gargalhada cínica, dizendo:

 

 —Então ele terá que começar por você, que a estava comendo, sua lésbica maldita! 

 

 Tremendo de medo e de raiva, eu me dirigi de volta ao casarão, para acordar Lúcia e levantarmos o que pudéssemos em dinheiro e jóias. Lúcia ficou assustadíssima, e chorando dizia: 

 —Alma, Alma, o que vamos fazer, meu marido é um homem perigoso, a crianças correm perigo, todos nós... o que vamos fazer? Onde está Galdério? Onde estão os peões, como pôde ele entrar na estância? Como não o barraram?

 

 —Minha irmã,— eu disse—isso agora não vem ao caso. Além disso, estão todos dormindo. Ninguém esperava que aquele louco voltasse aqui, depois do que fez. Mas vamos ganhar tempo, vá, dá-me todo dinheiro que tiveres, eu darei o meu, as poucas jóias que tenho, dá-me as tuas, vamos, precisamos ganhar tempo, Laís está como sua refém e ela corre perigo, eu acho. Não me perdoaria se... Lúcia soluçava nervosíssima, e eu percebi que cabia só a mim enfrentar aquele homem. Após quinze minutos de procura e recolha de dinheiro e objetos (nenhuma peça do tesouro, claro, de que ele não tinha conhecimento), com uma sacola cheia dirigi-me de volta ao galpão. Eram já meia noite e meia, e os cães latiam presos no canil, e os sapos coaxavam como em alarme geral, junto com os grilos. Mas nenhum peão acordou, graças a Deus, pois eu temia um tiroteio e mortes, se o galpão fosse cercado, com meu cunhado bandido lá dentro, e sua refém, a pobre Laís, apavorada. Quando reentrei no galpão, vi um rumor e sinal de movimento e gemidos lá em cima. Estarrecida corri a subir, e horrorizada encontrei Geraldo em cima de Laís, possuindo-a, violentando-a, com uma mão agarrando seus cabelos. Sob o foco de luz, pude ver o seu pênis enorme penetrando, entrando e saindo da vagina da minha amiga, cujos gritos eram abafados pela outra munheca do monstro em sua boca. Sem pensar, avancei sobre ele por trás e dei-lhe uma violenta pancada na cabeça com a minha lanterna. Ele pareceu desfalecer largando o corpo em cima dela. Então eu a puxei pelo braço, de debaixo dele, desfigurada e em lágrimas, gritando, e (eu não pude deixar de notar) enganchada ainda no pênis do celerado, que tive que fazer um esforço para livrá-la daquela penetração escabrosa. Nunca mais tal visão abandonaria a minha memória horrorizada e recôndita, a ponto de eu não saber mais se tudo não passa de fragmentos de um pesadelo que confundo com a realidade. Laís abraçava-se a mim, tremendo e soluçando, nua, marcada com vermelhidões e arranhões, futuras terríveis equimoses da violência que sofrera. De sua vagina escorriam, pelas coxas, sangue e esperma. Meu coração estava partido: eu chegara tarde demais para salvar a minha amiga! Então, enquanto eu abraçava e afagava Laís em estado de choque, subitamente ouço a voz de Geraldo, novamente: 

 

 —Então, vagabundas, safadas, vocês insistem, não aprenderam a respeitar os homens, não é? A próxima será a tua vez, Alma, sua puta! (ele apontava-me o seu revólver ). Nós estávamos perdidas. ___________________________________________

 

 Amarrada, sob a ameaça do revólver de Geraldo, eu pensava num jeito de sair daquela situação e de cuidar de Laís que estava em estado de choque e regredira à condição de uma menininha desamparada. Ela tremia, e o próprio Geraldo enfiou-lhe o vestido brutalmente, pela cabeça, e nem necessitou amarrá-la, paralisada e catatônica. Eu queria levá-la imediatamente a um hospital, e implorei a Geraldo que parasse com aquilo e que me deixasse cuidar de Laís, prometendo-lhe que ele seria atendido nas suas reivindicações, bastando que se afastasse da estância e esperasse escondido, até que eu terminasse a transação da venda que ele exigia. Geraldo, porém, disse:

 

 –Pensas que sou tolo, minha cunhadinha? Não vou dar oportunidade para chamares a polícia. Vocês irão me acompanhar até o casarão, agora que está escuro, e ainda ninguém acordou. Ficarão presas na casa, sob minhas armas. Sim, porque vocês terão uma bela surpresa quando chegarmos lá. Atravessamos o terreiro e ao passarmos pelo jardim, pude ver a casa cercada por mais três homens armados, os comparsas de Geraldo. Entramos todos, e os capangas armados com rifles, se puseram estrategicamente junto a três janelas opostas. Iria começar a longa e torturante espera, de reféns, enquanto durasse a procura de um comprador e o fechamento da venda, coisa que me parecia inviável a curto ou mesmo médio prazo. Além disso, pelo comportamento violento de Geraldo, eu corria o risco de ser violada por ele como Laís o fora, pois meu cunhado sempre me desejara tanto quanto me odiava. A situação era desesperadora. E quanto às crianças? Quando acordassem, saindo de suas caminhas para virem me abraçar no meu leito, não me encontrariam ali e logo nos veriam naquela situação. Veriam o próprio pai e tio cercado de capangas, fazendo-nos a todos de reféns: suas cunhadas, filhos e sobrinhos! Aquele homem era capaz de tudo, e já provara isso suficientemente. Além disso, eu pensava em tratar de Laís, cuja depressão aumentava visivelmente, precisando de cuidados médicos e que eu lhe desse imediatamente a minha “pílula do dia seguinte”, cujo envelope eu guardara desde o meu próprio estupro por aquele Pedro, em São Paulo. Ia começar uma longa vigília.

 

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 Ao amanhecer, assim que Galdério e Matilde entraram na casa para os seus afazeres, foram aprisionados e também amarrados. Logo ouvimos o burburinho das crianças que levantavam e vinham correndo para a sala para o café da manhã, encontrando–nos naquela situação, com o pai assassino cercado de capangas armados ameaçando-nos a todos. Foi uma consternação e um choque para as crianças, mas pude trocar olhares com elas, que me viam como seu general de saias, desde a nossa experiência como equipe de “espiõezinhos”, na temporada passada. Pedrinho, menino audacioso e aventureiro que puxara ao tio Rôdo, esperava instruções minhas para agir, fazer alguma coisa. Logo apareceu também Patrícia na sala, espreguiçando-se, e arregalou os olhos quando viu seu temido tio apontando-nos armas. Quanto aos gêmeos, estavam quietinhos, com os olhos cheios de lágrimas, olhando o pai, ainda sem compreenderem bem a situação. Aquele dia inteiro e os seguintes foram passados em clima de tensão e planejamento dos passos que ele exigia que eu desse. Não é preciso dizer que Geraldo nos ameaçava a todos de morte, se eu desse um passo em falso, por exemplo, alertando os peões, ou telefonando e chamando Rôdo em Porto Alegre. Para isso confiscara os celulares e vigiava o telefone fixo. Eu deveria, munida de documentos da estância, vender um quarto das terras ao primeiro interessado. Geraldo me prevenia de que se eu chamasse a polícia ou usasse algum truque ele poria fogo na casa com todos dentro, inclusive seus próprios filhos. Era um homem desesperado, acuado, que segundo ele nada mais tinha a perder, só a ganhar, afinal. Eu matutava numa solução que não pusesse em risco a segurança de todos e, finalmente, munida dos papéis e acompanhada de Galdério que dirigia o carro, como sempre, afastamo-nos da estância, para ir ao cartório, para anunciar ali a venda, que eu sabia que não seria nada fácil. No caminho concebi o meu plano. __________________________________________________ 

 

 O tabelião, senhor Donato era um homem dedicado, que fora amigo de meu pai, e que sempre prezara nossa família sobre todas as outras da região. Eu sabia que ele me ajudaria no meu plano. Tratava-se do seguinte: nós iríamos forjar a venda, com um falso comprador e falsos papéis. Esse suposto comprador se apresentaria até no casarão. Eu alertaria o próprio Geraldo para que ele pensasse estar disfarçando a situação perante o cliente, escondendo seus homens. Nós lhe daríamos o dinheiro, que seria um empréstimo bancário conseguido com a influência e prestígio do tabelião, mas com notas marcadas, a polícia não seria avisada, claro, para não pôr em risco minha família. Nós daríamos o dinheiro ao Geraldo, mas poríamos um rastreador no nosso próprio carro, que ele levaria com seus homens, pois era de muito melhor qualidade do que o deles, e então, quando estivessem bem afastados, alertaríamos a polícia que se poria no seu encalço. O plano era arriscado, naturalmente, e podia dar errado, pois Geraldo poderia resolver levar alguns de nós como reféns, por segurança, já que teriam dois carros disponíveis para a fuga. Mas tínhamos que tentar. Depois de muitas horas que estas providências nos tomaram, voltamos no carro já equipado com o rastreador, e Galdério me dizia no caminho:

 

 —Dona Alma, se a senhorita me autorizar eu mato esse homem, se não for hoje será mais tarde, algum dia, mas eu o mato. Nunca fui com sua faccia, e agora depois de tudo que esse homem fez, merece a morte. Mas diga-me dona Alma, o que ele fez com a senhorita Laís, que está tão mal, que não parece estar em si? Se aquele maldito... Achei melhor disfarçar e nada revelar ao Galdério sobre a nova tragédia acontecida, para não acirrar seu ânimo. Galdério na sua indignação, poderia precipitar-se e pôr tudo a perder, até mesmo ser morto. Geraldo revelara-se um bandido perigosíssimo e não um simples assassino passional. Eu mesma seria capaz de matá-lo, talvez, mas no calor do momento, como quase o fiz, golpeando-o na cabeça. Mas minha força revelara-se insuficiente, graças a Deus, e me poupara de ser uma assassina nesta vida. Ai! Mas a pobre Laís... ela se recuperaria, como eu me recuperei da mesma horrível experiência sofrida nas mãos de outro crápula, o Pedro, da Aline? Eu não podia saber. Ela me parecia mais frágil do que eu, que estava inteira apesar de tudo... de ter sido igualmente tão brutalizada. Eu precisava cuidar de Laís, com todo o carinho, com todo amor que as circunstâncias não me estavam permitindo dedicar a ela. Meu coração doía ao pensar nela, que estava tão traumatizada que não falava mais, e eu temia por sua vida. Ai!... Chegando à estância, desci do carro e corri até à porta ansiosa por ver se todos estavam bem. Laís não estava na sala, fora levada ao seu quarto, sob os cuidados de Patrícia. Lúcia ainda torcia as mãos, as crianças jogavam em silêncio sobre o tapete da sala, um jogo de tabuleiro, enquanto Matilde cuidava do almoço para todos. Iríamos entrar num período de espera, de terrível espera, até que o tabelião completasse a transação com o banco e nos trouxesse o dinheiro através do falso comprador, que esperávamos significasse a nossa libertação. Lá fora a vida da estância corria normalmente, com os peões e os trabalhadoras da vinha, na sua rotina de trabalho, alheados do drama que se passava dentro do casarão. Quanto a mim só me restava orar a Deus, para que o meu plano desse certo. ______________________________________________ 

 

 Lúcia, na sua alienação em relação à verdadeira natureza de seu marido, apesar de tudo o que sofrera em sua vida com esse jogador, viciado e perdedor, além de mesquinho, mal caráter e assassino procurado, de sua própria irmã, tinha uma ilusão persistente, vendo nele ainda o pai de seus filhos, e tentava convencê-lo a ir embora, para não ser preso, e para não impressionar mal às crianças. Mas esse homem debochava dela e tirara completamente a máscara, revelando seu rosto de bandido, dando-lhe um violento tapa na face, para que se calasse, na frente de seus próprios filhos e dos gêmeos. Foi mais um momento chocante que vivemos ali dentro. Assim que chegamos, eles voltaram a amarrar Galdério, com as mãos para trás, já que temiam alguma súbita reação do nosso motorista. Eu exigi que me deixasse ir cuidar de Laís, no quarto, no que fui atendida. Chegando ali, encontrei Patrícia com os olhos cheios de lágrimas afagando a mão de Laís, que estava catatônica, com os olhos muito abertos, esgazeados, sem expressão. Sentei-me ao seu lado na cama e a abracei, dizendo: 

 

 —Laís, minha Laízinha, meu amor, meu amor... Fala comigo, querida, diz alguma coisa, sou eu Alma, não vês, estou aqui, eu vou cuidar de ti, eu te amo, querida, vou cuidar de ti, Rôdo também, quando voltar, tudo vai dar certo... Patrícia vendo esta cena, caiu num imenso pranto, mais assustada ainda, dando–se conta de que algo muito grave acontecera com a nossa amiga. Eu tinha que amparar estas duas e abracei igualmente minha sobrinha. E disse a ela: —Pati, minha querida, nada temas, eu vou cuidar de todos, eu vou, tu vais ver. Tudo vai dar certo. Aquele seu tio mau irá embora logo, ele só quer dinheiro, e nós vamos dar a ele para ele deixar a gente em paz. Tu vais ver. O dinheiro já está vindo. Logo estaremos livres e vamos ser felizes novamente, só nós, para sempre, está bem? Neste momento, Laís deu um gemido e explodiu em lágrimas, apertando-me contra si, soluçando: “Alma, Alma!...” Graças a Deus! Ela estava reagindo, ela chorava, ela se salvaria. Abraçadas, nós três chorávamos, nossas lágrimas se misturando, nossos corpos, nosso calor se misturando, inseparáveis para sempre, eu senti assim... ___________________________________ 

 

 Quando eu tinha dezenove anos, minha mãe acalentou o sonho projetado de um casamento convencional, e de pequeno romantismo, para suas filhas incluindo a mim nessa projeção. Ela nunca percebeu, por exemplo, o quanto seu próprio marido, o Vati, era, ele sim, um representante do verdadeiro romantismo, alemão, com sua literatura e o seu piano maravilhoso. Ela não tinha a capacidade de urdir seu sonho na trama de seu próprio presente privilegiado com o Vati, como ele e eu fizemos desde a minha infância. Quero dizer com isso que sempre acreditei que o sonho deve nos engrandecer sempre, e não nos amesquinhar no presente, como ela o fazia não sendo feliz com meu pai, conosco, que o éramos a despeito dela mesma. A felicidade é a suprema virtude, eu creio, mãe de todas as outras, assim como o orgulho é o pai de todos os defeitos. Pensando assim, eu teria vergonha de ser infeliz, se o fosse. Começaria por desconfiar de mim mesma, de alguma falta de virtude, de alguma postura mesquinha em relação às preciosas dádivas da vida. O artista, eu penso, deve ser o grande sacerdote da vida, o primeiro a louvar e a agradecer, sim, e já o faz exercendo em plenitude o seu dom de criação, reflexo da Divindade. Eu sei, naturalmente, que muitos artistas exercem sua arte com um tom de crueldade, rancor ou desdém, mas sinto que Deus os tolera, para cobrá-los mais tarde, talvez numa próxima encarnação, o preço de sua infelicidade escolhida. Sim, porque a maioria das pessoas é infeliz, pela escolha equivocada de uma postura rebelde, filha do orgulho. Mas não pensem que esses conceitos derivam de algum moralismo recôndito, de minha parte. Estou bem consciente da natureza profunda e trágica do sofrimento humano, que me causa, antes de tudo, compaixão. Mas, diante de um sofredor eu gostaria de poder ensinar a sabedoria de viver, o humor de que falava o grande Hermann Hesse, que produz vidas fecundas. Por outro lado, estou bem consciente de que os trágicos e até mesmo os chamados “malditos” também são fecundos na sua auto-imolação, como que escolhida, e isso me perturba. A natureza misteriosa da tragédia. Na verdade temo a dor (não a morte), a dor, profunda noche escura del’alma, como dizia São João da Cruz. A dor, a dor de existir, não deve ser confundida com a infelicidade mesquinha, dos neuróticos, por exemplo, os que não têm a capacidade de amar, esses sim, os supremos egoístas. Como não perceber a generosidade de Deus? Basta meditar um pouco sobre os fenômenos cósmicos, como o espantoso equilíbrio de uma potência como o sol, em relação à nossa fragilidade. Ou simplesmente ponderar sobre os infinitos milagres, desde um talo de grama ao balé de uma Maya Plissetskaya, ou o violino de Ytsaac Perlmann e Yehud Menuhin. De um verme ou de uma estrela, de um grito de dor, ou de um poema. Sei, no entanto, que essas ponderações emanam da razão, e que a alma mesma, esta... é quase sempre perplexa. _______________________________________

 

 Laís se recuperaria, devagar, mas ficaria profundamente marcada pela tragédia de sua violação. Essa moça que eu pensava livre, como eu, era mais frágil, mais vulnerável do que eu imaginava. Ela despencara de uma postura que eu pensava aventureira e corajosa em relação à vida, como companheira de meu irmão, desabrido e audacioso como uma força da natureza, e revelara a fragilidade de uma menina ingênua que se reservava somente para o seu amor. Por isso eu mais me condoía por ela e quereria protegê-la, coisa que não pude, da maldade do mundo. Agora ela se abraçava a mim, como Patrícia, como as crianças, que precisavam de proteção. Onde elas viam tanta força em mim? Eu não sei, começo a desconfiar de que sou frágil também, embora corajosa. Talvez seja isso: a minha coragem, que as ilude, desprotegidos que estamos todos diante de tanto mal, encarnado em nossa frente nesse homem desesperado, louco pelo dinheiro, alma perdida de um Judas arquetípico. Eu temia também pela minha integridade física, pois esse homem me ameaçara; e o seu desejo ilegítimo, pois malévolo, era visível no seu olhar. Eu temia que ele, já que tirara completamente a sua máscara, me escolhesse como última refém a arrastar na hora da fuga, para depois... Ai! eu precisava me precaver, precisava de um novo plano, para a hora de sua partida. Eu me sentia vulnerável diante daquelas palavras: “A próxima, será a tua vez...” O quê fazer? O que fazer? Por ora eu abraçava e beijava minhas meninas, Laís e Patrícia que se refugiavam em mim. Os gêmeos, pobrezinhos, olhavam para o pai com os olhos um pouco arregalados, sem reconhecerem-no, pois aquele homem mau não correspondia ao pai internalizado deles, é claro. Eis aí o homem da mó ao pescoço e do rio, de que falou Jesus, dos que escandalizam as crianças. Matilde, a fiel servidora, cozinhava normalmente e punha a mesa, enquanto seu irmão permanecia amarrado, e agora preso na nossa adega. Era, naturalmente mais fácil para Geraldo controlar as mulheres e as crianças. Eu passei a temer pela vida de Rôdo, se ele voltasse de repente, de Porto Alegre, pois ele telefonara e Geraldo mandara que eu atendesse, mas disfarçando, de modo que meu irmão não percebesse o que estava se passando. O único sinal de estranheza, na nossa conversa, que passaria despercebido de Geraldo, foi não ter falado da minha saudade, e não ter feito nenhum apelo a que voltasse depressa para os nossos braços, meus e de Laís que não poderia falar com ele, pois “estava no banho”. Rôdo teria notado esses sinais, quase inconscientes de minha parte? Pois eu temia a sua volta, que caísse nas mãos de Geraldo que sempre o detestara. Eu temia pela vida de meu irmão, que Geraldo considerava meu cúmplice na suposta espoliação de sua parte na herança. Eu sabia que Geraldo gostaria de matar-nos, ele, que já assassinara Solange, sua parceira no roubo do espólio dos nossos avós, a safra do “Ara dos Pampas”, o vinho afinal perdido, dissipado. O “sangue da terra” clamava por mais sangue, eu temia. Na cozinha, eu trocava algumas palavras e apreensões com Matilde, que temia pela vida de todos, acreditando que aquele homem era o demônio em pessoa. Matilde nunca confiara em Geraldo, e me lembro do quanto tentou dissuadir Lúcia daquele casamento.Ela dizia, naquele tempo:

 

 —Lúcia, guria, não te cases com esse homem, não confio nele. Não tem um bom olhar. O coração se vê na cara mesmo, nos olhos. Esse homem não é bom, que é tudo o que um marido precisa ser. O que vês nele, minha filha? Somente o seu desejo de ti, teu próprio reflexo nos olhos cobiçosos desse homem. Lúcia não te cases com ele! 

 Agora, estávamos ali, todos nós, nas mãos do intruso, do homem que se insinuara em nossas vidas de maneira tão ilegítima, como Matilde percebera desde o início. Eu era talvez um pouco culpada, por omissão. Eu nunca compreendera aquela suposta neutralidade de Lúcia, aquela sua anódina personalidade, a meu ver. Era, para mim, mais fácil compreender, embora com repulsa, uma Solange do que a mornidão de Lúcia, até o momento em que surpreendentemente me revelou o seu apoio precioso, em relação à Aline, episódio que contei no primeiro volume destas minhas memórias. Agora nesta situação tão difícil, eu me sentia afinal responsável por todos, até por Rôdo. Mas que podia eu fazer, além das providências para uma possível futura captura de Geraldo, e para salvar o dinheiro? O meu plano, como todos os planos, tinha furos, e esse era nada menos que a possibilidade de ser violentada e morta por esse demônio que nos ameaçava. O que ele fizera com Solange e Laís dava a medida do que era capaz, em sua brutalidade. Eu pedi à minha querida ex-babá, feiticeira de ervas competentíssima, que eu sempre admirara:

 

 —Matilde, não podes ministrar uma erva dormideira poderosa a esses homens, nem que todos nós tenhamos que tomar juntos, pois o tabelião chegará hoje ainda com o “comprador” trazendo o dinheiro e então separarão os bons dos maus no nosso sono coletivo? Eles acordariam na prisão e nós nas nossas camas!

 

 —Alma, minha guriazinha,—ela respondeu— eis aí um plano arriscado, digno dessa tua imaginação de poeta. Queres ficar mais vulnerável ainda do que estás? E se alguma coisa der errado e acordares no covil do monstro, sem defesa alguma? Lembra-te do desastre daquela poção do frei na estória que me contaste daquela Julieta, e no que deu. Não jogues com o destino, que sempre é um tanto irônico com aqueles que pensam manipulá-lo. A fuga, minha filha, da realidade, é o que estás pretendendo. Acordar do sono coletivo, de cem anos, sem mais o espinheiro, nos braços de um príncipe, um presente ideal? Fiquei envergonhada com o meu plano fantasioso, infantil, e reconheci mais uma vez o quanto minha querida Matilde era sábia.

 

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 Já descrevi o comportamento de quase todos nós, naqueles momentos críticos. Resta lembrar a atuação de Alícia, que, de tão equilibrada, pode amenizar a tensão para as queridas crianças, esmerando-se nos gestos rotineiros ao cuidar delas, dando a impressão de que nada de anormal se passava na casa. Ao pô-los para dormir depois do banho, eu entrava no quarto delas para contar estórias, em que eu também me esmerava mais que nunca, ao fazê-lo com calma e sem pressa. Depois do beijo na boquinha de cada uma delas, eu me dirigia ao meu quarto para cuidar de Laís, que estava se recuperando, a ponto de voltar a sentir medo, e agarrava-se a mim, querendo proteção. E eu, com o coração apertado, a tratava também como a uma criança. Foram dias difíceis aqueles, e iriam mudar em seguida para pior, mas pelo menos, e felizmente, só para mim... Quando, afinal, chegou o tabelião Donato acompanhado do falso comprador com dinheiro verdadeiro, restabeleceu-se um sorriso sinistro na face de Geraldo e seus três comparsas, o que não chegou a produzir alívio em nenhum de nós, que esperávamos agora o próximo passo do famigerado quarteto. Seus olhos, depois de se deliciarem longa e repetidamente com a visão das abundantes notas, agora se dirigiam principalmente e a mim e à Aline causando-nos calafrios. Então, de repente, o bandido apontou o dedo para mim, dizendo: —Alma, prepara-te, tu virás conosco. Mas não te atrevas a nenhum truque, espertinha, pois estaremos de olho em ti. Vamos, vamos. As crianças e Laís precipitaram-se para mim aos gritos, chorando muito e agarrando-me de tal maneira que Geraldo e os comparsas tiveram que apartar-nos à força, produzindo um momento de grande dramatismo, que me apertou terrivelmente o coração, como se não fôssemos nos rever nunca mais. Eu temia agora pela minha pela minha integridade, e até mesmo pela minha vida, pois não podia deixar de lembrar das palavras ameaçadoras de Geraldo, de que eu seria a próxima. Minha cabeça começou a funcionar a todo o vapor para tentar bolar um plano de fuga durante o trajeto, desconhecido, que faríamos. Como eu esperava, botaram-me no nosso carro (pelo menos isso), sob o olhar apreensivo de tabelião Donato, que balbuciava protestos, e os gritos angustiados de todos os outros. Laís agarrava minhas mãos, até dentro do carro, o que me produziu grande receio de que também a empurrassem para dentro. Felizmente, deram-lhe um tranco que a jogou no chão de cascalho. O carro partiu em rápida aceleração, como se eles esperassem uma imediata perseguição, e a poeira encobriu-me a visão dos vultos queridos que estendiam os braços e gritavam para nós, em desespero. Sentada no banco de trás, entre dois dos capangas com suas armas, eu não poderia sequer atirar-me na estrada, pensamento que me vinha à cabeça, já que não podia confiar na eficácia do rastreamento do carro, ou se o resgate chegaria a tempo, pois os capangas também me mediam dos pés à cabeça, com aparente cobiça. A única providência, instintiva, que me foi possível tomar, foi a escolha da roupa que eu vestia: um jeans reforçado e justo, com um grosso cinto difícil de desafivelar, e uma meia-calça por baixo. Um verdadeiro cinto de castidade, para dificultar, ao máximo, aquilo que eu mais temia... Pegamos a estrada que corta a pradaria, e o motorista começou uma correria sem sentido, pois pensavam que ninguém os perseguiria, já que confiavam que eu não me atrevera a contar para ninguém sobre o seqüestro. Realmente, com o equipamento de rastreamento por satélite, a polícia não precisava seguir o carro de maneira visível, e podia traçar o seu itinerário num mapa eletrônico de um posto em Alegrete, enquanto ia avisando os postos de fronteira. Mas eu estava preocupadíssima com o momento da abordagem, nalguma barreira, pois estava convencida que meu cunhado iria me matar, ao ser detido, para se vingar, já que era procurado por assassinato mesmo, e faria pouca diferença para ele, mais uma morte nas costas. Além disso, ele, com a maleta de dinheiro na mão, e um sorriso sinistro, ao lado do motorista, não parava de olhar para trás com um ar debochado e ameaçador, com o intuito de me atemorizar. _________________________________________ 

 

 Quando criança, eu passava longos períodos de introspecção e devaneio literário, se posso dizer assim, na biblioteca de meu pai. Nessas ocasiões, meu olhar adquiria um tom nostálgico e vago, que assustava minha mãe, que me preferia, naturalmente, mais pueril e inocente, brincando entre as flores do nosso belo jardim. Eu viajava por dentro, por todos os períodos da História, vivendo as aventuras dos meus heróis, de ficção ou reais, históricos (não havia distinção entre eles, para mim, é claro). Ana Morgado, minha pobre, mãe, estranhava esse meu amor por um universo invisível e inacessível a ela, que lhe parecia um tanto escuso, já que não podia vigiar as minhas andanças nesse mundo imenso e intangível. Assim, ela procurava interromper as minhas leituras, e empurrar-me para fora, para o jardim, ou até mesmo para o pomar, que ela temia um pouco, pois ficava um tanto fora de suas vistas. Na verdade, ela nunca pode me seguir ou vigiar, como ela queria, pelo vasto labirinto de sendas do casarão e da estância, que era muito mais o meu território do que dela, ou de qualquer um, à exceção de Rôdo, meu pequeno comparsa aventureiro como eu, que o transformei em parceiro das minhas fantasias amorosas de pequena sonhadora. Um pequeno cavaleiro, um príncipe, para mim era fácil transfigurá-lo nesses arquétipos pueris, pois meu irmãozinho tinha qualidades reais para isso. Rôdo sempre foi extraordinariamente belo, viril e corajoso, desde pequeno. Além disso, ainda mais aventureiro do que eu, no sentido real, menos mental e mais físico. Mas, no terreno da sensualidade, nesse mundo literário de sensações, lembro-me bem do impacto que me causou um livro que descobri na nossa biblioteca, intitulado A Carne, de Júlio Ribeiro, autor brasileiro do século dezenove, seguidor do naturalismo de Émile Zola, e entusiasta do Darwinismo. Ambientado numa fazenda paulista, escravagista, no século passado, sua protagonista era uma bela mulher jovem, chamada Lenita (Helena) que descobre sua sexualidade no espelho da natureza circundante daquela fazenda que a hospedava. Sua sensualidade natural desabrochava de maneira aliciante, erótica, magnífica para o leitor que acompanhava aquele processo que se revelava perigoso e destruidor afinal, mas não de uma maneira moralista, mas muito prática, a meu ver, surpreendentemente. No final, o suicídio do personagem masculino, através do veneno indígena curare, é mórbido, impressionante e insinua a figura de Lilitth, a mulher fatal, sem nominá-la assim, mas de maneira então chocante para mim: “... rameira, prostituta vil!” ele expira murmurando. Lembro-me que me revoltei com as palavras finais do personagem, vítima de sua própria paixão carnal, que não soube naqueles últimos momentos respeitar a imagem daquela que, ele, de um jeito ou de outro, amara, julgando-a preconceituosamente, bem à maneira do machismo vigente naquele século. Entretanto, a personagem Lenita iria ter uma ressonância interna em mim, que descobri, assim também, minha própria sensualidade observando, como ela a cobertura de éguas e vacas, no pasto e no curral, e me identificando eroticamente com elas. Eu, no entanto, não pude deixar de notar a maneira um tanto irresponsável com que a heroína, no livro, se descartou do parceiro que a engravidara, e decidi nunca em minha vida ter esse tipo de atitude tão pragmática e destruidora. As imagens extremamente positivas para mim dos dois homens da casa, o Vati e Rôdo, me fariam para sempre cúmplice dos homens, que eu não veria nunca como adversários, ao longo da vida. Naturalmente, eu sempre soube fazer uma distinção rigorosa do homem vulgar, realmente detestável, do homem verdadeiro, pleno e íntegro, que na verdade eu confundiria sempre, um pouco, com os cavaleiros dos meus devaneios. Em resumo: o “príncipe encantado”. Com isso quero dizer que sempre acreditei muito mais nos termos ideais de tudo, do que na versão espúria do cotidiano das pessoas, miragem distorcida do real. Para mim, o real é a beleza e a poesia, e o resto não passa de degenerescência da visão moderna, ou das pessoas contaminadas por um falso sentido de cotidiano, equivocado. Entretanto, agora, naquele carro em desabalada corrida pelo pampa que me parecia, pela primeira vez, inóspito cenário ameaçador, eu estava nas mãos de homens que eu percebia “vulgares”, por isso extremamente perigosos para mim, capazes de me conspurcar, e ao meu mundo. Meu cunhado me via, a mim, como uma prostituta, ou uma “lésbica maldita’, como ele dizia, o que me doía na alma, como o pior dos insultos à minha pureza, da qual eu me orgulhava, até mesmo com certa ingenuidade. Aquilo, aqueles homens grosseiros, cuja presença, representada há muito tempo por meu cunhado entre nós, doía o tempo todo, como se aprisionada num lodo imundo. Eu temia por isso, uma espécie de martírio, se me permitem falar assim, na perspectiva de morrer nas mãos daqueles homens, ou pior, ser tocada por eles. Eu preferiria o suicídio, nesse caso, e imaginava um jeito de lutar com eles para obrigá-los a atirar em mim. Não podia suportar a idéia de ser penetrada pela carne espúria daqueles monstros da vulgaridade. Meu cunhado, preparando esse martírio, ia, o tempo todo, dirigindo palavras grosseiras e depreciatórias a mim e à minha beleza tão cobiçada por ele. Ameaçava dar-me como sobra aos seus homens depois de “usar-me”, e depois aos cães. Ele queria ver-me apavorada, implorando por minha vida, de joelhos diante dele. Percebendo ser inútil ameaçar-me de morte com os revolveres em minha cabeça, ele agora concentrava-se nas fantasias verbais expressas do que fariam comigo, antes de matar-me. Então, naquela situação, ainda não extrema, pois dentro do carro em desabalada carreira, pude perceber um laivo de hesitação, e constrangimento, se não de piedade, no brutamontes da direita, cuja coxa, colada à minha, ardia num calor absurdo. Instintivamente pus minha mão sobre sua perna, não com sensualidade, mas como um apelo, que lentamente começou a surtir efeito. Esse homem, ainda jovem, de terno e gravata, como um gangster italiano, na verdade com feições germânicas, poderia se tornar meu aliado? Eu tive um pressentimento positivo, pois percebi a sua aversão crescente às palavras e zombarias de Geraldo, não condizentes em nada comigo, e minha aparência que começava talvez a amolecer aquele brutamontes, eu percebia. Eu olhava para os seus olhos, sempre que Geraldo virava-se para a frente, e tentava passar-lhe uma súplica no olhar, verdadeira,em meu desespero. Eu agarrava-me àquela última probabilidade de defesa: um homem menos brutal, que se comovesse comigo, com a minha situação... Retirei do bolso traseiro do jeans, uma folha de papel em branco, dobrada, e puxei uma pequena caneta esferográfica do bolso lateral, disfarçadamente e, olhando para esquerda para vigiar o olhar do capanga da direita que olhava para fora, pela sua janela. E escrevi rapidamente: “Salve-me e eu o recompensarei”. Ele apanhou o papel, lendo-o ali mesmo, na minha coxa e meteu-o lentamente, disfarçadamente, no bolso, sem gestos bruscos. Eu conseguira passar um recado, um apelo, que, eu esperava, frutificaria. Nós nos dirigíamos rapidamente para a fronteira uruguaia. Mas de repente, para terror meu, o motorista deu uma guinada a um sinal de Geraldo ao avistar um atalho à direita, onde havia um bosque. E arremeteu por aquela trilha poeirenta, saindo, portanto, do itinerário previsível, em relação ao ponto da fronteira onde já nos devia esperar uma barreira policial, de viaturas atravessadas na estrada. Eu fiquei mais aterrorizada ainda, pois não contava com isso. Para onde Geraldo estava me levando? Ele então, passados dez minutos de trilha, parou praticamente no meio do bosque. Eu estava perdida! Tinha vontade de gritar. Creio mesmo que comecei a fazê-lo. ____________________________________________

 

Quando o sol se punha aqui no Pampa eu me sentava na varanda e ficava toda uma hora em silêncio a observar os tons que se sucedem com espantosa sutileza para o olho apurado que pretendo desenvolver (se é que isso é possível) para a minha pintura. Digo isso porque a verdade é que minha intimidade maior, desde a infância, é com as letras, isto é, com as palavras e o pensamento poético. E talvez também com a música. Mas um dia fui interrompida pela chegada de um peão desconhecido, homem maduro, de grandes bigodes grisalhos caídos e olhar penetrante. Aproximou-se no seu cavalo a passo, lentamente, e pôs-se bem diante de mim, que não me levantei da cadeira de balanço, e saudou: 

- Buenas! É a dona Alma, pois não? Já ouvi falar da patroa... coisas boas, se me permite. - Buenas- respondi.- Em que posso servir vosmecê? O peão pareceu quase surpreso da minha boa acolhida motivada principalmente pelo seu “coisas boas” que me comprou de saída.. Então apeou com calma, tirou o chapéu e continuou: - Pois bueno, patroa, meu nome é Mateus, preciso de guarida, um pernoite somente, pois amanhã uns pau-mandados me alcançarão se não partir bem cedo. Querem a minha pele, a senhora já viu. Estou na dianteira, mas já semeei uns dois ou três pelo caminho, que me mordiam os tacões. Quero evitar plantar alguns nestes prados pra não “le” dar aborrecimento, que a patroa não merece. Surpresa por minha vez, hesitei um pouco, mas retruquei: - Está bem, Mateus, tua franqueza já ganhou a minha acolhida. Vá procurar o Galdério que ele te mostrará o galpão onde poderás descansar, e te levará a ceia e o chimarrão.

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 Passei parte da noite no salão lendo na mesa de jantar com um candeeiro sobre ela. Mas não consegui me concentrar na leitura. Meu pensamento vagava e ia até o galpão espiar o meu hóspede inesperado. Eu o temia? Quase... Mas ao mesmo tempo estava fascinada e intrigada. Ele não me pareceu perigoso, pois era a própria imagem da força e da segurança. Um homem assim nunca faria mal a uma mulher. Mas os maus que se cuidassem, pois esse homem tinha a marca de um justiceiro, era o que eu intuía. Não pude mais me conter. Eu não poderia ficar encerrada numa noite assim no casarão, na sala, e muito menos em meu quarto, tão íntimo e falsamente protegido. Resolvi ir ao galpão para espionar meu hóspede. Eu tentaria manter-me escondida, eu conhecia de longa data as frestas daquela construção de madeira. Atravessei o jardim sem lume algum, eu não deveria ser avistada de longe. Esgueirei-me no pomar e no trecho de campina. Rodeei a vetusta construção de pinho que apresentava uma luminescência interna: ele devia estar acordado! Aproximei-me pé ante pé da minha fresta predileta de onde podia ver quase todo o interior do galpão e... fiquei estarrecida! Dentro, recostado em sua sela sobre um toco, no chão, diante de seu cavalo cabisbaixo, Mateus chorava. Soluçava o peão com a cabeça baixa entre as enormes mãos. Tinha remorsos ou medo? Jamais saberei. O peão sofria... 

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Lembro-me  que na manhã do enterro de meu pai, após poucas horas de sono, no final de um velório doloroso que parecia não ter fim, eu acordei gritando, e assim fui levada, praticamente carregada ao cemitério, como uma carpideira autêntica, cuja dor fazia uivar. Eu não me comportei como as pessoas da minha origem nórdica, mas possivelmente, o lado português, ou ibérico, carregado de negro, da cor sinistra do luto, da “noche escura del alma”, preponderou na dor indizível daquela perda. Eu pensava não poder sobreviver ao Vati, e o meu universo parecia ter desabado irremediavelmente. Rôdo teve mesmo que dar-me uma pequena bofetada no rosto, em certo momento, logo seguida do mais profundo abraço de minha vida, que, afinal acalmou-me. Não pude portanto observar a dor de mais ninguém, quero dizer, de Rôdo e de minhas duas irmãs. Mas Matilde parecia concentrar uma dor preocupada e pensativa. Ela teria um papel maior dali por diante, responsabilizando-se pela estabilidade mínima, do andamento espiritual e afetivo da estância, já que Solange e Rôdo disputariam a administração financeira, aliás desastrosamente, como se configurou mais tarde. Eu me sentia perdida naqueles dias, com se minha alma não se encaixasse mais no corpo, adequadamente. Eu perdera a presença de espírito. Meu irmão, tentando chamar-me à ordem, chamou-me “um belo farrapo humano”... Agora, em meio ao medo e tensão daquela situação de seqüestro, pelo menos eu me sentia desperta, e procurava uma saída, nem que fosse desesperada, que incluía, infelizmente, a idéia de suicídio. Eu temia ser currada por aqueles quatro homens, perigo real, que se aproximava cada vez mais naquela trilha sinistra perdida no pampa. Pela primeira vez o próprio pampa me pareceu ameaçador, desértico, inóspito. Eu não tinha a quem apelar, a não ser ao próprio capanga que recolhera o meu bilhete sem nenhuma palavra. Eu não sabia se teria ressonância interna, nele, o meu apelo. O carro, como disse, parou no meio do bosque e fui retirada pelos homens e conduzida, numa pequena caminhada até uma clareira onde cheguei quase desfalecida de tanto medo. Cai aos pés de Geraldo e balbuciando implorei que não me fizesse mal, que não me machucasse. Eu lhe prometia tudo, o tesouro que ele não sabia que descobríramos, e que eu lhe revelaria o esconderijo. Eu tentava ganhar tempo. Geraldo, o tempo todo com um sorriso malévolo, de autêntico vilão, fez então o mais surpreendente naquelas circunstâncias: mandou seus homens amarrarem-me a uma árvore, abraçando seu tronco, posição terrível, pois eu não podia vê-los e não sabia o que esperar. Então ele brutalmente rasgou minha blusa deixando meu torso nu. Fez pior: desafivelou-me com violência o cinto, e desabotoando o primeiro botão do jeans e descendo o zíper, baixou-me violentamente a calça, com meia-calça e tudo, até os joelhos expondo-me vergonhosamente, enquanto dava um tapa debochado em minha nádega. Eu me contorcia amarrada ao tronco pelos pulsos, e comecei a gritar por socorro, aos prantos, implorando a piedade daqueles homens brutais. Então surpreendentemente senti a primeira lambada, aguda, zunindo no ar, antes do seu ardor queimar-me as espáduas. Geraldo resolvera me açoitar. Tinha um ramo de arbusto nas mãos, uma espécie de vara de marmelo, como eu já experimentara em minha infância, pelas mãos de minha mãe, como corretivo por alguma travessura. E aquele monstro sádico começou a açoitar-me as costas e as nádegas, fortemente, com grande violência, enquanto eu gritava e tremia, gemendo, sentindo o sangue começar a escorrer pelas minhas costas e pernas. Eu implorava e clamava pelo Vati, por Rôdo e por Matilde, meus únicos defensores na vida, agora tão ausentes, tão distantes. Afinal depois de uma eternidade de dor, tudo se apagou, e desabei, ficando dependurada pelos pulsos, também ensangüentados. Não sei quanto tempo se passou, mas voltei a mim, perplexa, sentindo primeiramente a dor dos pulsos, e ouvindo os rumores do bosque, dos pios dos pássaros no crepúsculo. Eu fora estuprada, além de tudo? Não sabia. Tudo me doía, o corpo todo, e recomecei a gritar e a chorar tentando erguer-me, ainda atada à árvore. Eu estava coberta de sangue. Eu iria morrer naquele bosque devorada pelas formigas, como o “negrinho do pastoreio”? Juro que pensei nele naquele momento, quando vi algumas delas subindo pelas minhas pernas escorridas de sangue e xixi. Ai!, eu urinara, ainda por cima... que vergonha! Eu tentava desesperadamente soltar os pulsos, que mais sangravam. Eu iria morrer ali certamente se a noite caísse, devorada pelas formigas ou pelos animais selvagens. Gritei, e gritei, mas minha voz saía cada vez mais fraca. Então, em meio ao pranto e ao terror, ouvi rumores, estalidos, no bosque como a aproximação de algo. Pensei numa onça, quase desmaiei de terror, mas pude perceber que alguém me desamarrava os pulsos, ao mesmo tempo que me amparava para que não desabasse. Um homem carregava-me no colo, semi- desfalecida, caminhando até um veículo, uma carroça, ou coisa parecida, onde me cobriu com um pala de lã, e partiu, por aquela trilha, enquanto eu adormecia, afinal, entregue à providência, na forma qualquer que ela me tivesse chegado, pois nada mais, de ruim, poderia acontecer, eu senti. E me entreguei a um novo sono profundo. 

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 Acordei num leito agradável, embora rústico, numa de choupana de madeira, tipicamente pampiana, de fronteira. Uma mulher madura, loura, bonita, vestindo longa saia estampada e avental, olhava para mim,com ar condoído, com uma chaleira fumegante na mão. 

 

 —Buenas, moça—ela disse, com a fala cantada. Como estás? Passaste um mau bocado, guria! O homem que te salvou, está aí, na cozinha, sorvendo um amargo, mas não sei se posso confiar nele. Moço de terno e gravata, muito penteado, com uma pasta, e um berro que aparece o volume no seu peito, sob o paletó. Diga logo menina quem são vosmecês? Foi esse homem quem te fez mal, ou foi ele mesmo que te recolheu no bosque, conforme ele diz? Instintivamente, eu disse, com voz fraca:

 

 —Senhora, foi ele quem me salvou, sim, eu acho, pois mal pude vê-lo antes de desmaiar. Mas... estou limpa, banhada... a senhora cuidou de mim? –Ah! guria, em que estado chegaste! Sim, banhei-te, estavas nua e coberta de sangue e ferroadas de formigas, algumas ainda grudadas em ti. Temi também que tivesses sido estuprada, mas dei-me o direito de examinar tuas partes, e não me pareceram invadidas, embora estivessem muito molhadas, o que achei estranho, como se a guria no fundo, bem no fundo mesmo, tivesse gostado de apanhar. Bem, isso tudo são mistérios de mulher, não é mesmo? Tuas costas e nádegas estavam em terrível estado, com vergões e arranhões, pois vê-se que fostes açoitada, pobrezinha. Recobri-as de um ungüento cicatrizante, e que alivia a dor. O que fizeste para merecer isso? Traíste teu homem? Mas, como uma guria tão bela como tu, e com esse porte de princesa pode chegar aqui nesse estado, neste fim de mundo, nos braços de um moço tão esquisito como aquele? Parece um bandido de cidade grande, isso é o que ele parece. Eu ia responder, mas dei um soluço e recomecei a chorar. Mas, apesar do pranto, consegui dizer:

 

 —Senhora, proteja-me, eu a recompensarei, esse homem... não sei se posso confiar nele. Ele tem uma maleta, a senhora disse? Olha, ele está armado, senti no seu peito quando me carregou. Descubra o que ele quer, se vai logo embora. Por quê, afinal, ainda está aqui, se já me entregou à senhora? Por favor, descubra, tenho medo!

 

A mulher tocou-me a mão, carinhosamente e abanou a cabeça. Fez um gesto de silencio, com um ligeiro chiado entre dentes, retirando-se, como para conferir algo com o homem, instalado em sua cozinha. Eu mal podia mexer-me, de tantas dores nas costas e nas nádegas. Eu estava enfaixada, e untada, eu senti. Somente a região pubiana estava descoberta, Meus pulsos também estavam enfaixados, e eu previa que uma longa convalescença me reteria ali, naquela cabana, com aquela boa mulher, se aquele bandido me deixasse livre e não me carregasse consigo em sua fuga, que era o que eu temia. Ele estava com o dinheiro? O que acontecera com Geraldo e os outros dois? Afinal, a porta se abriu, e o jovem bandido, alto e imponente, muito forte, com seu terno e gravata, e o volume da arma numa cartucheira suspensa em seu peito, sem desgrudar-se daquela maleta de dinheiro, que reconheci, entrou no quarto acompanhando minha hospedeira, que ele logo pediu que se retirasse. Aproximou-se da cama, enquanto eu tive que olhar muito para cima: 

—Senhorita Alma, sinto muito o que aconteceu, não pude evitar: o tiroteio mataria a todos nós se tentasse deter o chefe. Os outros tinham uma metralhadora e um rifle. Alguns quilômetros à frente, afinal deu-se o confronto, uma discussão pelo itinerário de fuga e logo pelo dinheiro, precipitou a contenda. Estão todos mortos e apodrecendo a céu aberto, se seus corpos não foram já descobertos. Voltei em cima do rastro a ponto de afugentar as formigas que já atacavam a senhorita. Sinto muito, não pude evitar o açoitamento, que me condoeu muito. Os outros me vigiavam naquele momento, especialmente, conhecendo o meu coração fraco com as mulheres.

 

 Diante daquelas palavras estendi-lhe a mão e toquei a sua, enorme, capaz de matar uma pessoa com um único soco. Ele ficou muito mais sério ainda e retirou a mão. Eu disse:

 

 —Não sei o teu nome, guri, mas sou-lhe eternamente grata. Eu deporei a teu favor perante a polícia, e no processo. Pressinto que esta casa será logo cercada, tu deves livrar-te da tua arma ou correrás o risco de ser morto, conheço a polícia daqui. Ao menor pretexto, atiram, e não vais mais me reter como refém, pois deves-me a minha libertação completa, agora que me salvaste, não é verdade? 

 

 O jovem, solene e um pouco rudimentar, como um guerreiro ou um guarda costas mesmo, respondeu com sua voz grave, e sem inflexões:

 

 —Senhorita Alma, vou lhe devolver o dinheiro. Está aqui nesta maleta, que deixo desde já contigo. Não tenho a menor chance de escapar com ele. Sempre soube. Mas, a arma não, não posso entregar-te. É tudo o que sempre tive e a carregarei comigo para sempre. Estará na minha mão no último momento, que sei, não está longe. Quero morrer atirando. Mas nada temas: vou afastar-me já desta casa, para não expor vocês duas ao perigo de um fogo cruzado. Mas para isso preciso deixá-las já, antes que seja tarde. Adeus. 

 

 Aquele homem surpreendente, soldado da fortuna, mais do que criminoso impenitente, eu sentia, afastou-se, com esse gesto nobre, de um cavalheirismo arcaico, que me deixou impressionada e grata, desejando sinceramente que ele escapasse ao cerco, que fugisse e... um dia, muito à frente, me procurasse, para eu recompensá-lo. Aquela noite, acordei sobressaltada, julgando ter ouvido tiros muito ao longe. O guerreiro, meu salvador, de quem eu nunca saberia o nome, tinha sido cercado, tinha tido seu confronto final? Tombara com sua arma na mão como queria, como um guerreiro do Walhalla? _______________________________________ 

 

 Permaneci naquela casa acolhedora por dez dias, já que ali não havia nenhum telefone, o que foi bom para o meu restabelecimento, apesar da preocupação em dar notícias tranqüilizadoras aos meus, que deviam estar em ânsias, sem pistas do meu paradeiro. A boa mulher, dona da casa, chamava-se Júlia, era viúva, com os filhos alistados no exército, e vivia muito bem em sua solidão. Muito maternal, adotou-me naqueles dias, como filha, numa dedicação a toda prova, mas curiosa e intrigada quanto a minha pessoa. Contei-lhe minhas aventuras e desventuras, que ela acompanhava com os olhos espantados, abanando a cabeça. Ela dizia:

 

 — Guria, que vida a tua! Como te metes em encrencas! Mas sabe, isso é destino, e o teu, afinal é belo apesar de tudo. Apesar do preço que pagas pelos teus privilégios. Mas o que mais me impressiona é tua relação com teu finado pai. Esse era um homem que nunca vi! Meu marido, era um bom homem, mas duro e seco, tinha sido militar, e tratava os filhos como recrutas, neste fim de mundo. Afinal deve ter servido para alguma coisa pois foram mesmo recrutados para o serviço militar e não devem estar estranhando. Mas eu sempre quis ter uma filha, que não tive, e a tua presença aqui me traz uma doce sensação, como uma nostalgia. És uma doce guria, apesar das tuas aventuras, e mais me faz ver a imensidão de minha perda, não tendo uma filha mulher. Esta noite sonhei que tinha uma, e eras tu, que tinhas voltado estranhamente do exército, da guerra. Sabe, “A donzela que foi à guerra*”, meu avô recitava esse romance antigo, português, para nós, e agora voltei a lembrar dele. Para mim, voltas ferida da guerra, eu te cuido, e tornarás para outras batalhas. Sinto que sofrerei quando fores embora. Mas, agora, vira-te de bruços que tenho de trocar estes cataplasmas. Tu verás, minha guerreirazinha, que a tua pele fina e branca ficará como antes, com esta receita de minha avó. Teu futuro marido não saberá que fostes à guerra. Poderás dizer que conheceram-te somente pelos teus olhos verdes, “que por outra cousa não”. 

 

 Adorei Júlia conhecer aquele poema medieval, anônimo e tão pouco sabido. Ela me surpreendeu, como, aliás, sempre o faz este meu povo do sul. Eu senti que poderia ser feliz ali com ela, e uma nostalgia de mãe, também me assaltou. Eu percebi que era carente de mãe. Já que a minha, eu é que rejeitara um tanto, pela minha paixão por meu pai. Pobre mamãe! Quanto deve ter sofrido comigo, seus sonhos frustrados em relação a uma filha dócil e acomodada, e que, ao contrário, revelara-se uma poeta doida e delirante, ao seu ver! Solange e Lúcia nunca puderam preencher esta sua expectativa em relação a mim, a filha que fisicamente era o seu modelo, mas que espiritualmente era muito complexa, e não a bonequinha manipulável que ela queria. No entanto, sempre fui doce e meiga apesar de rebelde e aventureira, o que mais a confundia e perturbava. Ela não podia entender essa junção paradoxal de características que ela pensava opostas e inconciliáveis. Justamente aquilo que me faria amada e desejada por tantas pessoas, como agora por esta boa mulher que teria um pedacinho da minha vida e do meu coração. Eu tratava Júlia com tanto carinho e gratidão, que ela se pôs a chorar pelos cantos com a perspectiva de perder-me, eu percebia. Ela me banhava no próprio leito, com uma esponja embebida em água morna, fervida na chaleira em seu forno de lenha, com tal doçura e desvelo, que me comovia, e me apegava a ela. Decidi que viria visitá-la, no futuro, para conhecer os meus irmãos recrutas, e que os teria como uma segunda família, em meu coração. Estou convencida de que nada é acaso em nossas vidas e que encontros como esses são sempre providenciais, e vêm para nos ensinar algo, ou mesmo corrigir o nosso rumo. Afinal saí do leito, e comecei a passear com ela lentamente apoiada em seu braço, pelo seu pomar, em volta da casa, cheio de pereiras e pessegueiros, e ainda algumas macieiras que me fizeram lembrar saudosamente a minha própria, sagrada. Eu cobria aquela mulher de carinho, e falava seu nome como se dissesse a palavra “mamãe”, o que ela captava, deixando-a cada vez mais comovida. Então, no décimo dia, afinal, a polícia chegou, com o Rôdo, Galdério, o tabelião Donato e até o meu advogado o doutor Loredo. Cercaram e assaltaram a casa um tanto intempestivamente como se eu ainda estivesse seqüestrada, e a polícia quase prendeu a querida Júlia, como se fosse cúmplice dos bandidos. Tive de intervir e dar um basta naquela intrusão, explicando tudo e abraçando muito a Júlia, assustada, na frente daquela gente toda. Havia também uma repórter que não parava de tirar fotografias com flash. Os jornais de Alegrete, Livramento, e até de Porto Alegre, noticiaram a minha libertação, contando detalhes fantasiosos e sensacionalistas, inúteis e aquém dos verdadeiros acontecimentos. O fato de eu ter sido chicoteada, produzia sensação no público e funcionou como uma catarse, ao que parece, para tantas mulheres “rebeldes”. Eu era mais uma vez tratada como uma heroína que tinha sido torturada. E tanto a imprensa insistiu que conseguiu fotografar minhas costas ainda com pequenos vestígios das lambadas. Percebi que as fotos foram retocadas digitalmente, nos jornais, para parecerem ainda lanhadas e inflamadas, em carne viva. Eu comecei a me sentir usada, e que o sensacionalismo estava afinal malbaratando tudo, a começar pelo sofrimento real pelo qual eu passara. Resolvi fechar-me em copas e não receber mais nenhum jornalista. Mas no meio daquilo tudo, fiquei sabendo de algo que me estarreceu e que me preocuparia sempre, daí por diante: o corpo de Geraldo não fora encontrado, somente o seu rastro de sangue que se perdeu, num bosque, pois caíra uma chuva de haragano, que apagou as pistas. Eu não teria mais perfeita tranqüilidade, sabendo disso. O dinheiro do resgate foi devolvido ao Banco com um pagamento de juro, imenso, mas numa única parcela. O banco insistia em emprestá-lo a juros extorsivos para nós investirmos na vinha, no aumento da produção e das instalações. Mas eu recusei prudente, ou covardemente. Não sou realmente uma empresária... Também não deixei o Rôdo aceitar a oferta que nos faria reféns novamente, agora dos banqueiros. Agora eu afinal estava entre os meus queridos, e as crianças me cercavam de um carinho emocionante. Laís grudara-se a mim. E Aline que voltara, quando soube das notícias do meu seqüestro, disputava-me com a sua nova rival, com o perigo de uma desavença interna, em nosso lar. Eu as abraçava apertado, igualmente, e pedia à Aline que compreendesse, e que aceitasse o meu carinho por Laís, o meu amor mesmo, que nada roubaria do dela. Mas, reconhecia que isso era difícil. As outras mulheres não são como eu. São muito ciumentas e exclusivistas, e portanto, eu agora estava prestes a me ver no meio de uma guerra entre estas duas queridas gurias. Eu contei à Aline o que acontecera com Laís, o seu estupro, mas omitindo, claro, os acontecimentos preliminares que levaram àquele evento trágico. Mas Aline, disse-me mais ou menos isto: 

 

 —Alma, você anda me traindo, e não é de agora. Você omite fatos importantes, que ocorrem com você, isto não é leal! Eu sei que algo se passou em São Paulo quando você foi ferida, durante a nossa mudança. E eu tenho uma grave suspeita do que realmente aconteceu. Agora é a hora de pôr cartas na mesa. Não ficarei com você se continuar mentindo para mim. Não me sinto bem, é como se você não me amasse mesmo de verdade. Você quer por panos quentes em tudo, como para me poupar de algumas coisas, da feiúra, talvez, em nossa vida. Você como poeta, como artista é uma esteticista, e quer somente a beleza rejeitando tudo o mais, varrendo o sujo e o feio para debaixo do tapete, não é? Não, não, você precisa confiar em mim, ou não haverá verdadeiro companheirismo. Estamos vivendo uma relação de fundo falso, e quando a tampa se abrir vai ser aquela caixa de Pandora que você me contou: cobras e lagartos sairão. Talvez alguns demônios.

 

 Eu fiquei envergonhada. Tive que admitir que Aline tinha razão. No fundo eu era um tanto covarde e não queria perder ninguém. Mas não é assim, afinal, a humanidade inteira? Somos todos carentes. E aquele pistoleiro solitário ou aquela Lillith fatal, não existem verdadeiramente, a não ser como psicopatas predadores e perigosos. Ao pensar nisso, agarrei-me à Aline, abracei-a apertado, com um medo imenso de perdê-la, e respondi:

 

 —Sim, sim, Aline, meu amor, minha querida, contarei tudo, contarei tudo, mas não me deixe, não me deixe nunca ou morrerei. Olha, fecha a porta, vou contar-te tudo, desde aquilo em São Paulo. Mas, olha, não tenho culpa, não sou verdadeiramente culpada. Eu nunca quis fazer o mal, a ninguém! Só quero amar, só quero o amor! Tu me conheces! (Caí num imenso pranto, como uma menina pega em mentiras.) Afinal, entre soluços comecei a contar:

 

 —“Olha Aline, amor da minha vida, a verdade é que fui violentada... estuprada pelo Pedro, naquele dia terrível, no apartamento, no meio dos caixotes... em cima deles, na verdade. Mas,eu juro, não fiz nada para provocá-lo, a não ser ter te tirado dele, ter te roubado a ele, como ele disse. Ele me odeia tanto que quis ferir-me e humilhar-me, além de possivelmente comprometer a nossa relação. Mas seu ódio não era destituído de desejo, como se viu, tu sabes como são os homens, seu machismo... Ele sempre acalentou a fantasia de uma ménage-a-trois, entre nós, tu sempre soubeste disso. Pois, isso, frustrado, gerou a violência que me vitimou. E eu escondi de ti, realmente, pelas razões que enumeraste. Tenho horror ao horror, à feiúra, à vulgaridade, mas sobretudo à dor. Ai, a dor, Aline, não suporto a dor, em mim, na humanidade em geral, e sempre quis viver num sonho, o que na verdade não consigo. Mas sou uma rebelde contra a dor e contra o mal, minha insistência no amor, na liberdade positiva, na pureza e na beleza, nisso consiste a minha rebeldia, o meu heroísmo já apontado por alguns! Eu não me entregarei jamais. A vida é bela! A vida tem que ser bela, e o amor vencerá tudo no final!”

 

 Voltei a soluçar e a chorar copiosamente, sentindo-me patética, e com uma imensa dor, insuspeitada, subindo, subindo do fundo de mim para o meu peito, tomando-me toda, afinal, num pranto dolorido, e... universal, eu senti, enquanto Aline me abraçava, também em lágrimas, acarinhando-me como a uma criança. Eu desabafara, enfim!

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 Fim do Primeiro Capitulo do Romance A Ara dos Pampas

 

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 Alma Welt

A ARA DOS PAMPAS

 Capítulo segundo

 

Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.

Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos (com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.
Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.
Curiosa e fascinada por esse povo do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo (romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.
Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.
Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, entre exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:


–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”


Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.
Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pareceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.
Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.
Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..
Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”


E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”


Dei um grito e desmaiei.


Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:


–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”


Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.
Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:


–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
 

Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.

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 Com meu desabafo com Aline eu tinha passado a limpo a minha vida, e sentia-me aliviada, muito mais leve. Eu podia amar os meus amores como nunca, e unia em meu coração todos eles, todas as criaturas que me cercavam. Mas no terreno amoroso, propriamente erótico, que tanto prezo, eu juntava agora plenamente, sem nenhuma culpa, Aline Laís e Rôdo, que este último era o primeiro, que sempre estivera presente dentro de mim. Eu sonhava juntar a todos ao mesmo tempo em meu leito, e sabia que isso aconteceria um dia, subitamente, eu tinha certeza disso. Laís estava um tanto dividida, agora, entre mim e Rôdo, mas eu tentava ensinar a ela que não precisava ser assim, que nós todos éramos conciliáveis, que inúmeros amores são conciliáveis desde que nos livremos da culpa, dos maldito sentimento de culpa e de pecado que nossos ancestrais atrasados e escravizados, nos legaram. Mas elas, Laís e Aline vendo a nossa liberdade, minha e de Rôdo, nossa abertura para a multiplicidade, foram também se soltando. Nós nos beijávamos e acariciávamos uns na frente dos outros a todo o momento, e isso nos proporcionava enorme prazer. Logo estávamos nos banhando todos juntos, nus, no açude e no ribeirão, em locais reservados, que pensávamos secretos, ou nunca visitados pelos peões, se é que isso ainda existia na nossa estância, como pude perceber durante os depoimentos contra mim no julgamento. Naqueles dias, Aline, observando o meu amor pelas crianças, a afinidade e carinho profundos que davam o tom da nossa relação, começou a ficar com uma espécie de nostalgia de maternidade ainda não desfrutada, se posso dizer assim, mais do que um simples desejo de ser mãe ela mesma. Rapidamente isso foi crescendo dentro dela, e se tornou uma espécie de obsessão, de pensamento único. Ela dizia:

 

 —Alma, quero ser mãe, preciso ser mãe. Estou feliz com você e com todos aqui, as crianças são maravilhosas, mas por isso mesmo me deixam louca para ter um bebezinho que saia de dentro de mim. Ah! Alma, como fazer, preciso de um bebê ou ficarei seca aos poucos. Você tem a sua arte, seus quadros, seus desenhos, seus poemas, seus livros. Eles são seus filhos, saem de dentro de você! Os artistas são assim, suas artes é que são seus verdadeiros filhos. Eu não tenho isso... Ai, Alma queria ter um filho seu, mas, que loucura, você é uma mulher! Ai, Alma, começo a sofrer com isso. Deixe-me ter um filho, com você Alma! 

 

 —Aline—eu respondi—há uma solução. Eu já venho pensando nisso, há algum tempo. Tenho uma bela solução, se topares. Olha, presta atenção e não reajas de imediato. Prometa que pensarás nisso: Rôdo! Ele poderá ser o pai do nosso filho. Se eu pedir a ele, tenho certeza que me atenderá. Tu te deitarás com ele, o que será um imenso prazer para ele, que sei que te deseja, pois que homem não te desejaria, minha linda? Só que vocês têm que me prometer que a criança será minha e tua, ou pelo menos de nós três igualmente. Terá um pai e duas mães, nós o criaremos assim, com muito amor, e será a criança mais privilegiada do mundo. Tu tens que me prometer que não terás ciúmes dessa criança e que a dividirás comigo, além de Rôdo. Em suma, eu te “emprestarei” ao Rôdo, e vocês o conceberão na minha cama, comigo ao lado, acordada ou fingindo dormir, ainda não sei. E eu os estarei abençoando nessa relação. Tu sabes, Rôdo e eu nos sentimos quase como o prolongamento um do outro, não há ciúmes entre nós. Sei que ele topará, se eu lhe pedir. Se tu o fizeres, se fores tu a pedi-lo sozinha, ele pensará que me estás traindo e recusará. Conheço meu irmão. 

 

 Aline ficou um pouco espantada, pensativa. Ela não tinha pensado nisso. Não pudera imaginar que minha cumplicidade com Rôdo chegasse a esse ponto. Chegou a pensar que já tínhamos repartido namoradas antes. Questionou-me, estava perturbada, confusa. Mas, a minha idéia já germinava dentro dela, e foi divertido observar como o seu olhar sobre o Rôdo começou a mudar. Eu a pegava olhando de soslaio para o meu irmão, observando seus movimentos, seu rosto, seus olhos, seu porte, tudo. O mais engraçado foi notar como ela olhava agora com mais atenção, sem perceber, para o pênis do meu irmão, quando tomávamos banho todos juntos e nus, no riacho, no meio do bosque, ou no açude. Também ao chuveiro que passamos a usar coletivamente, claro, como extensão natural dos nossos banhos de rio e de cachoeira. Uma vez ela pegou delicadamente seu pênis com dois dedos, ao chuveiro, abertamente na minha frente e na de Laís, para observá-lo. Sua pureza era tão evidente, e a nossa cumplicidade a quatro já tinha ido tão longe, que Laís não fez caso, e sorriu, por incrível que pareça. Aliás, já estávamos todos prontos para o nosso maravilhoso “ménage-a-quatre”. Entretanto Laís não sabia do nosso plano de um filho, e isso, eu temia compartilhar com ela. __________________________________________ 

 

 Rôdo não fora informado da terrível violência que houvera com sua Laís, e eu tinha um pacto com ela, de nada contar a ele sobre isso. Não era necessário. Ele ficaria furioso e impotente quanto ao fato consumado, e qualquer vingança era impossível, pois a polícia considerava Geraldo morto, embora não tivesse encontrado seu corpo. Como podia ser isso? (eu me perguntava). O delegado dissera que seu corpo, ou melhor, sua ossada, seria encontrada um dia, pois havia um rio ali perto, e ele devia ter caído, gravemente ferido, nas águas, e morrido afogado, sendo seu corpo arrastado para longe dali. Mas como a polícia poderia afirmar isso? Eram tão somente conjeturas, embora o delegado me aconselhasse a esquecer tudo, e não mais me preocupar. A quantidade de sangue no rastro visível, os autorizava a afirmar isso. Passados dois meses do acontecido, tive uma enorme vontade de visitar Júlia, na sua linda choupana. Minha nova mãezinha, que cuidara tão bem de mim, a ponto de minhas costas e nádegas não mais apresentarem qualquer vestígio da flagelação, adoraria conhecer as minhas “amigas”, eu imaginei. Pedi ao Galdério que aprontasse o nosso carro cujos furos de balas já tinham sido maçados e pintados. Galdério, e Rôdo que aceitara meu convite, na manhã da viagem, bem cedinho já estavam a postos. Partimos, animados, com o passeio, as gurias curiosas para conhecer minha salvadora. Quando, após duas horas de viagem na magnífica manhã ensolarada, com minhas gurias encantadas com a paisagem pampiana, afinal chegamos naquela trilha à direita da estrada, meu coração oprimiu-se. Eu não pensara que teria que passar pela mesma trilha cujo bosque tinha sido palco da minha tortura e humilhação. Fiquei muito perturbada ao passar por ali e ainda reconhecer o ponto em que o carro parou e que penetramos entre as árvores, eu arrastada pelo pulso por aquele homem horrível, meu cunhado e carrasco. Lágrimas rolaram dos meus olhos, e fui consolada e acarinhada pelas minhas duas namoradas, que me ladeavam no banco de trás. Rôdo mantinha-se em silêncio, dirigindo o carro, com o Galdério, agora como co-piloto. Afinal, chegamos na cabana de Júlia que não tinha sido informada de nossa vinda, pois não tinha telefone e vivia isolada. A porta estava aberta e ela não estava em casa. Meus quatro acompanhantes sentaram-se nas cadeiras e poltronas sem cerimônia, enquanto eu saía para procurá-la no pomar, em torno. Mas não a encontrei. Voltei e juntei-me aos outros numa espera ligeiramente perturbada e ansiosa. Então, depois de uns quinze minutos, entrou ela com uma braçada de ervas. Minha maravilhosa feiticeira! Abracei-a em lágrimas e ela parecia surpresa e feliz. Apresentei todos a ela, que a cumprimentavam com agradecimentos por mim. Nós iríamos passar um dia maravilhoso e perturbador, pela razão que me apressarei em contar. Não me deterei nos detalhes daquele dia, nas conversas das meninas com Júlia e o que se passou entre elas. Só sei que as duas a consideraram uma espécie de feiticeira benfazeja, e ficaram maravilhadas com suas palavras e receitas de ervas. Mas o que me perturbou foi o seguinte: Júlia me revelou, que Geraldo estivera ali, fora recolhido por ela, caído à porta de sua cabana, baleado, entre a vida e a morte durante uma semana, e que ela o salvara com suas ervas, poções e cataplasmas, surpreendentemente até para ela mesma. Ela não questionara quem era ele, pois não era a primeira vez que cuidara de um homem baleado, ou esfaqueado. Em geral, peões feridos vinham dar à sua porta e eram cuidados por ela, às vezes enterrados no seu pomar, com uma muda de árvore por cima. Na verdade quase todas aquelas árvores de fruta tinham um cadáver por baixo, ela me revelou, causando-me um arrepio. O Pampa estava me revelando, através dela, a sua face sinistra e sangrenta. Mas ela garantia que a maioria dos feridos ela salvara, o que no caso de Geraldo não foi um consolo para mim. Esse homem horrível, mesmo ferido a ameaçara de morte, o que para ela não fez diferença, pois cuidara sempre de bons e maus e conhecia o coração e as fraquezas dos homens. Ela me segurava as mãos carinhosamente, contando coisas terríveis, sempre com a mesma serenidade. Contou-me que Geraldo partiu, ainda não totalmente recuperado, quando um menino, pretinho, da região, que visitava sempre Júlia, e era uma espécie de discípulo dela, chegou com a notícia de batidas na região, num raio de cinco quilômetros, movimentos de procura, da polícia, pelo corpo de um homem que fora baleado há uma semana daquela data. Geraldo ainda tinha sua arma na mão e ameaçara Júlia. Eu tinha deixado aquela casa no dia anterior ao da sua chegada, felizmente, pois ele, talvez, mesmo ferido teria me matado ali, naquela casa abençoada, se me reencontrasse, para evitar o meu testemunho da sua ignomínia. Cai num choro convulsivo, diante daquela revelação, numa súbita crise histérica. Eu não teria mais completa paz com aquele homem, aquela ameaça a mim, solta no mundo. Fui cuidada e acarinhada por Júlia e as gurias, que se desvelaram em me consolar e animar. Mas fiquei sem condições de viajar, de retornar aquela noite para a estância, e pedi, então a Júlia que nos permitisse posar em sua casa. Nós partiríamos de manhã bem cedo, bem repousados. Júlia, que eu percebi, não me negaria quase nada, abraçou-me carinhosamente, dizendo:

 

 – Alma, minha guria, não sabes como tenho prazer em ter-te na minha casa. Eu na verdade te queria junto a mim, para sempre. És a minha guria, minha filha, da qual lambi as feridas. Todos dormirão bem, aqui nesta casa. Tenho um sótão com uma cama e um colchonete, que poremos no chão, Vocês, gurias dormirão se revezando na cama, se não couberem as três no mesmo leito. Rôdo e Galdério dormirão no celeiro, sobre a palha. Venha, vou mostrar-te teu quarto. — Júlia—eu disse — quero pedir-te ainda um imenso favor. Necessito a tua complacência para algo que talvez aches estranho. Preciso ter um filho. Aline necessita ter um filho comigo, ou eu a perderei logo. Tu compreendes. O apelo profundo da maternidade chegou para ela. Eu lhe propus, e ela aceitou ser fecundada por Rôdo, meu irmão querido, que nada me negará, tenho certeza Não tive ainda a oportunidade de falar com ele, pois a idéia é muito recente, mas pretendo fazê-lo hoje à noite, a sós, num passeio em teu pomar. Tenho certeza que ele assentirá. Mostra-me agora, o quarto, querida Júlia, pois, se concordares, terei que calcular a logística. Júlia sorria maravilhada com a idéia, como se já soubesse de tudo. Demos uma gargalhada juntas, como duas alegres alcoviteiras, e de mãos dadas reentramos na choupana. Subimos ao sótão, que me pareceu encantador, acolhedor e aconchegante, com um catre, não muito estreito, em que caberia duas pessoas, tranqüilamente. Ela começou a arrumar o quarto, e a tirar de uma arca enorme, um colchonete e roupa de cama. Arrumamos as camas, deixando tudo pronto. Eu estava somente preocupada com Laís que eu não teria tempo de participar e preparar o espírito. No fundo ela seria a única enganada, naquilo tudo. Mas eu acreditava que poderia prepará-la a posteriori, dada a sua paixão revelada por mim, que ela conseguia muito bem conciliar com a de Rôdo, dentro dela. Maravilhosa guria, revelação em minha vida! Aquela noite, eu chamei Rôdo para um passeio a sós, no pomar, em volta casa, sob um magnífico céu estrelado, de lua nova. Andando pelo pomar, em torno da casa, ouvindo o canto dos sapos e grilos, de mãos dadas com meu irmão, uma imensa calma tomou o meu coração e eu tive a consciência daquele momento mágico, na iminência de um pedido profundo, decisivo em nossas vidas, que poderia até mesmo mudar nossos destinos. Então, parando subitamente e olhando-o nos olhos que brilhavam, refletindo a lua, eu lhe disse:

 

 –Rôdo, meu irmão, quero fazer-te um pedido. Preciso de ti mais que nunca, para solucionares uma questão vital. Preciso ter um filho com Aline (ele abriu a boca, estupefato, mas logo sorriu). Ela está tomada pelo sonho da maternidade. Ela anseia por isso, seu corpo mesmo anseia por isso. É chegado o seu momento, e ela se frustrará, ou me abandonará se eu não puder dar-lhe um filho, que ela espera criarmos juntas. Ora, isso é facilmente contornável, se pudermos contar contigo. Só em ti eu posso confiar, meu irmão. Eis o que te peço: deita-te com Aline, no nosso leito, com a minha benção. Fecunda-a, dá-nos teus dons, tua beleza e teus gens. Não será nenhum sacrifício para ti tal empreitada, não é mesmo? (sorri). Vocês homens estão sempre dispostos quando se trata de uma bela fêmea, em seu leito, não? Rôdo sorriu e seus olhos brilhavam, comovido, beijando as palmas das minhas mãos. E disse: 

 

—Claro, Alma, minha irmã querida. O que eu poderia te negar? Entendi tudo. Mas falta saber qual será o meu papel perante essa criança, depois de nascida. Não sei se estou preparado para ser pai...

 

 —Rôdo, a criança que nascer, terá de ser a mais privilegiada do mundo. Tu me conheces. Não quero ninguém vítima de nada, a começar pela criança, é claro. Ela terá um pai e duas mães, que a compensarão pelas tuas longas ausências, revezando-nos nos cuidados sobre ela. Tu poderás viajar com Laís, e sempre retornarás para ver teu filho, e dar-lhe a referência masculina, de pai, que ele, naturalmente necessitará. Sei que o meu plano pode dar certo. Temos tanto amor para dar, não é, meu irmão? O Vati propiciou isso em nós, com seu imenso carinho e liberalidade. Sei que seremos todos felizes, muito mais ainda com um bebezinho entre nós. O único que me preocupa, é Laís que não terei tempo de preparar, de pedir-te emprestado a ela, como te estou emprestando à Aline. Mas sei que ela também me ama, e será generosa comigo. Não posso naturalmente, deixá-la de fora desse projeto, que é coletivo, por assim dizer. Ele envolve pelo menos cinco pessoas, contando com Matilde que nos ajudará a criar nosso filho, como ajudou a nos criar. E ainda as crianças, que serão como irmãos desse bebezinho. Ai, como tudo isso pode ser belo! Começo a ficar entusiasmada! Então, aceitas, meu irmão?

 

 Rôdo me abraçou dando uma gargalhada alegre, e ficamos muito tempo assim, rindo, divertidos e felizes com a minha idéia e nossa cumplicidade a toda prova. Eu me sentia plena, como se também estivesse grávida. Só faltava preparar o terreno para aquela noite maravilhosa, de fecundo sonho, de semeadura, de plantio. _____________________________________________________________

 

Outrora às vezes me batia aquela angústia, e eu pedia para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E punha minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estava muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabia sempre retornar, e eu soltava a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite. Entretanto, um dia, fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha? Ela me fez sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão. Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo, de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei, sem muitas explicações. A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo, meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo, respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura, tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente adormeci. Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior. Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete, abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui? A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver. Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia, inconformada:

 

 —Que estranho, a casa não está suja como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Como era a pessoa que te acolheu? Eu descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face “rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o sinal da cruz, caiu de joelhos, de mãos postas e começou a tremer. Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo cabresto atrás e tremendo as duas. Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente preferia continuar sorrindo.

 

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 Para que meu plano desse certo, eu precisava, finalmente, do consentimento de Laís. Afinal, era do seu namorado que se tratava, e não simplesmente do meu irmão. Ela teria esse desprendimento? Como se sentiria em relação a uma criança de Rôdo que não viesse do seu ventre? Ela acalentava também um sonho de maternidade? De um filho seu e de Rôdo? Eu percebi que não sabia muita coisa ao seu respeito, além é claro, de que era muito mais doce, frágil, e apaixonada do que eu esperara, no princípio. Ela se mostrara tão amorosa e ardente, comigo, até aquele malfadado incidente do... seu estupro! Ah! como eu odiava aquele Geraldo que viera danificar, sujar, a felicidade comum a todos daquela casa! Eu precisava ter as coisas em pratos limpos. Eu sabia que todos deviam estar bem conscientes do que íamos fazer, pois havia o risco de cobranças e desavenças no futuro, e eu seria a principal responsabilizada. Eu não podia deixar qualquer marca de manipuladora, de influenciadora de pessoas pouco conscientes.Por outro lado, eu estava convencida da pureza do meu propósito, embora no fundo, ele repousasse no medo que eu tinha de perder Aline, simplesmente por não ter um belo pênis reprodutor, meu mesmo. Essa é que era a verdade, eu sabia. Mas, o sonho de uma criança querida, cuidada por todos nós, também era verdadeiro, e me manteve firme no meu propósito. Fui procurar Laís. Encontrei-a colhendo ervas com Júlia, e pedi-lhe para conversar a sós, reparando num olhar e num pequeno gesto afirmativo, cúmplice, de Júlia que se afastou discretamente. Eu lhe disse, abraçando-a e segurando-lhe as mãos:

 —Laís, querida, preciso do teu consentimento. Tu deves emprestar-me o Rôdo, para que ele fecunde Aline, que precisa de um filho meu, ou me abandonará. Provavelmente voltaria para aquele Pedro, seu ex, para ter um filho com ele, o que seria para mim uma tragédia. Tu compreendes? Não há nenhum outro propósito. Preciso do sêmen de um homem bom, puro e forte como só o Rôdo é, e no qual posso confiar. Eu lhe suplico, Laís, empresta-me o Rôdo, para isso, esta noite mesmo. Sinto que tem de ser esta noite, mágica, propiciatória. Olha esta lua, estas estrelas! Laís ficou um instante estupefata, surpresa, mas logo se distendeu, sorriu e levando minha mão aos lábios respondeu:

 

—Alma, meu amor, é isso que me pedes? Eu faria muito mais por ti. Rôdo sabe? E Aline? Já aceitaram teu plano doido? Olha, que é bem original, mas é lindo, e... excitante! Sim, sim, percebo o alcance disso. Oh! querida, como és inteligente! Sim, sim, esta noite! Mas quero ver, quero estar presente, devemos estar todos juntos, será uma celebração do nosso amor. De nós quatro! Eu quis morrer de felicidade com a reação positiva de Laís. Agarrei-a e cobri-a de beijos, às gargalhadas e gritinhos, rodopiando como duas gurias travessas. Eu estava plena, transbordante de amor. Minha alegria e meu amor se uniriam ao sêmen de meu irmão fecundando a minha Aline, que teria um bebê que seria legitimamente de nós quatro, que o planejáramos com tanto amor e desprendimento. O mais legítimo dos filhos! Beijei mais vezes minha Laís, e corri então para o planejamento final, da cerimônia preparatória da fecundação, que seria presidida por Júlia, que já recolhia as ervas para isso mesmo. Subimos as três ao sótão, e Júlia começou a queimar ervas num recipiente de metal. Fumigou o sótão, e desceu a escadinha de costas para defumar a cabana toda. Depois, subiu novamente e começou a colocar pequenos maços de ervas estrategicamente nos quatro pontos cardeais do quarto. Enquanto o fazia, recitava versos numa língua desconhecida, que me pareceu uma espécie de dialeto do alemão, arcaico. Eu estava impressionada e comovida, queria apreender aquilo tudo e planejei um futuro estágio com essa mestra da feitiçaria branca, benfazeja. Eu estava numa estranha euforia, que duraria aquela noite toda. Júlia terminou a cerimônia propiciatória, colocando flores no quarto, não como enfeite, eu senti, mas como algo mais profundo e também em pontos determinados, e finalmente em cima da cama, esparzidas. O quarto todo respirava a fragrâncias de ervas e flores, mas de maneira suave, agradável, nada carregada. Então Júlia saiu, e voltou trazendo dobrada, uma camisola branca, leve, parecida com uma túnica, e despimos Aline, que nua, tremia de emoção, não de frio, naquela noite quente, agradável. Vestimos, pela cabeça, aquela túnica em Aline que ficou linda, como uma donzela na sua noite de núpcias. Ligeiramente transparente, aquela veste insinuava o púbis delicado de Aline, com sua penugem negra, de uma forma irresistível, convidativa. Senti que o Rôdo ficaria louco de desejo por ela. Aliás eu já percebera seu desejo, discreto, em relação à Aline, há muito tempo. E naquela mesma noite, quando lhe fiz o pedido, ao abraçar-me, eu já percebera entre minhas coxas, sobre o vestido, o volume avantajado do seu pênis, que ficara imediatamente túrgido, com a perspectiva de tanto prazer para aquela noite. Os homens são assim... Afinal, reunimo-nos todos, menos Júlia, que se retirara para levar, até o celeiro, uma manta para o Galdério, que dormiria ali sozinho, o pobre. Em seguida ela se recolheria ao seu leito. Quase cerimoniosos, olhávamos uns para os outros. E então Laís deitou-se no colchonete estreito e eu deitei-me junto com ela abraçando-a por trás, mas olhando para o leito de Aline e Rôdo. Eu queria ver tudo, não conseguiria pregar os olhos, enquanto acariciava a cabeça de Laís, que fechou os olhos, sonolenta. Logo adormeceu, como uma criança aconchegada em meus braços. Aline deitou-se, estava em seu período fértil, tudo tinha sido planejado e retirando a túnica, jazeu estendida, um tanto tensa, abrindo lentamente as pernas, olhando Rôdo nos olhos. Este despiu-se, e admirei mais uma vez, na suave penumbra do quarto, cuja janela aberta deixava entrar o fulgor da lua, as formas viris de meu irmão, seu corpo muito branco, em que só a cabeça e os braços eram bronzeados pelo sol do pampa. Seu membro, que sempre fora avantajado, estava imenso, em riste, como uma lança, um pouco ameaçador, eu achei, enquanto Aline o olhava fascinada, mas com um pouco de medo, eu percebi, dado o tamanho descomunal daquele instrumento. Rôdo foi descendo sobre ela, mas como homem experiente que era, deslizou suavemente por aquele lindo corpo, suas grandes mãos agarrando os seios de Aline, recobrindo-os inteiramente, enquanto mergulhava sua cabeça entre as pernas da minha amiga, que começou a suspirar alto, despertando Laís, que olhou fascinada Nós duas nos sentamos, então, como espectadoras, e ficamos assistindo, atentas a todos os lances. Meu irmão tinha um profundo conhecimento da anatomia, das necessidades e preferências eróticas da maioria das mulheres. Ele titilava com a língua, hábil e incansavelmente o clitóris de Aline, cujo sumo abundante, já escorria de sua linda vagina rosada, sobre o lençol. Eu me erguera e acendera a luz para perceber tudo isso. Não poderia deixar escapar nada, nenhum lance. Percebi que Laís também queria assim, todos queriam assim, na verdade, às claras, como um sexo coletivo, como a celebração do amor e da fecundação que era de todos nós. Sentindo isso, Rôdo continuou, introduzindo sua língua nos dois orifícios rosados de Aline, que gemia cada vez mais alto, em múltiplos orgasmos, enquanto os sapos e grilos, lá fora, pareciam também aumentar seu alarido, os cães a uivar e a latir ao longe. Uma sinfonia tomava todo o ar, eu senti, e então, num mesmo impulso com Laís, nos precipitamos e agarramos o imenso falo de meu irmão e o conduzimos, com as mãos, diligentemente, insolitamente, para a fenda rósea de Aline que deu um grito de surpresa, de alegria e prazer, enquanto o macho glorioso, como um touro reprodutor da nossa estância, explodia seu sêmen viscoso, branco e abundante, na vagina da fêmea receptiva e também gloriosa. Então, caiu em seu peito extenuado enquanto eu e Laís, nos largamos, e embolamos sobre eles, naquele catre um tanto estreito, para adormecermos todos juntos e nus, enroscados, numa comunhão única, que talvez nunca mais se repetisse. ___________________________________________ 

 

 Ao amanhecer, acordei novamente no chão, sobre o colchonete, enroscada em Laís, com minha coxa entre as dela, molhada de suor e de seus perfumados sumos. Creio que a possuíra durante uma parte da noite, durante muito tempo, mas não me lembrava bem, estando meio confusa. Olhei para o leito de Aline, e encontrei-a só, adormecida. Então subi no catre, sem despertá-la, e ajoelhada ergui seus quadris, colocando seus tornozelos nos meus ombros, e levantando-a mais e mais, fiquei com sua vagina próxima do meu rosto, ela praticamente de cabeça para baixo, a bacia bem erguida. E assim fiquei durante uma hora inteira, ela adormecida naquela posição, enquanto, eu, distraída, cantarolando uma antiga canção de ninar, auria o perfume híbrido de sua vagina repleta do sumo fecundante do meu irmão. Eu estava louca? Não! Meu poderoso instinto me dizia que era preciso fazer aquilo. O sumo branco de Rôdo tinha que ser ajudado a descer, até a abertura do útero da minha amada. Eu sentia que devia fazer isso, ajudar... não sei por quê. Puro instinto, ou desejo de controle, total, de tudo? Jamais saberei. Obscuros são os desígnios do nosso inconsciente profundo, do leito insondável daquele rio subterrâneo da alma que nos conduz a nós mesmos, às nossas raízes mais profundas, ancestrais. Eu sentia que já tinha feito tudo aquilo em uma época remota, como escrava de uma rainha talvez pouco fértil; uma memória vaga daquilo me assomava a consciência, como o último sonho do despertar da manhã. ____________________________________________ 

 

 Ao descermos, Aline, Laís e eu, com as roupas de cama, sujas, nas mãos, com o intuito de lavá-las no ribeirão, e enfim, para o café da manhã e para o banho de despedida, encontrei Rôdo e Galdério, no jardim, lidando com o carro, preparando-o para a viagem, enquanto sorviam um chimarrão cada um. Júlia saudou-nos carinhosamente abraçando-nos demoradamente e sussurrando coisas nos nossos ouvidos. Essa mulher maravilhosa disse a coisa certa a cada uma, que sentíamos que devíamos manter em segredo. A que me coube, só revelarei no final desta narrativa. Depois conduziu-nos ao ribeirão onde nos desnudamos, lavamos as roupas de cama, que ostentavam lindas e cheirosas nódoas (que aspirei longamente, antes de mergulhá-las no rio), banhamo-nos em águas um tanto frias, austrais. Isso nos deixou despertas e animadas, brincando de jogar água umas nas outras, aos gritinhos como crianças, logo correndo, peladas pelas margens, fugindo umas das outras, até que Júlia chegou com toalhas e nos envolveu e esfregou, aquecendo-nos. Jamais esquecerei a beleza e a delícia desses momentos. Serviu-nos, então, para nos aquecer, um maravilhoso vinho que não soubemos de onde veio, e sobre o qual ela fez segredo. Senti que era um brinde que ela nos fazia pela nossa maravilhosa e estranha noite. Ela disse, com surprendente humor, e erguendo sua taça:

 

 —A vosmecês, gurias! Meu marido francês dizia: “ La vie est belle, les femmes sont chères, et les enfants... faciles a faire!” Caímos numa imensa gargalhada Após o delicioso café da manhã, com tortas, bolos e geléias caseiras feitas por Júlia, chegou a hora da despedida. Júlia mais uma vez abraçou a cada um, menos Galdério, talvez por hierarquia, mas ao qual presenteou com uma faca gaúcha de churrasquear, que fora de seu marido, coisa que muito o honrou. Galdério a colocou na cintura e disse-lhe: “Buenas, senhora, pode contar com este peão, para o que der e vier”. Afinal partimos, já com saudade daquela choupana deliciosa, para onde eu sentia que poderia voltar, que seria feliz e acolhida ao seio por uma mulher de imensa maternalidade, integral, telúrica, antiga como este pampa, cujo sangue da terra lhe corria nas veias, embora fosse germânica, francesa alsaciana, celta e... druidisa. _____________________________________________ 

 

 Estamos, já há uma semana, em casa. E a vida parece ter retomado seu fluxo normal, com o nosso cotidiano de pequenas alegrias e prazeres, mas também de discreta expectativa, subjacente em todos nós, sobre a gravidez de Aline. Ainda não temos a confirmação, talvez seja um tanto cedo. Precisamos esperar para ver se a sua próxima menstruação não vem. Mas eu acaricio a sua barriga, tanto quanto ela mesma, que já ostenta um olhar terno e sonhador, lindo de se ver. Percebo também que ela olha de soslaio, embora distraidamente, para Rôdo. Ela deve ter gostado muito de ser possuída por ele, mesmo daquela maneira, coletiva, sem intimidade, por assim dizer. Quanto a Rôdo, a mesma coisa: ele a olha disfarçadamente, quando Laís está por perto ou junto dele. Queria que não precisasse ser assim, e que nos considerássemos todos uns dos outros, para sempre, e que aquela nossa experiência não fosse alguma coisa isolada, de exceção. Confesso que ter visto, assistido e até participado da fecundação de Aline, foi para mim algo imenso, ousado e excitante. Eu amei aquilo, e não quero jamais me arrepender... quero dizer, não suportaria perder de alguma forma Aline por causa daquilo. Aline se apaixonar por Rôdo, de uma maneira mais forte, mais profunda, do que está apaixonada por mim? Não, não posso pensar nisso. Não posso pensar na idéia de ela deixar de me amar, ou de estar apaixonada por mim, como eu por ela. Meu plano tem que dar certo. Tem que dar certo. Às vezes, temo que eu tenha sido manipuladora, e que o Destino, ou Deus, me puna por isso, embora eu não veja pecado, crime ou culpa em meu plano. Uma inseminação artificial seria uma coisa hipócrita, em relação a uma pessoa como eu, e com uma relação como a minha com meu Rôdo e minha Aline. Então porquê penso isso? Creio que a minha imaginação literária, de poeta, se antecipe sempre aos fatos e relacione tudo com tudo. Tavez minha crença em destino, contribua para isso, embora eu tenha muito medo de perder a minha felicidade, e de uma verdadeira tragédia acontecer em minha vida. Vocês, leitores, já repararam que nem o estupro, a prisão, a humilhação sexual, e a flagelação frente a testemunhas, representaram uma verdadeira tragédia para mim, embora tenham me feito sofrer muito e derramar muitas lágrimas. Mas creio que nada disso atingiu o cerne da minha integridade, nada disso foi capaz de diminuir meu imenso amor próprio, ou, até mesmo, o meu orgulho. Pode até parecer “machismo” o que vou dizer, mas parece que o fato de ser mulher me tenha feito absorver ou tolerar tais humilhações, que se fosse homem, me teriam destruído. Talvez séculos de violências e invasões tenham nos tornado, a nós mulheres, paradoxalmente, mais íntegras e menos destrutíveis pela violação, freqüentemente cotidiana, imposta a nós pelos homens. Mas, também pode ser que isso se deva a minha natureza de poeta, de artista, que me faz ser tão auto- condescendente com tudo que não atinja o cerne de minha arte, que na verdade me parece mesmo indestrutível, por ser a própria alma. ______________________________________________ 

 

 Minha avó alemã tinha muito de feiticeira, coisa comum entre as camponesas de sua região natal. Lembro-me de que sua figura me impressionava, e nem sempre positivamente. Meu pai, naqueles dias de recém chegada de Novo Hamburgo, para morar definitivamente na estância de meus avós, mostrou-me, creio que não por acaso, uma reprodução num de seus livros de arte, de um desenho de Hans Baldung Grien (1480-1545), pintor renascentista alemão, que representava magnificamente, de maneira muito viva e dinâmica, três bruxas nuas, sendo duas jovens e uma velha, todas de longos cabelos, uma delas de pé, frontal, com um penico fumegante ou mesmo em chamas, erguido na mão, bem alto e com um pé nas costas da outra, também jovem, esta apoiada num só joelho, e contorcida, no chão. Pois bem, a velha bruxa, cujo sexo, flácido, era mal disfarçado pela posição da perna da jovem, era o retrato fiel de minha avó camponesa, e fiquei ainda com mais medo dela depois de ter visto esse desenho. Mas o que estariam fazendo as três bruxas nuas, naquelas atitudes, de dança macabra ou ritual lúbrico, captado pelo olhar onipresente do artista? Sim, porque a conotação sexual, erótica, era evidente no desenho, na nudez daquelas mulheres, captadas com realismo e em movimento frenético. Obras como essa me deram, muito cedo, uma consciência precoce da profunda natureza erótica e animal das mulheres, feitas para o sexo, e para reprodução, e que tanto mais belas quanto mais conscientes disso, ou assumidas, se tornam. Por isso mesmo, eu me fascinei muito cedo pelas mulheres livres, pelas cortesãs e prostitutas míticas da história, procurando seus mitos e biografias na biblioteca de meu pai: Lilith, Frinéia, Safo de Lesbos, Cleópatra, Messalina, Taís, Bianca Capello, Lucrécia Bórgia, Artemísia Gentileschi, Lola Montez, Gaspara Estampa, Adèle D’Affry (a duquesa Castiglione-Colonna), Florbela Espanca, e tantas outras. Muitos anos mais tarde, recentemente, meu descobridor e prefaciador paulista, o poeta, pintor e desenhista Guilherme de Faria, mostrou-me um desenho de sua autoria, feito quando era muito jovem, a bico de pena, que também representava de maneira magnífica e igualmente dinâmica uma cena similar, de dança lúbrica de feiticeiras, que faço questão de reproduzir aqui, embora seja tenebroso. Mas, é claro, sempre temi o lado escuro da alma, e procurei me manter distante de toda obscuridade ou malignidade, de uma maneira quase supersticiosa, quero dizer, com receio de que essas coisas pudessem vir até mim, por elas mesmas, atraídas justamente pela minha luz, minha beleza e minha pureza ( me perdoem a imodéstia dessa colocação). Sim, porque naturalmente, na infância, eu amava a Branca de Neve, a Rapunzel e a Cinderella, como a maioria das meninas, mas mais do que isso, eu me identificava com elas, acreditando mesmo, ser a minha história verdadeira, a da minha alma. Minha mãe deixava, ou melhor, fazia questão que eu usasse os meus cabelos louros arruivados, muito compridos, até a cintura, de maneira já demodée, entre as meninas da época, mas que todos achavam lindo. Além disso, havia a tendência de me embonecarem em vestidinhos de princesa, igualmente fora de moda. Não admira eu ter crescido assim, com este ego desmesurado, e um tanto mimada, que não obstante, me conduziu para uma atitude amorosa reverente e apaixonada para com os eleitos do meu coração. Quando amo, torno-me até mesmo subserviente, colocando o objeto amado acima de mim, e não na mesma altura, embora não se possa dizer que eu sofra de baixa auto-estima, ou seja propriamente uma co-dependente, conceito bastante atual, cuja sintomatologia vem sendo bastante estudada nos dias de hoje. O que significa isso? De onde virá essa paixão, cuja nota secreta, masoquista, já me surpreendeu tantas vezes? Não consigo deixar de pensar, por exemplo, nas palavras de Júlia, quando me revelou, en passant, que surpreendeu-se ao examinar, quando cheguei desfalecida em sua casa, “minhas partes”, quer dizer, minha vagina, constatando estar ela inundada de fluido, evidenciando prazer ou preparação para o prazer. Eu acabara de ser açoitada, e a dor e o medo pareciam ter preponderado, mas... terei, então, sentido prazer naquele imenso sofrimento físico de um momento? Tenho medo de mim mesma... No entanto, esse lado obscuro, que sinto em mim, não chega a me envergonhar, o que não deixa de ser surpreendente, embora compreensível, dada a perturbadora escolha da minha alma, no terreno sexual, profundo. Mas, por outro lado, isso não se dará com quase todas as mulheres, de maneira não assumida ou consciente, como, ao contrário, acontece comigo?

Entretanto, tenho saudades da minha inocência...

Quando guria, ainda em Novo Hamburgo, antes de mudarmo-nos definitivamente para a estância, eu, e Rôdo aproveitávamos ao máximo o casarão em que vivíamos, quase sem sair à rua, além do período escolar, graças a um imenso quintal com jardim, horta, pomar, e muitas flores, que chegavam até um imenso muro de pedras que era o limite intransponível, dos nossos “domínios”, como gostávamos de falar, entre nós, pomposamente, quando fantasiávamos de nobres, nas nossas brincadeiras. Eu era, naturalmente, sempre uma princesa, e Rôdo o meu fiel cavaleiro, já que nunca era o irmão somente, mas o amado. Sim, era intransponível o grande muro, pois nos era proibido galgá-lo, transpô-lo, como uma das poucas regras peremptórias do nosso pai. Ou era de nossa mãe, esse mandato? Não sei bem. O fato é que esse muro representava, ou ocultava um mistério, que instigava nossa curiosidade. Do jeito que o Vati nos criava, essa restrição nos parecia instigante, e não demoraríamos a transgredi-la. Uma noite, fui ao quarto de Rôdo, que ficava, por sua escolha, na pequena mansarda do casarão, pois era o único menino, enquanto eu tinha que dividir o quarto com minhas duas irmãs. A Mutti não queria que eu subisse à mansarda em momento nenhum, sendo essa, outra restrição que eu não respeitava. Ela, na certa, temia algo que naturalmente se passava entre nós, a nossa profunda cumplicidade, eu supunha. Ali, naquela noite sentada na cama de meu irmão combinei com ele transpormos o muro, na noite seguinte, quando todos tivessem se recolhido aos seus quartos. Assim combinados, na noite seguinte, eu esperaria Solange e Lúcia adormecerem, e sairia do meu leito, pé-ante-pé, para encontrar-me com ele no fundo do quintal. Ele daria um rápido assovio, cuja modulação combinada era a nossa senha, pois necessitávamos uma certa ritualização para a nossa aventura, que estava, é claro, dentro do contexto de nossas fantasias cavalheirescas. Era uma noite quente, de verão, eu trajava um vestido leve, e meus indefectíveis sapatinhos de verniz, que ficariam esfolados ao escalar o muro. Rôdo fez-me subir nos seus ombros depois de fazer um estribo com as mãos para eu apoiar meus pés. Devo dizer que Rôdo aproveitou para empurrar-me pela bundinha, por baixo da saia, com evidente intenção, que me produziu uma espécie de cócegas, agradável, eu achei. Mas eu estava tomada pela curiosidade e emoção da aventura, pela perspectiva de conhecer o lado obscuro do quintal, da quadra, do mundo... ou simplesmente do vizinho desconhecido. Logo estávamos no quintal de uma casa estranhamente iluminada com luzes vermelhas, um tanto escura, mas que, misteriosamente, não parecia soturna, e sim alegre, pois vindos de dentro ouviam-se risos, gargalhadas e suspiros nada tristes. Eu estava excitada, e meu coração batia acelerado. Dei a mão a Rôdo, e caminhamos em direção à porta dos fundos. Assim que adentramos, ali, numa fascinante cozinha, fomos interceptados por uma moça espantosa, muito pintada, com os seios praticamente de fora, e roupas transparentes, que fumava um cigarro com piteira, coisa que eu jamais vira antes. Com um ligeiro ar de surpresa, a moça abriu um indescritível sorriso manchado e disse:

 

—Ora, ora, o que temos aqui! Dois lindinhos! De onde vocês saíram? Fugiram de casa? Ou vieram buscar seu papai? Entreolhamo-nos, confusos, intimidados, Rôdo e eu, e de mãos dadas batemos em retirada, saímos correndo pelo mesmo percurso, sentindo-nos perseguidos pela gargalhada da moça, uma gargalhada estranha, que anos depois eu iria identificar como “vulgar”, mas que naquele momento me soou assustadora. Galgamos aquele muro de volta, pelo mesmo método, mas com maior rapidez, e atravessamos nosso quintal, para logo estarmos de volta ao quartinho de Rôdo, no sótão, para podermos conferir nossas impressões e emoções. E sussurrando, para não despertarmos ninguém, eu tinha muitas perguntas:

 

 —Rôdo, quem era aquela moça? Como ela conhece o Vati? Porque ela perguntou se viemos buscá-lo? Papai estava lá? Ele não está dormindo no quarto, com a Mutti? Rôdo, olhou-me de maneira enigmática, sem sorrir, e respondeu-me: —Alma, acho que o papai conhece aquela casa, sim. Ele sai, às vezes, de noite. Aquela moça sabia quem somos. Sou capaz de apostar que ele não está em sua cama. Eu pediria para ires verificar, dizendo que tiveste um pesadelo. O Vati te poria na cama com eles, até a Mutti te expulsar, como sempre. Mas não vou faze-lo. Tenho certeza que ele não está lá. E prefiro que fiques comigo, que passes a noite aqui, que durmas junto de mim. Algo me diz que é o que devemos fazer. Vem Alma deita aqui, e vamos dormir abraçados, como os adultos fazem. Aninhei-me nos braços do meu irmãozinho, guri magnífico, que sabia sempre como agir, me parecia. Sabia sempre o que fazer, e quanto a mim... sentia-me segura em seus braços, fizesse ele o que fizesse, eu sabia que meu coração acompanharia suas ações, pela vida afora.

 

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 Laís decidiu ir à Porto Alegre para visitar seus pais. Disse que voltará logo, e, na partida, depois de muitos braços, beijou-me demoradamente na boca, na frente de Rôdo, que apenas sorriu esperando no seu novo carrinho esporte, um Jaguar, para levá-la até à estação de trem. Aline e eu ficamos abraçadas olhando o carro partir, e depois fomos andar no jardim, sob o calor delicioso daquele dia ensolarado, depois de eu colocar meu grande chapéu de abas largas, pois quero manter a minha pele sempre muito branca, sem sardas, coisa que consegui até hoje, surpreendentemente, num lugar tão claro e luminoso como este nosso pampa. No meio das flores, de mãos dadas, Aline virou-se para mim, e com certa brejeirice, exclamou; —Agora você será só minha por uns dias, não é mesmo, Alma? Vamos aproveitar e você vai me contar o que aconteceu, realmente, no seu seqüestro, salvamento, sua relação com a Júlia, e com o bandido que a salvou. Conheço você, Alma. Eles também passaram pelo seu leito? Conte-me tudo, não me esconda nada, sua feiticeirinha! Aquilo me surpreendeu agradavelmente. Eu poderia contar tanta coisa para Aline, e talvez conseguisse conscientizar, ao fazê-lo, certos pontos que eram obscuros para mim mesma. Eu respondi: —Aline, minha linda, esta noite, no quarto, eu te contarei tudo, e tu poderás me julgar, pois só tu sabes fazê-lo com profundidade e sem me ofender. E se quiseres me dar uns tapas no bumbum depois de tudo, eu aceitarei humildemente. Mas lembra-te que, sou mãe do teu filho tanto quanto tu, hem? Por falar nisso, como vai esta barriguinha? Aline agarrou-me ali, no meio das flores e beijou-me nos lábios apaixonadamente, enquanto meu coração transbordava de amor e alegria. Quem poderia nos fazer mal, se tínhamos tal cumplicidade? Mas subitamente, meu coração se nublou por uma fração de segundo, pois a essa pergunta interna, intrometeu-se a imagem detestável de meu cunhado bandido, cujo corpo não foi encontrado, nublando com isso a plenitude da minha felicidade com minhas criaturas queridas. Mas, nesse instante, as crianças, qual alegres abelhinhas, nos rodearam puxando-nos a saia, e Patrícia veio dar-nos as mãos para passearmos juntas entre as flores, distraindo e liberando novamente o meu coração. Começamos todos a colher flores e a tecer rapidamente guirlandas para enfeitar nossos cabelos, entre risos pueris e exclamações enternecidas. A beleza tinha voltado novamente aos nossos dias, e nada poderia despojar-nos dessa nossa inclinação natural, legítima em nós. Éramos criaturas puras, com direito à felicidade, que nada devíamos mais a reencarnações passadas, embora no que me dissesse respeito, eu não pudesse ter absoluta certeza disso, pois tinha sido recentemente fustigada, e parece-me que isso sempre consiste numa punição. Não há injustiça no mundo. Eu disse para Patrícia, num momento:

 —Querida, tu precisas me contar, qualquer hora, como vai o teu namoro. Ele já te beijou? Vais contar-me tudo, e eu te prometo que não te darei conselhos, só ouvirei e aplaudirei, a menos que me peças. Está bem? Patrícia, mais linda do que nunca, ninfeta no esplendor e talvez auge de sua beleza de Psiqué, me enternecia, e até me comovia, lembrando-me de mim mesma naquela idade, embora eu não fosse tão naïve como minha sobrinha, por culpa talvez dos livros, que eu devorava, enquanto minha sobrinha quase nada lia, pois não tivera um Vati como eu. Assim, ficamos naquela suave dança, por uma hora, até Matilde chamar-nos para o almoço. 

 

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 Passadas três semanas, afinal comprovou-se a gravidez de minha amiga, através de um teste de farmácia, e o sucesso foi comemorado por todos nós, com grande alegria e brindes com o nosso melhor vinho. Todos acariciamos a barriguinha de Aline e as crianças fizeram uma pequena fila jocosa, para beijar o seu umbigo, em meio a muitas risadas e exclamações. Os votos das crianças ao seu novo priminho ou priminha, eram deliciosos e comoventes. A felicidade desses momentos atestavam desde já o acerto de minha idéia e decisão. Rôdo olhava Aline com novos olhos, claro, e a colocação de sua bela mão, forte, masculina, sobre o seu ventre a comoveu, deixando-lhe os olhos marejados, coisa que não aconteceu ao meu toque. Confesso que isso me preocupou um pouco. A relação de uma mulher fecundada com o macho fecundante seria mais forte do que a nossa relação de amor e afinidade de mulheres? Comecei a temer que sim. Mas a sorte estava lançada e eu não podia conceber que Aline me tirasse a criança ao nascer, meu direito a ela, para atribuí-lo todo ao pai biológico que era Rôdo. Sim, havia o risco, pois a cabeça podia mudar, com a revolução hormonal que estava acontecendo naquele corpo querido. Entrementes eu tratei de aproveitar aquela espécie de intermezzo em nossas vidas, para pintar e escrever muito. Muitos poemas nasceram naquele intervalo, e eu me sentia criativa e feliz. Mas devo contar um episódio significativo daquele período. Rôdo gostara tanto da sua experiência de transar com Aline que, naturalmente quis repeti-la. O mesmo pode-se dizer em relação à minha amada. Eu dormia com Aline no nosso grande leito, cama de casal maior até que o normal, como gosto, quando uma noite, senti uma presença no escuro dentro do quarto. Por incrível que pareça não me assustei, pois tive imediata certeza de que se tratava de Rôdo. Porque não pensei primeiro numa das crianças com medo ou carência de mãe metendo-se quase sonambúlica em nossa cama, como ocorria às vezes? Não sei, o fato é que na total escuridão do quarto, eu não quis ou não me atrevi a acender a luz e senti a presença de um corpo adulto que descia sobre a minha companheira enquanto eu imóvel, controlava a respiração, para não deixar passar minha emoção e parecer adormecida. Senti o cheiro adorável de meu irmão que penetrava Aline tentando controlar a sua própria respiração, o que nitidamente era difícil diante de seu imenso prazer e emoção que eu sentia ali, do lado, quase encostada neles. A cama começou a balançar e logo estavam os dois gemendo e resfolegando até eu sentir um tremor súbito que denunciou o duplo orgasmo. Triplo, eu deveria dizer, pois logo em seguida eu própria tive o meu, pela tensão erótica daquela situação inusitada e maravilhosa. Passados alguns segundos ouvi um estalido de um beijo rápido nos lábios, e a sombra deslizou e retirou-se do quarto. Então coloquei como sempre fazia, minha mão no sexo de Aline, como um movimento casual, e ela, imóvel, suspendeu a respiração, eu percebi. Sua vagina estava inundada do esperma adicional de meu irmão, como o “reforço” que ele queria deixar, expressão que ele usaria, cinicamente, e que me fez rir muito no dia seguinte. Mas, naquela noite eu dormi abraçada a Aline, degustando em minha mão, o cheiro maravilhoso dos fluidos dos meus queridos, e essas sensações, eu sei, muito pouca gente deve ter fruído neste mundo.

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 No final de novembro as aves migratórias retornavam ao Pampa para acasalar e construir seus ninhos, enquanto os pequenos gaviões e corujas predavam a esmo diante de tanta fartura. Eu observava os movimentos na terra e no ar e uma nostalgia persistia em mim, como nunca. Eu esperava tanto daquela criança prestes a nascer, e mimava a minha Aline, com seu lindo barrigão, que a deixava linda, com movimentos mais suaves e delicados. Ela não andava de pernas abertas como uma “pata choca”, como costumam dizer de algumas mulheres grávidas. Não, Aline, continuava linda e suave, e eu sabia que sua criança, nosso filho, seria tão bela quanto ela e Rôdo, que estava na Europa com Laís e mandava cartões postais engraçados e carinhosos, para mim, Matilde, Aline, as crianças, e até para o seu filho que ele prometia assistir nascer, embora eu duvidasse um pouco disso. Laís o reteria, lá, eu pressentia. Tinha medo de perder seu homem, essa é que era a verdade. Ela conseguira manter segredo sobre a sua violação, com medo de perturbar sua relação com meu irmão. As mulheres são assim, eu que o diga, que demorei tanto a contar à Aline sobre o meu próprio estupro. Afinal chegou o grande dia, e a casa se movimentou, como outrora, no tempo dos meus avós, com as mulheres se azafamando, com água quente, e toalhas limpas, desinfetadas, de um lado para outro da cozinha para o quarto, em meio aos gemidos e gritos de Aline, que talvez por influência minha aceitara ter um parto normal como sempre fora tradição na nossa casa, como, aliás, no pampa em geral: à maneira antiga, orquestrada pela parteira, que era a nossa Matilde, que fizera o parto de Rôdo, há quase trinta anos atrás. Aline gritou e gritou, até todos nós suarmos frio, menos a experiente parteira, é claro. Mas Marco nasceu, com o nome do avô querido de Aline, Marcantonio de Marco, que assim era chamado, embora eu preferisse o nome de Werner, de meu pai. Era um bebezinho adorável e eu o senti meu filho imediatamente, que o recolhi nos braços, diretamente da vagina muito aberta de minha amada, que sangrara a ponto de eu me preocupar. Matilde tomou-me a criança dos braços e foi lavá-la em água morna fervida, numa grande bacia ali e ao lado, enquanto ressoavam todos aqueles oh! pelo quarto, cheio de mulheres. Sim porque fiz questão que minha sobrinha Patrícia assistisse tudo, para se tornar mulher, um pouco mais, e conhecer a bela crueldade da vida e da carne. Ela diria mais tarde que estudaria medicina, o que me surpreendeu. Poucas coisas na vida são mais cruas e impressionantes do que um parto. Talvez somente a dor da morte, e o estupro dos inocentes. Mas a disposição das pessoas é um tanto diferente, e o alívio geral, subseqüente, quando cessam aqueles gritos primais, os mais pungentes da vida, é próximo do orgasmo. Começava então, mais um lindo período em nossa vida, e olhando o rostinho de Marco em meus braços, eu me congratulava comigo mesma por ter tido aquela idéia. Um bebê em nossa casa, depois de tudo, de salvarmos nossa estância, era a verdadeira celebração, e também a renovação de uma família que me parecia um tanto decadente, depois da morte do Vati, e mesmo de Solange. A propósito, eu percebia que, de um jeito ou de outro, coubera a mim, já há algum tempo, a liderança daquela família, dadas as ausências prolongadas de meu irmão. A mim, ironicamente, a artista doida da família, já que Lúcia sempre fora um tanto apagada e neutra, embora um enorme coração, mais prático que o meu. Aline amamentava o nosso bebê ao seio, uma das coisas mais lindas da natureza. E seus seios pequeninos tinham se tornado enormes tetas, abarrotadas de leite como a das mammas italianas. Ela emagreceria novamente um dia? Seu sangue italiano, vêneto, se manifestara naquela exuberância, e eu me admirava daquela transformação, numa nova forma de beleza, percebendo quanto a natureza é sábia e adaptável. Eu experimentava colocar, por experiência e também por volúpia, o bebê com a boquinha em meu seio, pequeno de bico rosado, para vê-lo e senti-lo sugar, mas Aline logo me retirava Marco dos braços, dizendo: “Ah! Vem, filhinho, deixa essa tetinha seca pra lá, e vem mamar de verdade na mamãe”; e eu sentia que ela, consciente ou não, queria me ferir. Comecei então a perceber que eu teria, como um trabalho de Sísifo, de reconquistar Aline, ou conquistar aquela nova mulher, mãe ciumenta, que aparecera, e que estava se distanciando de mim, sutilmente. Isto ficava cada vez mais difícil, e eu temia que Aline começasse a me odiar, por achar, surpreendentemente, que não tinha uma verdadeira família, pois sua mãe não se manifestara, praticamente renegando-a, lá de São Paulo, e Rôdo não aparecera para o parto, o que mais lhe doía. As coisas estavam ficando difíceis. Eu continuava cobrindo todos de ternura e amor, mas sentia a reação cada vez mais irritada de Aline, àquela minha maternalidade difusa. Eu me perguntava, com o coração apertado, se iria perdê-la em breve. Eu precisava que Rôdo viesse urgentemente, e se assumisse como pai, ou iríamos perder Aline e o bebê que partiriam, nos abandonando, eu senti. Afinal, que tinha Aline verdadeiramente com aquele pampa, ela que viera do Brás, e era urbana, até a raiz dos cabelos? Mas diante daquele bebê eu me recusava a reconhecer que tinha cometido um erro. Eu sonhara, muito alto, muito idealisticamente, sem levar em conta as profundas raízes das pessoas, e do instinto fundamental da maternidade, da fêmea nutris e do macho provedor. Eu contrariara a natureza? Comecei a suspeitar que sim. Então, Rôdo voltou, afinal, com grande atraso, acompanhado de Laís. Aline o recebeu com o semblante carregado, com lágrimas nos olhos, atirando-lhe imediatamente uma escova do bebê em sua testa, ferindo-o ligeiramente. Meu irmão sorriu meio sem graça e nada disse. Aquela era uma família que corria o risco de ser classificada como “desfuncional”. Não conseguíamos suprir os profundos anseios de “normalidade”, instintivos também, devo reconhecer, em Aline. É claro que o bebezinho florecia, alheio a tudo aquilo, e quando Aline passeava com ele ao colo, no nosso magnífico jardim, eu me reconciliava com a minha idéia inicial, diante daquela visão de paz e beleza privilegiada, sabendo que no Brás nada daquilo existiria, e que Aline levaria isso em conta, e não nos retiraria a criança roubando-nos o novo sonho. Rôdo, depois dessa recepção, ficou um tanto arredio, pois nunca suportou ser cobrado por nada, em sua vida, prezando demais sua independência. Para ele ficou claro que Aline queria dele uma responsabilidade de pai, uma presença constante, a partir do próprio parto de seu filho, a que ele não comparecera. Chamou-me na biblioteca para desabafar comigo: —Alma, o que está acontecendo com Aline? Está começando a se comportar como uma burguesa cobradora. Lembra-te da Solange? Pois é! Aquilo! Não suporto isso! Nunca prometi nada, a não ser registrar meu filho e aparecer de vez em quando. Vocês mulheres, tão maternais, que criem o bebê, e eu dou uma supervisionada, por cima, para que nada falte! Estamos combinados? Gostava mais dela quando só queria meu esperma! Quase dei uma bofetada em meu irmão. Aquela última frase passara do ponto e soava quase cafajeste, não fora a franqueza absoluta e o cinismo sincero e corajoso que era a marca do meu irmão, que eu costumava apreciar. Mas respondi, pondo panos quentes:

 

 —Rôdo, meu querido, não leve em consideração a atitude atual de Aline. É uma atitude pós-parto, com algum atraso. Ela se magoou por não teres vindo para assistires o nascimento do teu filho. As recém-paridas ficam muito sensíveis e precisam da proteção do macho. Isso é uma exigência de seu inconsciente profundo, de sua ancestralidade. Talvez do tempo das cavernas, quando um grande urso ou um tigre de dentes de sabre poderia entrar pela abertura. Nós mulheres continuamos com dificuldade para manejar o tacape, que nos parece muito pesado. Tu sabes... Rôdo riu e me abraçou, já descontraído: —Alma, Alma, continuas a mesma, sempre com as tuas metáforas, ou com tuas anedotas poéticas. Eu te adoro, sabias? Contigo sim, eu queria ter um filho, desde criança. Mas sei que nasceria um monstrinho, por todas as razões, não é mesmo? Que pena! Dei-lhe um tapinha no rosto e nos abraçamos de novo, ficando muito tempo assim olhando-nos nos olhos e dando beijinhos na boca como dois namorados, até sentir o grande falo de meu irmão erguendo-se lentamente entre minhas coxas, quase arrepanhando-me as saias. Então, a custo, balançando a mão, com um assobio, e dando uma risadinha meio constrangida, bati em retirada. ______________________________________________ 

 

 Aline durante algum tempo chorava por qualquer coisa, estava hipersensível, mas ao mesmo tempo feliz com o nosso bebê. Eu a cobria de carinho, a ela e ao nosso Marco, criança linda e risonha, cujo semblante revelava paz e conforto, de um modo geral, embora tivesse suas pequenas crises eventuais de cólicas pelo leite, ou qualquer outro fator imponderável, que nos deixava a todos atormentados e aflitos, principalmente Aline, como mãe. Mas isso tudo era normal, e a vida na estância transcorria agradável, pois todos nos gostávamos profundamente, e estávamos conscientes disso. Gostar é ótimo quando se ama. É uma palavra que revela afinidade e tolerância. Minha amiga estava realizada, na verdade, com seu bebê, e foi amansando diante da nossa complacência, e aos poucos voltou a ser aquela Aline adorável, de ótimo temperamento, que me conquistara desde o primeiro dia, quando chegou no meu estúdio, contratada por mim, para posar para os meus quadros, na verdade para suprir minha própria carência e solidão dos primeiros tempos no meu auto-exílio paulista, como já contei no livro “Contos da Alma”, no conto que leva o nome dela, e no meu primeiro ciclo de Sonetos. Mas mesmo assim, diante da maternidade poderosa de Aline, eu me afastei um pouco e voltei a ser a artista solitária, fazendo longos passeios sozinha, como se fosse o macho da caverna, com a diferença que trazia dessas excursões, pequenas flores dos prados, ou pedrinhas graciosas, como presentinhos para o Marco. Na verdade eu me sentia supérflua diante do bebê, e mesmo de Aline. Talvez nosso ciclo e minha missão tivessem terminado. Comecei a pensar assim. Rôdo fora novamente viajar, e desta vez, Laís não quisera acompanhá-lo. Ela alegara simplesmente cansaço de tantas viagens. Na verdade Laís se tornara mais frágil e assustada, depois daquela grave ocorrência, que ela continuava ocultando de Rôdo e que, recalcada, minava o seu relacionamento. Percebi também que ela queria ficar comigo, como se apesar de tudo, se sentisse mais protegida ao meu lado. Essa guria me amava, e começou a ficar gradativamente mais presente em meus pensamentos que a própria Aline. Eu também a amava. Com a chegada do verão recomeçamos a tomar banho juntas e a fazer longos passeios. Ela voltou a querer dormir comigo, na minha cama, o que fez uma noite, sem cerimônia, saindo do seu quarto e sorrateiramente metendo-se nua sob meus lençóis como há tempos atrás. Aline não ocupava mais o mesmo quarto que eu, com o berço do bebê, pois acordava de madrugada para dar de mamar. O caminho estava livre para Laís, embora nos primeiros tempos tivéssemos desfrutado de uma gloriosa ménage-a-quatre, que agora não era mais possível. Tudo são ciclos.

 

 FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO DE "A Ara dos Pampas"!

 

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 Alma Welt

 A Ara dos Pampas 

 (Capítulo terceiro) 

 “O Condestável Gottfried” 

 

 O condestável Gottfried suspendeu a caçada, entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez galopou de volta ao castelo. O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada, o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a por fora, à chave. Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque. Minha avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim, de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”, como os criados e camponeses acreditavam. De qualquer maneira, qualquer que tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada. Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro, sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência, não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a toda vida do homem sobre a terra. Entretanto, apesar do caráter picaresco daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro, e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a narrativa: —Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável. Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha, brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, afinal. ___________________________________________ 

 

 Eu me dividia entre os cuidados à Aline e ao bebê, que precisavam de mim, como mãe, e à Laís como nova amante, eis a verdade. Aline via que Laís passara para o meu quarto e para o meu leito, de uma vez, mas conformou-se depois que eu lhe disse: —Aline, querida, não quero ciumeiras e disputas entre nós três. Lembra-te quando eu te dividia com o Pedro? Pois bem, agora tu me divides com Laís. Podemos ser felizes todos nesta casa, se jamais cultivarmos os vícios burgueses de exclusividade e egoísmo. Lembra-te que somos criaturas de exceção! Sou uma artista e não perco tempo e energia com disputas e ciumeiras. Lembra-te, esse é o nosso pacto, desde o início da nossa relação. Minha querida, eu nada te roubarei, do amor que sinto por ti e pelo bebê. Se pudermos voltar a reunir-nos todas no mesmo leito, como naquela noite, que glória será, não é mesmo? Aline, então, abraçou-me e beijou-me apaixonadamente, como há muito não o fazia. Entramos, depois disso, num novo período feliz, quando nossa sensualidade chegou ao auge. Eu tinha as duas, novamente no meu leito e freqüentemente dormíamos, as três, abraçadas na larga cama que instalei no quarto de Aline para vigiarmos o bebê ou acordar quando ele chamasse com seu choro, para as mamadas. Mas confesso que fazíamos isso apenas alguns dias por semana, pois acordar toda a noite com o choro do bebê me deixava exausta. Nesses dias, quando isso acontecia, eu levantava-me antes de Aline, que ficava preguiçosa com minha presença ali, para fazer o bebê calar, pondo-o para sugar o meu seio, que aos poucos começou, talvez por somatização, a secretar uma espécie de colostro, que aliviava o bebê por um minuto, antes dele novamente manifestar sua frustração e fome, mas dando tempo para Aline conseguir erguer-se da cama. Mas isso, desta vez não produziu mais ciúmes em Aline, que ficou, surpreendentemente enternecida. Mas a primeira vez que isso aconteceu, vendo aquele arremedo de leite escorrer dos meus seios, eu fiquei um tanto abalada, pois veio, de repente, à minha mente uma memória profundamente recalcada, que nunca revelei antes nos meus textos, mas que resolvi fazê-lo agora: minha filha perdida, Psiqué, morta com menos de dois meses de nascida, fruto do meu amor por Gino, o violinista, filho do “maestro liutaio” Bertellazzi,, e do qual contei nossa história na novela “Narciso”, da “Trilogia Mítica”, inédita, e que termina com a descrição do meu parto. Nunca quis mais falar disso, que me fez chorar por um ano inteiro antes de procurar, afinal, alguém para amar, para me salvar, e que veio a ser justamente Aline, que escolhi a dedo num cadastro de modelos, por ser mulher, bela e modelo nu de pintores, como narrei nos meus “Sonetos da Alma”, e depois no conto “Aline”, já publicado. Como dizia, meus seios, apesar de pequenos, ficavam doloridos e vazando esse líquido estranho, que não chegava a ser nutriente, para o pobrezinho do Marco. Esse fenômeno, perturbador, no início, e logo enternecedor, não durou muito, naturalmente, mas fez-me novamente desejar, por minha vez, ter o meu próprio bebê. Só que eu não podia confiar em homem nenhum e não podia contar com Rôdo para isso, naturalmente. E eu comecei a devanear, com a idéia de voltar a ser mãe, a gestar, mesmo, dentro da minha própria barriga. Mas muita água teria que correr antes disso ser novamente possível. __________________________________________________ 

 

 A avó Frida continuou a contar, durante um período, a pedido meu, as histórias do Condestável Gottfried e da sua pobre esposa inglesa Lady Margareth, que para o resto de seus dias foi possuída somente pelo fiofó, e a seco. É claro que com o tempo, ela também, somaticamente começou a secretar um fluido lubrificante, por ali, o que amenizou as coisas para a coitada. Minha avó ria tanto quanto eu com aquela estória, que desconfio que ela tinha inventado inteiramente, e começo a suspeitar que foi dela que herdei minha imaginação literária, e meu humor satírico, que não exploro muito, mas já denunciado por alguns. Verdadeiro ou não, não importa, o mais incrível quanto àquela lady, foi ela ter tido muitos filhos, depois daquele primeiro entregue aos camponeses; e pelo fato de que as coisas não se repetem sempre da mesma maneira, a tal teoria do escorrimento de sêmen, não colava mais, o que nos faz deduzir que o responsável por aquelas inseminações continuava sendo o desconhecido amante de Milady, que não parecia nominalmente na estória e cuja identidade permanece um mistério. O fato é que o duque passou a ter uma fama de sodomizador emérito, a quem as mulheres, que tinham dificuldade de conceber, recorriam em peregrinação, vindas de longe, de outros castelos. Na tardou a começar a receber também camponesas, e por isso foi considerado muito caridoso e magnânimo, sendo que essas criaturas mais rudes freqüentemente eram trazidas pelos seus próprios maridos estéreis, e nessas ocasiões eram recebidas no celeiro do duque, sobre a palha, para que o cenário e o leito adequado as ajudasse a conceber. Diante da minha divertida estupefação, afinal, de guria de doze anos, minha avó revelou o segredo daquilo. Tudo não passava de um truque do duque que amava aquela modalidade, a de Sodoma, e fazia parceria com o amante de sua mulher, já que ele mesmo era estéril. Com isso, as mulheres saíam coniventes com o truque, para poderem se vangloriar, depois, da estirpe nobre de seus rebentos, pois o cavaleiro anônimo era de fato plebeu, camponês mesmo, mas bonitão e de impressionante virilidade e fertilidade, possuindo uma ferramenta estupefaciente e abismal. Louvado seja Deus que inspira no homem soluções para todos os problemas! ______________________________________________

 

 Com as crianças nos rodeando, felizes, nós três, Aline Laís e eu, tínhamos a nossa ménage, que não escondíamos delas, confiantes de que a nossa pureza e autenticidade não destoariam, naquele contexto familiar inusitado, mas profundamente saudável, que construíamos instintivamente. Quantas vezes, as crianças invadiam nosso quarto, de manhã bem cedo, subindo na nossa cama, onde estávamos, as três, ainda mal despertas, nuas sob os lençóis! Patrícia, por emulação, querendo se sentir mais próxima e também mais mulher, às vezes entrava debaixo dos lençóis conosco, o que me produzia um ligeiro escrúpulo, que eu tratava de disfarçar. Afinal, nós três, mulheres feitas, éramos amantes mesmo, parceiras sexuais bastante assumidas a essa altura, o quanto é possível sê-lo, no ambiente provinciano de uma estância, no extremo sul desse nosso país preconceituoso. Se Rôdo estivesse aqui, provavelmente estaríamos formando o nosso quatrilho, como há algum tempo atrás. O importante era sentirmo-nos felizes e irmanadas, exercitando a sensualidade pura dos nossos jovens corpos, saudáveis e belos. Nós nos sentíamos como jovens espartanas ou atenienses, e queríamos brincar no nosso jardim florido, totalmente nuas, no meio das crianças, naquele verão maravilhoso. Mas isso, infelizmente não era possível, dada as presenças dos peões, de Galdério e da própria Matilde, que embora percebesse, mantinha-se discreta quanto essa nossa forma de ligação e amizade sem peias. Mas, um dia, ela me disse: —Alma, minha guria, deves tomar cuidado com o que dizem, de ti. Desde o teu julgamento que estás na berlinda, na boca do povo, que te absolveu, é verdade, porque se comoveu contigo. Mas aqui, perante esta peonada, deves tomar mais cuidado do que com o povo urbano. Sabes o que dizem, não sabes? Abanam a cabeça quando te vêm, murmurando: “Que lástima, tão bela... não gosta de homem, que homem a quererá a sério? É mulher para uma só noite”. Vês, Alma, deves tomar cuidado, para não te desrespeitarem. Fiquei furiosa. Quase atirei algo que tinha nas mãos. Gritei, pela primeira vez na vida, com minha querida babá: —Que falem, que falem! Mesquinhos! Nada lhes devo! Não sou para o bico de nenhum deles. Eu amei um artista, um virtuose do violino, um Orfeu, um deus grego! Não deixo por menos! E que homem, senão Rôdo, chega aos pés destas duas mulheres? Ai! Não agüento a vulgaridade! Matilde ficou chocada com a minha reação. Seus olhos se encheram de lágrimas como os meus. Abraçamo-nos, enquanto eu explodia num pranto copioso. Ela me fizera ver a realidade do mundo lá fora, da maldade do mundo que eu tão facilmente esquecia. _______________________________________

 

 Lady Margareth estava já no seu quarto rebento, e continuava andando como pata choca, após os longos períodos de gravidez. O povo dizia que era pela continuada técnica de Sodoma, e que seus filhos todos seguiriam o manual. Mas a verdade é que, talvez por aquela razão, aquele era um ducado feliz, pois tal prática, de um jeito ou de outro aproximava o grão-senhor do seus súditos, embora por trás, coisa que não acontecia em nenhum outro feudo. Então, após longo período de paz, em que a população do feudo cresceu graças ao Grande Sodomita, estourou afinal a guerra necessária, que deveria evitar a fome, com a supressão de expressiva parte da população jovem, e a reacomodação dos mais espertos, senão dos mais aptos. A batalha de Wolfsburg, também chamada a batalha dos lobos, pois esses foram os que mais lucraram, com o campo de vinte mil mortos e feridos, o Sodomizador-mór, como também era chamado, venceu seus inimigos e submeteu-os a todos à especialidade que o consagrara, o que motivou uma revolta para além dos seus domínios, que acabou por derrubá-lo politicamente, já que pelas armas o vencedor era ele. O rei da Prússia exigiu sua demissão como condestável, e que confinasse sua prática a intra-muros do seu castelo. E que fosse mais discreto, desistindo de instituí-la como tradição de seu feudo. O duque e seu ducado iniciavam sua decadência. Gottfried começou a definhar, com o término da Era Feliz, que ele, paradoxalmente, iniciara com a suposta humilhação pública, ou de copa e cozinha, de sua mulher estrangeira, de ruiva cabeleira e penugem. E alvas nádegas. Não sei, realmente, se esse episódio me foi também contado por minha avó Frida, ou se eu o inventei. De qualquer modo, tem tudo para ser verdadeiro. __________________________________________

 

 Patrícia me procurou no pomar, para ter uma conversa sobre algo que a inquieta. Olhei seu lindo rosto, de uma perfeição comovente, com seus doces olhos de gazela, transparentes, cuja expressão guarda aquela pureza infantil, que os seres humanos não deviam perder nunca. Ela disse: 

 

 —Tia Alma, queria lhe fazer uma pergunta. Mas não sei como fazê-la... é sobre ti, Aline e Laís. Foi algo que Pedrinho me disse, que não entendi direito.

 

 —Querida- eu disse- o quê teria o Pedrinho dito, que te perturbou? Foi isso, o que ele disse te perturbou? Conta-me, exatamente, suas palavras, para eu poder te responder.

—Ele disse, tia Alma, que Aline é tua namorada, e que Laís também é. Como pode ser isso, tia Alma? Pedrinho está mentindo, não é? 

—Não, querida, não está. Pedrinho é um amor, nunca mente, tu sabes, e gosta muito de todos nós. Elas são mesmo minhas duas namoradinhas queridas. Não vês como a gente namora? Quando você for moça mesmo, isto é, adulta, você vai ver que há muitas maneiras de namorar e que a gente pode amar muitas pessoas, dos dois sexos. Desde que sejam bonitas, principalmente por dentro. Se não, porquê iríamos namorá-las, não é mesmo? Patrícia sorriu, deu-me um beijo, mas eu senti que a minha resposta não foi totalmente satisfatória. Pedrinho, como típico menino, embora muito puro, teve ter feito no mínimo um ar de mistério, ou de descoberta de um segredo, ao dizer aquilo à sua irmã. E portanto, ficara, no ar, um tom de coisa proibida, que minha resposta não podia levar em conta, para não levantar a lebre. Patrícia não estava pronta para saber que sua tia perpetrava algo, que grande parte do mundo condenava, às vezes mesmo, como abominação. Como levantar questões tão complexas, diante de um bichinho tão ingênuo, puro e despreparado como a minha sobrinha? Solange, a tinha preservado do contato com as realidades da vida, por pura dominação, pois não conseguira poupá-la do mais sórdido: sua relação com um homem sem caráter, um criminoso, sem escrúpulo que ela por fraqueza ou ambição pusera dentro de casa, junto a seus filhos, trocando afinal insultos violentos nas horríveis discussões, diante deles, que lhe causaram a morte, chocante, na frente daqueles anjinhos. Mas, a verdade é que, eu percebi naquele momento, que não tinha uma boa resposta para minha sobrinha. Nem tudo na vida tem real explicação. Há um mistério persistente, na vida e... no coração humano.

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 Passamos um verão delicioso, onde reinou a harmonia, entre seres que se amavam, conscientemente, e que sabiam desfrutar as benesses e privilégios do destino. Rôdo telefonava e mandava cartões de diferentes partes do mundo, e logo de regiões mais remotas, se é que se pode hoje dizer isso, da Rússia, do oriente médio e depois do extremo oriente. Eu dormia as minhas noites, feliz, nos braços de minhas duas namoradas, observando também elas se amarem cada vez mais, o que me parecia um milagre alcançado. Mas... havia uma sombra que me incomodava, que se insinuava em meu sono, e que me fazia acordar algumas noites, sobressaltada, com o coração disparado. Pesadelos que se desvaneciam antes de eu poder me lembrar deles, mas que eu sabia a que se referiam. Uma noite senti as chicotadas nas minhas costas e no meu bumbum. O monstro me chicoteara em meu sonho. Outra vez foi pior: dolorosamente estuprada, meu estuprador tinha dupla face, que misteriosamente eu não via, e no entanto reconhecia, a fusão dos rostos de Pedro e Geraldo. Acordei sobressaltada, com o coração acelerado, e colocando instintivamente minha mão sobre meu sexo, verifiquei aterrada, revoltada, que estava molhada, e não era de xixi. Meu corpo me ironizava, minha alma me traía. Como poderia sentir qualquer prazer naquela intrusão, naquela violência, naquela invasão de minha privacidade mais íntima? Eis aí, outra dessas coisas para as quais não tenho explicação. Comecei a ansiar pela volta do meu irmão, pois sempre pensei nele como meu protetor, aliás, não sei bem porquê, já que nunca estava por perto quando fui atacada. Talvez por que Rôdo, no meu inconsciente, funcionou sempre como um arquétipo da masculinidade, já que o meu pai era mais do que isso, era um deus. Aline, que agora sabia do ocorrido com Pedro, me abraçava apertado, nesses momentos, condoída, com o coração apertado, e revoltada com seu ex namorado, dizendo: “aquele monstro,.. ele me paga!”. Laís chorava junto comigo, lembrando-se da sua horrível violação. Como podíamos, na verdade ser completamente felizes, com essas memórias? Mas, a verdade é que esses pesadelos estavam se tornando mais freqüentes por se tratar de uma premonição. Eis porque voltavam agora, num momento que tinha aparentemente tudo para ser feliz. Sim, aconteceu. Geraldo reapareceu finalmente, na estância, como eu temia, pegando-nos, no entanto, mais uma vez desprevenidos. __________________________________________ 

 

 Eu passeava, às vezes, sozinha, pelos arredores do casarão, principalmente quando queria escrever poesia. Procurava o bosque, que me inspirava com seu silêncio sonoro, cheio de agradáveis modulações, de insetos, e dos raios de luz filtrados entre as copas, que faziam ver o ar saturado de pólen, dançando infinitamente, indo e vindo do nada, como a própria alma. Eu lançava novos ciclos dos meus sonetos, num estado de espírito próximo do sublime, somente aquém daquele instante indizível do orgasmo, mas na verdade, diferente, pois extenso, duradouro. Os momentos de Inspiração, em que a alma respira o ar puríssimo do mundo Ideal! Foi num momento assim, tão raro e fecundo, que, no entanto, fui apanhada pelo mal, mais uma vez, desabando num súbito abismo que era interior e exterior ao mesmo tempo. Meu cunhado me surpreendeu mais uma vez, com o revolver na mão, apontando-me, vindo das sombras do seu inferno intruso, de seu reino do mal. Meu coração quase parou. Eu estava horrorizada, aquele homem abominável voltara e me apanhara numa armadilha, afastada de casa, num lugar ermo, distante do casarão. Eu quis correr, mas ele me agarrou pelo braço. E puxou-me para junto de si, dizendo com sua boca detestável muito junto à minha:

 

 —Peguei-te novamente, cunhadinha! Agora não me escapas, vais me pagar definitivamente tudo o que me deves. A começar pelo teu corpo, que tanto me tentou, sempre, como uma maldição! Agora estamos sós, não há ninguém que se interponha, nem sequer com um olhar. Ninguém verá! Ninguém para te socorrer. Vais saber o que é um homem, lésbica safada! Vais aprender a gostar! Eu me senti, mais uma vez perdida e horrorizada, quase desmaiei de medo. Geraldo estava com o cabelo todo branco, envelhecido de rosto, mas com o mesmo ríctus detestável de desprezo, que era a marca de suas feições. E a mesma força física, que me fazia debater-me, impotente. Eu esmurrava seu peito e mesmo sua face, sem resultado, a não ser espicaçá-lo mais. Ele me lançou sobre o solo alcatifado de folhas secas, úmidas e frias. Eu me debatia, empurrava seu peito chorando e gritando, num estado de terror. E... mais uma vez me urinei toda, como uma criança num pesadelo. Eu estava, ainda por cima, sem calcinha debaixo de minha saia leve, indiana, vaporosa, como usava naqueles dias, menstruada, quando me afastava do casarão, para curtir meu sangue escorrendo pelas minhas pernas, com volúpia narcísica, enxugando-me, a espaços, com um grande lenço vermelho, que enrolava na cintura, para disfarçar o sangue, ao meu retorno. Agora isso se voltava mais ainda contra mim. Eu, não sabendo, tentei usar isso em minha defesa. Gritei, balbuciando: 

 

—Geraldo, Geraldo, não! Estou menstruada, vais sujar-te. Fiz xixi, estou imunda! Não vais gostar. Deixa-me! Não! Não! Ai! Aquilo, aquelas palavras só fizeram aumentar o seu desejo, e eu já sentia o seu membro, enorme, suspender-me a saia, enquanto com uma mão ele me segurava pelos cabelos e com a outra, me rasgava a blusa e agarrava o meu seio, com enorme força. Eu gritei de dor, enquanto seu pênis, forçando-me, adentrou minha vagina, infelizmente ensopada de sangue e xixi, o que facilitou sua intrusão. Ele começou a mexer os quadris, vertiginosamente, com grande rapidez, e explodiu seu sêmen espúrio dentro de mim. Eu quis morrer. Dei um soluço. E um longo grito. Agora sim, me sentindo suja, conspurcada, larguei-me, cessando de me debater, enquanto ele ainda se mexia, agora lentamente, para curtir a lambança que se passava ali em baixo. Um estranho silêncio caíra sobre o bosque, eu incrivelmente reparei, naquela situação de derrota e humilhação supremas em que estava. Invadida, suja, usada. Os insetos e passarinhos tinham cessado seus cantos e eu ouvia somente os estalidos melados, obscenos, da minha vagina sendo bombeada, curtida pelo monstro lúbrico. Então ele retirou seu membro de dentro de mim, e mostrou-o, coberto de sangue e esperma, para humilhar-me com aquela visão, e limpou-o em mim, esfregando-o no meu rosto, na minha boca, enquanto gargalhava. Cerrei os olhos como uma criança diante do pesadelo, e ouvi um tiro. Abri os olhos imediatamente e vi o corpo de Geraldo, seu cabelo branco no ar, desabando sobre mim, o choque de seu peso quase esmagando-me. Gritei mais uma vez, empurrando aquele corpo, retirando-me penosamente de debaixo dele, aos gritos, virei-me, de joelhos, e vi o meu salvador, o jovem bandido do seqüestro, da flagelação e da casa de Júlia, aproximando-se com um rifle na mão. Ele matara Geraldo, afinal, o sangue do monstro empapava o meu vestido, confundindo-se com o meu próprio. Eu, imunda e desfigurada, estendia os braços para aquele homem, o cavaleiro do Walhalla, que mais uma vez chegara tarde, e no entanto... me salvando. __________________________________________ 

 

 As estórias do Condestável Gottfried cessaram. Mas elas tinham servido para me aproximar de minha avó, que eu agora não via mais como uma bruxa, mas como uma druidisa ou bardo de saias, que narrava as sagas picarescas do nosso passado germânico e celta, já que havia sangue inglês e irlandês, envolvidos nas nossas origens familiares. Não muito tempo depois disso, eu iria velar seu corpo no salão da estância, toda de preto no caixão, com seu grande nariz adunco, quase encontrando a ponta aguda do seu queixo proeminente, e sua boca sumida, sem lábios, enrugada, que completava o retrato de feiticeira que me impressionava tanto, e que eu, de certa forma, admirava. Seu longo cabelo branco (ela nunca fizera o coque usual das velhinhas), estava esparzido sobre os seus ombros esqueléticos e misturava-se às flores. Eu olhava fascinada, embora não vertesse uma lágrima, pois minha avó não me comovia, estranhamente, pois eu a associava ao sentido humorístico da vida, achando, mesmo, acreditem, que naquele momento, a melhor forma de homenageá-la seria contar uma anedota histórica ou folclórica, coroando o seu fecho com uma grande gargalhada coletiva. Esse pensamento, me fez sorrir ligeiramente, o que foi notado por minha mãe que me deu um ligeiro tapa no rosto. Eu nunca seria compreendida por minha mãe. Como poderia, afinal, eu, a esquisitinha alegre, a extravagante, ao seu ver, uma excêntrica precoce apesar de minha ingenuidade encantadora, deixar de ser incompreendida por aquela criatura convencional que... no entanto, me amava, isso sim, incompreensível? Diante daquele tapa, me comovi finalmente, mas comigo mesma, com minha solidão em relação à minha mãe, da qual arranquei um movimento de cabeça aprovativo às minhas primeiras lágrimas, adequadas, naquele velório da nossa bizarra matriarca, estranha... e querida, afinal. _________________________________________ 

 

 Meu salvador, o jovem bandido, estendeu–me a mão para me erguer, pois estava ajoelhada e atônita. Mas não consegui manter-me de pé e desabei. Ele então, pousou o rifle na relva e ergueu-me como uma pluma em seus braços, e logo pôs-me nas costas dobrada de bruços sobre seu ombro, e apanhando novamente a arma com a mão esquerda, saiu andando comigo, para fora daquele bosque. Ele ia direto para o nosso galpão, para apanhar uma pá, ele dizia, enquanto andava. Pedi para pôr-me no chão, pois estava meio de cabeça para baixo, e sentia-me enjoada. Ele então me fez deslizar de seu ombro e colheu-me nos seus dois braços e continuou a carregar-me assim, digamos, de maneira mais cômoda e... romântica. Exausta, apoiei o rosto no seu largo peito e adormeci, sentindo-me afinal protegida, como uma criança. Dentro do galpão, despertei quando ele pousou-me sobre a palha e pegando uma pá, disse-me: 

 

—Senhorita Alma, fique aqui, logo virei cuidar de ti. Agora vou enterrar o corpo, para que não o encontrem. Caí novamente num sono profundo, de depressão, eu acho. Quando voltei a mim, despertada por um ligeiro sacudir em meu ombro, revi o meu salvador e ainda tonta, ou deprimida, perguntei-lhe o seu nome.

 

 — Meu nome é Günter– ele revelou — e perdoe-me ter chegado tarde. Mas creio que ele iria matá-la, senhorita. Ele mereceu o que lhe coube. Estive no rastro dele durante meses, para terminar o serviço, desde que soube que escapara apenas ferido do primeiro tiroteio. Agora, não precisas mais temê-lo, nunca mais. Acabou. Está debaixo da terra e só eu sei onde.

 

 —Günter,—eu disse—eu preciso vomitar, por favor, erga-me para que me apóie na balaustrada. Ele ajudou-me a vomitar, e eu percebi que o fez com solicitude e quase com ternura. Esse homem era surpreendente, e eu me perguntava apenas porque chegava sempre tarde, e cuidava de mim depois de eu ser vitimada, nunca antes. Era um homem frio, na verdade, um matador, isso é o que ele era! Eu ter sido estuprada era um detalhe; sua meta pessoal, matar Geraldo, provavelmente por razões que eu estava longe de saber, era a sua missão, afinal cumprida. Eu recomecei a chorar, dizendo: 

–Günter, estou machucada, estou muito suja... veja, de sangue, preciso me lavar. Tu poderias me levar até o riacho, para eu banhar-me, pois não posso chegar assim no casarão. Não quero assustá-las, às gurias e às crianças. Preciso chegar o mais composta possível, não posso contar a eles o que aconteceu. Por favor, carregue-me novamente, até o rio. Ai! Vou vomitar novamente. Eu me sentia péssima, mas ele me carregar, novamente, foi um grande reconforto, e aninhei-me em seu peito, enquanto ele caminhava. Aquilo era a única coisa que poderia me fazer bem, agora, entregar-me como uma criança nos braços poderosos de um homem forte, que cuidaria de mim. Confesso que queria que ele me lavasse como um bebê... Eu senti que se ele fizesse isso, eu estaria salva, eu me recuperaria para os homens, para o ser humano.Do contrário, eu correria o risco de encolher, de virar-me para dentro, eu senti assim. Günter carregou-me, ao crepúsculo, e eu me admiro hoje, de ninguém notar as nossas andanças, eu, nos braços de um homem enorme, e mais ainda do que se seguiu, no riacho. Aquele homem notável, despiu-me e entrou no rio comigo, completamente vestido, amparando-me dentro d’água, e lavou-me, sim, lavou-me inteira segurando-me como um bebê numa banheira. E eu me salvei, pois instintivamente me entreguei completamente àquele banho, fazendo inclusive que enxaguasse com as mãos enormes, carinhosas e suaves, minhas partes mais íntimas e doloridas. Só assim me salvei. ___________________________________________ 

 

 Eu voltei ao casarão com o vestido molhado, lavado no ribeirão, mas nos braços do bandido que todos ali já conheciam de vista. Isso assustou-os muito, mas eu pedi que não se alarmassem e não o entregassem. Contei a todos, reunidos na sala, somente parte da história, omitindo naturalmente o estupro que sofrera. Contei que fora salva de ser morta por Geraldo, no momento em que este ia atirar em mim, pelo tiro certeiro e salvador de Günter, que já uma vez me salvara, episódio que eles já conheciam. As crianças acabaram apertando-lhe a mão. Aline permanecia desconfiada. Ela sentia quando eu lhe omitia alguma coisa. Mas nada disse, apenas olhava Günter com frieza. Pedrinho, menino necessitado de herói masculino, já que para ele a heroína era eu, olhava o jovem bandido com admiração. Os gêmeos, ao saberem que o pai fora morto, estavam confusos, sem saber o que sentir, pois aquele sempre fora ausente, ou brutal. Creio que todos estávamos aliviados. Sentíamos que agora não tínhamos mais inimigos. E que a vida poderia correr novamente, sem sobressaltos. Quanto a Laís, olhou-me nos olhos e reconheceu a sombra do estupro. Sim, a sombra do nosso estuprador comum, e soltou um estranho e longo gemido, que ninguém entendeu, exceto talvez Aline. Nós teríamos que ter uma longa conversa, as três, e elas teriam que me perdoar, pela minha dor, pela minha fraqueza, de mulher, que não podia protegê-las, não podia proteger ninguém, éramos todos carentes e frágeis, ai de nós! Por quê Rôdo não voltava?

 

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 Capítulo quarto 

 

Estórias das amadas

 

 Nossa vida entrava na normalidade, e estávamos todos aliviados e felizes, de certo modo. Mas, o que significa isso, na verdade? Ser feliz... Será realmente possível, uma vez que todos carregamos uma “caixa preta”, de sofrimentos passados? Essa caixa pesa, com sua tampa fechada. E se a abrimos, os vapores mefíticos e os miasmas das dores passadas são liberados, mas ameaçam nos sufocar, como às pobres Pandora e Psiqué. No dia seguinte ao do estupro, eu tive a minha conversa com Aline e Laís. Eu ainda estava abalada, e ficaria por muito tempo. Assim, minha confissão, se devo dizer assim, acabou sendo dramática, pois choramos muito, abraçadas no final. Aline estava horrorizada, pois nem sequer sabia do estupro de Laís, e tudo veio à tona naquela hora da verdade. Não poderia mais haver segredos entre nós, eu prometi a uma Aline quase furiosa. Eu lutava interiormente para não deixar-me contaminar pela própria dor da minha experiência, quero dizer, para não assumi-la como trauma, se é que isso é possível num caso de violência extrema, como a que me ocorrera. Eu sentia que a essência, o próprio sentido da minha singularidade, da minha história e personalidade, se fundamentavam na “alegria mais profunda do que a dor” nitzscheana, que era como que um legado espiritual de meu pai. Eu não podia sucumbir, ser enfim derrotada por um ser do mal, como o finado Geraldo. Se eu não recuperasse a minha alegria, minha joye-de-vivre, seria a vitória daquele crápula, e eu, Alma Welt, que sentia um certo sentido de missão na minha felicidade e beleza, pois elas embasavam toda a minha obra de artista, tinha muito ainda o que dizer, transmitir ao mundo. Eu sou assim. Tenho consciência dos meus dons e um sentido de compromisso sagrado com eles. Minha sensualidade? Faz parte da minha alegria. Amo o prazer, os prazeres. Sou hedonista confessa. E tenho tesão de viver. Continuei, portanto, a viver o mesmo estilo de vida: o sexo com os meus amores, o meu sexo permeando tudo, todas as minhas atividades, a minha poesia, como meus banhos de rio. A minha pintura, como os prazeres da mesa. A contemplação da natureza, como os prazeres da literatura e da música.. O gosto de chorar pela beleza, pela própria sensibilidade, pela nostalgia e mistério da beleza. Pela suave dor de existir em plenitude, em pureza intrínseca. Mas, dada a estranha recorrência de certo tipo de violência sofrida por mim em minha vida, agressões à minha beleza, e mesmo, insisto, à minha pureza, desde a infância; episódios que venho narrando nos meus livros confessionais, eu sinto que devo meditar e descobrir, se possível, as razões desses fatos terem acontecido e estarem se repetindo até hoje comigo. A razão é uma só: minha feminilidade extrema, quer dizer, a sensualidade assumida do meu sexo, vivido num corpo que é a própria imagem da sexualidade. Quero dizer, tudo em mim, no meu corpo e na minha alma, é feito, construído mesmo, pela natureza, para o toque, o olhar, o olfato, enfim: os cinco sentidos do prazer do outro... e da penetração pelo outro. Estarei fazendo o elogio do estupro? Ou, pelo menos, justificando-o? Espero que não. Estou procurando uma explicação, não um antídoto. O veneno... eu o conheço, não me diz respeito. Com isso, quero dizer que entrei num novo período introspectivo, um pouco mais silencioso, de reflexão, que foi confundido com depressão, pelas gurias. Confesso que o ocorrido comigo deixou seqüelas, claro, pois eu não tinha a mesma segurança desabrida de antes. Eu temia estar sozinha em lugar ermo, no bosque, por exemplo. As meninas quiseram voltar lá para ver se identificavam o “túmulo” de Geraldo. Tanto insistiram que as acompanhei. Mas não percebemos nenhum vestígio, o serviço tinha sido muito bem feito pelo Günter, e não seria dessa vez que identificaríamos o local do enterro do vilão. Melhor assim, eu não estava preparada ainda para qualquer emoção forte relacionada àqueles fatos tão violentos, pois identifiquei o local do meu estupro, e saí correndo dali. O bosque nunca mais seria o mesmo para mim. Quanto a Günter, meu salvador, este ficou escondido na estância por dois dias, somente, para esperar um parceiro que ele chamou por telefone para vir buscá-lo de carro. Nós não o denunciaríamos jamais. Houve uma visita da polícia para fazer as últimas perguntas antes de encerrar o caso, e eles davam Geraldo por morto (eles não sabiam quanto isso era agora verdade), mas alertavam-me para o fato de que havia um dos bandidos seqüestradores ainda foragido. Eles não poderiam imaginar o quanto eu sabia disso... Aliás, confesso que a lembrança daqueles momentos, no rio, me faziam devanear. Nunca um homem tivera aqueles desvelos tão ternos e suaves comigo. E eu ainda sentia seus toques em mim. Como esquecer uma coisa assim. Desejava profundamente que aquele bandido voltasse. Não contei jamais às gurias aqueles detalhes do meu salvamento. Nem tudo pode ser dito entre as pessoas que se amam. E eu amava os segredos, que desvelo somente aos meus leitores sem rosto. Eu via que as minhas meninas precisavam da minha atenção, uma como jovem mãe e a outra, em processo de recuperação do trauma sofrido. Minhas maravilhosas gurias! Laís era uma moça vinda da classe média alta, mas que se afastara da família, um casal de engenheiro e advogada, que tinham um sítio de lazer, nos arredores de Porto Alegre. Seu pai traíra a mãe, que sendo advogada, arrasara o ex-marido nos tribunais, e o perseguira juridicamente tanto, que Laís saíra de casa. Mas essa era, naturalmente, a versão de Laís, escolhida pelo seu amor por seu pai. Ela abandonou a faculdade, o curso de direito, por causa da atuação de sua mãe. E se pôs a viajar de mochila pelo Brasil, e em seguida pela Europa. Rôdo, no seu Porsche, a encontrara numa estrada do sul da França pedindo carona. Ali começaria um romance jovem e descompromissado, a princípio. Ela elevaria seu padrão de aventuras, para os cassinos e pousadas requintadas, e os jogos de pôquer de altas apostas, do seu companheiro, sempre um tanto perigosos, que lhes acarretaram alguns apuros, fugas e perseguições. Mas sempre acreditei que Rôdo nunca roubou no jogo. Seu caráter não permitiria. Era, sim, um bom blefador, e destemido, o que produziu desconfiança ou ciúmes entre jogadores. Assim creio eu. Mas, percebi também, que Laís guardava um segredo quanto a algo ocorrido em Biarritz, que ela não tinha coragem de me contar e que começou a espicaçar a minha curiosidade. Eu haveria de descobrir, um dia, algo perturbador. Aline, por sua vez, tivera uma infância feliz no bairro do Brás em São Paulo, no meio da colônia italiana de seus pais e avós, e me admira que ela não tenha aquele sotaque italianado paulista, falando, ao contrário, um razoável português, baixinho, com voz suave e macia, que é sua característica mais encantadora, um milagre (de Santa Queropita?), dadas as suas origens. Aliás, por isso mesmo, é muito engraçada a imitação caricatural que ela faz da voz e do sotaque de sua mãe e avó. Quanto a mim, a esse respeito, é bom que o leitor saiba que também falo muito baixo e suave, com o mais belo sotaque do Brasil, o da colônia açoriana de Santa Catarina, de minha mãe. Aliás, só por isso, reconheço que deveria ser mais grata a ela, do que demonstro. Mas, voltando a Aline, o fato de se tornar modelo nu, de pintores, só foi tolerado depois de algum tempo, pela família, pelo fato de seu avô materno, Marcantonio, falecido nos anos 80, ter sido um pintor acadêmico, aliás, bastante bom, que usava modelos, para belos nus, dos quais, aliás vi alguns exemplos na casa deles, no seu bairro. Na ocasião da visita, com Aline, presenteei sua simpática avó, muito idosa, com um retrato nu de Aline feito por mim, que encantou a velhinha, que o pendurou imediatamente ao lado de outro nu, dos anos quarenta, que retratava uma amante de seu marido, bastante bonita, e de quem a avó de Aline sabia muito bem a história, segundo minha amiga me contou. Aquilo me pareceu notável, no meio de uma colônia tão tradicional, e com a fama de gelosi, que não costuma tolerar as traições, freqüentemente banhando-as em sangue. Mas isso, segundo Aline, se refere mais aos italianos do sul, da Calábria e da Sicília, o que não era o caso da família de Aline. Não sei. O fato é que dona Giulia, mantinha em sua parede o retrato de uma amante de seu marido, e minha imaginação voou. Infelizmente, Aline não soube me fornecer mais dados sobre aquela estória que deveria ter lances interessantes. Bem, para que serve a imaginação, não é mesmo? Bem posso imaginá-la, e por isso contarei aqui, aos poucos, essa estória familiar insólita, segundo a teoria da poesia, como “o autêntico real absoluto”. Não haverá meio de não ser verdade. _____________________________________________________ 

 

 No final de fevereiro, Rôdo voltou, sem avisar. Chegou de madrugada no seu carrinho esporte, e entrou no nosso quarto para pegar-nos, as três, na cama dormindo nuas e abraçadas, naquela noite quentíssima. Mas, nossa ménage era duradoura e levantou-se imediatamente em nós, que nos alvoroçamos, felizes. Foi assim: ao vê-lo ali ao pé da cama, sob a luz acesa sem cerimônia por ele, com aquele seu sorriso safadinho, dei um grito de alegria, que despertou as outras duas, e erguendo-me nua, atirei-me em seus braços. Aline e Laís fizeram o mesmo, e todas ficamos abraçadas a ele, que foi arrastado para a cama, embolados, enquanto arrancávamos suas roupas. Que saudade daquele guri! Que saudade do seu sorriso e de seu corpo maravilhoso, másculo, musculoso! Depois da fecundação de Aline, de que todos participamos, não havia mais barreiras ou inibições entre nós quatro. Ele fazia parte de nós. E a alegria por seu retorno confundia-se com a fome de nossos corpos jovens, por aquele corpo mais firme, viril, que tinha aquele atributo complementar, essencial, e enorme, que foi disputado ou dividido entre nós três. Na nossa crescente empolgação, emocionadas e arfantes, quase sem fôlego, fizemos, instintivamente, muitas das variações do Kama-sutra, coletivamente. Felizmente era ainda de madrugada, e as crianças não acordaram com o barulho, os risinhos, e gritinhos que dávamos. E quando caímos exaustos, enlaçados e enroscados, para voltar a dormir, fui a única que fez um esforço para levantar-me para trancar a porta à chave, evitando assim o encontro das crianças, pela manhã, daquela cena que poderia talvez chocá-las ou confundi-las. Congratulo-me comigo mesma por esse esforço, quase sobre-humano, antes de cair exausta, de volta, sobre eles. De manhã repetimos algumas variações, mas preguiçosamente e... foi outra experiência maravilhosa! Cada uma de nós pegou o enorme falo de meu irmão e introduziu nas outras duas, como um brinquedo, mas lentamente, ritualmente, como um abraço, uma recepção de boas vindas, sem mais a intenção do orgasmo. Devo dizer, que estando no meu período fértil, pedi que elas o fizessem, em mim, por trás, bem lubrificada com o caldo delas mesmas. Foi dolorido, apesar disso, devido ao calibre exagerado de meu irmão, que, a propósito, ficou especialmente comovido nesse momento, e não se conteve: ejaculou dentro de mim. Então, chorei de comoção e felicidade, pedindo para ele ficar ali, quentinho, melado, bastante tempo dentro de mim, até escorregar sozinho, amolecido. Foi lindo. Meu irmão tinha sido condignamente recepcionado. ______________________________________ 

 

 Naturalmente, depois daquela noite, e manhã, queríamos repetir aquela experiência em todas as oportunidades que conseguíamos. Estávamos altamente erotizadas e felizes, mas tínhamos que disfarçar por causa das crianças. Isso produzia mais excitação e emoção, e assim estávamos vivendo mais intensamente do que nunca. Foi um dos períodos mais gloriosos de nossas vidas, pois avalizada pela experiência comum, eu podia extravasar o antigo e tantas vezes reprimido desejo pelo meu irmão, que agora estava livre, solto e testemunhado pelas minhas amigas, que eram cúmplices e parceiras minhas, nisso também. Era perfeito. Rôdo, percebendo isso, soltou-se como nunca antes comigo, e sua virilidade dava conta ainda das outras duas, enchendo-nos, às três, de seu branco, viscoso e... maravilhoso sumo. Havia ainda os banhos de rio, as cavalgadas nuas, sempre os quatro, e as brincadeiras no galpão, sobre o feno. Vocês conhecem isso: quanto mais fazíamos, mais queríamos fazer. Estávamos nesse período sob a égide do epicurismo, se posso dizer assim. Em épocas assim, perdemos um pouco a perspectiva e as metas de futuro perdem o sentido. Eu não pensava mais em fazer exposições ou planejar edições de meus livros, embora continuasse escrevendo poemas e contos por puro prazer, o que é melhor. Como o ato de criar pinturas ou textos só tem sentido no olhar do outro, isto é, se olhados e lidos, bastava-me ler os meus poemas e mostrar os meus quadros para os meus queridos, que me cercavam, que desfrutavam tudo de mim, para o meu próprio prazer: meu corpo, minha mente e... minha alma. Mas é preciso que eu diga, que para mim, como artista, tudo faz sentido se o meu fluxo criativo não se interrompe. Enquanto estou me expressando o mundo faz sentido, o mundo gira. O desejo está justificado por si mesmo, e a beleza do momento fica registrada, não se perde no tempo e no vazio. O tempo deixa de ser um ralo devorador, e o mundo não é um bueiro de ações automáticas sem sentido. Como escreveu Eça de Queiroz: “A arte é tudo, o resto e nada”. Acompanhando, assim, os lances da minha felicidade anímica e corporal, saíam telas e mais telas, poemas e contos. Resolvi escrever as “estórias das amadas”, ocorridas realmente ou não, com Laís e Aline, pois as verdadeiras estórias são aquelas “do que poderia ter sido”, como disse Fernando Pessoa. Por isso, vou contar aqui mais um pouco da estória da avó de Aline. Dona Giulia mantinha dependurado o retrato nu da amante de seu marido, o pintor Marcantonio de Marco, e isso era um fato corriqueiro, assimilado pela família, que simplesmente não percebia o insólito daquela situação. Aline cresceu sem reparar muito naquele retrato, e foi preciso uma pessoa de fora da família, mas profundamente ligada a ela, como eu, para levantar esse fato como questão. Qual tinha sido a relação de Dona Giulia com aquela bela mulher, amante do seu marido, para que ela mantivesse o retrato na sua parede, junto com outros retratos pintados por seu marido, inclusive os dela própria, desde moça, em diferentes idades? Esse era o mistério, que Aline não sabia me ajudar a desvendar. Então presumi o seguinte: A linda modelo de Marcantonio tinha sido sua primeira amante, o grande amor de sua vida, e posado para ela no dia em que lhe entregou sua virgindade. Isso era visível nos olhos do modelo, naquela pintura, bem como insinuado simbolicamente na imagem de um pote, ou vaso rachado, e com um buraco, mas que tinha uma única rosa vermelha desabrochada, nele, ali, sobre um criado mudo ao lado da cama onde estava sentada o modelo. Bem, esta moça maravilhosa, amada por Marcantonio, morreu no parto do filho deles, gerado naquele dia da primeira relação, e da pose para o retrato. A criança, que sobreviveu, foi entregue pela família da moça, que se chamava Fabrizia, a um orfanato, já que Marcantonio não via mais a moça havia meses, pois fora afastada dele pela família inimiga. Marcantonio nunca soube do nascimento e da existência da criança, seu filho, mas conservou o retrato, que continha um filho seu potencialmente representado naquele ventre magnífico, cujo umbigo fora pintado de maneira magistral e... abismal (esses detalhes pictóricos me chamaram a atenção). Dois anos mais tarde, Marcantonio conheceu, namorou e noivou de Giulia, a avó de Aline, com quem se casou. Sua mulher ficou sabendo dessa estória de seu marido pintor, e comovida com o triste destino da moça, mesmo sem saber da existência da criança, pendurou o quadro na parede, dizendo:

 —“ O retrato de Fabrizia ficará sempre conosco nesta casa. Não permito que você o venda jamais. O primeiro amor é sagrado e eu sou a primeira a reverenciá-lo, pois que você é o meu primeiro. Ela velará pelo nosso amor, eu sei, de onde ela estiver, pois uma beleza assim, só pode vir da generosidade”.

 

 Resolvi conferir essa estória totalmente deduzida (acreditem se quiser), através de uma pesquisa a posteriori. Combinei com Aline que viajaríamos de ônibus com o Marco, até o bairro do Brás, em São Paulo, para apresentá-lo à avó Giulia, bisavó dele. Assim eu teria a oportunidade de colher um único dado que poderia iniciar a pesquisa sobre o paradeiro e a existência do filho de Fabrizio e Marcantonio que devia ser um homem ou mulher de meia idade, que fora criado em orfanato, provavelmente até a maioridade. Minhas deduções baseavam-se num processo de desenvolvimento lógico, que eu considerava quase infalível. O “quase” era por conta de acidentes imponderáveis do destino, ou pelo menos não presumíveis de antemão: as chamadas “ironias”. Vejam, por exemplo, Aline se tornara um modelo nu, de pintores, sem reparar nessa coincidência, claro, já que nada a ligava ao retrato, em sua mente. . Mas batizara nosso filho com o nome de Marco derivado de seu avô, continuando, cumprindo, ou corrigindo assim o destino de Fabrizia, que não pudera acalentar o seu bebê, que provavelmente teria esse nome, do pai, se eles tivessem podido continuar juntos. Mas a criança teria nascido sem o conhecimento do pintor, pois Fabrizia dera a luz e morrera entre os seus pais que renegaram a criança, fato monstruoso, claro. Assim fizemos a viagem, quando Marco tinha quase um ano, e diante de Giulia, em sua casa no Brás, fiz-lhe a pergunta que iniciaria a procura: 

 

—Dona Giulia, qual o nome de família de Fabrizia, o modelo desse quadro? A idosa senhora, muito espantada, contra-argüiu :

 

 —Mas, Alma, como sabes que ela se chamava Fabrizia? Nunca revelei isso a ninguém. Nem mesmo à Aline. Como você ficou sabendo?

 

 —Dona Giulia, perdoe-me, isso não vem ao caso É apenas um dom meu. Mas preciso saber o sobrenome da moça, pois seu filho que deveria se chamar Marco ou Marcantonio, pode estar vivo, embora possa também já ter falecido, foi criado num orfanato e só a família de Fabrizia pode dar-me o nome e endereço dessa instituição. Preciso saber o destino do filho ou filha de Fabrizia, pois se faleceu, tenho certeza de que o nosso Marco é a sua reencarnação. Aline ficou boquiaberta, como sua avó. As duas protestaram:

 

 —Mas Alma, como podes saber disso? Isso tudo é imaginação sua. Ninguém nunca soube nada sobre Fabrizia, depois que se separou de Marcantonio, sua história perdeu-se. Que loucura, Alma! Que imaginação!

 

 —Não, não, queridas—eu disse—Minha intuição não falha, vocês vão ver. Temos o dever de saber o destino dessa infeliz criatura, que é parente de vocês, e compensá-la, por um segundo, pelo menos, se estiver viva. Ou reverenciá-la em nosso pequeno Marco, o que é mais provável. As duas ficaram atônitas, mas Giulia forneceu-me o nome de família de Fabrizia: Aldobrandi. Dormimos na casa da Avó de Aline, que era a sua casa também, onde passara a sua infância. No dia seguinte, de manhã, procurei na lista o telefone dos Aldobrandi. Havia vários telefones de pessoas com esse sobrenome, mas optei pelo primeiro, e atendido uma senhora, eu me apresentei como uma escritora que estava fazendo uma pesquisa para um livro sobre a colônia italiana de São Paulo. A senhora, que disse chamar-se Lina, aceitou me receber, dando-me seu endereço, no Brás mesmo. Antes ainda do almoço, partimos, Aline e eu, deixando Marco com a sua bisavó. Depois de poucos minutos, estávamos diante do portão de um casarão antigo, decadente, mas que denotava ter sido faustoso no passado. Recebeu-nos uma senhora idosa, de aspecto fino e altivo, com os cabelos pintados, e com um belo penteado matronal. Depois de nos fazer sentar e oferecer-nos um licor, que aceitamos, eu lhe perguntei:

 

 —Dona Lina, eu soube que a senhora teve uma filha chamada Fabrizia, que morreu jovem, não é mesmo? 

 

 Dona Lina ficou um tanto surpresa, e perguntou-me como eu sabia disso. Respondi-lhe que nós escritores, como os jornalistas, também cruzávamos informações e consultávamos arquivos de bairro, como os dos tabeliões e cartórios, essas coisas. Isso pareceu tranqüilizá-la. Mas ela não parava de olhar Aline, de maneira inquieta e surpresa. Afinal ela disse: 

 

—Essa moça, como é mesmo o seu nome? Aline? Vocè me lembra muito minha filha Fabrizia. Ela era assim, quase igual em tudo, a você. Sim, minha filha morreu muito jovem, e me faz muita falta. —Dona Lina, sei também que Fabrizia morreu de parto, não é verdade? A italiana levou outro susto e voltou a indagar, quase em pânico: —Sim, sim, mas como você pode saber disso? É algo que nunca comentamos com ninguém. E no seu atestado de óbito não consta isso, por exigência do meu marido, quero dizer... Como você descobriu isso? 

 

 —Dona Lina, fique tranqüila. Minha pesquisa tem uma finalidade espiritual. Estou convencida de que tenho de descobrir o paradeiro ou o destino da criança que nasceu no parto de sua filha. Se estiver viva é uma pessoa de meia idade e precisa saber de muitas coisas, para ser compensada de ter sido separada de sua mãe, pela morte dela, e de sua família, por outras razões. Dona Lina ficou assustadíssima, com o coração acelerado, e preocupadas, corremos a providenciar na sua cozinha um copo d’água, com a empregada. Afinal, tranqüilizada por nós, disse:

 —Menina, não sei quem você é, mas isso é bruxaria, ninguém poderia saber disso. É um segredo de minha família, aliás somente meu, e de meu marido, que o levou para o túmulo, que eu esperava também levar. É também um pecado de família, pois... (ela calou-se). —Eu sei, eu sei tudo, Dona Lina, ou quase tudo. A criança foi entregue a um orfanato, não é mesmo? A senhora e seu marido consideravam uma vergonha Fabrizia ter tido aquela criança, solteira, sem casamento, e sem o consentimento de vocês, não é mesmo? Dona Lina ficou rubra, desta vez de cólera, e de repente revoltou-se. Disse quase gritando:

 

 —Não vou dizer mais nada! Você é uma feiticeira, mocinha. Como pode saber disso? Não falarei mais nada. Não revelarei nada! Fora daqui! Fora! Não quero mais vocês aqui. Façam o favor de se retirarem! Saímos as duas, muito constrangidas e frustradas com o desfecho. Não saberíamos o nome da instituição e a data da entrada da criança. O resto da pesquisa ia ser muito difícil. Então, quando já estávamos na rua, andando, fomos chamadas por um homem de meia idade, que correndo um pouco nos alcançou, e ofegante, nos disse:

 

 —Senhoritas, ouvi tudo, sou o filho dela, e quero contar a vocês o que sei. O nome do orfanato é San Genaro, e fica no Bom Retiro. E foi no dia 30 de novembro de 19... , vocês encontrarão seu registro de entrada, no arquivo da instituição, se ela existir ainda. Senti que deveria revelar isso a vocês, porque me impressionou muito o que você disse à minha mãe. Mas se voltarem a estar com ela por qualquer razão, peço-lhes que não lhe contem o que revelei a vocês. Está bem? Adeus! Ficamos uns segundos paradas na rua, olhando-o afastar-se de volta ao casarão, entreolhando-nos com um sorriso e um suspiro, depois batemos as palmas das mãos. A seguir pegamos um táxi, e tocamos para o Bom Retiro. Lá perguntaríamos pelo orfanato. Depois de algumas paradas para pedir informações, afinal estávamos diante do prédio do Orfanato, uma espécie de palacete caindo aos pedaços. Tocamos a sineta e um porteiro depois de olhar-nos bem, deixou-nos entrar, pensando, certamente, que duas moças bonitas e finas, querendo entrar, só podiam ser pessoas da sociedade querendo ajudar ou ser voluntárias nos cuidados às crianças. Deixou-nos entrar sem perguntas. Fomos direto procurar a diretora do estabelecimento. Era uma senhora simpática, Dona Esther e após apresentar-nos, contei-lhe uma estória que a impressionou, para que me permitisse olhar os arquivos, para encontrar a ficha da criança que deu entrada naquela data fornecida pelo filho da Dona Lina. Foi-nos permitido, e depois de procurar nuns arquivos muito velhos, encontramos a ficha correspondente àquela data. Tratava-se de um menino que entrou sem nome, e que a diretora, na ocasião, batizou com o nome de Andrei, um nome russo, por ser a origem dos antepassados dela. Perguntamos à Dona Esther sobre aquele interno, e ela lembrou-se: Andrei saiu do orfanato com vinte anos, como jardineiro. E que excelente jardineiro ele era! Despedira-se muito grato a todos, e nunca mais voltara. Nunca souberam da vida dele fora do orfanato. Ficamos desoladas. Se o Andrei saíra e não mais voltara terminava ali a minha pesquisa, não haveria como seguir-lhe o rastro fora daqueles portões. Ou haveria? Talvez um golpe de sorte. Esse golpe de sorte aconteceu de novo: à saída fomos interceptadas no portão por outra senhora idosa, que nos disse:

 —Ouvi a conversa que vocês tiveram com a diretora. Sei algo sobre o Andrei. Ele faleceu o ano passado, como jardineiro de uma família muito rica, que parece que o apreciava bastante. A família Monteschiaro. A mansão deles fica aqui no Bom retiro, na rua.... mas não me lembro do número. Mas é fácil de encontrá-la, pois o terreno da casa ocupa quase a quadra toda. Boa sorte para vocês nessa procura, que não sei a que se deve, mas só pode ser coisa boa, porque vocês têm umas carinhas de anjo. Sorrimos, demos-lhe um beijo e despedimo-nos agradecendo. Estávamos na pista novamente. Do quê? Eu pressentia de quê. ______________________________________

 

 Naquela temporada maravilhosa na estância, com minhas duas namoradas, com Rôdo e as crianças, meus amores todos, eu vivi os momentos mais quentes de minha sexualidade. Quero dizer, os mais eróticos mesmo. A ménage-a-quatre tinha sido retomada, e a verdade é que os três pareciam querer me devorar, mais do que eu a eles. Eu me deixava manusear e invadir por Aline, Laís e Rodo, com todas as armas que dispunham: dedos, lábios, seios, línguas e... o imenso falo de meu irmão que selava tudo, nos cobria como éguas, ou como cadelas. Como vacas? Também. Era maravilhoso, sermos banhadas por seu esperma abundante, embora perigoso, pois somente Laís poderia se dar ao luxo de engravidar agora. Eu tinha que estar sempre tomando pílula, pois era impensável conceber um filho de meu irmão. Poderia nascer degenerado, e transformar nosso prazer em tragédia. Mas éramos todos muito bem informados e atentos, apesar de tudo. E pudemos fruir essas deliciosas sensações da ménage, sem problemas e sem culpa. A não ser... Sim, houve um problema, Matilde percebeu e chocou-se. Minha babá era moralista, afinal, sua formação era tradicional, de origem rural, muito rígida. E censurou-me amargamente:

 —Alma, isso é pecado. Vais pagar isso de uma forma ou de outra. É uma pouca vergonha, minha filha. Não vês? Com tuas amigas? E com teu próprio irmão? Deus nos perdoe. Onde foi que eu errei ao criar o Rôdo, e também ao educá-lo? Sim, porque o Rôdo é obra minha. Nem a dona Ana, nem o doutor Werner, se ocuparam tanto dele como eu . E ele age assim agora? És tu, Alma, a responsável. És estranha, sempre foste. És indomável, rebelde e fora dos padrões das pessoas normais. Olha que vais pagar caro se o povo souber, se descobrir. 

 

—Matilde—eu respondi— tu não contarás nada para ninguém, não é mesmo? Estou feliz, estamos todos felizes, as crianças também.Veja, não há mal quando há felicidade. Tu não podes entender, mas confia em mim. Sei o que faço. Meu pai aprovaria. Ele mesmo me ensinou a ser livre, e a amar fisicamente, que é a maneira mais sincera que uma moça bonita pode demonstrar o seu amor. Tudo mais são repressões e superstições. Não podes compreender, mas eu te peço, Matilde, cala-te e não te preocupes. Quem já foi absolvida pelo povo, como eu, naquele julgamento, não tem mais nada a temer. Lembra-te: “a voz do povo...” Matilde ficou olhando para mim, triste ou assustada, não sei, e abanando a cabeça negativamente. Mas não disse mais nada.

 Lembrei-me, então,  que eu já tivera esse confronto  perplexo e desolado por parte de uma servidora humilde, no meu auto-exílio paulistano: 

 

No meu apartamento-ateliê narua Oscar Freire, minha amiga Vânia, uma manhã me telefonou bem cedo convidando-me a encontrá-la num barzinho ali perto na  para tomarmos um café e botarmos o papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus confidentes leitores. Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa “casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la:

 “Querida Luiza, fui ao encontro do “grande amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que você quiser. Não me espere para o almoço. Pode matar a goiabada com queijo: Romeu e Julieta, é todo seu. Vou ao encontro da alegria. Beijos” 

Alma 

 

Duas quadras depois topo com minha amiga na mesinha da calçada mas não sozinha, há uma moça com ela. Estremeço: é linda, estendendo-me a mão à apresentação de Vânia que troca beijinhos comigo, aos gritinhos, como é do seu feitio. Perturbada, esqueço de soltar a mão da moça que no entanto não parece constrangida. Olha-me atentamente, parecendo também fascinada. Não ouvíamos mais o bábáblá de Vânia. Nossos olhos não mais se desgrudariam. Prima de Vânia, Letícia é o seu nome, parece vir de longe, mas de um outro tempo, de dentro de mim mesma. Vocês conhecem, leitores, o meu temperamento romântico e minha procura incessante pela felicidade amorosa. Trata-se de uma idiossincrasia, eu reconheço, nestes tempos tão pragmáticos que esperam tudo de uma artista jovem, “contemporânea”, menos isso! Entretanto, tenho cada vez mais a tendência, como vocês já perceberam, de assumir minha alma lírica, “sáfica”, no melhor sentido. Eis porquê cada vez mais exercito minha veia de sonetista, produzindo até mesmo alguns de timbre camoniano, como este: 

 

Qando criança ( de Alma Welt)

 

Quando criança, o amor já desejava 

E sonhando construía meus enredos; 

Tornar-me escritora eu almejava, 

Ser poeta e espalhar os meus segredos. 

 

Ser pura, secreta e desbragada; 

Confessional pelo mais puro pudor, 

Abrir o coração, e, alargada, 

Conter o essencial do meu amor: 

 

Aquilo que devora e me conserva 

Jovem para sempre enquanto morro 

Um pouco a cada dia que percorro. 

 

E assim, da Natureza alegre serva,

 Manter do coração a chama eterna, 

Heróica, ao sol acesa a vã lanterna. 

 

E agora estava eu ali, à beira de um novo amor, feliz desde logo, de puro encantamento por uma adorável jovem, reflexo da minha própria beleza, juventude e alegria. Eu já estava novamente vivendo a glória de uma nova paixão, única razão legítima de se viver, o próprio sentido da vida, evanecente embora, segundo a experiência. Uma embriaguez eufórica, que produz frequëntemente, uma espécie de “apagamento", como o alcoólico. Não sei dizer como nos desvencilhamos de Vânia. Só me lembro de caminharmos um quarteirão de mãos dadas, trêmulas de emoção. Depois a porta aberta do estúdio, com Letícia já atirando o sutiã para cima, numa explosão de peças deixadas pelo caminho, numa verdadeira corrida até o quarto onde nos atiramos uma sobre a outra, no imenso leito. Nosso encantamento nos conduzia numa longa viagem, que fatalmente iria pela tarde e pela noite até o dia seguinte... pela eternidade. Eu me esquecera de Luiza, a mãe-preta, que chegou e nos pegou juntas na cama. A pobre negra, uma mulher quase idosa, coitada, teria mesmo que ficar um tanto chocada... Mas a boa mulher recuou rapidamente da porta do quarto, com o meu bilhete na mão. E permaneceu discreta na cozinha, calada, de cabeça baixa. Fui ao seu encontro e encontrei-a assim, com lágrimas nos olhos, tentando limpar a pia. Segurei-a pelos ombros, ergui-lhe o queixo com dois dedos e disse-lhe: 

–Luiza, querida, não fica assim. Lembra-te, sou eu, Alma, a tua “guria”, sempre a mesma, que adotaste como tua “filha branca”, não sou? Olha, não é melhor assim, uma bonita garota, pura afinal, do que um belo cafajeste, ou aproveitador, ou ainda um “macho” com o cabresto numa mão e a sela na outra, como diríamos lá no meu pampa? Vamos, vamos, não fica assim. Agora eu te peço, Luiza, toma aqui a tua diária e volta amanhã. Nada temas. Eu estou feliz, não é isso que importa a ti ?

 

 Luiza, olhou-me sem entender. Tocou meu rosto com sua mão áspera de faxineira, e disse:

 — Alma, eu não entendo isso. Duas moças... isso é pecado, minha filha! Você assim não casa, não vai ter filhos. Isso não leva a nada, minha filha! Olhei seu rosto negro, seu cabelo pixaim que começava a ficar grisalho, suspirei e retruquei:

 

 —Luiza, já fui casada, tu sabes disso. Não gostaria de repetir a experiência. Os homens interessantes ou são neuróticos ou são bêbados, é perigoso meter-se com eles. Tu mesma, não foste casada com um bêbado? Que te batia, que te fazia sofrer? Essa garota não baterá em mim e me fará feliz, eu te garanto. Luiza abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos, tocou novamente meu rosto, e murmurou: 

 

—Que pena... Tão linda... que pena! 

 

Luiza pegou sua bolsa e o dinheiro que lhe estendi, enfiou-o nela, retirou o avental e saiu de cabeça baixa visivelmente deprimida e chocada. Ela nos vira nuas na cama. Teria visto mais que isso? Voltei para o leito onde Letícia permanecia adormecida. O seu maravilhoso corpo nu, tão entregue, numa bela posição, estética e natural ao mesmo tempo! Uma obra de arte! Sentada ao seu lado contemplei longamente o seu puríssimo rosto de menina. Esse rosto banhara-se de lágrimas de emoção, da pura emoção do nosso encontro, e eu bebera a suas lágrimas como elas as minhas. Estava tudo certo. O amor era lindo, e nós certamente não iríamos para o inferno, pois já estávamos no paraíso. 

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 Segui com Aline para a tal mansão dos Monteschiaro, para tentar saber do Andrei. Lá chegando, uma impressionante mansão, muito bem conservada e pintada, indicava que aquela família não estava decadente, pelo menos não aparentemente. Pensei no nosso casarão da estância que já apresenta sinais de deterioração, e suspirei. Tocamos a campainha e uma voz no interfone nos interrogou. Apresentei-me como a escritora Alma Welt e perguntei sobre o Andrei, que eu precisava entrevistá-lo, pois encontrara a família dele. O portão se abriu automaticamente, ao mesmo tempo que um porteiro apareceu para receber-nos e conduzir-nos até a porta da mansão, muito distante do portão, e belíssima. Ali nos esperava uma linda senhora, elegante, que examinando nosso aspecto, sorriu e fez um gesto para entrarmos e sentarmo-nos em grandes poltronas em torno de uma mesa de centro fenomenal, em frente a uma lareira que parecia o palco de um teatro de marionetes, maravilhosa. A sala toda era um espetáculo, e lancei o olhar em todas as direções tentando assimilar as maravilhas que havia ali, quadros, esculturas e objetos de alta qualidade e requinte. Começamos a conversar. Eu disse: 

 

 —Senhora Monteschiaro, desculpe-nos visitá-la sem nos apresentarmos ou combinarmos antes ao telefone. Mas estamos vindo direto do orfanato SanGenaro, que criou Andrei, seu jardineiro. Sou Alma, escritora poeta e pintora, e tenho motivos para acreditar que Andrei, o seu jardineiro é tio da minha amiga aqui, Aline de Marco. Contei-lhe a estória do pintor e sua modelo, e a tragédia no nascimento de Andrei. A senhora Monteschiaro ficou comovida e disse:

 

 —Senhorita Alma, isso tudo é incrível! Eu nunca soube de nada disso. Apenas sabia que Andrei tinha sido criado num orfanato, de onde viera direto parta o meu jardim, onde foi feliz. Era um ótimo jardineiro e nós o queríamos muito bem. Era um excelente caráter, mas mais do que isso, era um rapaz muito puro. Infelizmente morreu no ano passado com cerca de 50 anos de idade. 

 

Fiquei imediatamente abalada com aquela notícia. Perguntei à senhora: 

 

—Mas senhora Monteschiaro, quando foi que morreu, em que dia, mês e hora. Pode dizer-me?

 —Alma, posso chamá-la assim? Foi no dia 14 de novembro, às 2 horas da madrugada, em seu leito, no quarto que fica nos fundos do jardim. Morreu dormindo, e o legista calculou mais ou menos a hora, lembro-me bem disso, pois morreu dormindo, seu coração simplesmente parou, como um passarinho. Troquei um olhar perplexo com Aline. Era a mesma hora, dia , mês e ano do nascimento de Marco. Não podia ser simples coincidência! Pedi para dar olhada no quarto dele, e para ela dar mais informações sobre a vida dele. Mas havia pouco a ser contado, e nada a ser visto no quartinho anódino, pois já se passara quase um ano e havia outro ocupante naquele quarto. Uma vida simples, senão monótona, de um homem puro e bom, em meio às suas flores, num belo parque em torno a uma mansão de gente muito boa e generosa. A essa altura, Aline e eu, muito comovidas, já estávamos segurando as mãos da senhora Monteschiaro, enquanto ouvíamos. Depois a beijamos, não aceitando o convite para o almoço, pois estávamos abaladas e comovidas com a morte de Andrei e... seu renascimento em Marco de Marco, que viera para corrigir o destino de Fabrizia, por via de Aline, a herdeira de sua bela profissão de modelo nu.

 

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 No final de Abril, passeando, sozinha, em meu jardim, em meio às flores, uma bela amanhã, de repente ouvi um assovio, e lançando os olhos em torno, divisei atrás da sebe do nosso caramanchão florido, o rosto, o tronco e o braço de Gunther, meu querido bandido. Ele me acenava, disfarçando, ressabiado, logo se escondendo ali dentro. Ele voltara! Fui, sem hesitar, ao seu encontro, com alegria. Assim que me aproximei da entrada, ele me puxou para dentro, pelos ombros, e me beijou nos lábios ardentemente. Meu coração palpitava. Eu estava emocionada. Meu salvador me queria, ele me amava! Sim, era isso que eu pensava, naquele momento, romântica que sou. Diante da minha receptividade, ele me fez deitar, imediatamente, sobre a relva daquele espaço cercado, que permitia privacidade. E erguendo minha saia, puxou minha calcinha, retirou-a e cheirou-a, com grande prazer e naturalidade. Aquele gesto, acabou de me cativar e, então, puxei-o sobre mim para recebê-lo inteiro, aquele homem enorme, cujo calibre só se comparava ao de Rôdo. Então penetrou-me com delicadeza, lentamente, com cuidados, apesar do tamanho desmesurado de seu pênis, que me causou um pouco de dor. Mas eu queria tudo, queria até mesmo sofrer nos braços daquele homem, como se o fato dele ter-me salvado duas vezes, lhe desse o direito, agora, de me causar tanta dor quanto quisesse. Por quê sou assim? Na verdade, jamais saberei totalmente. Eu queria que ele me tomasse com força, e que dissesse coisas assim: —Vem, minha Alma, dá-me tudo, quero penetrar-te até o sangue correr, quero todos os teus orifícios, todas as tuas aberturas, que selarei para sempre com o meu esperma, para fecundar-te, para perpetuar a minha estirpe de bandido. É evidente que ele não disse isso, mas faltou pouco, e no fundo, em seu silêncio, era mesmo o que queria dizer, para mim era claro e... comovente. Ele se movimentava devagar, subindo e descendo, para não me machucar, pois seu membro, além de grosso, era muito comprido e ele sabia que podia bater no colo do meu útero, de maneira perigosa e dolorida. Mas ele sabia o que fazia. Sem perguntar se eu estava fértil ou não, explodiu seu sêmen dentro de mim, que estava enganchada, avidamente nele, com minhas longas e brancas pernas muito erguidas, abarcando seus rins. Então, subitamente senti uma presença ali perto, e erguendo um pouco a cabeça, dei com Patrícia de olhinhos arregalados e mão na boca, de espanto. Ela vira tudo, em detalhe. No ângulo em que estava, vira até a penetração, explícita, o que para ela deve ter sido especialmente chocante. Uma menina, ingênua, preservada, que nem sequer ousava sonhar tais coisas com o namoradinho, por quem era apaixonada! Eu tentei erguer-me imediatamente, mas estava penetrada, enganchada naquele homem, e tive dificuldade, tornando as coisas mais patéticas. Levantei-me afinal, empurrando Gunther, e correndo atrás de Patrícia, que chorava, correndo. Alcancei-a antes de ela atingir a varanda, e abracei-a, enquanto ela soluçava, com o rosto afundado em meio peito. Ela balbuciava:

 —Tia Alma, Tia Alma o que era aquilo? Porque tu estavas fazendo aquilo com aquele homem? Não é só com o marido que a gente faz isso? Ah! Tia Alma era tão... assustador! 

—Patrícia, Patrícia, —eu disse— me perdoe, eu devia ser mais cuidadosa. Mas olhe, deixa-me explicar-te... Se souberes mais coisas, não vais te assustar mais. Eu devia ter conversado mais contigo! Olha, é assim mesmo, entre homem e mulher e... não precisam ser casados, não. Casado é bom também, quando se ama, mas o importante é o amor.

 

 —Mas Tia Alma, tu amas o Gunther? Ele é um bandido, não é? Como podes amá-lo? E Aline, e Laís? Tu disseste que as amava! Não entendo mais nada, tia!

 

 —Patrícia, minha querida, lembra que eu te disse que podemos amar muitas pessoas, ao mesmo tempo? Eu, pelo menos, posso. Talvez isso não seja comum, mas eu sempre fui assim, e, olha, não sou a tua tia querida? Não sou boa? Não sou hipócrita. Entendes esta palavra? Não sou fingida. Reconheço que certas coisas devem ser feitas mais discretamente. Mais reservadamente, mas... Tu me perdoas? Quero-te tanto minha querida! Sinto tanto ter te chocado... Patrícia ficou ali, muito tempo, com o rostinho entre meus seios, e seus soluços terminaram. Ela me abraçava apertado e eu sentia o quanto aquela criatura inocente e pura me amava.

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 Eu continuei encontrando-me com o Gunther. Mas agora tomando muito cuidado, e fora dos limites do nosso jardim. Era quase um mistério como ele aparecia e desaparecia, sem ser notado pelos peões, e suas mulheres, nossas colhedoras de uvas. Ele era um mestre no despiste, e na ocultação. Eu, no início não ousava perguntar a ele o local de seu esconderijo. Sim porque ele devia estar baseado em algum “covil’ de bandido, conforme minha imaginação. Ele estava sempre armado, e eu sabia que ele receberia à bala, qualquer pessoa que o ameaçasse, principalmente a polícia. Ele devia estar fora do território brasileiro, já que estávamos relativamente próximos da fronteira uruguaia. Mas suspeito que ele permanecera ali, nas nossas terras, somente por minha causa. Tive essa comprovação, quando lhe ofereci dinheiro, para sua fuga. Ele pareceu ficar constrangido, e respondeu:

 

 —Alma, queres te livrar de mim? Porquê me ofereces dinheiro para eu partir? Esqueceste que eu te devolvi todo aquele dinheiro roubado por teu cunhado? Não preciso de nada, a não ser de ti. Não vês que ainda não parti porque estou apaixonado por ti? Não me queres mais? Experimentei uma grande alegria com aquelas palavras, e o abracei apertado. A verdade é que aquele homem, forte e aven tureiro, desvinculado de tudo, solto no mundo, ao seu bel prazer, ou ao sabor das tramas de um destino intenso e radical, me fascinava, me hipnotizava, me fazia sentir mais feminina do que nunca, pois não esperava de mim, nada de forte ou independente. De mim, que ele salvara duas vezes, de maneira tão romântica, malgrado as violências escabrosas que antecederam sua ação salvadora. A estrutura intrínseca de nossa estória era romântica, eu sentia. E ele, com seu cavalheirismo nato, de cavaleiro antigo, era digno desse timbre romântico que existira desde o início da nossa relação. Lembrei-me do quadro de Magritte, que representava um violino pousado de pé sobre um colarinho branco engomado, sobre uma mesa . “Un peu de l’âme des bandits”, o título do quadro, dava a exata conotação do sentido que eu via no mistério do destino marginal daquele homem, que, na verdade, não estava “à margem”, mas no centro mesmo da verdadeira ação do mundo. No olho do furacão que não percebemos. Uma vez consciente disso, eu não me preocupei mais com o perigo que ele corria, e com os nossos destinos, agora cruzados. Gunther me amava, o quanto um bandido pode amar. Ele era um homem frio, e misterioso. No entanto, sua delicadeza para comigo revelava a sua capacidade de ternura, e eu sentia que podia confiar num homem assim. Mas ele queria me levar com ele. Essa idéia absurda tinha a sua lógica: se eu aceitava ser dele na cama, ser preenchida por ele, recheada por ele de seu leite viril, por quê não o seguiria até à morte? Estava aí o perigo. Ele era um homem simples, no fundo, e por isso já me considerava dele. Então, eu lhe disse:

 

 —Gunther, querido, sou tua somente nos nossos momentos... Podes entender isso?Não poderei seguir contigo, ser mulher de bandido. Tenho minha família, meu deveres para com ela. Deves partir, pois já sabem de tua presença aqui na estância, e podes ser delatado à polícia por algum peão. Em mim tu podes confiar, devo-te a vida, jamais te entregarei, mesmo se for presa por isso. Serei fiel ao meu amor por ti, meu bandido, mas deves aceitar os meus termos. Também sou uma mulher livre, apesar dos meus vínculos de família. Mas não irei contigo.

 

 Gunther olhou-me profundamente, com o seu olhar indefinível, que podia causar um certo medo, mas que eu aprendera a confiar. Eu era sagrada para ele, porque me possuíra depois de me salvar, e ele jamais me faria mal. Ele voltaria sempre, de tempos em tempos, eu sabia, pois afinal, eu, Alma Welt, era o “repouso do guerreiro”, para um bandido especial, amoroso. E sabia, de antemão, que um dia choraria por sua morte, talvez mesmo sobre o seu corpo maravilhoso, crivado de balas.

 

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 Aline gostara de brincar de dominação, no nosso leito. Era uma forma dela compensar-se pelo que ela perdia com a maternidade em relação a nossa disponibilidade, minha e de Laís, de sair por aí, pelo”mundo”, a galope. Depois, havia também a sua suspeita do que acontecera entre mim e Gunther. Pobre Aline, no fundo devia sofrer, de ciúmes, pelo tanto que me amava, carnalmente. Quanto a isso, vou fazer uma declaração definitiva, a vocês, meus leitores:

 "Declaro solenemente que não acredito em dicotomia entre corpo e espírito e numa suposta espiritualidade que exclua o sexo, ou que pretenda pairar acima dele. É justamente esse pensamento discriminador que considero filho da hipocrisia e, portanto, da escravidão e da repressão. O sexo para mim é sagrado quanto mais pleno, livre e total. Eu só acreditaria num deus que soubesse copular, por isso sou devota de Zeus, o Grande Fodedor. Sexo é espírito, fiquemos, pois, combinados. Dito isso, prosseguirei nas minhas confissões, de minhas alegrias corporais e de minhas dores, não menos gloriosas. Sim, eu queria sentir meu corpo: seus deleites e suas dores que me fazem sentir tão viva. Desenterrei de uma velha arca, um rabo-de-tatu do meu avô, de couro cru. Eu iria instigar Aline a açoitar-me com ele. Leitor querido, se quiseres interromper a leitura de meu livro, faça-o agora. Ou continue para sempre!

 

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 Laís conhecera Rôdo, numa estrada da Provence, pedindo carona. Começara ali um affaire itinerante pelas cidades do sul da França, que continuaria em Cannes, e na Côte D’Azur inteira, onde os dois fariam uma interessante parceria, no pôquer, desfiando um rosário de cassinos até a Costa Brava, na Espanha. Mas foi em Biarritz, que algo saiu mal. Rôdo, caiu em desgraça, após uma rodada, e provavelmente de maneira injusta foi acusado de desonestidade. Ambos foram interceptados na estrada, após uma perseguição perigosíssima, em que Rôdo, sendo um excepcional piloto, teria levado vantagem, com seu Porsche, não fosse uma bala que lhe furou um pneu, quase fazendo-o capotar. Obrigados a parar, foram arrancados do carro, e surrados brutalmente. Rôdo e Laís tiveram suas roupas arrancadas e deixados nus, na estrada, despojados do dinheiro que ganharam no jogo, e só tiveram o carro poupado de ser destruído, provavelmente para evitarem um caso policial que Rôdo levantaria, em que o corpo de delito seria o próprio veículo. Laís me contou que ficaram muito machucados, caídos na beira da estrada, completamente nus. Mas o pior foi o detalhe humilhante: os bandidos jogadores pouparam Laís do estupro, talvez para evitarem denúncia de crime hediondo, mas urinaram demoradamente, cinco homens, sobre Rôdo e Laís desmaiados, no chão. Esse episódio doloroso, me foi contado por Laís num momento confessional muito íntimo, e eu percebi então como ela era muito mais sofrida do que eu percebera no princípio, até acontecer a terrível violação que ocorreria com ela em nosso galpão. Entretanto, mesmo com essa coincidência, duas violências sofridas, de um jeito ou de outro no âmbito de Rôdo, ela não fizera essa associação em seu espírito, e permaneceu entre nós. Ela percebia que nós a amávamos realmente, e isso era suficiente para compensá-la de tudo. O destino, sempre insondável em seus desígnios, fora um tanto brutal no preço que cobrara a ela para pô-la em nosso caminho, que lhe parecia tão essencial. Agora eu estava disposta a dividir todo o amor que tinha por Rôdo e Aline, com ela, embora consciente de que não conseguia protegê-la, eu mesma, que tantas vezes fora, também, vitima de brutalidades. Mas eu imagino que a chave mesma, desse apego de Laís, a Rôdo e a mim, estava na indestrutibilidade da nossa aliança com a felicidade e a alegria, que ela via em nós. Nossa capacidade de recuperação, pelas bases sólidas de crença na vida, na beleza, na Arte e no Amor, que era a herança verdadeira de nosso pai.

 

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 Naquela primavera nossa paixão carnal atingiu seu paroxismo. Nós nos procurávamos a todo momento, ou saíamos de mãos dadas, os quatro, e por isso éramos olhados de maneira desconfiada pelos peões, suas filhas e mulheres. Mas como éramos gentis e humanos quanto a seus problemas e necessidades, conseguíamos neutralizar, até certo ponto, os preconceitos renitentes de suas moralidades tradicionais. Eles não tolerariam a explicitude, claro, e tentávamos esconder nossos momentos de verdadeira orgia, que amávamos tanto realizar. Nunca me esquecerei dos lances radicais que praticávamos e tenho saudade daquilo, até hoje. Meus fiéis leitores, vocês devem estar querendo saber daquele rabo de tatu do meu avô, não é mesmo? Pois bem, ele foi usado, sim. Eis como: Aline e Laís estavam inquietas aquela noite. As crianças tinham ido dormir cedo, depois de ouvirem-me contar uma linda estória como eu fazia todas as noites, para todos, inclusive os adultos. Até Matilde, saia da cozinha e vinha ouvir minhas estórias. Porque, graças a Zeus, não tínhamos televisão na estância, nem nunca teríamos. Então depois da estória e do beijo em cada um deles em suas caminhas, eu me sentia livre para viver uma parte “adulta” da minha personalidade, que coincidia com a minha libido desabrochada, irrequieta. Meu olhar mudava, diziam minhas amigas. Eu perdia a inocência? Não acredito. A libido não tem idade, e a minha era pura e edênica, nascida sob o signo infantil da minha macieira, e ninguém, nem minha mãe em seu caráter repressivo, conseguira domá-la. Mas admito que meus olhos verdes adquiriam um acento felino, selvagem. Eu ficava, admito, “meio louca”, às vezes. Nessa noite eu retirei de sob as minhas calcinhas, na cômoda, aquele rabo-de-tatu, do meu avô, objeto a que já me referi. Ele dava medo só de olhar, com o seu couro cru e áspero, trançado. Pus-me nua, e disse às minhas gurias: 

 

—Aline, Laís, hoje quero sofrer. Não discutam e me obedeçam, por enquanto. Depois eu obedecerei a vocês. Vamos brincar de escrava branca. Comecem me amarrando à guarda da cama, com esta corda. Assim, assim, Laís, bem forte. Ai! Quero sentir dor! Meu coração não cabe no meu peito, vou sufocar de entusiasmo de viver, se vocês não me reduzirem. Eu não caibo em mim. Dêm-me dor! Dêm–me alguma dor!

 

 Aline começou a bater com o rabo-de-tatu em minhas costas, a princípio fracamente, e logo aumentando a intensidade e a força das chibatadas, e descendo até as minhas nádegas brancas, que ficaram logo avermelhadas. Laís estava horrorizada, e as duas estavam tão ofegantes quanto eu. Eu gemia e me contorcia, balbuciando, em lágrimas de dor e de prazer:

 

 —Aline, bata-me, bata-me, meu amor. Eu mereço, sou uma guria levada, eu vou ser boazinha, eu vou ser a sua escrava, lamberei seus pés, limparei a sua sujeira!

 

 Aline interrompeu a sessão de chibata, subitamente indignada, com os olhos úmidos, atirando o instrumento de tortura, longe, contra a parede e saiu correndo do quarto, para colher Marco em seu berço, no quarto ao lado. Começou a acalentá-lo e a encostar sua boquinha rosada em seu seio, embora estivesse adormecido. Suas lágrimas corriam. Eu fiquei desolada e envergonhada. Laís estava perplexa e... horrorizada. Minha necessidade vital de sofrer não levara em conta a atitude de violência que eu impingia a seres tão delicados, que não podiam exercer esse papel, sob pena de violentarem suas naturezas. Eu teria que desistir dessa modalidade de prazer? Dei-me conta, então, que ela surgira, ou desabrochara, melhor dizendo, depois da minha flagelação por um verdadeiro inimigo. Por isso Júlia detectara o meu prazer devassando a minha vagina, após a tortura cruel, verdadeira, a que me submetera o meu inimigo. Então, nada poderia substituir a realidade da dor e da crueldade paroxísticas do ódio verdadeiro? Eu comecei a chorar, enquanto era desamarrada por Laís. Eu chorava pela minha necessidade de vida, da crueldade da vida, que nada podia satisfazer a minha sede de realidade, de toque, do sangue da terra! 

 

 FIM do Capítulo Quarto (Estórias das Amadas) de A Ara dos Pampas

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A VINHA DE DIONISO

 

 Capítulo Primeiro

 

 A Rainha Devassa 

 

 

 Desta varanda, sentada em minha cadeira de balanço, avisto o meu Pampa inteiro à minha frente, até o horizonte, que parece chamar-me, nestes dias magníficos. Aqui vivo cercada das minhas queridas crianças e dos meus amados Rôdo, Aline e Laís. Meu irmão vai e vem, do mundo, no seu carrinho esporte, e o balanço de suas ausências e retornos marca o ritmo anímico que coincide com as estações nesta estância, como em meu coração incestuoso e ardente. Entretanto, espero ainda algo que corresponde à parcela mais romântica desta nova fase da minha vida. Sim, pois meus amores assumidos, que me cercam, tornaram-se familiares e... cotidianos. E vocês, meus leitores, sabem o quanto necessito do mistério, da nostalgia e mesmo da... exceção, em minha vida. Do perigo? Também, mas sobretudo das emoções do lado escuro da alma, aquele lado que não conheço bem, e que me instiga, apesar do medo. Ando pelas pradarias, a pé, ou cavalgando com minhas amigas e amantes. Mas freqüentemente o faço só, solitária, olhando os longes, e o entorno, como quem espera, espera. Aline e Laís sabem deste meu novo “desvio”, quer dizer, desta paixão, e estão perplexas, senão amedrontadas. A verdade é que perderam a segurança comigo, e agarram-se, agarram-se a mim, com medo de perder-me. Aline tem o “nosso” bebê, o pequeno Marco, mas sente que não tem um marido, e seu filho não tem um verdadeiro pai. Não quero dizer, com isso, que ela esteja arrependida de sua “produção independente”. Ela sabe que eu não poderia, obviamente, fazer esse papel, e Rôdo, o pai biológico, é tão somente isso, por enquanto. Irá ele, algum dia, “assentar o facho”, e permanecer junto ao seu filho, para ajudá-lo a crescer, a seguir, pelo menos, o seu exemplo de jovem aventureiro? Não creio. Somos uma “família desfuncional”, evidentemente. Mas como nos amamos, todos, uns aos outros! Meu coração inquieto, no entanto, me leva a sonhar e esperar... sempre, sempre. ______________________________________

 Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos, pus-me a escrever poemas, diariamente, que funcionavam como um diário secreto, para driblar a minha mãe, que certamente invadiria minha privacidade se eu mantivesse um diário em prosa corrente. Nos meus versos eu fazia uso de um simbolismo oculto, sem abusar de metáforas, de maneira que meus pensamentos pareciam obscuros, mas inofensivos. E assim, Ana Morgado, minha mãe, desinteressou-se dos meus versos e nunca percebeu que a verdadeira história e percurso da minha alma já estava ali, camuflada, de maneira sutil, e os segredos do meu coração foram preservados... até certo ponto. É verdade que um ano antes, eu fora flagrada com Rôdo, peladinhos os dois, sob a nossa macieira, fato que já contei sobejamente em diversas ocasiões, nos meus textos em prosa e em verso. Mas isso não evitou que nós, Rôdo e eu, continuássemos a desenvolver nossas relações tão profundamente físicas, como já narrei. Mas, o meu universo interior, de base romântica, transcendia em muito qualquer namorico, e a ardência do meu coração me levava a vôos insuspeitados pela visão tacanha de minha mãe, que quisera tão somente montar guarda na minha “xotinha”, essa é que é a verdade. Em vão. Eu continuei me encontrando com Rôdo, de maneira mais hábil e secreta. E naquele bosque em que muitos anos mais tarde, recentemente, eu fui violentada pelo meu cunhado Geraldo, ali, quase no mesmo local, numa clareira oculta, ali, eu me encontrava com Rôdo, e entregava-me a ele, de todas as maneiras. Num dos meus ciclos de sonetos, eu contei o episódio do balanço, que armáramos num galho forte da minha macieira. Na verdade, isso se passara na nossa clareira secreta, no bosque.  ...........................................................................................

 

 Agora, eu me sentia no limiar de uma nova fase em minha vida. No fundo, eu sabia a que se referia essa espécie de expectativa calma, de espera. O novo amor que se instalara em mim, com a força da exigência romântica do meu coração, era, vocês sabem, o de Gunther, o meu “amor bandido”, o cavaleiro do Walhalla, que se insinuara em minha vida a partir de um olhar meu de desespero, um bilhete de pedido de socorro e depois de sua ternura insuspeitada, e momentos de delicadeza inusitados num homem assim, desraigado, soldado da fortuna e bandido romanesco. Eu olhava o horizonte, ali, da minha varanda, freqüentemente com o pequeno Marco engatinhando ali, perto de mim, puxando-me a saia até eu colocá-lo deitado sobre as minhas compridas coxas, para brincar com os seus pezinhos, e sorrindo para ele, contemplar o seu sorriso maravilhoso. Mas eu sempre estava sondando os longes com o meu olhar, como um fanal da pradaria, por onde viria, navegando na ondulação das coxilhas, o meu amor, nascido na adversidade e que tinha promessas nunca feitas, de uma plenitude incompreensível, porque sem raízes e sem futuro. Eu deveria cumpri-lo, esse amor, com seu potencial trágico, já meu “cavaleiro” era um fugitivo da polícia, procurado por mais crimes do que eu quereria saber. Mas, eu conhecia uma parte do seu coração, que avalizava minha entrega, minha confiança no seu caráter. Ele tinha razões secretas para todos os seus crimes, um álibi fundamental, um ponto de partida trágico, alicerçado na honra. Eu assim acreditava. Eu tinha a certeza do coração apaixonado. E esperava, esperava. Eu estava cercada dos meus amores, que me olhavam inquietos, sentindo-me partir aos poucos, para uma aventura que não as incluía, e tentavam chamar-me a atenção,Laís e Aline quase desesperadas. As crianças, por seu lado, tinham uma atitude mais sábia e confiante, e permaneciam calmas, brincando entre elas. Elas confiavam em mim. Eu as... ____________________________________ 

 

 Rôdo estava novamente longe, rodando pela América Latina, pelos países andinos, com uma nova companheira, uma chilena que ele conhecera em Porto Alegre. Laís não se importava mais. Tampouco Aline, que já se resignara a ter “um pai ausente” para o seu filho. A propósito, é preciso que eu conte que Aline, tendo novamente experimentado asa delícias da penetração fecunda, estava insatisfeita comigo e ansiava entregar-se a um homem, ter um novo filho, e olhava-me com um laivo de ressentimento. O quê podia eu fazer? Usar, ao menos, aquele falo de silicone que ela mesma providenciara, adquirindo-o em São Paulo, num Sex-Shop, escondida de mim? E, no entanto, ela é que o usara ativamente em mim e em Laís. Eu me recusava a usar aquilo, afivelá-lo em minhas ancas, apoiado em meu púbis. Eu me sentiria grotesca. Laís, também, nem pensar. E assim, estávamos todas insatisfeitas, pela primeira vez, em nossa tríplice relação. O quê tinha acontecido? O quê se perdera? Eu nunca fora viril na minha maneira de ser na cama. Sou bem mais passiva do que ativa, embora já tenha experimentado, no ardor da relação, a introdução do meu punho inteiro dentro de Aline, depois do seu parto, que a deixara muito mais aberta, vocês sabem. Mas falta-me o verdadeiro componente ativo, o Animus, que em mim é muito rebaixado. Basta dizer que não sou capaz sequer de dirigir um carro, e sempre necessitei de motorista. Em São Paulo eu só andava de táxi, embora tenha experimentado o metrô, às vezes. Bem, mas isso não vem ao caso. Eu tenho a tendência a divagar, a perder o foco. A questão é que eu não poderia ser o “macho” dessas mulheres que me cercam, simplesmente isso! Pronto, essa é que é a verdade! E se elas não vão embora, por outro lado, é porque realmente me amam, mais do que gostariam, ou do que lhes é conveniente. Freqüentemente, na cama, elas me assaltam, exasperadas, e por sua vez me penetram e me machucam, com os dedos, com os punhos, com as unhas e com os dentes. Começam já a bater em minhas nádegas muito brancas, com as palmas, e a mordê-las. E seus beijos, então? Deixam marcas inconvenientes, que tento disfarçar com pomadas para não escandalizar as crianças. Aline, recentemente, prendeu meu clitóris com os dentes, e não o soltava mais, ameaçando decepá-lo. Fiquei apavorada. Começo a crer que corro perigo, com estas duas louquinhas desesperadas. A verdade é que a solidão, inerente a este Pampa, neste casarão perdido no meio da infinita pradaria, no meio desse mar de coxilhas, produz um gradativo enlouquecimento em pessoas como nós. A beleza perpétua, o isolamento, o tempo que se escoa mais lentamente que em outras partes do mundo, com exceção das montanhas, como os Andes, segundo me diz Rôdo em seus postais, isso tudo nos mina, nos corrói gradativamente, cobrindo nossa alma como um musgo à pedra, produzindo uma vertigem de decadência, profundamente romântica e demencial. Somente as crianças parecem imunes a esses venenos corrosivos, do tempo e da solidão. Elas têm um impulso ascendente, que já nos falta, a nós, que embora jovens, já sentimos a vertigem do abismo, uma volúpia de soltar o corpo e rolar, agora que atingimos o auge dos nossos potenciais e de nossa beleza de mulheres. Ai! Que será de nós, loucas mulheres, se não chegar um cavaleiro? Três cavaleiros? Levem-nos com vocês, homens fortes, seguros! Vocês existem? Homens maduros, talvez, que nos apartem como rezes, escolhendo uma, cada um. E nos levem, para desfrutarem de nossa beleza, possuindo-nos e fecundando-nos, até o nosso sangue e sumos escorrerem entre seus lábios e dentes fortes! Estamos aqui, venham! Ai! venham!

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 Então, finalmente, eu avistei, uma manhã, ao longe, um cavaleiro que vinha a passo, e depois a trote em direção ao casarão. Eu me ergui da cadeira de balanço desta varanda e fiquei alerta, tensa e... logo trêmula, inclinada para a frente. Ergui um braço, apontando, depois o outro, e começava a precipitar-me, ofegante, quando fui agarrada por Aline e Laís, que gritavam: 

 

 —Não, não, Alma, não vá! Não nos deixe! Alma, sua louca, tu não podes! Não podes! Laís, de joelhos, agarrara-me as pernas. E Aline segurava-me os braços por trás. Eu me debatia. Desvencilhei-me delas com violência e corri. Corri em direção ao cavaleiro, que se aproximava agora a galope! Diante dele, Gunther, o cavaleiro, que fez o cavalo estacar, quase empinando-o, eu estava ali, no meio da pradaria, de braços estendidos, com um sorriso estampado em meu rosto, olhos brilhantes e úmidos. Gunther apeou do cavalo, e abraçou-me. Eu me afundei profundamente naquele peito forte, que me abarcou toda. Senti-me pequena e ao mesmo tempo plena, plena. Por alguns minutos, não precisei de mais nada. Mais nada, na vida. ______________________________________

 

 O avô Joachim me assustava, com a sua catadura de nenhum amigo, seus lábios finos como uma fenda na queixada poderosa, quadrada, no rosto comprido de imenso nariz. Com dois metros e alguns centímetros de altura, e mãos enormes, falava pouquíssimo e trabalhava muito. Eu, simplesmente não podia compreender um homem assim. Tanto mais que o Vati, meu querido Vati, era falante, doce, carinhoso, embora também forte. Como pudera sair assim, nascido daquele casal estranho, de alemães, tão diferentes do povo deste sul, de homens falantes, cantadores e extrovertidos? Meu avô considerava os gaúchos uns “gargantas” (ele fazia um gesto com as costas da mão, sob o queixo, que me desagradava pelo seu desprezo). Quanto à minha avó, já contei como ela revelou-se interessante, com sua veia picaresca, de bruxa gargalhante, cheia de estórias inusitadas, e algumas receitas alemãs, de origem camponesa, que me cativaram o paladar. Mas o Vati, saíra cedo da colônia, do vale do Itajaí, para estudar na Europa, e se tornara um homem culto até à erudição, abrindo assim um abismo, aparentemente, entre ele e seus pais, ou mesmo seus ascendentes camponeses. Quem, como ele, tocava os clássicos, desde Bach até os grandes românticos, tinha percorrido um longo percurso, transpondo em si mesmo um abismo cultural e até mesmo social, milenar. Eu sou a sua herdeira. E só recentemente pude enxergar em mim mesma algo da raiz camponesa, da rusticidade e talvez do primarismo em minha estrutura emocional, quando me atraí, e me apaixonei por um homem forte e simples, monolítico, como o Gunther. O que teria esse jovem bandido para me atrair, já que o mundo propriamente “intelectual” não existia dentro dele? Ele era todo instinto e combate. Um guerreiro. Um antigo germano, um viking. Mas os guerreiros sempre foram grandes amantes primários, irresistíveis. Eu me lembrava imediatamente de Odisseu, ou de Aquiles, ou ainda do jovem Páris, que seduziu a mulher mais bela do mundo, Helena, esposa do seu hospedeiro, o rei Menelau, de Esparta. Esses guerreiros deviam ter algo irresistível às mulheres de seu tempo, e até hoje fascinam quem lê os seus feitos. Talvez porque eram, simplesmente, homens de ação, mas no sentido mais pleno e profundo da expressão. Assim eu via Gunther. É verdade que Rôdo, também, sempre me deu essa impressão, e por isso mesmo a minha atração por ele, desde menina. Eu, uma artista, sonhadora e... amorosa. Apaixonada pela beleza, pela música, a poesia, a pintura, e a dança. Pelas crianças. Eu me surpreendia com essa atração primitiva pelo homem de ação, pelo guerreiro, pelo homem forte e até mesmo brutal, simplesmente porque não via vulgaridade nele. Sim, a única coisa que me causava repulsa no ser humano, a vulgaridade, não havia nele. Ele podia matar... os seus inimigos, ele podia roubar os ricos e acumuladores, que nada disso diminuía a minha atração por ele. Como disse alguém: “O que é um assalto a um Banco, comparado a um Banco?” Sim, eu sempre o absolveria de tudo, ou quase tudo, desde que não houvesse verdadeira crueldade, ou melhor, vulgaridade. O demônio da vulgaridade. Eu via, como exemplo de oposição a um homem assim, justamente o meu finado cunhado, monstro bestial, o Geraldo. Eis onde a vulgaridade o levou. Quando penso nisso, sinto-me conspurcada e impura, só de lembrar. Sou pura, sou bela, e amo o ser humano em sua diversidade. O meu guerreiro pode tomar-me, plantar-me um filho no ventre, um guerreirozinho ou uma donzelinha, que estará tudo bem. Tudo certo. Quero ser a fêmea vaporosa de um guerreiro coberto de ferro da cabeça aos pés. A armadura de aço me fascina, só os homens fortes se revestiam delas. Os fracos se cobriam de seda.

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 Gunther entrou em minha casa e “teve” que ser aceito por todos. Aline, Laís, Matilde, Galdério, tiveram que aceitá-lo. Afinal, eu sou uma “rainha” de minha estância, essa é que é a verdade. Era hora de assumir o meu papel, definitivamente. A minha vontade devia prevalecer. Era o que se impunha, pelo encadeamento de circunstâncias, começado muito tempo atrás, com a morte do Vati. Talvez mais atrás ainda, no velório de Frida, que me chamara princesa, quando era ainda menina. Quanto às crianças, elas já respeitavam o Gunther desde que eu o apresentara a elas como o meu salvador nos momentos de grandes perigos. Elas estavam predispostas a amar o herói. Aline e Laís não tardaram a ficar fora do quarto, ouvindo nossos gemidos de prazer. Meus gritos de êxtase e alegria. Nunca fui tão cruel, como nesses dias. Agora tenho medo disso... em mim. Como pude fazer isso com elas? Eu estava louca de amor, ou desejo. Mas não me arrependo. Não se trata disso. Estou apenas perplexa com as reviravoltas da paixão, e comigo mesma, por nunca chegar a me conhecer verdadeiramente. Que mistérios, que vulcões existem dentro de mim! De onde vem esse fogo volúvel, esse fogo-fátuo de desejos, alguns inconfessáveis? Mas confessarei. Sim, tudo. Estas páginas servem para isso. Contarei coisas que uma moça não conta nunca, pelo menos neste século, nesta virada de século. Não tenho mais peias, nem mordaças. Contarei como depois de ser tomada “mil vezes” pelo meu guerreiro, como que ouvindo os soluços de minhas gurias amantes atrás da porta, afinal chamei-as para que participassem, pedindo ao Gunther que as conclamasse para o nosso leito, que as possuísse para eu ver, e para ouvir os seus gemidos de prazer e de dor. Eu continuava “generosa”, eu repartia meus amores, meus dons e privilégios. Elas pareceram compreender, nos primeiros dias e noites, embora não sem acumular ressentimentos, principalmente Aline. Ela esperou ver-me só, no quarto, um dia, para gritar: 

 

 —Alma, sua bruxa, você é má! Olhe o que está fazendo conosco, com todos nós! Você no fundo é depravada. Olhe, olhe o que está acontecendo conosco! Somos animais na cama desse bruto. Ele é belo, mas é frio, ele não ama. E você, nos ama? Não sei mais! Você nos manipula, você sempre nos manipulou, essa é que é a verdade, até mesmo quando pede para nós a açoitarmos! É você que comanda, e sempre por um capricho insano, que nos corrói por dentro, você não vê? Olhe o que está acontecendo com Laís: tornou-se uma marionete, um belo farrapo humano. E eu? E eu? Vou pelo mesmo caminho! Mas eu tenho um filho para criar, não vou mais corroborar seus caprichos, que não param, não cessam e tendem a se tornar mais graves. Você tem que parar. Tem que mandar embora esse homem. Ele não é um príncipe, ou cavaleiro. Ele é só um bandido, você não vê? 

 

 Eu fiquei estarrecida com esse desabafo de Aline, mas depois de hesitar um segundo, protestei:

 

 —Aline, querida, o que é isso? Como podes dizer isso de mim? Eu sempre fui assim mesmo, e te amo, desde o princípio. E você me amou me conhecendo, sabe que reparto, que não tenho ciúmes, que amo o amor e o sexo, não aceito peias nem repressões. Não sou uma burguesa, e tu, parece, às vezes, ter recaídas nesses padrões do Brás. Somos artistas, lembra-te? Tu és um modelo nu, glorioso, de artistas, não te esqueças. Não deixa os padrões morais pequeno-burgueses te dominarem, subirem dentro de ti, vindos lá de trás, da família italiana, de classe média. Não fomos felizes? Não te dei um filho, de um jeito ou de outro? Por quê te queixas? Aline, furiosa, respondeu-me com uma bofetada. Ela interpretara como cinismo as minhas palavras. Talvez fossem mesmo, pois eu sempre admirara o cinismo, cujo modelo mais pleno e assumido, sem vulgaridade, eu vira sempre em meu irmão. Botei a mão sobre o meu rosto, onde ela o esbofeteara, e permaneci calada, um tanto chocada, por um minuto. Depois continuei: 

 

—Aline, perdoa-me. Não me expressei bem. Mas acho que estás sendo injusta: não tenho essa força de... manipulação. Olha dentro de mim. Perscruta teus próprios desejos. Veja se já não estavam todos aí, desde sempre. Nada posso, se vocês não quiserem. O prazer, o desejo, para mim são sempre belos e sagrados. Sou feliz, apesar de tudo, de toda a dor. Esse é o meu segredo. Quero a vida, quero tudo, quero todas as experiências do coração e dos sentidos. Não posso parar se me ordenam. Só quando meu próprio coração o faz. Vem, Aline, beija-me agora, e vê como sou sempre a mesma! Coloquei sua mão sobre o meu seio, que palpitava emocionado, e ofereci-lhe meus lábios. Ela retirou a mão e recuou, virou-se, ia sair, mas estacou paralisada. Então, virou-se e atirou-se em meus braços, devorando-me de beijos, mordendo meus lábios. E dizia:

 

 —Alma, Alma, sua louca, eu a amo, eu a amo. Sou sua. Faça o que quiser, mas não deixe de me amar, não me dê ao Gunther sem cobrar meus beijos, ao mesmo tempo. Sim, me dê a ele, sem descolar meus lábios dos seus! Ele é só um instrumento. Você é minha deusa. Toma-me, toma-me agora, que estamos sós! Ela arrancou nossas roupas e atirou-se sobre mim no leito, como nunca, numa sede desenfreada, enquanto o pequeno Marco, no quarto ao lado, no seu berço, começou a chorar e a chamar. 

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 Estávamos vivendo num extremo, no limite. Nossa libido, estimulada pela nova experiência, nos embriagava. E era maravilhoso estarmos vivos! Gunther se instalara em meu quarto, e já não disfarçava, andávamos pela estância inteira, cavalgávamos, os quatro, até muito longe, nos limites das nossas terras. Banhávamo-nos no açude e no ribeirão. Íamos até a nossa cachoeira, para brincarmos, todos nus, antes do almoço que nos congraçava à grande mesa, com as crianças, que estavam adorando aquela fase, embora o Gunther fosse lacônico, e sempre um tanto misterioso. Patrícia era a única que ainda tinha uma certa reserva quanto ao Gunther, chegando a manifestar isso, um dia:

 

 —Tia Alma, quando o Gunther irá embora? Eu preferia quando éramos somente nós aqui, sem ele. Por quê o tio Rôdo está demorando? Por quê tu não o chamas, de onde ele estiver. Sentimos tanta falta dele!

 

 —Patrícia, querida—eu respondi—Tio Rôdo voltará breve. Eu prometo que, quando ele voltar, Gunther terá ido embora. Mas tu tens que saber que o meu novo amigo voltará, de tempos em tempos. Eu gosto dele. Ele me ama, sabias? Ele nunca me fará mal, nem a nenhum de vocês. Eu te garanto.

 

 —Mas, tia, não é isso... é que ficas diferente, com ele aqui. Tu pareces menos forte, e até perguntas coisas a ele, que nem te responde. E, no entanto, ages depois como se ele te tivesse dito o que fazer. Estás toda melosa com ele. E ele é estranho, é frio, não reage como todas as pessoas... Não confio nele.

 

 Fiquei olhando aquele rosto lindo, puríssimo, acariciando a sua face, e meditando. Ela tinha uma certa razão. Eu estava dominada por uma paixão, me tornara submissa. Gunther se instalara como um posseiro e não tardaria a ditar as regras. Eu tinha que reagir... a mim mesma. Mas, como fazê-lo? Pois eu ficava molinha quando ele me tocava. E adorava ser manipulada por ele. Possuída, sim, possuída. Com força. Ai! A nossa volúpia de abandono, de nós mulheres, nas mãos dos homens! Isso vinha de muito longe. Eu já o estava servindo como uma escrava, gradativamente me submetendo mais e mais. Mas devo reconhecer que o Gunther, talvez por me ter como uma criatura sagrada, diferente de tudo o que ele vira em sua vida, me respeitava ainda, e não abusava demais da minha submissão voluntária, fora da cama. Sim, porque longe do nosso leito eu ainda era uma rainha, ou pelo menos uma princesa, para ele. Ele me admirava. Mas, de noite, nas nossas noites ardentes, ele fazia coisas incríveis comigo, que seu instinto de macho e predador lhe ditava. Não me deterei sobre esses detalhes, embora possa fazê-lo, eventualmente, pois vocês, meus leitores sem rosto, sabem que isso não é problema para mim, e até gosto de fazê-lo. Sim, vou contar um pouco: Gunther colocava-me em posições complicadas, até de cabeça para baixo, mas o seu maior prazer era mesmo a sodomia, que me fazia imediatamente recordar as estórias do Condestável Gottfried, de minha avó Frida. Comecei a associá-lo mais e mais àquele personagem, e a temer engravidar... por trás! Ele me enchia do seu esperma abundante, e eu andava cada vez com mais dificuldade, um tanto descadeirada. O pior, é que, Aline e Laís também estavam passando pela mesma situação. Também eram sodomisadas na minha frente, todos juntos no mesmo leito. Aquilo tinha o valor simbólico da submissão, eu percebi, no inconsciente de todas nós. Para Gunther representava a sua dominação natural, instintiva, de macho. Aquilo era perigoso, pois estimulava seu instinto masculino, de prepotência e domínio, e podia estender-se gradativamente para fora do leito, e eu acabaria por perder completamente o governo da minha estância. Tive que fazer um imenso esforço para reagir. Uma manhã, acordando com grandes dores no ânus, e dirigindo-me com dificuldade até a cozinha para pedir um café da manhã à Matilde, encontrei-a com a expressão severíssima, dizendo-me:

 

 —Alma, guria, tu estás um trapo! Olha para ti! O que estás fazendo contigo? É isso que consideras romântico? Mal podes andar! Pensa que não imagino o que esse homem faz contigo? Eu conheço a vida, conheço a nós mulheres. Tu não te envergonhas de te submeteres assim, afinal, a um estranho? Preferia a tuas lambanças com teu irmão! Essa é a verdade. Pelo menos estava tudo em família! Ai! A que ponto chegamos, para eu dizer isso! Alma, tu tens que parar. Manda esse homem embora, antes que seja tarde demais, e te transformes num farrapo, numa sombra de ti mesma. És uma princesa, como dizia tua avó, e também o teu pai. Ou não? És uma escrava? Não serei a escrava de uma escrava!

 

 Fiquei ali diante dela, de cabeça baixa, olhando-a de baixo para cima. Matilde tinha razão. Ela me amava como uma mãe ideal, se posso dizer assim. Ela via o perigo que eu corria. O perigo que eu era para mim mesma! Sempre via as coisas por esse lado. No fundo, ela me conhecia como ninguém! Talvez Aline já me conhecesse assim. E Patrícia, num nível mais inconsciente, de sensibilidade pura. Eu lhes devia, a todas elas, a integridade da minha alma, e até do meu corpo, que corria igualmente perigo. Eu tinha que reagir. Procurei Gunther no limite do meu jardim, e caminhamos de mãos dadas na pradaria, muito longe, naquela manhã esplendorosa, seguidos por pequenas borboletas amarelas que me encantavam. Paramos, eu me virei para ele, e disse: 

 

—Gunther, querido. Deves ir embora. Eu sinto que é chegada a hora de partires. Tive um sonho: a casa estava cercada e ouviam-se tiros. Eu tinha um rifle na mão, e atirava pela janela. Senti um calor imenso no peito, botei a mão ali no meu seio e a olhei coberta de sangue. Então, uma angústia, como uma dor imensa, me acordou. Isso é um presságio, Gunther! Deves partir, pois o cerco está se fechando, eu o sinto. Tenho medo de que morras, e eu contigo. Esta noite consultarei a minha macieira, queimarei as ervas sagradas diante dela. Ela dirá o dia e a hora que deves partir, e o rumo que deves tomar. Algum dia nos reveremos. Isso é tudo, por enquanto.

 —Alma—ele respondeu com aqueles olhos azuis sem muita expressão— Tu sabes que eu não ficaria um minuto a mais, sem que me queiras junto a ti. És a rainha, como dizes, e eu teu cavaleiro. Eu me acostumei com essa tua maneira de dizer as coisas. Eu te compreendo. Deves ter razão. Eu partirei no dia e hora que anunciares, pela tua macieira.

 

 Beijei mais uma vez os lábios do meu cavaleiro, e tive que fazer o primeiro esforço para não me deitar ali, na relva, entre as flores, com ele sobre mim, à vista dos peões e das colhedoras de uvas que nos olhavam de longe, com a mão em aba sobre os olhos.

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 A noite era de lua cheia, magnífica e estrelada. Mas o clarão era tanto, que tive dificuldade de enxergar o Cruzeiro do Sul, e aquelas que associamos ao Negrinho do Pastoreio. Eu colhera ervas durante o dia todo, e com elas numa cesta, dirigi-me, acompanhada de Aline, Laís, Patrícia e Gunther, ao pomar, e armei a trípode diante da minha macieira, a “Ara”. Comecei a queimar as ervas olhando atentamente a coluna de fumo que subia para a lua. Estávamos nós quatro, mulheres, vestindo túnicas finas sobre a pele. Gunther estava como sempre, mas sem paletó, e com a cartucheira com seu revólver no peito, com aquele seu suspensório de gangster. Ele não se desgrudava de sua arma, e eu não pediria jamais que ele se desarmasse. Não se pede isso a um cavaleiro, nem mesmo diante do altar. Somente diante do Graal o guerreiro deve estar nu e desarmado. E o Graal, não o tínhamos ainda em nossa estância. Talvez um dia eu providenciasse a transposição desse mito, para cá, para o Pampa, para a nossa estância e meu vinhedo. Mas o Graal que eu via por aqui era a “Taça de Dioniso”. Estávamos cercados da sua vinha; e sua taça, eu a tinha nas mãos, e era uma cuia de chimarrão, rústica, onde coloquei um tanto da última garrafa do nosso vinho herdado de meus avós, o “Ara dos Pampas”, e molhamos os lábios de cada um de nós. A seguir, invoquei:

 —“ Ó Ara, macieira da minha vida, diz-me, pela luz desta Lua magnânima, o que devemos fazer! Gunther deve partir? E quando? Diz-me o dia e a hora! Ele corre perigo? Diz-me, ó minha macieira, dê-me um sinal!” 

 

 Todos os olhos estavam voltados para mim, indo e voltando da macieira e da trípode, para o meu rosto. A curiosidade, eu percebi, era a nota dominante naqueles rostos, afinal ingênuos. Mas eu estava mesmo imbuída, e sempre acreditei na realidade da inspiração, e sentindo uma súbita brisa que inclinou a coluna de fumo na direção do campo aberto, fechei os olhos e disse:

 

 —“Sim, minha Ara, eu vejo a direção, do oriente, do levante, do sol nascente. Gunther deve partir ao nascer do sol, na direção do próprio arrebol, às seis da manhã em ponto ele deve estar marchando, na pradaria, esta manhã, mesmo”.

 

 Fiz um longo silêncio, tenso, afinal relaxei e abri os olhos. Então “desfaleci” nos braços deles. Gunther tomou-me nos braços e carregou-me de volta para casa. Eu me sentia uma intrujona, uma charlatã, embora o próprio Gunther sutilmente corroborasse a minha atuação. Eu tinha vontade de sorrir, ao mesmo tempo que sentia uma dor persistente no meu peito, uma angústia crescente, enquanto era carregada pela última vez, nos braços do meu “guerreiro do Walhalla”. ____________________________________________ 

 

 A Vinha de Dioniso

 Capítulo Segundo

 A Ausência de Dioniso

 

 Estávamos novamente sós, no casarão, isto é, faltava-nos a proteção de Rôdo, já que o Galdério, coitado, nunca fora muito operante. Eu me sentia só, com Aline e Laís, com todos. Eu estava insuficiente, depois da perda do meu guerreiro. Eu o vira afastar-se, de madrugada, depois de possuir-me quase com desespero, enchendo de seu sumo todos os meus orifícios, e sugando-me toda, meus fluidos e minha saliva, como quem carrega seus tanques para uma jornada de guerra. Eu quis retê-lo dentro de mim, e apertei o seu grande falo com meus músculos internos, ordenhando-o de maneira prodigiosa e exasperada. Ele teve que desvencilhar-se afinal, retirando-se de mim, de dentro de mim, com esforço, ou não poderia partir. Agora eu estava novamente só, cercada de mulheres que não me supriam mais. Eu sentia como se me sugassem a sobra das minhas energias. A química não funcionava mais. Ou, os pólos não eram antípodas, a corrente não fluía. Eu precisava do pólo oposto. Gunther me viciara em seu branco visgo, em sua lança rubra de guerreiro, desculpem-me a imagem um tanto óbvia. Mas era assim. Eu não conseguia olhar Matilde sem um laivo de ressentimento, como se ela fosse a feitora de uma espécie de escravidão, agora sim, eu sentia isso. Eu me sentia refém de algum dever para com os outros, para com as pessoas que me eram caras, e não gostava de me sentir assim, comprometida. A artista em mim ansiava por liberdade, disponibilidade, amplidão. Comecei a dar pequenas patadas nas minhas queridas, poupando somente as crianças, que para mim eram sagradas, Patrícia entre elas. Aline chorava, Laís soluçava. Olhavam para mim como cachorrinhas carentes. Aline amamentava o Marco olhando-me nos olhos, perscrutando-me. Eu estava distante, e sem energia. Custei a dar-me conta de que estava sob uma pequena depressão crônica. Eu não conseguia escrever ou pintar, e confesso que preferia tentar masturbar-me, sozinha, lembrando do Gunther, a deixar-me manipular por minhas queridas, que agora eu rejeitava. Eu ficava horas olhando a pradaria, ou andando a esmo por entre as flores do jardim, sem colhê-las, sem tecer guirlandas, que eu pensava nunca mais coroar-me junto com elas, as gurias, que me pareciam escravas como eu, não mais princesas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Epílogo 

 

 Então, Rôdo voltou. Mais uma vez, meu irmão adorado voltou. E eu, vendo o seu carro ao longe, vermelho, como uma bola de fogo que tornaria a aquecer a minha alma hibernada, eu me levantei da cadeira de balanço e gritei, até desfalecer de uma alegria súbita, a que me desacostumara. Acordei em seus braços, com o seu sorriso sobre mim, seus brancos dentes fortes, perfeitos, em seus lábios maravilhosos, de onde saiam as palavras mágicas, de cura, de ressurreição: 

 

—Alminha, continuas a mesma, princesa. Sempre exagerada, não é? Desmaias ao ver-me? Tenho que avisar-te com grande antecedência, talvez? Ah! Minha irmãzinha, vem, vem aos meus braços!

 

 Ele me abraçava e me apertava junto ao seu peito, profundamente, e... eu queria afundar-me nele, penetrar no seu peito e perder-me ali para sempre, dissolvida em sua alma e em seu coração. Éramos um só, de alguma maneira, eu sentia. E isso sempre fora um mistério em nossa casa. Neste casarão, neste jardim, e neste Pampa onde eu me via agora cavalgando para sempre, com meu cabelo ruivo ao vento, ladeada por um vinhedo infinito, que tinha, pairando sobre ele, a máscara sorridente de meu pai, o grande cirurgião-pianista, o alquimista da vinha, o maestro que continuaria orquestrando a harmonia de nossas vidas para sempre.

Rôdo, Aline, Laís, Patrícia, Pedrinho, Matilde, Galdério, Alícia, Lúcia, Hans e Christian, e o nosso pequeno Marco, eram a nossa orquestra de câmara, de um concerto que levaríamos até o fim, até a eternidade, no meio de um vinhedo perfeito, a vinha de Dioniso, a vinha amorosa de meu pai...

 

                            FIM 

 

 01/08/2005

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o EX LIBRIS de Alma Welt

 

 O Ex-libris da Alma Welt foi  feito em litografia por Guilherme de Faria, a pedido da autora quando se conheceram. O mote latino AD AUGUSTA PER ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por vias estreitas." O curioso é que permite uma tradução muito legítima ao pé da letra: "à Augusta pela angústia", sugerindo o estado de espírito da poetisa no seu auto-exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati),em sua estância no Rio Grande do Sul.

27/08/2001

 

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